Music, teatro

Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte

Clássica peça de William Shakespeare vira musical com sotaque brasileiro e trilha sonora de canções compostas e gravadas pela cantora

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Texto por Jocastha Conceição e Kevin Grenzel

Foto: Caio Galucci/Divulgação

Inglaterra, final do século 16. Uma era violenta, regida por guerras e conflitos políticos. Um jovem buscava aliviar as agonias da época com poesia e arte. Em fase de transição entre o clássico e o novo, o poeta inglês compôs seu primeiro sucesso e até hoje considerada sua maior obra. Romeu e Julieta é peça que não se define como comédia ou tragédia, mas como um misto entre estes. Obra que se encontra na dualidade entre amor e ódio.

A obra de William Shakespere revolucionou a escrita naquele tempo e se mantém relevante até os tempos atuais, seja pela construção do arquétipo do amor juvenil e imprudente ou até pelas críticas politicas de sua época. Romeu e Julieta traz uma atemporalidade singular e, mesmo após 400 anos depois de escrita, continua se renovando através de canções, filmes e peças musicais, nos fazendo rir e chorar com seus amores e tragédias. E até agora, em uma sociedade perdida em seus valores, podemos ter uma pausa singela para sonharmos novamente. Nem que apenas por algumas horas.

Brasil, final do século 20, no início de uma guerra violenta, regida por ódio e conflitos políticos, uma jovem buscava aliviar as agonias da época com poesia e música. Marisa Monte se revelou como uma pérola nacional, com voz e sonoridade únicas. É considerada uma das maiores cantoras da música contemporânea brasileira, junto com os nomes de Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia.

Embora a obra de Marisa seja extremamente recente, já podemos notar sua influência na música nacional. Ela foi uma das primeiras a misturar a linguagem do pop ao que chamamos de MPB e se tornou referência a diversos cantores que surgiram – com destaque a Silva, cantor capixaba que conta com um álbum dedicado apenas a rgravações de obras de Marisa Monte. Com musicalidade genuinamente brasileira, Marisa se arrisca, mistura o eletrônico e analógico, antigo e o novo, chegando ao ponto de utilizar até o belcanto (técnica de canto da ópera italiana) em suas canções.

Foi com esse propósito de mistura que chegou aos cinemas brasileiros a peça Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte, embalada pelas canções compostas e gravadas por Marisa Monte e com direção musical do produtor Apollo Nove. Dirigido por Guilherme Leme Garcia, o musical foi apresentado no Teatro Frei Caneca (SP) e, na noite de 21 de outubro, contou, pela primeira vez no Brasil, com transmissão ao vivo em salas de cinema.

A fusão da obra inglesa com a música popular brasileira é bem representada na escolha dos atores, que não se limitou ao parâmetro de beleza europeu, sempre priorizado para viver os personagens desta história. Os papéis de Julieta (Bárbara Sut), do Montequio Mercuccio (Ícaro Silva), do Capuletto Teobaldo (Pedro Caetano) e de muitos outros foram concedidos a atores negros, levando maior representatividade ao espetáculo. Além da seleção musical e de elenco, também pode ser notado o toque de brasilidade nas falas de cada personagem. Eles usam termos nacionais, gírias, divergem em sotaques de todas as regiões e arriscam até em utilizar memes da cultura nacional para roubar risos. Essa localização traz a empatia do público, que se sente parte da história, e um refresco para uma obra já conhecida mas que ainda tem muito a dizer.

O cenário é simples, muitas vezes contando somente com divisas sem detalhes. Entretanto, apenas a atuação e história são suficientes para instigar o espectador a criar em sua mente os castelos, bailes, igrejas e cidades. O figurino dos atores nos remete aos trajes medievais, ainda que em algumas cenas pareça bastante moderno. Na obra original era explícita a dicotomia entre sentimentos, principalmente entre o amor e ódio. Nesta peça de 2018 não é diferente. Há ênfase no humor e na tragédia, que são muito bem encaixados em todos os atos, mas nunca pendendo para qualquer lado e ou se tornando cansativo.

