Movies

Banquete Coutinho

Documentário inverte posições e desvenda o diretor que se confortava em extrair o imaginário de seus entrevistados

Banquete Coutinho 2019

Texto por Isabella Shiota

Foto: Divulgação

“Eu me vejo como um lugar onde alguma coisa está acontecendo, mas não existe um eu”, cita o diretor Josafá Veloso ao próprio autor da frase, Eduardo Coutinho, que responde com uma confirmação. Assim se inicia o documentário Banquete Coutinho (Brasil, 2019), filme exibido na abertura do 8º Olhar de Cinema de Curitiba, no qual o diretor Eduardo Coutinho está agora na posição de entrevistado, respondendo questões sobre seu fazer artístico e relembrando sua trajetória como jornalista e documentarista.

O filme resgata cenas do premiado Cabra Marcado pra Morrer (1984), além de Santo Forte (1999), Edifício Master (2002) e o póstumo Últimas Conversas (2015) intercalando com uma entrevista feita por Josafá em 2012, dois anos antes da morte de Coutinho. Há lembranças também da época em que ele fazia parte da equipe do Globo Repórter e um filme da década de 1950, de quando estudou direção e montagem em Paris.

Ao considerar que a presença da câmera transforma a reação do entrevistado, eram desses minutos de confissão que Coutinho conseguia o extraordinário, a essência. “O concentrado do filme é sempre superior. Aqueles cinco ou minutos minutos de fala individual, para mim, são a pessoa. Porque o real, é rotina”, afirmava. Por isso, o conceito de Eduardo sobre seus documentários serem “quase ficção”. Coutinho chamava seus entrevistados de personagens. Para ele, nos minutos de fala, as pessoas assumiam personagens para contar suas vidas.

Com o cigarro sempre entre os dedos, Coutinho fala de si e afirma que as pessoas são contraditórias, incluindo-se.  Em alguns momentos, ranzinza porque realista. Mas seu olhar é sempre de compreensão pela incompletude e respeito pela condição humana. Cita também algumas influências de seu trabalho: Pierre Bordieu, Walter Benjamin e Lacan.

Josafá também entrega momentos de descontração do entrevistado, quando retira uma confissão sobre o cigarro. “Peguei o vício há 54 anos, gosto do gesto e de ver a fumaça saindo. Não tem graça fumar no escuro. Tenho enfisema, faço exames todo ano. Mas deixar de fumar, não.”

E nem de filmar. Para Coutinho, os filmes eram o seu propósito de vida. Certa vez disse que não vivia a vida dos seus entrevistados, mas saber que suas histórias existiam o confortava. Em outro momento, ele sorri discretamente, quando Josafá o denomina materialista mágico. No livro Eduardo Coutinho (Edições Sesc SP, 2013, organização de Milton Ohata), o diretor relatou não estar à procura da verdade, mas do imaginário das pessoas. Para ele, não existir um eu é se permitir ser preenchido pela fala do outro, estar aberto para compreender mundos, crenças e memórias, como já afirmara em uma entrevista a Eric Nepomuceno, feita em 2012.

Por entender que o maior desejo do ser humano é ser legitimado como destino e singularidade através da escuta, assim trabalhou na maior parte de sua trajetória. E se fazer arte é sobre o como se faz, seu maior legado foi o de fazer seu público se ver em seus personagens, tratando todas as memórias com lirismo.

Music

Daryl Hall & John Oates – ao vivo

Dupla americana tira o atraso de décadas e traz ao Brasil a nostalgia do tempo que a música pop importava para as rádios

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Texto e foto por Fábio Soares

Quem foi criança/adolescente no início dos 1980 e não se influenciou pela programação das rádios FM é um belo de um mentiroso! No dial, um quase infinito leque de opções radiofônicas transformava locutores em celebridades sem rosto. Em São Paulo, nomes como Tony Lamers, Bob Floriano, Beto Rivera e o legendário Sérgio Bocca possuíam públicos fiéis, arregimentando fãs sedentos por música pop, dance, de elevador, romântica e caramba a quatro. Nessa efêmera locomotiva do tempo que urgentemente dependia de melodias “chiclete” para não parar de rodar, as figuras de Daryl Hall e John Oates foram fundamentais. Maquinistas de um trem que não parou de circular um minuto sequer, estes senhores (já septuagenários) abasteceram como ninguém as hit parades mundo afora.

