Movies

Lady Bird – A Hora de Voar

Na primeira obra como diretora, Greta Gerwig entrega um apaixonante trabalho com a alma feminina por trás do rito de passagem da adolescência

ladybird2018

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Filmes sobre o rito da passagem da adolescência para o mundo adulto Hollywood produz aos montes. Ultimamente, então, muitos deles vêm com o verniz indie, cheio de personagens descolados e trilha sonora bacanuda. Então, qual o motivo para Lady Bird – A Hora de Voar (Lady Bird, EUA, 2017 – Universal Pictures) ser tão incensado a ponto desse tornar o longa-metragem com maior número de críticas positivas da História?

A resposta é simples. Este é um filme escrito por uma mulher, dirigido por uma mulher e que tem uma mulher como protagonista. E isto, como fica claro ao decorrer da trama, faz toda a diferença. Estreia da atriz Greta Gerwig (que também assina o roteiro), Lady Bird enfoca questões bem femininas durante a passagem do tempo para a menina cujo apelido dá o título à obra. Às vésperas de completar a maioridade, ela precisa lidar com questões cotidianas básicas e que a sufocam. Estuda em uma high school católica mas é bocuda o suficiente para seguir certos dogmas da igreja. Sua relação com a mãe é bastante abusiva. Idolatra o pai sob todas as circunstâncias. A diferença de liberdade de criação com relação ao irmão mais velha é tão nítida quanto reprodutora do machismo nosso de cada dia na sociedade. Seus primeiros dois namorados a traem de modo estapafúrdio. Sua melhor amiga é gorduchinha e não está nem aí com isso – a ponto de comer com ela, escondidas, as hóstias da missa. O mundo ideal está bem longe daquele que se apresenta a ela em sua vida, família, escola.

Com a ajuda de Saoirse Ronan – sempre impecável em sua atuação – Greta mostra tudo isso de modo bastante sutil e delicado. Usa do humor quando necessário, inclusive quando este serve de artifício para pequenas ironias. Muito de sua Lady Bird (nome criado e dado a ela mesma por Christine McPherson, a protagonista), claro, faz referencias à própria vida da diretora/roteirista. Gerwig – que situa sua história em 2002, ano de sérias dificuldades econômicas para os EUA e no qual tinha apenas 19 anos de idade – cresceu em Sacramento (no comecinho do filme há uma tirada ótima que reúne todo o pensamento “interiorano” desta cidade californiana), estudou em colégio católico e sempre quis se mudar para Nova York para mergulhar de vez no mundo das artes. Diz que estava longe de ser tão rebelde e questionadora quanto sua protagonista, mas nada que não sugira com ela desejasse ser de fato, frente a situações absurdas ou incomodam que vivenciara. Entretanto, Greta pontua os diálogos de forma tão natural que envolve o espectador a ponto deste se esquecer que está assistido a mais um filme sobre a adolescência. Não há caricaturas, não há exageros, apenas o coração de uma menina sempre falando mais alto do que tudo a cerca, quase sempre com a câmera apostando em closes. E nada mais universal do que falar sobre você mesmo e das coisas ao seu redor.

Em apenas uma hora e meia de projeção, Greta Gerwig entrega um fantástico trabalho de direção, construção de personagem, roteiro e atuações – se Saoirse brilha mais uma vez a ponto de levar a terceira indicação ao Oscar com apenas 23 anos, Laurie Metcalf também está soberba como a mãe intransigente e linha-dura de Christine. Se como atriz e roteirista já vinha firmando um trabalho consistente em bons filmes alternativos (Frances Ha, Mistress America, Maggie’s Plan, Mulheres do Século 20), agora se mostra diretora com bastante potencial. A hora de voar não é apenas de seu alter-ego, não.