Em dois atos, acompanhamos a trajetória do mais famoso casal da dramaturgia, Romeu (interpretado por Thiago Machado), da família Montequio, grande inimiga da família Capuletto, de Julieta. O pai de Julieta (Marcello Escorel) realiza um grande baile, onde sua filha conheceria seu pretendente em potencial. Porém, o plano do velho Capuletto é interrompido com o encontro vibrante de Julieta e Romeu ao canto de “Não Vá Embora”, num encaixe perfeito com a cena. Logo os dois se apaixonam e começam a enfrentar os primeiros problemas deste amor proibido. A comédia também ganhou espaço em meio à história conflituosa, principalmente com os cúmplices do romance: a Ama (Stella Maria Rodrigues), com seus muitos elogios ao amado de Julieta e suas falas engraçadas a todo momento, assim como o Frei (Claudio Galvan), com seus conselhos e trejeitos.

O primeiro ato é leve. Conta com diversos pontos de alívio cômico. As cores são claras e os personagens, bem apresentados – até aqueles que não possuem tanto tempo de cena, como o Príncipe de Verona (Kadu Veiga) e o primo de Julieta, Teobaldo. Essa leveza é delineada pelas músicas que são cantadas, desde as mais solenes, como “Pelo Tempo que Durar”, até as mais agitadas e festivas, como “Panis et Circencis”. A metade inicial se encerra com o casamento proibido de Romeu e Julieta, carregado de paixão com a música “É Você”, mas também de tensão por estarem quebrando regras familiares. O que, aliás, ganha mais impacto ainda com a construção do cenário: luz baixa, apenas o casal diante do frei, com as únicas testemunhas da cerimônia sendo pessoas encapuzadas de preto, segurando velas, em coro de “Vilarejo”.

Após uma breve pausa, vem o segundo ato. E já no início percebe-se que o clima é outro. Os figurinos são mais escuros e a luz, mais densa. Não existem tantos momentos cômicos, afinal a trama é tomada pela tensão. A história reinicia com um conflito de espadas entre Montequios e Capulettos, que lutam enquanto “Volte Para o Seu Lar” é cantado com vozes graves, trazendo tom de bravura à cena.

A batalha é bem coreografada. Os movimentos se assemelham a passos de dança sem tirar o peso do momento. Pode-se dizer que esta é a cena em que existe maior ação em toda peça. As peças do cenário concebido por Daniela Thomas mudam de lugar e trazem uma sensação de movimento à cena como nos cortes e movimentos de câmera de um filme. Isso quebra aquele efeito “estático” do teatro e aumenta a aflição do público. Um encontro resulta no falecimento de um personagem querido e gera revolta e desejo de vingança em Romeu, que, diante de sua dor, batalha contra o Capuletto Teobaldo, obtendo vitória sobre ele. Romeu acaba castigado por tal feito, tendo de se retirar da cidade, para longe de Julieta. Antes de sua partida, o grande sucesso “Velha Infância” emociona o público, que assiste à despedida do casal, que, com melancolia e paixão, jura amor um ao outro.

O conhecido final da trama é embalado por “De Que Vale Tudo Isso”. E mesmo com uma obra criada há quase meio milênio, a renovação dos personagens e a trilha melancólica ainda são capazes de nos sensibilizar e retirar algumas lágrimas até daqueles mais fortes emocionalmente. Por fim, a produção acerta em trazer uma modernização inesperada e inusitada ao texto clássico. Aqueles que ainda não conhecem direito o clássico de William Shakespeare têm a oportunidade de se emocionar com os personagens famosos. E os que já estão saturados com a obra podem aproveitar uma releitura despretensiosa e refrescante, revivendo os sentimentos e momentos com a rica música de Marisa Monte.

>> Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte abandona agora o eixo Rio-São Paulo e parte em turnê em diversas cidades do país. Em Curitiba, o espetáculo chega ao Teatro Guaíra nos dias 16 e 17 de novembro (mais informações aqui).

Music

Tribalistas – ao vivo

Numa noite fria de sábado, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown tornaram a Pedreira Paulo Leminski mais agradável e romântica

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Texto e foto por André Mantra (Cena Low-Fi)

Desde 2002 era esperada uma turnê pelo Brasil do supergrupo Tribalistas (formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown; um dos últimos fenômenos da história da indústria fonográfica nacional, nos velhos moldes do consumo de mídia física). Naquela época eles não realizaram um espetáculo oficial nacional, mesmo com um enorme sucesso comercial dentro e fora do país. Era sabido que realizar uma agenda onde todos pudessem participar de uma única turnê e abrir mão de suas respectivas carreiras, empresários, músicos e aquela estrutura que as gravadoras ofereciam até então. Também parecia, até chegar o ano de 2017 muito improvável, o fato de se  reunirem novamente para produzir e gravar um novo álbum.