Mas, curiosamente, a dupla Hall & Oates jamais havia pisado em terras brasileiras em mais de 40 anos de estrada. Segundo Hall, por conta do antigo empresário da dupla, que jamais enxergou na América Latina uma seara a ser explorada. Um frenesi tomou conta das imediações do Espaço das Américas na terça-feira 11 de junho. O público majoritariamente sub-50 (eu incluso) praticamente esgotou os ingressos para a única apresentação da dupla em solo brasileiro. Pontualmente às 21h30, um show de projeções no fundo do palco fez um breve apanhado dos hits através da exibição de discos de vinil com o título de cada um de seus inúmeros sucessos em seus respectivos selos. E foi com o, talvez, maior deles que os trabalhos foram iniciados: mesmo equivocadamente posicionada como abertura, “Maneater” deu o start a um baile da saudade que duraria 90 minutos.

Somente fábricas de hits como a dupla H&O pode dar-se ao luxo de emendar uma trinca com “Out of Touch”, “Method Of Modern Love” e “Say It Isn’t So”. Esta última porém, extremamente prejudicada com a má qualidade de som do espaço, que tornou inaudível a sobreposição de vocais de John Oates em seu refrão. Aliás, a debilidade sonora do Espaço das Américas é tema pra simpósio. Mal equalizada em alguns momentos e inexistente em outros, é inadmissível que uma casa deste porte carregue tamanho histórico com estes problemas. À parte disso a apresentação discorria. A dupla conta com um extraordinário sexteto capitaneado pelo eterno e fiel escudeiro Charles DeChant. O multi-instrumentista, amigo de longa data e parceiro da dupla desde os primórdios, era um showman à parte. No saxofone, teclados ou backing vocals, DeChant é o carregador de piano que toda big band sonha em ter.

O romantismo de “One On One” fez o mais gelado coração balançar. Destaque para a linda projeção no palco em tons verde-água. Já em “Sara Smile”, levou o timoneiro Hall ao piano. Às vésperas de completar 73 anos de idade, sua voz continua impecável embalando as memórias afetivas da audiência. Semblantes emotivos eram vistos aos montes embalados pelos versos “If you feel like leaving/ You know you can go/ But why don’t you stay until tomorrow?”. A emocionante “Rich Girl” (ainda com Hall ao piano) teve a responsabilidade encerrar a primeira parte da apresentação e foi emocionante ouvir a plateia cantar seu refrão em uníssono

Para o bis, três mastodontes do repertório da dupla. Condensadas em uma única faixa, “Kiss On My List” e “Private Eyes” transformaram o Espaço das Américas numa gigantesca pista de dança. Sabendo que, provavelmente, a dupla nunca mais volte ao Brasil, a plateia se jogou (eu incluso de novo) numa emocionante celebração à música pura e simples. “You Make My Dreams” fechou a noite setentista/oitentista com dignidade ímpar.

Ao final, um sentimento de gratidão me invadiu. Deu saudade de uma época em que o rádio era o veículo responsável por nossas fantasias mais bonitas. Deu saudade em que a música era colocada em primeiro plano. Uma santidade irretocável e acima de todas as coisas.

Set List: “Maneater”, “Family Man”, “Out Of Touch”, “Method Of Modern Love”, “Say It Isn’t So”, “One On One”, “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’”, “She’s Gone”, “Sara Smile”, “Is It a Star” e “I Can’t Go For That (No Can Do)”. Bis: “Rich Girl”, “Kiss On My List/Private Eyes” e “You Make My Dreams”.

Movies

Tudo Que Quero

Dakota Fanning é uma jovem autista com obsessão por Star Trek em road movie adaptado de uma peça teatral

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Road movies são filmes que, por condição, mostram o protagonista seguindo uma trajetória. Há, claro, o deslocamento físico, o que possibilita o encontro breve com diversos outros personagens que, de uma ou outra forma, irão prejudicar, alterar ou favorecer a caminhada. Mas, acima de tudo, há ainda a alteração no percurso interno de quem se põe em movimento. No fim se conhece alguém diferente daquela pessoa que existia lá no início do filme.

