Movies, Music

Mystify: Michael Hutchence

Morte do icônico vocalista do grupo INXS é desnudada em documentário… e você a compreenderá muito bem

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Texto por Fábio Soares

Foto: Netflix/Divulgação

Para quem já passou dos 40 anos como eu, a pronúncia da sigla INXS ativa sinapses cerebrais que nos teletransportam a arenas lotadas, uma banda calcada em dançantes batidas que claramente flertavam com o r&b e à imagem de um vocalista que usava e abusava de seu sex appeal e das caras e bocas quando estava em ação. Ele era o rosto do conglomerado. Peça para uma pessoa citar os nomes de três integrantes do INXS com exceção de Michael Hutchence. Ninguém vai saber. Eu também não sabia até 1997.

Mistify: Michael Hutchence (Austrália/Reino Unido, 2019 – Netflix), documentário dirigido e roteirizado por Richard Lowenstein, tem a missão de mostrar o ser humano por trás daquela imagem de australian lover. Ao contrário do que se imagina, o aquariano Hutchence era tímido. Não se autoelogiava, achava que não tinha qualquer talento e necessitava estar rodeado por seus pares 24h por dia.

Freud explicaria esta exacerbada carência. Segundo de três irmãos filhos de uma modelo e de um executivo que não levavam o menor jeito para lidar com crianças, Michael somente sentiu o real significado da palavra família ao lado de seus companheiros de estrada e de Michelle Bennett, namorada entre 1982 e 1987.

Esta foi o maior de seus amores e musa inspiradora da letra de um dos grandes petardos dos anos 1980. Em entrevista concedida nos intervalos das gravações do videoclipe de “Never Tear Us Apart”, o vocalista foi indagado sobre finalmente o INXS cantar o amor em meio a tantas músicas tendo o sexo como tema central. “Não canto o amor mas obviamente esta canção foi composta para uma garota”, respondeu. “Ela sabe?”, disparou o repórter. “Sim, mas ela me deixou e não posso fazer mais nada em relação a isso”, completou.

O frontman desejado por nove entre dez garotas australianas (e de outras nacionalidades também!) na reta final dos anos 1980 era um leitor voraz e grande apreciador das artes plásticas. E encontrou na também cantora Kylie Minogue a parceira ideal para exercitar este aspecto de sua personalidade. Em meio às agendas lotadas dos jovens astros, é comovente ver o esforço empreendido por ambos para se comunicarem através dos aparelhos de fax das recepções dos hotéis.

Em sua reta final, o documentário dá ao espectador todas as respostas do complexo quebra-cabeça de motivos que levaram o vocalista a desistir de sua existência em um quarto de hotel em Sidney, em novembro de 1997. De um acidente sofrido na Dinamarca em 1992 durante um simples passeio de bicicleta à conturbada e destrutiva relação com Paula Yates (celebridade televisiva britânica e ex-esposa se Bob Geldof), Mistify: Michael Hutchence conduz o espectador a uma sinuosa estrada sinuosa de frustrações, corações dilacerados e tristezas sem fim. No final, vem a certeza de que julgar os suicidas é um dos principais erros da sociedade moderna. Michael era como um de nós. Nada mais nada menos.

Separe a caixa de lenços para assistir a este documentário. Você vai precisar dela.

Movies

Medo Profundo: O Segundo Ataque

Sequência de história de dois anos atrás chega aos cinemas com elenco desconhecido mas cheio de sobrenomes famosos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Esqueça as leis da física. Esqueça a lógica. A sequência do terror survival Medo Profundo: O Segundo Ataque (47 Meters Down: Uncaged, Reino Unido/EUA, 2019 – Paris Filmes) menospreza a capacidade intelectual do espectador mas nem por isso deixa de proporcionar alguns sustos. Rasos, por sinal. De profundo mesmo só o mar da Península de Yucatán, no México, onde se passa a aventura de quatro garotas (duas irmãs, como no primeiro filme) que decidem mergulhar para conhecer um recém-descoberto santuário maia.