Após quinze anos de nostalgia de um único álbum e meia dúzia de arrasa-quarteirões, inúmeros shows internacionais de grande porte, além de vários festivais de todos os portes possíveis, eis que foi anunciada a primeira turnê nacional (e, nesta altura do ano, já transformada em internacional) por nove capitais. Curitiba, uma das contempladas neste roteiro.

O local, horário e contexto não foram motivos suficientes para lotar a Pedreira Paulo Leminski, um dia após a data de nascimento do poeta-referência no mundo. Os Tribalistas foram apreciados por dezenas de milhares de pessoas por onde passaram – só na Allianz Arena, o estádio do Palmeiras, foram mais de 45 mil espectadores em apresentação única na capital paulista. Falando em pessoas, a plateia naquele sábado 25 de agosto de 2018 foi plural em faixa etária e orientação sexual (e ficamos por aí). Tudo gente muito resistente aos 11 graus antes do espetáculo e apenas 9 ao seu final.

Foram duas horas de uma apresentação previsível aos jornalistas culturais e do seu enorme fã-clube – pois não há qualquer alteração no set, inclusive no bis. Com uma bela estrutura de palco (iluminação e projeções) e sonorização perfeita, o trio trouxe uma banda de apoio à altura dos nomes envolvidos no projeto: Pedro Baby (guitarra), Marcelo Costa (bateria), Pretinho da Serra (cavaco, percussão e violão) e o “quarto tribalista” Dadi (contrabaixo e teclados). Marisa tocou seu violão ao longo do show, Brown ficou muito à vontade no seu universo percussivo e Arnaldo usou o pedestal como poucos.

Por outro lado, é preciso dizer que o som dos Tribalistas durante o inverno paranaense (à noite, principalmente) é muito “puxado”: das mais de 27 canções executadas, apenas três são dançantes. Já que a banda consegue agregar um público muito familiar, do neto aos avós, bem que poderia render mais se fosse este show realizado durante a tarde. Perderia um pouco no quesito iluminação e projeção nos telões, claro, mas certamente o número de pessoas seria bem mais expressivo.

Como já foi dito, trata de um espetáculo meticulosamente ensaiado e muito bem dirigido, aos moldes Marisa Monte de produzir e gerir. É uma apresentação em que a presença de palco do Arnaldo é percebida; o canto de Marisa, irretocável e o estado de espírito do Brown funciona muito bem (entre um “dá um grito aê” e a famosa saudação africana “Ajayô!”) agregado à sua imagem de jurado de concurso musical.

É evidente que “Velha Infância”, “Vilarejo”, “É Você”, “Passe Em Casa”, “Já Sei Namorar” e “Tribalistas” foram os momentos altos. Contudo, houve a inserção de canções compostas pelo trio que foram gravadas anteriormente por Arnaldo Antunes e principalmente Marisa Monte. “Infinito Particular”, “Amor I Love You”, “Paradeiro” e “Consumado” foram muito festejadas e aprovadas pelos presentes. Vale salientar que o trio fez uma menção muito bonita a Paulo Leminski dentro de uma janela do show reservada para mexer com o bairrismo de cada capital envolvida.

Por fim, o balanço foi positivo, pois o público – estimado em torno de sete mil pessoas presentes –  teve ao chance, enfim, de estar diante da realidade de ver e usufruir um projeto musical quase virtual e, ao mesmo tempo, um best-seller da música e do audiovisual fonográfico do início do século 21. Tudo através de palavras simples, vestidas de poesia concreta e muito romantismo. Poderia ser mais espontâneo, é bem verdade. Mas tudo correu dentro das expectativas e isso foi o suficiente para quem estava lá na Pedreira.

Set List: “Tribalistas”, “Carnavália”, “Um Só”, “Vilarejo”, “Anjo da Guarda”, “Fora da Memória”, “Diáspora”, “Água Também é Mar”, “Um a Um”, “Ânima”, “Velha Infância”, “É Você”, “Carnalismo”, “Aliança”, “Até Parece”, “Não é Fácil”, “Sem Você”, “Lá de Longe”, “Lutar e Vencer”, “Universo ao Meu Redor”, “Infinito Particular”, “Paradeiro/Consumado”, “Amor I Love You”, “Depois”, “Trabalivre”, “Passe em Casa”, “Já Sei Namorar”. Bis: “Velha Infância” e “Tribalistas”.

