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Kardec

Cinebiografia do “pai do espiritismo” promove reflexões a respeito do retrocesso da humanidade em tempos sombrios

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Filmes sobre o espiritismo costumam ser fenômenos de bilheteria nacional. Vide Nosso Lar, dirigido por Wagner de Assis, e a história do médium brasileiro Chico Xavier, de Daniel Filho, produções de 2010 baseadas em livros que arrastaram multidões ao cinema. Isso se explica pelo fato de que o Brasil possui a maior comunidade espírita do mundo. A doutrina de Allan Kardec surgiu na França, na metade do Século 19, e ganhou status de religião no Brasil, onde 3,8 milhões de pessoas se declararam seguidores, de acordo com o censo de 2010.

Nesta semana, mais uma produção do gênero entrou em cartaz nos cinemas brasileiros. Desta vez, é a história do pai do Espiritismo que é levada às telas numa produção ousada e detalhista ao recriar a época em que o pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, um homem cético, deparou-se com as tais “mesas girantes” e mudou a história da humanidade, unindo ciência, filosofia e religião.

Kardec (Brasil, 2019 – Sony Pictureslembra os 150 anos da morte do pai do espiritismo. Para muitos espectadores pode ser uma simples panfletagem, mas na essência é mais que uma cinebiografia. A produção que estreou na última quinta-feira nos faz refletir sobre como a humanidade caminha a passos curtos em sua incredulidade, ódio e intolerância; como somos capazes de atravessar séculos e ainda cometer retrocessos.

Wagner de Assis (que também foi roteirista de novelas Além do Tempo e Espelho da Vida) volta à temática espírita assinando a direção do longa baseado no livro Kardec: O homem que Desvendou os Espíritos, do jornalista Marcel Souto Maior. Quem incorpora o pai da doutrina é o ator Leonardo Medeiros (com vasta experiência em teatro e na televisão), cuja interpretação impecável carrega o filme do início ao fim ao lado da atriz Sandra Corvelone (Amélie-Gabi, mulher do professor).

A história começa em 1852, quase meio século depois da Revolução Francesa influenciada pelo Iluminismo e um ano após o golpe bem-sucedido do imperador Napoleão III na sequência da Revolução de 1848, também conhecida como Primavera dos Povos. O sobrinho de Napoleão I promoveu a modernização de Paris. Foi na segunda metade do Século 19 que a catedral de Notre Dame (recentemente atingida por um incêndio de grandes proporções) passou por uma grande restauração. O ensino nas escolas, porém, sofria forte intervenção da igreja.

O professor Rivail era um intelectual de quase meia idade e sem filhos, que decide abandonar o emprego de professor numa escola ao ser contrário aos dogmas da igreja católica. “A fé não deve ser imposta a ninguém”, dizia. Rivail tinha um conhecimento eclético – gramática, física, química, contabilidade, astronomia – e passou a sobreviver dando aulas particulares em casa.

Até que certo dia um conhecido lhe chamou a atenção para o fenômeno das “mesas girantes”, que flutuavam comandadas supostamente por espíritos de pessoas mortas. A moda tomou conta de Paris entre nobres e burgueses e virou até chacota no teatro.  Rivail, no início, resistia e não acreditava no que via. Para ele, tudo era magnetismo, truque. Até que participou de uma sessão restrita onde médiuns – mulheres no filme – passaram a incorporar os espíritos. Então, viveu experiências inexplicáveis como presenciar mensagens e textos inteiros psicografados e assinados por quem já havia falecido. O professor tomou a iniciativa de levar uma dessas assinaturas (de um escritor francês) para ser autenticada e quando percebeu que não se tratava de fraude, começou a desconfiar que “havia mais coisas entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”, como disse Shakespeare.

Numa dessas sessões, um espírito amigo de vidas passadas se comunicou e revelou que Rivail era a reencarnação de um druida celta chamado Allan Kardec. E conferiu ao professor a missão de “abalar e transformar o mundo”. Mas, para isso, era preciso estar preparado para enfrentar ódio e a descrença dos homens e a força contrária dos “espíritos maus”. Rivail, sempre com apoio de sua mulher, encarou o sacrifício e adotou a metodologia científica para provar os fenômenos sobrenaturais.

Sob o pseudônimo de Allan Kardec, ele publicou O Livro dos Espíritos em 1857, que marcou a fundação da doutrina. A partir daí, começou sua luta contra a igreja católica e sua “caça às bruxas”. Livros foram queimados e os médiuns, perseguidos.