Tudo Que Quero (Please Stand By, EUA, 2017 – Imagem Filmes) é um road movie. A jovem Wendy, alucinada pela série de TV e cinema Star Trek, faz de tudo para ir de San Francisco, onde vive, a Los Angeles, sede dos estúdios da Paramount. Seja de ônibus, a pé ou carona. Pouco mais de 600 quilômetros entre uma cidade e outra. Tudo porque há um concurso que premiará os melhores roteiros escritos por fãs. Ela escreveu o seu e, ao perceber que não há mais tempo hábil de enviá-lo pelo correio, decide correr todos os riscos e intempéries para entregar pessoalmente o montante de papel que traduz a história produzida em sua mente.

A história é baseada na peça teatral do dramaturgo e roteirista de TV e cinema Michael Golamco e foi adaptada para por ele próprio para ser lançada por Hollywood. A produção é de baixo orçamento e lançada no circuito independente norte-americano. Seu maior chamariz é a presença de Dakota Fanning (que, quando criança, atuou em alguns blockbusters e depois que cresceu optou por direcionar a carreira para produções mais alternativas) como a protagonista.

Estreando no Brasil na cola do sucesso de Extraordinário (leia aqui a resenha do Mondo Bacana), Tudo Que Quero segue a mesma linha dramática “protagonista-com-carisma-e-fora-dos-padrões-da-sociedade enfrenta os problemas do-mundo com a cara e coragem”. Também traz aquele verniz estético indie, com alto apelo pop (há referencias a Star Trek o tempo todo) e trilha sonora bonitinha (incluindo três músicas a cargo do trio nova-iorquino Au Revoir Simone). Também tem tudo para cair no gosto de um nicho bem específico de público.

Neste caso, familiares de portadores de autismo. Afinal, Wendy é autista. Vive mergulhada em um mundo só seu, com interesses próprios (marcada na história pela obsessão por Star Trek), dificuldade de mostrar os sentimentos e reações violentas perante a sinais de adversidade. Por isso ela necessita de cuidados especiais. Daí os perigos dela sair livre, leve e solta pelas ruas, quanto mais sem comunicação com a família durante a empreitada até Los Angeles e em comunicação direta com pessoas que nunca tiveram contato com ela antes.

Mas engana-se quem acha que Tudo Que Quero possa vir a escorregar para o lado do dramalhão. Este é um filme leve, divertido e colorido. O mundo de Star Trek e as recorrentes referências ao volcano Spock e o terráqueo Capitão Kirk são recursos para fazer analogias com os problemas de sua vida – em especial o distanciamento da irmã mais velha, que praticamente a ignora e, em nome de seu casamento e da filha recém-nascida, deixa-a sob os auspícios de uma cuidadora após a morte da mãe, solteira, que cuidava das duas até então.

Neste road movie de Golamco (que, por sinal, já era um road movieno palco, antes mesmo de chegar à grandes telas) pouco importa até onde Wendy consegue chegar em Los Angeles, se o roteiro é entregue ou não, se ela ganha o concurso ou não. Pouco importa até mesmo o final do filme, considerado por muitos críticos como frouxo e sem escapar das obviedades. O que vale aqui é o percurso traçado pela jovem. Não o geográfico, mas o interno. E principalmente o que ela consegue depois de todas estas novas e impensadas experiências.

Movies, News

Oscar 2018 – Indicações

Dezoito curiosidades sobre os concorrentes do ano em que A Forma da Água lidera a lista com presença em treze categorias

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Divulgação

Às onze e meia (horário de Brasília) desta terça 23 de janeiro, os atores Andy Serkis e Tiffany Haddish apresentaram os indicados para a nonagésima edição dos Academy Awards. Em 2018, a cerimônia será realizada novamente no Teatro Dolby, em Los Angeles, na noite de 4 de março.

Aqui estão algumas das curiosidades sobre os indicados deste ano à estatueta mais cobiçada da temporada de prêmios do cinema norte-americano.