O filme traz sobrenomes famosos entre as atrizes novatas. A modelo Sistine Rose Stallone faz sua estreia no cinema. E adivinha quem é o pai dela? Essa é fácil: Sisitine é a segunda filha de Sylvester, o Rambo, o Cobra, com a também modelo americana Jennifer Flavin (para ver que ela seguiu mesmo a profissão dos pais). Corinne Foxx é filha do ator e cantor Jamie Foxx. Há também a novata Brec Bassinger que, apesar do sobrenome, não é filha de Kim. No elenco também há um ator jovem chamado Khylin Rhambo, que, obviamente, não é filho do Sly. Para fechar, integram o cast John Corbett, Nia Long, Sophie Nelisse, Brianne Tju e o carioca radicado nos Estados Unidos Davi Santos.
O primeiro Medo Profundo, de 2017, também dirigido pelo inglês Johannes Roberts, entrou para a lista de mais um daqueles filmes sobre tubarão que surgiram na esteira do clássico de Steven Spielberg. O longa virou hit, apesar da premissa um tanto absurda: duas irmãs vão passar as férias num praia paradisíaca mexicana e decidem entrar numa daquelas gaiolas de mergulho usadas por turistas para ver os tubarões-brancos mais de pertinho, mas a gaiola arrebenta do barco que a sustenta e as garotas afundam em alto-mar a exatos 47 metros da superfície.

follow-up do ataque de tubarões surge dentro do mesmo contexto com as irmãs Mia (Sophie Nélisse) e Sasha (Corinne Foxx) que moram na península paradisíaca no México. O pai delas é interpretado por Corbett, o mergulhador que descobre o tal santuário do povo maia submerso. Certo final de semana, ele propõe que as filhas façam um passeio típico de turista, até como estratégia para aproximá-las (já que as duas não se bicam!) e observar os tubarões num daqueles aquários submersos. Na fila da atração, Mia acaba encontrando suas rivais da escola. Sasha e mais duas amigas convidam-na para uma aventura mais empolgante: mergulhar no cemitério subaquático.

Por um momento, o suspense nas primeiras cenas debaixo d’água gera a expectativa de que o filme trará surpresas. Porém, as decepções são grandes e várias situações não tardam a incomodar, como a voz límpida das garotas mesmo usando máscaras de mergulho e o fato de o mar parecer um piscinão já que nenhum peixe surge nos primeiros minutos. Quando você começa a se perguntar sobre onde estariam os peixes, surge a resposta através de um único exemplar de nadadeiras cego. A explicação é que o peixe evoluiu para se adaptar às profundezas, como os abissais. As garotas, porém, muito ingênuas desconheciam que ali também era habitat de tubarões, que também são cegos, mas não bobos como elas. As garotas viram iscas numa armadilha e precisam lutar contra os peixões e a falta de oxigênio.

A primeira cena de ataque, por mais previsível que seja, ainda é capaz de provocar certo susto. Como praticamente toda a trama se passa debaixo d’água, o diretor não tem para onde fugir e até consegue ser criativo em algumas sequências – como na cena em que um mergulhador é abocanhado com Roxette ao fundo. Os demais jump-scares se tornam ineficientes. Aliás, alguns chegam a provocar risos de indignação. Afinal, como ser mordido por um tubarão-branco sem ao menos ter a perna amputada?

O filme, enfim, mostra que ser filho de peixe grande não é suficiente e que as atrizes carecem de mais aulas de interpretação. Numa das sequências finais, é nítido quando Mia dá risada enquanto a irmã se esforça pra sobreviver (vamos entender que foi um riso de desespero…). Um ponto positivo é para o make à prova d’água das garotas (queria saber a marca!) e os ferimentos, que pareciam reais.