O longa de Assis teve cenas rodadas em Paris e no Rio de Janeiro. A presença do catolicismo no filme é marcada pelas frequentes cenas em que a catedral de Notre Dame surge como elemento central. Aliás, nas tomadas mais amplas feitas em Paris, como em umas das pontes que atravessam o Rio Sena, são perceptíveis os efeitos de computação gráfica (a cidade está vazia!), provavelmente por conta do orçamento reduzido. A maioria das cenas são internas e valorizam os diálogos trocados entre Rivail e Gabi, como o momento de romantismo entre o casal (“é preciso olhar os céus para se inspirar em tempos sombrios”). Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência, aliás.

No Brasil

Até sua morte, em 1869, Rivail publicou outros quatro títulos sob o mesmo pseudônimo: O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. O pentateuco é a base da doutrina espírita, que não vingou na França. No Brasil, ao contrário, o número de interessados em conhecer essa filosofia de vida só cresce. Segundo o último censo, realizado em 2010, houve um aumento de 65% no número de espíritas no país. A maioria dos adeptos tem nível superior completo (31,5%). O escritor Marcel Souto Maior, autor das biografias de Allan Kardec e Chico Xavier, contou em entrevista à Folha de S. Paulo que após a morte de Kardec houve o chamado Processo dos Espíritas (1875), que ridicularizou suas obras, consideradas fraudulentas. Mas se lá os inimigos e “espíritos do mal” aparentemente ganharam a guerra, aqui os espíritas não sucumbiram e a doutrina renasceu com os médiuns Bezerra de Menezes e Chico Xavier, que psicografou mais de 400 livros.

Divaldo

Além de Bezerra de Menezes e Chico Xavier, outro nome que popularizou o espiritismo além das fronteiras brasileiras é o baiano Divaldo Franco. Em setembro deste ano, será lançado nos cinemas o filme Divaldo – O Mensageiro da Paz, com Bruno Garcia no papel do médium. Divaldo publicou 270 livros, realizou mais de 13 mil palestras em duas mil cidades e foi nomeado “Embaixador da Paz no Mundo” pela Embassade Universalle Pour la Paix, em Genebra, na Suíça. Com seus 92 anos, segue firme na divulgação da doutrina e na dedicação à caridade com os trabalhos da Mansão do Caminho, obra social do Centro Espírita Caminho da Redenção, fundada em 15 de agosto de 1952 em Salvador. Ao longo de sete décadas, retirou mais de 160 mil pessoas da miséria. Atende cerca de cinco mil pessoas por dia, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Music

Ranking Roger (1963 – 2019)

Toaster do grupo Beat, expoente do movimento Two Tone, foi um símbolo dos descendentes caribenhos na música pop britânica

ranking roger

Texto por Emmanuel do Valle (Célula Pop)

Foto: Reprodução

Figura de proa no movimento Two Tone, que aglutinou de vez o ska jamaicano ao som pop britânico da virada dos anos 70 para os 80, Ranking Roger morreu aos 56 anos no último dia 26 de março. Alçado à popularidade como um dos frontmen do Beat – banda fundamental do período, também conhecida como English Beat nos Estados Unidos – ao lado do vocalista e guitarrista Dave Wakeling, Roger se destacava pelo toasting, estilo de canto falado próprio dos ritmos da ilha do Caribe. Mais ainda: era um dos símbolos de uma geração de descendentes dos imigrantes afro-caribenhos que aportaram no Reino Unido entre o fim dos anos 1940 e começo dos anos 1970, impactando decisivamente no cenário cultural do país.

Nascido Roger Charlery, em Birmingham (segunda cidade mais populosa do Reino Unido), em 21 de fevereiro de 1963, era filho de um casal que imigrou da ilha caribenha de Santa Lúcia. Na adolescência, tornou-se fã do então nascente punk rock, passando a tocar bateria num grupo chamado Nam Nam Boys. Nos encontros da cena local, fez amizade com os integrantes de um grupo de ska, o Beat, dando uma canja nos shows com sua performance no toasting. Logo estava convidado a se juntar de vez à banda, que não demoraria muito a estourar.

No finzinho de 1979, a formação lançou seu primeiro compacto contendo uma regravação quicante para “Tears Of A Clown” (imortalizada pelo mestre do soul Smokey Robinson) e, do outro lado, “Ranking Full Stop”, na qual Roger comandava o microfone. Único lançamento do grupo pelo selo Two Tone – que batizou o movimento e divulgou novos e importantes nomes como os Specials, o Madness e o Selecter –, o disquinho chegou ao sexto posto da parada britânica em janeiro do ano seguinte e levou o Beat a tocar pela primeira vez no Top Of The Pops, o mais famoso programa musical de TV da BBC.