>> O recordista de indicações do ano é A Forma da Água. São no total treze indicações havendo um equilíbrio entre as principais categorias e as técnicas. A fantasia de Gullermo del Toro, que reafirma sua grande paixão por monstros e outras criaturas esquisitas, concorre a filme, direção, atriz, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, roteiro adaptado, direção de arte, figurino, fotografia, edição, edição de som, mixagem de som e trilha sonora. Ficou a apenas uma indicação de igualar o recorde de 14, obtido por A Malvada, Titanic e La La Land. Depois de A Forma da Água, a lista com maior número de indicações segue com Dunkirk (oito), Três Anúncios Para um Crime (sete) e A Trama Fantasma (seis).

>> É de praxe nas cerimônias do Oscar que o filme vencedor da noite tenha concorrido também na categoria de direção. Em 2018, Três Anúncios Para um Crime pode quebrar esta regra. O britânico Martin McDonagh, que também assina o roteiro, só concorre por esta função. Curiosamente ele não ficou entre os cinco diretores finalistas. Seu filme é o mais forte concorrente de A Forma da Água na corrida para a principal estatueta, tendo levado agora neste mês janeiro, inclusive, o Globo de Ouro e o conjunto de elenco no prêmio dado pelo sindicato dos produtores de Hollywood (por sinal, o mais forte termômetro para a eleiçãoo de melhor filme dos Academy Awards)

>> Na lista dos cinco longas de língua não–inglesa, a grande surpresa ficou para a ausência do alemão Em Pedaços, vencedor do Globo de Ouro deste ano e considerado até então o favorito para o Oscar. Desta maneira, o principal candidato ao prêmio passa a ser o sueco The Square – A Arte da Discórdia, que no ano passado já ficara com a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

>> Quem andava reclamando nos últimos anos sobre a ausência de filmes de super-herói nas listas de concorrentes ao Oscar já pode parar com o mimimi. Logan, a obra de despedida do ator Hugh Jackman como o mutante Wolverine, abocanhou uma das vagas na disputa para roteiro adaptado e quebrou um tabu de 87 anos sem a presença de um filme vindo dos quadrinhos entre os concorrentes. E mais uma vez a Marvel vence a batalha particular com a eterna rival DC Comics, já que a badalada estreia de Mulher Maravilha nas grandes telas não levou qualquer indicação.

>> James Franco ficou de fora da festa. O ator e diretor de O Artista do Desastre há vários dias vem recebendo acusações de assedio sexual por parte de atrizes com quem já trabalhara e este pode ter sido o fator decisivo da ausência de seu nome na lista de atores concorrentes, antes dado como certo, assim como a inclusão na disputa por melhor filme. O longa, que já tinha sido um desastre de bilheteria nos EUA, acabou também sendo um desastre de total de indicações: recebeu apenas uma, para roteiro adaptado. Este é mais sinal de fracasso na carreira de Tommy Wiseau, misterioso ator/diretor/produtor a quem Franco interpreta na cinebiografia.

>> O papel da socialite e empresária da comunicação Kay Graham em The Post: A Guerra Secreta garantiu a vigésima primeira indicação ao Oscar de Meryl Streep, vencedora em três ocasiões. Recorde absoluto na indústria dos cinemas nas categorias de interpretação, aliás. Entre os representantes masculinois, Denzel Washington obteve a sua oitava inclusão entre os finalistas, por sua atuação como o advogado idealista cujo nome dá título ao filme Roman J. Israel, Esq. No ano passado ele também concorrera à estatueta de ator principal.

>> Lady Bird – A Hora de Voar deu a Greta Gerwig a quinta indicação feminina ao prêmio de direção em toda a História do Oscar. Bem pouco para noventa anos de cerimônia, aliás. Muito pouco. Além de ser o filme que recebeu mais críticas positivas em toda a História do cinema americano, Lady Bird abocanhou cinco indicações no total (filme, direção, atriz, atriz coadjuvante e roteiro)

>> Dois monstros do indie rock estão entre os indicados ao Oscar neste ano. Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, assina a trilha sonora original de A Trama Fantasma. E uma das duas faixas inéditas compostas e gravadas por Sufjan Stevens colocou Me Chame Pelo Seu Nome para concorrer também na categoria de Canção Original.