Music

Titãs: Doze Flores Amarelas – ao vivo

“Ensaio aberto” de ópera rock apresentado em Curitiba mostra que a banda se mantém como uma das mais criativas do país

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Texto por Marcos Anúbis e foto de Pri Oliveira (cedidos por CWB Live)

Passar mais de três décadas juntos e ainda se manter relevante e inventivo não é uma coisa comum no mundo da música. Sendo assim, o que os Titãs mostraram nesta última terça-feira (3 de abril), no Teatro Guaíra, durante o ensaio aberto da ópera rock Doze Flores Amarelas, foi revigorante. O espetáculo fez parte da programação do Festival de Curitiba, o evento mais importante do teatro brasileiro.

Antes do início do show, os diretores Hugo Possolo (ator, dramaturgo e diretor do grupo de teatro Parlapatões) e Otavio Juliano (que no ano passado produziu o documentário Endurance, do Sepultura) subiram no palco para explicar o que seria o “ensaio aberto”. Visivelmente emocionados, os dois alertaram que existia a possibilidade de parar o show se fosse necessário corrigir algum erro. A interrupção só aconteceu uma vez durante a noite.

Na sequência, as cortinas se abriram para Branco Mello (baixo e vocal), Tony Bellotto (guitarra e vocal) e Sérgio Britto (teclado, vocal e baixo) mostrarem que só melhoram com o passar do tempo. Os três, aliás, sempre foram a alma mais rock’n’roll dos Titãs e, felizmente, essa chama ainda se mantém acesa. Mario Fabre (bateria) e Beto Lee (guitarra) completam a formação atual da banda com muita qualidade.

O show é divido em três atos, que contam a história das estudantes “Marias A, B e C”, interpretadas pelas cantoras Corina Sabba, Cyntia Mendes e Yas Werneck. As meninas, como a maioria dos jovens do mundo atual, estão imersas nas redes sociais e, consequentemente, nos perigos da tecnologia. O trio usa um aplicativo chamado Facilitador, uma espécie de Facebook na trama. Procurando diversão, as garotas acabam conhecendo cinco meninos e são violentadas durante uma festa. A partir daí, buscando vingança, elas buscam a ajuda do Facilitador, que sugere o feitiço Doze Flores Amarelas, e as consequências desse ato respingam em todos os personagens até o fim do espetáculo.

No desenrolar do enredo, um dos estupradores morre e as Marias passam a se questionar, acreditando que foram elas que causaram a morte do rapaz. No enterro, as meninas decidem parar de usar o Facilitador e denunciam o abuso às autoridades competentes. O argumento do espetáculo foi escrito por Branco, Britto e Tony em parceria com Hugo Possolo e o escritor Marcelo Rubens Paiva. Em algumas passagens, a cantora Rita Lee narra parte da trama.

“Sei Que Seremos” abre o show, apresentando as “Marias A, B e C”. Durante o espetáculo, pareceu muito claro que a banda procurou construir o enredo do espetáculo por meio de suas canções. O palco foi montado de forma simples, com uma plataforma na parte de trás e um telão que exibe algumas imagens ilustrando as canções. Nada de muitos recursos cênicos ou tecnológicos.

A banda faz de suas músicas o grande atrativo de Doze Flores Amarelas, uma decisão artística que fez toda diferença. “Às vezes, você tem uma boa história, mas isso não quer dizer que ela se transformará em uma boa canção. O desafio pra gente foi transformar essas situações em boas canções. É uma coisa que a gente já tinha enfrentado quando fez o Cabeça Dinossauro, por exemplo. As pessoas falam que ele é um disco contestador, mas o que você vai falar? Como você vai fazer uma música sobre a polícia? Aí é que está o xis da questão. Às vezes, quando a gente fazia uma música muito legal, ela também influenciava na criação do argumento (do espetáculo). Nós pensávamos ‘essa música precisa estar aqui, vamos dar um jeito para que ela faça parte da história’. Eu acho que nós fomos muito bem-sucedidos e tivemos muita sorte, porque enquanto as coisas iam acontecendo a gente percebia que a coisa estava rolando”, diz Tony.