O grupo era um sexteto racialmente miscigenado: três ingleses brancos oriundos da classe operária de Birmingham (o já citado Dave Wakeling, o guitarrista Andy Cox e o baixista David Steele) e três negros de origem caribenha: além de Ranking Roger (então com apenas 16 anos), havia o baterista Everett Morton e o veterano saxofonista Lionel Augustus Martin, o Saxa, já beirando os 50 anos, e que ao longo da carreira havia acompanhado nomes históricos do ska como Laurel Aitken, Desmond Dekker e Prince Buster. Era um símbolo de que não só a influência como também a presença negra na música pop britânica havia chegado para ficar.

O dado negro na música e na cultura pop britânicas é relativamente recente em comparação com suas correspondentes norte-americanas. A explicação é simples, mas vem de longe. Como matriz colonial, o Reino Unido utilizou mão de obra escrava de africanos majoritariamente em suas colônias (entre elas os Estados Unidos), e não em seu próprio território – a escravidão foi legalmente abolida dentro do país em 1772, embora tenha continuado na prática, de forma sub-reptícia, ainda por quase um século.

Desta forma, até a Segunda Guerra Mundial, a população afrodescendente no Reino Unido não passava de 1% do total, ou pouco mais de 10 mil. Com o país em ruínas ao fim do conflito após os bombardeios alemães, além das expressivas perdas humanas, havia a necessidade urgente de se reconstruir. O governo britânico então passou a incentivar a imigração de habitantes das colônias, inclusive concedendo cidadania do país por meio do British Nationality Act, de 1948.

Em 22 de junho do mesmo ano, o navio HMT Empire Windrush desembarcou no porto de Tilbury, perto de Londres, com cerca de 800 imigrantes oriundos das chamadas Índias Ocidentais (ou o conjunto de colônias do Caribe). O nome da embarcação virou símbolo do fluxo que se estendeu até o início dos anos 1970, já em meio ao processo de descolonização do antigo Império Britânico: os imigrantes afro-caribenhos do período – entre eles, o teórico cultural jamaicano Stuart Hall e os próprios pais de Ranking Roger – ficaram conhecidos como “geração Windrush”.

A chegada massiva de imigrantes começou aos poucos, a partir dos anos 1960, a se fazer notar na cultura britânica. Incorporado ao mainstream da música pop mundial só em meados dos anos 1970, o reggae já marcava presença nas paradas do Reino Unido mesmo em plena Swingin’ London. Antes disso, outros gêneros como o ska e o rocksteady já haviam sido incorporados ao repertório dos mods – tribo urbana juvenil oriunda da classe operária, que ganhou notoriedade no país naquela década – ao lado do soul e do rhythm & blues norte-americanos.

Em abril de 1969, o astro jamaicano do ska Desmond Dekker chegou ao topo da parada britânica de singles multucom seu clássico “Israelites”. No ano seguinte, ele arrastou multidões de jovens como a principal atração de um festival de música caribenha realizado no estádio de Wembley. Enquanto isso, em 1971, o Censo britânico apontava uma população de cerca de 304 mil habitantes de origem afrocaribenha no país, trinta vezes mais do que os números praticamente estáveis das quatro primeiras décadas do século.

Previsivelmente, houve forte reação das alas conservadoras da política e da sociedade britânicas. Ainda em abril de 1968, o parlamentar conservador Enoch Powell fez um inflamado discurso anti-imigração que ficou conhecido informalmente como “Rivers Of Blood” (“Rios de Sangue”) e entrou para a História do país. Citando uma conversa que havia tido com trabalhador de meia-idade pouco tempo antes, Powell afirmava que, caso os fluxos migratórios não fossem contidos, “neste país, dentro de 15 ou 20 anos, o negro terá o domínio sobre o branco”.

Dez anos antes, os distúrbios raciais ocorridos no bairro de Notting Hill marcaram o primeiro grande tumulto deste tipo no país. Ao longo da década de 1970, eles se tornariam mais frequentes, graças ao crescimento de grupos de extrema-direita com matizes neonazistas, como o National Front e o British Movement, que organizavam passeatas e ataques a áreas urbanas com grande concentração de imigrantes, como na chamada Batalha de Lewisham, que envolveu milhares de pessoas no bairro do sudoeste de Londres em agosto de 1977.