>> Já faz vinte anos que um filme brasileiro não concorre ao Oscar mas em 2018 o país não ficou de fora da cerimônia. O produtor Rodrigo Teixeira pode ser um dos nomes a receber a estatueta se Me Chame Pelo Seu Nome levar o prêmio principal da noite. Carlos Saldanha, criador de obras como Rio e A Era do Gelo, voltou a ser indicado em animação de longa-metragem por O Touro Ferdinando.

>> Todos os dez atores e atrizes coadjuvantes indicados neste ano já passaram dos 40 anos de idade.

>> Daniel Day-Lewis anunciou que Trama Fantasma será seu filme de despedida da indústria cinematográfica. Por este filme ele recebeu a sua sexta indicação, tendo vencido em duas ocasiões.

>> A aversão do diretor Christopher Nolan a imagens criadas por computador impulsionou a grandiloquência de Dunkirk, considerado por muitos críticos o melhor filme de 2017. Para contar a história da evacuação dos militares francesas da praia de Dunquerque durante a Segunda Guerra Mundial, ele contou com cerca de seis mil extras no set de filmagem. O filme também foi rodado no antigo formato de 70mm para dar mais amplidão às cenas em terra, no mar e no ar.

>> Submerso em uma tonelada de próteses e maquiagens, Gary Oldman fica irreconhecível como o primeiro-ministro Winston Churchill em O Destino de uma Nação. Sua atuação impecável em gestos e interpetação o colocam como favorito disparato para o prêmio de melhor ator da noite. O filme – que também deve levar a segunda estatueta no quesito “maquiagem e cabelo” – também retrata a retirada estratégia das tropas militares do Reino Unido da praia francesa de Dunkirk. Contudo, o foco fica nos bastidores do poder no parlamento britânico.

>> Azarão da noite, Corra! obteve o feito de ser um filme de terror indicado à principal categoria. A obra também concorre a outros três prêmios (direção, ator e roteiro original). Bastante badalado pela imprensa mundial à época de seu lançamento, a produção custou apenas cinco mil dólares (baixíssimo orçamento para os padrões normais de filmes oscarizáveis) e arrebatou mais de 250 milhões nas bilheterias.

>> Curiosamente, as categorias edição de som e mixagem de som apresentam os mesmos cinco finalistas. A primeira categoria cuida da captação – através de microfones – dos sons em uma cena, como as falas dos atores envolvidos como a captação do ambiente. Entretanto, pode haver a melhoria deste trabalho na pós-produção, desde que não derrube a verossimilhança do filme. Já a segunda indica todo o trabalho de design feito para dar a identidade sonora a uma obra, incluindo músicas e efeitos.

>> Sempre que um desenho da Disney ou da Pixar está entre os indicados de melhor longa-metragem de animação ele automaticamente se torna o franco favorito da categoria. Neste ano quem ocupa o cargo é Viva: A Vida é Uma Festa, que tem como tema central a morte e celebra a cultura mexicana do Dia de Los Muertos. Entretanto, na mesma categoria, um outro título chama muito a atenção. Produção divida entre a Polônia e o Reino Unido, Com Amor, Van Gogh remonta os últimos dias do pintor holandês através da investigação da possibilidade dele ter sido assassinado. Para homenagear o artista, cada um dos frames rodados com atores reais ganhou um meticuloso processo de pintura à mão feita por pinceladas de aquarela. Isto dá a impressão de eterno movimento às cenas filmadas com atores em estúdio (Saoirse Ronan, protagonista e indicada por Lady Bird, participa do elenco).

>> Às vésperas de completar 90 anos de idade, a cineasta belga Agnes Varda recebe a indicação ao Oscar por seu trabalho no documentário Faces Places. Ao lado do amigo e fotógrafo JR, ela viaja por várias cidades rurais francesas com um caminhão e o objetivo de capturar imagens da forma mais mágica possível.

>> Às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1994, a jovem patinadora Tonya Harding viu seu talento ficar para segundo plano nas manchetes da imprensa mundial. Ela tornou-se mais conhecida pelo ataque covarde feito à rival Nancy Kerrigan, como fruto de um misto de insegurança, inveja e medo de perder a disputa na competição para a qual estava se preparando. Kerrigan teve a perna direita quebrada pelo marido de Tonya e o segurança do casal. Na cinebiografia Eu, Tonya, Allison Jenney interpreta a mãe que impõe a Harding desde criança uma obsessiva rotina de maus-tratos e humilhações. Por esta performance, Jenney vem ganhando todos os prêmios de atriz coadjuvante da temporada.