Musicalmente, algumas canções se destacam. Em “O Bom Pastor”, Branco aparece vestido com uma espécie de túnica branca e as cantoras descem do palco para colher o “dízimo” do público. Em “Canção de Vingança”, Tony assume os vocais, fato raríssimo durante a carreira dos Titãs. Já em “O Jardineiro”, Branco é caracterizado como um coveiro. Em “Me Estuprem”, que encerra o Ato I, Britto canta a letra em cima de uma melodia tocante.

Inteligência para abordar a realidade

Todos os assuntos abordados no espetáculo são “espinhosos”. Afinal, diante do extremismo do que cresce cada vez mais no Brasil, cada pessoa tem a sua própria interpretação do que ouve ou vê. Temas como a violência contra a mulher, o estupro, o machismo e outras mazelas da sociedade estão presentes no texto de Doze Flores Amarelas. E o público é convidado a refletir sobre tudo isso.

Demonstrando tranquilidade, a banda está ciente da complexidade dos temas e faz questão de ressaltar a teatralidade das canções. “Obviamente, algumas músicas não estariam em um disco nosso, normal, porque você está falando em nome de um moleque machista, que violentou. Ele está lá, exercendo o pensamento dele, e a gente fazendo essa interpretação. Nós estamos entrando nesse universo dos personagens também. Isso é rico, do ponto de vista criativo e diferente de você assinar uma música como várias que nós fizemos durante a nossa carreira”, eplica Branco. “Você expressa o pensamento de um personagem por meio da canção, não o seu pensamento”, complementa Possolo.

Desse ponto de vista, foi um desafio para a banda criar canções que se encaixassem no espetáculo não só do ponto de vista musical, mas também dentro de um viés teatral. “Essas canções têm uma particularidade porque algumas são escritas em terceira pessoa, na voz desses personagens; outras, nas de personagens periféricos, como os estupradores; e outras são meras narrações de situações que assustam, de que a gente nunca tratou. Então, do ponto de vista das letras, da maneira com que nós tratamos dos assuntos, é uma novidade porque existem aquelas que nós não gostaríamos porque elas estão na voz de um personagem que é um estuprador, e por aí vai. Do ponto de vista da criação, pra gente foi muito interessante”, reflete Britto. “Hoje, é preciso tomar cuidado com essas questões todas. Essas interpretações ao pé da letra, sem o distanciamento necessário, do valor artístico daquilo”, acrescenta Tony.

Fica muito clara também a intenção de abordar a relação dos jovens com as redes sociais e todas as implicações que isso traz. “Hoje a tecnologia e o acesso às redes sociais descontextualizaram tudo. De outra maneira, a peça fala disso e da falta de contexto que essas pessoas têm. Nós esperamos que, na ópera, as pessoas consigam entender que são vozes de personagens narrando tudo aquilo em função de uma trama que tem um ponto de vista bem definido até pela conclusão da história. Porque essas meninas sofrem as consequências do abuso e tomam a decisão que nós deixamos clara no final, que é a de denunciar o que aconteceu e se livrarem da influência das redes sociais para que possam tocar as vidas. Eu acho que o espetáculo tem esses dois motes finais que são bem importantes e contundentes pra nossa história”, analisa Possolo.

Set List: (Ato I) “Abertura – Sei Que Seremos”, “Nada Nos Basta”, “O Facilitador”, “Weird Sisters”, “Disney Drugs”, “A Festa”, “Fim de Festa”, “Me Estuprem”. (Ato II) “Interlúdio 1 –  Depois Daquela Festa.. Eu Sou Maria”, “O Bom Pastor”, “Eu Sou Maria”, “Hoje”, “Nossa Bela Vida”, “Canção da Vingança”, “Personal Hater”, “Interlúdio 2 – Doze Flores Amarelas”, “De Janeiro Até Dezembro”, “Mesmo Assim”, “Não Sei”, “Essa Gente Tem Que Morrer”. (Ato III) “Interlúdio 3 – É Você – Juntas de Novo Iríamos Enfrentar”, “Me Chame de Veneno”, “Doze Flores Amarelas”, “Ele Morreu”, “Pacto de Sangue”, “O Jardineiro”, “Réquiem”, “É Você” e “Sei Que Seremos”.