Dentro deste contexto, era previsível que o componente sociopolítico se tornasse marcante nos grupos do movimento Two Tone, que revigoraria o skae o reggae, fundindo-os à chamada new wave, que despontava na música britânica no fim dos anos 1970. Em maio de 1980, quando o Beat lançou seu álbum de estreia, I Just Can’t Stop It, as canções sobre relacionamentos e os tributos aos velhos mestres do som jamaicano dividiam espaço com afiadas crônicas sociais (“Mirror In The Bathroom”, “Big Shot”) e políticas (“Stand Down Margaret”, que exigia a saída da primeira-ministra conservadora britânica, eleita um ano antes).

O som enérgico do Beat conquistou a molecada e chegou a reverberar até mesmo deste lado do Atlântico: o grupo foi uma das grandes inspirações no som dos primeiros discos dos Paralamas do Sucesso, até mais do que o Police, com o qual se costuma associar o trio liderado por Herbert Vianna. Everett Morton, por exemplo, era influência declarada do baterista João Barone. E o hit paralâmico “Óculos”, de 1984, “pegava emprestado” o riff de marimba de “Hands Off, She’s Mine”, segundo compacto do Beat, que chegou ao nono lugar da parada britânica em março de 1980 – além de ter sido o primeiro lançamento do selo próprio da banda, o Go Feet.

Lançado no ano seguinte, o segundo disco do grupo, Wha’ppen, era mais lento e sombrio, refletindo o momento calamitoso vivido pelo país naqueles primeiros anos de Thatcherismo, com profunda recessão econômica e desemprego recorde, além da série de novos conflitos raciais deflagrados em várias das principais cidades do país entre abril e julho. Apesar disso – e embora tenha sido recebido com maior frieza pelo público –, o álbum ainda oferecia momentos sublimes, como a emocionante “Doors Of Your Heart”, que ganhou um clipe maravilhoso, gravado em plena euforia do carnaval de rua afrocaribenho de Portobello Road.

O terceiro ábum, Special Beat Service, lançado em outubro de 1982, ampliava ainda mais a paleta sonora do grupo: “Save It For Later” – considerada por Pete Townshend uma de suas canções favoritas da vida – puxava mais para um estilo guitar band, enquanto a funkeada “I Confess” remetia aos grupos new romantic. Ambas foram lançadas em single. Mas o grande momento de Ranking Roger era a canção na qual ele apresentava um certo toaster novato chamado Pato Banton, “Pato And Roger A Go Talk”.

Aquele seria o último disco de estúdio da banda, que se despediria no ano seguinte com a coletânea What Is Beat? e uma turnê que incluiu uma participação antológica no US Festival, na Califórnia, em maio de 1983. O grupo se desintegrou aos pares: enquanto Andy Cox e David Steele formaram o Fine Young Cannibals recrutando o vocalista Roland Gift, Everett Morton e Saxa, os mais experientes do grupo, passaram a acompanhar outros artistas, antes de formarem o International Beat, que seguiria na ativa até a década de 1990.

A dupla de frente, Ranking Roger e Dave Wakeling, por sua vez, seguiu junta no projeto seguinte, o General Public, que lançou dois álbuns e teve sucesso com a canção “Tenderness”, de 1984, que volta e meia aparece em coletâneas de flashback de sons oitentistas. Com o fim de mais esta empreitada, Roger lançou um disco solo, formou o Special Beat, com ex-integrantes dos Specials e gravou com Sting e com o Smash Mouth Até trazer o Beat de volta à ativa nos anos 2000 – ou melhor, um dos Beats, já que Wakeling, agora residindo nos Estados Unidos, também fez shows pelo país com o nome da banda. Nunca houve, porém, qualquer animosidade.

A formação que tinha Ranking Roger à frente, da qual também fazia parte seu filho Ranking Junior, chegou a gravar dois álbuns de inéditas: Bounce, de 2016, e Public Confidential, que saiu em janeiro deste ano, na mesma época em que o cantor anunciou pelas redes sociais que havia sido operado de dois tumores no cérebro, além de passar por tratamento contra um câncer no pulmão – antes, em agosto, já havia sofrido um infarto. “Ele lutou & lutou & lutou. Roger era um lutador”, disse o comunicado que anunciou sua morte no perfil oficial do Beat no Facebook, antes de revelar que o cantor falecera “em paz em sua casa, rodeado por sua família”.

Também pelas redes sociais, amigos de bandas contemporâneas como Neville Staple (Specials), Pauline Black (Selecter), Billy Bragg e o UB40 lamentaram a morte de Ranking Roger, que se torna a segunda perda na formação clássica do Beat, após o falecimento de Saxa em maio de 2017, aos 87 anos. O cantor havia recentemente acabado de escrever sua autobiografia, que leva o mesmo nome do primeiro álbum do grupo, I Just Can’t Stop It, e deve ser publicada em breve.