LISTA COMPLETA DAS INDICAÇÕES

Filme

Me Chame Pelo Seu Nome

O Destino de uma Nação

Dunkirk

Corra!

Lady Bird – A Hora de Voar

Trama Fantasma

The Post: A Guerra Secreta

A Forma da Água

Três Anúncios para um Crime

Diretor

Christopher Nolan (Dunkirk)

Jordan Peele (Corra!)

Greta Gerwig (Lady Bird – A Hora de Voar)

Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)

Guillermo Del Toro (A Forma da Água)

Atriz

Sally Hawkins (A Forma da Água)

Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime)

Margot Robbie (Eu, Tonya)

Saoirse Ronan (Lady Bird – A Hora de Voar)

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)

Ator

Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)

Daniel Kaluuya (Corra!)

Gary Oldman (O Destino de uma Nação)

Denzel Washington (Roman J. Isreal, Esq.)

Atriz coadjuvante

Mary J Blige (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi)

Allison Jenney (Eu, Tonya)

Lesley Manville (Trama Fantasma)

Laurie Metcalf (Ladybird – A Hora de Voar)

Octavia Spencer (A Forma da Água)

Ator coadjuvante

Willem Dafoe (Projeto Flórida)

Woody Harrelson (Três Anúncios Para um Crime)

Richard Jenkins (A Forma da Água)

Christopher Plummer (Todo Dinheiro do Mundo)

Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime)

Roteiro original

Doentes de Amor

Corra!

Lady Bird – A Hora de Voar

A Forma da Água

Três Anúncios Para um Crime

Roteiro adaptado

Me Chame Pelo Seu Nome

O Artista do Desastre

Logan

A Grande Jogada

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi

Filme estrangeiro (em língua não inglesa)

Uma Mulher Fantástica (Chile)

O Insulto (Líbano)

Loveless (Rússia)

Corpo e Alma (Hungria)

The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)

Animação

O Poderoso Chefinho

The Breadwinner

Viva: A Vida é uma Festa

O Touro Ferdinando

Com Amor, Van Gogh

Documentário

Abacus: Small Enough To Jail

Faces Places

Icarus

Os Últimos Homens em Aleppo

Strong Island

Curta-metragem

DeKalb Elementary

The Eleven O’Clock

My Nephew Emmett

The Silent Child

Watu Wite/All Of Us

Animação em curta-metragem

Dear Basketball

Garden Party

Lou

Negative Space

Revolting Rhymes

Documentário em curta-metragem

Edith + Eddie

Heavy Is a Traffic Jam On The Road 405

Heroin(e)

Knife Skills

Traffic Stop

Direção de arte

A Bela e a Fera

Blade Runner 2049

O Destino de uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

Figurino

A Bela e a Fera

O Destino de uma Nação

A Trama Fantasma

A Forma da Água

Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

Maquiagem e cabelo

O Destino de uma Nação

Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

Extraordinário

Fotografia

Blade Runner 2049

O Destino de Uma Nação

Dunkirk

Mudbound – Lágrima Sobre o Mississipi

A Forma da Água 

Edição

Baby Driver – Em Ritmo de Fuga

Dunkirk

I, Tonya

A Forma da Água

Três Anúncios Para im Crime

Efeitos visuais

Blade Runner 2049

Os Guardiões da Galáxia, Vol.2

Kong: A Ilha da Caveira

Star Wars: Os Últimos Jedi

Planeta dos Macacos: A Guerra

Edição de som

Baby Driver – Em Ritmo de Fuga

Blade Runner 2049

Dunkirk

A Forma da Água

Star Wars: Os Últimos Jedi

Mixagem de som

Baby Driver – Em Ritmo de Fuga

Blade Runner 2049

Dunkirk

A Forma da Água

Star Wars: Os Últimos Jedi

Trilha Sonora

Dunkirk

A Trama Fantasma

A Forma da Água

Star Wars: Os Últimos Jedi

Três Anúncios Para um Crime

Canção original

“Might River” (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi)

“Mystery Of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)

