Movies

Albatroz

Trama marcada por um misterioso crime e protagonizada por Alexandre Nero mira alto demais e soa pretensioso

Albatroz

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Downtown Filmes/Divulgação

Bráulio Mantovani é, atualmente, um dos roteiristas mais prestigiados do país. Daniel Augusto dirige seu primeiro longa, enquanto Fernando Garrido estreia coassinando o roteiro. Estes são os nomes que realizaram Albatroz (Brasil, 2019 – Downtown Filmes), protagonizado por Alexandre Nero e Andréa Beltrão e que chega às salas de todo o país nesta quinta-feira.

A trama é tecida em volta do sinestésico Simão Alcóbar (Nero), cujo estranhamento em relação aos eventos do filme lembra Mr Nobody, de Jaco Van Dormael. Simão, ex-fotógrafo com premiações no currículo, é obrigado por Alicia (Beltrão) a viajar para Albatroz, cidade onde seu antigo relacionamento se iniciou, para salvar sua esposa, Catarina (Maria Flor). A partir daí, flashbacks e pulos temporais se intercalam com um interrogatório policial – há um homem morto no escritório de Alicia e seu livro se torna objeto de investigação. Conveniente razão para que haja narrações em voice over, aliás. Sem entregar muitos spoilers, a história de Albatroz ainda conta com uma neurocientista, Dra. Weber (Andréia Horta).

Enquanto trabalha com realidades confusas, a trama disserta sobre sonhos e conflitos morais envolvendo a morte e religião. Talvez pela constante dualidade Israel-Palestina ou nazi-israelita que permeia a obra que Albatroz contém uma maioria assombrosa de nomes e sobrenomes gringos – fator que distancia o longa do ideário brasileiro. Sobrenomes como Henricksehn e Weber são antagonistas, enquanto uma desnecessária cena explicando a origem judia do sobrenome de Simão se faz presente para anunciar a dicotomia.

Por mais que exprima tais diálogos morais, Albatroz não se excede nos mesmos. Pode-se dizer, porém, que não mergulha neles. A plasticidade de certos fragmentos do roteiro produz certa plasticidade em todo o subtexto da trama. E é por tal artificialidade que o filme é repleto de meias-atuações. Andréia Horta e Marcelo Serrado, que faz uma ponta, não induzem quaisquer sensações, enquanto a constante face assustada de Andrea Beltrão cansa na metade final. Maria Flor, por sua vez, tem pouco espaço para brilhar, embora traga maior peso à personagem que as atrizes citadas anteriormente. Nero cambaleia, mas performa de forma sólida, entregando um bom protagonista, cujas cenas mais naturais são diálogos com Renée, interpretada pela ótima Camila Morgado.

O grande mérito do filme fica a cargo da direção, em seus aspectos mais conceituais, e da montagem de Fernando Stutz. O ótimo uso narrativo de elipses e da sinestesia de Simão fazem Albatroz fluir em seus primeiros momentos, recheando a trama de mistério. A constante sobreposição de imagens – fotografias do protagonista – bebe da fonte do laureado Cinema Novo (como bem apontou um colega crítico), tornando-se ostensiva após o segundo ato. A utilização de flashes brancos e coloridos em momentos de tensão traz dinâmica à montagem, que tem suficiente espaço para brincar com a compreensão fílmica do espectador.

Assim, Albatroz até empolga em certos momentos, mas a pretensão de Mantovani em buscar a criação de uma obra transcendental não se paga, criando uma trama “espertinha” e pouco orgânica. Por sorte, a direção e a montagem criam dinamismo e induzem o espectador, com certo mistério, a acompanhar o filme sem se cansar.

>> Atenção: este filme pode causar em incômodo em pessoas com epilepsia e fotossensibilidade

Music

História do Rock: Buddy Holly + Ritchie Valens + Big Bopper – Parte 1

Desastre aéreo que matou três astros promissores da música jovem deixou o 3 de fevereiro de 1959 marcado como “o dia em que a música morreu”

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Buddy Holly

Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Reprodução

Naquele começo do ano de 1959 o rock’n’roll estava bombando entre o público adolescente norte-americano. Depois de devidamente incorporado pela indústria musical, com direito a boas bilheterias nos cinemas que exibiam os filmes com o tema e a criação de programas transmitidos em rede nacional pela televisão para toda a classe média/alta branca que então dominava sócio, política e economicamente o país, o gênero musical – que unia referências da música dos negros descendentes de escravos e dos brancos colonizadores – já havia conquistado um grande espaço mercadológico que inexistia até alguns anos atrás.

Para dar conta de vender ainda mais discos, muitos dos artistas que tinham suas músicas tocadas pelas rádios e se apresentavam na TV se juntavam em turnês pelo país. Nestas caravanas, um show único costumava reunir até quatro ou cinco deste emergentes artistas, que apresentavam sua respectiva performance, de tempo reduzido, para a plateia de cada cidade de pequeno ou médio porte.

Era o que fazia Buddy Holly na Winter Dance Party. Ele era o principal nome da escalação da turnê, que ainda compreendia os artistas Ritchie Valens, Big Bopper, Frankie Sardo e Dion & The Belmonts. Os Crickets, tradicional banda de apoio de Holly, também prestava serviços musicais acompanhando Valens, Bopper e Sardo. O pontapé inicial ocorreu em 23 de janeiro, na cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin.