Apesar de ter no elenco herdeiras de astros de Hollywood, essa seqüência não merece mais do que três estrelas. Nem o tubarão, coitado, é tão assustador assim. Talvez se fosse em 3D escaparia de ir água abaixo.

Movies, Music

Jonny Greenwood

Prestes a desembarcar no Brasil para dois shows com o Radiohead, músico britânico brinda os fãs com mais uma trilha sonora cinematográfica

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Texto por Abonico R. Smith (com colaboração de Edi Fortini)

Fotos: Divulgação

Muita gente pode até ter se surpreendido no início do ano, quando entre os indicados ao Oscar 2018 de melhor trilha sonora, estava o nome de Jonny Greenwood. Sim, o mesmo enfant terrible dos ruídos e distorções nas músicas esquisitas do Radiohead esteva entre os cinco finalistas, concorrendo pelo trabalho em Trama Fantasma, filme escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson. E mais: nada ali lembrava o seu “emprego oficial”. Nas telas, costurando a história centrada no personagem vivido pelo ator Daniel Day-Lewis na Londres dos anos 1950, compositores eruditos (Debussy, Schubert, Brahms, Berlioz), jazz orquestrado e também cantado (Oscar Peterson, Sarah Vaughan) e peças para piano e cordas originalmente compostas para a produção.

Prestes a desembarcar no Brasil para dois shows de sua banda (20 de abril no Rio de Janeiro e dois dias depois em São Paulo, em um evento chamado Soundhearts Festival e que contará ainda com o sempre indefinível Flying The Lotus, o grupo étnico indo-britânico Junun mais os brasileiros da Aldo The Band), Greenwood não é bem um iniciante neste ofício dos bastidores da sétima arte. Antes de Trama Fantasma, já havia trabalhado com Anderson em outros três longas: Sangue Negro (2007), O Mestre (2012) e Vício Inerente (2014). Também assinou a trilha sonora da perturbadora história de Precisamos Falar Sobre Kevin (2011), também assinado por uma pessoa cuidando ao mesmo tempo da direção e do roteiro, a escocesa Lynne Ramsay. E é justamente repetindo a parceria com Ramsay que ele apresenta em 2018 o próximo trabalho na área.

Lançado pela Amazon Studios e ainda sem previsão de chegada ao mercado brasileiro (ou mesmo nome em português), You Were Never Really Here está, aos poucos, entre os meses de março e maio, alcançando o mercado de diversos países depois de colecionar ótimas notas de destaque nas coberturas dos festivais internacionais também no eixo Europa-EUA-Oriente Médio. Joaquin Phoenix encabeça o elenco como um veterano da Guerra do Golfo que carrega um grande trauma para o resto de sua vida posterior à ida ao front. Responsável pelo rastreamento de adolescentes que desapareceram do cotidiano de suas famílias para ficarem presas como escravas sexuais, ele quase sempre coloca a sua vida em risco e ainda sofre seguidamente com pesadelos. Até que um deles acaba afetando-o em sua vida real. Durante uma missão mal sucedida em um bordel de Manhattan, ele se vê diante da contrariedade da opinião pública, já que o caso envolve um importante político de Nova York. Então a trama se transforma em um grande plotmovido pelo desejo de vingança. Críticas bastante positivas têm sido publicadas, chegando a comparar o longa de Ramsay a clássicos do gênero das áureas décadas de 1960 e 1970, como Taxi Driver, À Queima-Roupa e Hardcore – No Submundo do Sexo.

Enquanto quem tem a veia cinéfila aguarda ansiosamente pela posição da Amazon em relação à chegada de You Were Never Really Here ao Brasil – seja nas telonas dos cinemas, seja diretamente em streaming – resta aos fãs de Greenwood e sua banda contar os dias que ainda faltam para mais duas apresentações em solo brasileiro. Afinal, ele, solo ou ao lado de seus comparsas de longa data, é sempre sinônimo de qualidade musical. E que ainda se estende ao casamento com ótimas tramas cinematográficas.

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