“Remember Me” (Viva: A Vida é uma Festa)

“Stand Up For Something” (Marshall)

“This Is Me” (O Rei do Show)

Movies

Extraordinário

Diretor do cultuado As Vantagens de Ser Invisível retoma o universo da adolescência em outro ótimo longa-metragem

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Cinco anos atrás, Stephen Chbosky adaptou para o cinema, com um certo burburinho, seu próprio best-seller As Vantagens de Ser Invisível. Agora ele retoma a carreira por trás das câmeras assinando mais uma dobradinha de roteiro e direção baseada em outra boa obra literária que gira sobre o período da adolescência com todos os seus problemas e percalços possíveis. De novo, acerta a mão.

Extraordinário (Wonder, EUA/Hong Kong, 2017 – Paris Filmes) é centrado no último ano letivo da ensino fundamental de August Pullman, um garoto que, apesar da pouca idade, já passou por 27 cirurgias plásticas porque nasceu com uma deformação facial. Prestes a entrar na adolescência, ele enfrenta suas dificuldades com muita naturalidade – e bastante humor, nunca perdendo a chance de fazer comentários irônicos sobre as coisas ao redor. Entretanto, quando anda na rua com os pais, usa um estiloso capacete de astronauta para que não haja mais estranhamento das pessoas (e consequentes atos de bullying) em virtude de seu rosto.

O que tinha tudo para ser tornar um melodrama lacrimonoso e repleto de piedade e compadecimento por Auggie se transforma radicalmente no roteiro encabeçado por Chbosky. Desta maneira, o foco recai para outros problemas mais universais da adolescência. E mais: apesar de ter um protagonista, a história é contada sob o ponto de vista não apenas dele, mas também dos principais personagens que gravitam ao seu redor: o melhor amigo da escola, sua irmã um pouco mais velha, a melhor amiga dela e “que é quase como uma outra irmã”, a mãe que largou todos os sonhos pessoais e profissionais para dedicar-se exclusivamente à família.

Assim como fizera de maneira brilhante no longa anterior, Chbosky também vai dando sutis pinceladas em problemas universais da adolescência e o fato inevitável de todo mundo crescer um dia. São as descobertas, as alegrias, os relacionamentos de amor e amizade, a vida em família, as expectativas, os esforços, as frustações, as mágoas, as decepções. Tudo sem nunca perder a linha que liga o humor refinado sobre as coisas do cotidiano com o ótimo gosto musical, que fornece uma sensível trilha incidental (assinada pelo brasileiro Marcelo Zarvos) ligada a canções do universo indie como a sempre fofa “We’re Going Be Friend” (em duas versões, na original com o White Stripes e em um cover não menos fofo feito por Caroline Pennell, ex-concorrente do The Voice norte-americano) e “Reach For The Sun” (hit maior do coro neopsicodélico Polyphonic Spree que neste longa é cantado por um pequeno coral formado por crianças do colégio onde o menino estuda).

Encabeçando o elenco, Jacob Tremblay (revelado em O Quarto de Jack) prova, de novo, ser um pequeno grande monstro na atuação, dando um ar tão delicado quanto seguro de si a seu August. A escalação feminina também se destaca durante o filme. A mãe Isabel (Julia Roberts) ilumina a tela com sua dedicação sempre sorridente, embora tenha aberto mão de muita coisa para si sempre de maneira consciente. Ja a avó (Sonia Braga) aproveita seus poucos minutos de participação na tela para consolar a primogênita Via (Izabela Vidovic, em primeira boa oportunidade nos cinemas), que apesar da pouca idade também serve de segunda mãe para o pequeno Pullman dando-lhe todo o afeto, amor e orientações de que ele precisa. Já Owen Wilson, como o pai boa-praça e amigão, não compromete com possíveis exageros.

A lamentar somente a escolha inadequada do título em português (em inglês, a palavra “wonder”, quer dizer “maravilha”, “espanto”, “admiração”, “surpresa”). Estas quatro escolhas cairiam melhor sobre todo o universo de dores e amores abordado por Chbosky. A opção feita para lançar a obra no Brasil parece ter sido direcionada para chamar a atenção para algo que justamente não está no filme: a vitimização de Auggie Pullman.