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O cronograma a seguir seria apertadíssimo: 24 datas marcadas até 15 de fevereiro, exigindo dos músicos pique para subir ao palco todas as noites, intercalando breves momentos de descanso durante o deslocamento por terra, através de um ônibus. Para completar, a agência responsável pela tour não foi muito complacente com os astros, marcando um zigue-zague por grandes distâncias durante o período de um rigoroso inverno do centro-norte dos Estados Unidos. Sem qualquer day off  para descanso. Para completar, era normal que um ônibus quebrasse no meio do caminho e toda a tripulação tivesse de esperar até a chegada de um outro veículo. Houve um caso de emergência que, na falta de uma opção melhor, a viagem precisou ser completada em um ônibus escolar.

Na metade do calendário, as consequências deste calendário puxado e perverso já se abatia durante alguns dos músicos. Big Bopper pegou um resfriado. Buddy Holly se impacientava com o pouco tempo de sono e descanso para o corpo que o traslado pelas estradas proporcionava a ele. Algumas datas já estavam na iminência de ser canceladas. No dia 2 fevereiro, após deslocar-se por 560 quilômetros logo após o fim do show na noite anterior, a Winter Dance Party chegava à cidade de Clear Lake, no estado de Iowa. No dia seguinte, era preciso dirigir por mais 597 quilômetros até chegar a Moorhead, em Minnesota. No outro subsequente, mais 523 até Sioux City, em Iowa novamente.

Até que Holly, do alto de seus já experientes 22 anos de idade, tomou uma decisão: alugou em Clear Lake um jatinho para levá-lo, na manhã seguinte, até a cidade de Fargo, próxima a Moorhead. Assim seria possível descansar um pouco mais até voltar a cantar de novo, como headliner da turnê. O ônibus da Winter Dance Party parou no aeroporto de Mason City para ele poder trocar de veículo. O jatinho tinha apenas quatro assentos e havia mais duas vagas, além de Buddy e do piloto. O guitarrista dos Crickets, Waylon Jennings, solidário com o gripado Big Bopper, cedeu a ele seu lugar na aeronave para que também pudesse ter mais tempo para descansar e se recuperar para o show. Outro fator que contou a favor deste era seus quase dois metros de altura, algo que atrapalhava a acomodação durante as longas e fatigantes viagens por terra. Por fim, o baixista Tommy Allsup decidiu no cara ou coroa com Ritchie Valens a segunda carona. A moeda deu a vitória ao jovem vocalista, que aos 17 anos encarava sua primeira turnê pelo país.

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Para pilotar o Beechcraft Bonanza, estava escalado o jovem Roger Peterson, de apenas 21 anos de idade e ainda com pouca experiência na carreira. Era uma gélida manhã de terça, 3 de fevereiro, quando o jatinho decolou da pista e fez uma curva de 180 graus para a esquerda, indo para o noroeste e em direção a Fargo. Apesar das moderadas rajadas de vento e da neve, a decolagem foi tranquila. Contudo, o sinal de rádio foi logo perdido e a aeronave não chegou ao destino planejado. Por vota das nove e meia os destroços do avião foram localizados em um milharal a cerca de seis quilômetros e meio do local de partida. Pela alta velocidade com a qual se chocou ao solo, a fuselagem transformou-se em um emaranhado de metal, madeira e tecidos apoiado em uma cerca de arame farpado. Fragmentos do avião, bagagens pessoais e os corpos dos quatro ocupantes estavam espalhados pelo campo.

A primeira canção que abordou o trágico acidente que matou Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper foi escrita por Tommy Dee, cantor norte-americano de country, em 1959. O autor gravou-a em dueto com Carol Kay e o compacto superou a marca de um milhão de cópias vendidas no mesmo ano. Em 1960, o astro do rockabilly Eddie Cochran regravou-a mas não teve tempo de lançá-la: morreu em um acidente, quando estava em um táxi dirigindo-se a um aeroporto britânico ao de uma turnê do outro lado do oceano. A faixa permaneceu inédita até 1966, quando foi incluída em uma coletânea de raridades e gravações desconhecidas.

Em 1971, Don McLean compôs o folk “American Pie” e a colocou como faixa-título e abertura do segundo álbum de sua carreira. A balada com base no violão possui uma letra forte e relacionada ao desastre aéreo que marcou a primeira geração do rock’n’roll com a perda da inocência da juventude. Lançada no mês de novembro, a canção logo tornou-se um hit radiofônico e ocupou o topo das paradas norte-americanas por quatro semanas consecutivas. Foi também a responsável por popularizar a expressão “o dia em que a música morreu” como a maior referência à data de 3 de fevereiro de 1959. Em março de 2000, Madonna lançou uma regravação da mesma, incluída tanto na trilha sonora da comédia romântica Sobrou Pra Você, estrela por ela e o ator Rupert Everett, quanto em seu álbum de carreira Music. Resultado: mais uma coleção de número um nas paradas de singles do mundo inteiro, sobretudo as da Grã-Bretanha e da Europa.

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