Music

Kamasi Washington – ao vivo

Em Curitiba, saxofonista brinda a música como celebração de alma sem se esquecer de passar um furioso recado político e social

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Texto por Abonico Smith

Foto: iaskara

Para muitos, a junção de melodia, harmonia e ritmo não passa de puro entretenimento. Só que tem gente que se conecta profundamente com a música. Faz dela, inclusive, um exercício de libertação.

Kamasi Washington faz parte deste seleto time. Com seu saxofone a tiracolo e ancorado por uma extensa bagagem acadêmica, ele estudou teoria musical no curso de Etnologia da Universidade da Califórnia, quando ampliou suas percepções e horizontes com toda a carga étnica que influencia seus composições e performances jazzy até hoje. E agora, beirando os quarenta anos de idade, leva a sua música pelo mundo questionando todo e qualquer limite. Música é alma. E alma não tem cor, religião, sexualidade ou quaisquer outras diferenças impeditivas para fazer festa e celebrar a vida. Foi o que ele demonstrou nas oito obras que compuseram o repertório da segunda das quatro datas de turnê Heaven and Earth naquela semana pelo Brasil.

A noite de domingo 24 de março era na aprazível Ópera de Arame, teatro situado no complexo do Parque das Pedreiras, em Curitiba. Na verdade, o show de Kamasi era apenas a coroação de um grande festival que unia gastronomia, livros, roupas, discos, artes plásticas e muita música ao vivo, comandada por DJs, performers e instrumentistas locais.

A banda era quase toda “orgânica”, com exceção de um Macbook escondido entre as parafernálias de teclas em preto e branco que cercavam o tecladista, um espécie de maestro ali no palco. No mais, um baixista, um trombonista, dois bateristas (!!!) e uma vocalista para mandar ver nas vocalizações e letras quando elas exisitam. Todos, por sinal, virtuosíssimos em seu instrumento – senão, lógico, não estariam acompanhando as loucuras de Kamasi ao centro do palco. Todos devidamente incensados e prestigiados por ele em seus devidos solos.

A quebradeira geral promovida no palco encantou aqueles que gostam de se perder em longas viagens instrumentais. Mas foi justamente em uma canção pop (isto é, a presença de melodia delineada pela voz e com letra) que residiu o melhor momento do show. Ele já havia apresentado uma de suas músicas mais famosas, “Street Fighter Mas”. Só que Kamasi foi ainda mais contundente ao soltar aquela que parece ser a sua faixa mais conectada ao espírito de luta e liberdade trazida pelo seu som. “Fist Of Fury” é um emocionante libelo sociopolítico que evoca força, orgulho e resistência para celebrar os direitos humanos e individuais com os punhos cerrados erguidos e versos declamados de maneira solapante como “Nosso tempo como vítima acabou/ Não vamos mais pedir justiça/ Em vez disso, daremos a nossa retribuição”.

Depois disso nem precisava de mais uma música no bis…

Set List: “Street Fighter Mas”, “The Rhythm Chages”, “Abraham”, “Truth”, “Drums”, “Show Us The Way” e “Fist Of Fury”. Bis: “Re Run”.

Music

Against Me! – ao vivo

Extenso set list e um largo sorriso estampado no rosto de Laura Jane Grace marcam a estreia da banda em solo brasileiro

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Texto por Abonico R. Smith

Foto de iaskara

Ela não entendia muita coisa do que a plateia gritava em português ao final de quase todas as músicas que a banda tocava, mas captou a mensagem e também mandou o seu recado, ao microfone, contra a nova onda de fascismo que varre o mundo, em especial o Brasil nos dias atuais. Foi o que bastou para o salão de shows do Jokers, lotado, explodir em êxtase já quase no final do show. Era a coroação de uma noite de glórias, tão esperada havia anos por muitos fãs brasileiros.

Naquela noite de 19 de outubro de 2018 estreavam, tardiamente, Laura Jane Grace e seu Against Me! em solo brasileiro. Depois de mais de vinte anos da formação da banda e do lançamento de sete álbuns, o quarteto, enfim, realizava em Curitiba seu primeiro show no país, abrindo uma turnê brasileira que incluiria passagens em outras duas capitais (São Paulo e Natal) e marcava também o lançamento da edição nacional de sua autobiografia Tranny – Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock. E claro que tudo isso seria uma noite bastante politizada.

O Against Me! transformou-se em sinônimo de banda política com o passar dessas duas últimas décadas. Não a política partidária ou econômica. Mas a política das coisas pequenas e cotidianas, do comportamento, da sexualidade, do rock’n’roll, do contestamento ao que já está estabelecido. Por isso, Laura Jane Grace é tão reverenciada. Seja pelas letras repletas de sarcasmo e ironia, incluindo um certo tom jocoso de autodepreciação – que sempre funciona para captar a identificação do público. Seja pelas melodias pegajosas, que ajudam a grudar as suas letras no cérebro e fazem todo mundo cantar junto com ela a hora que for. Seja pela questão de gênero, que envolve uma recente transição sexual. Seja pelas atitudes fora dos palcos, que colocam-na como uma das grandes expoentes da música LGBT mundial. Por isso, a turma do #EleNão entoava gritos contra um certo capitão. Aquela noite também era de protesto.

A celebração ficou por contato do extenso repertório, elaborada especialmente pela banda para sanar a sua ausência até então dos palcos brasileiros. Talvez por isso tenha havido a opção de resgatar, de modo equilibrado, as três distintas fases do Against Me!. Das 26 músicas pinçadas para o set list da noite no Jokers, quase metade representavam os três primeiros álbuns, lançados entre 2002 e 2005, quando a banda iniciava seus passos no circuito do punk rock americano com canções mais juvenis, urgentes, diretas e barulhentas. Da fase que representou o período de contrato por uma grande gravadora (com dois álbuns produzidos por Butch Vig entre 2007 e 2010, singles nas paradas de sucesso, números musicais em cultuados programas de entrevistas e humor na TV, presença no topo das listas dos melhores discos do ano), um belo recheio de sete músicas. Da fase em que Tom Gabel deixou de existir para dar lugar a Laura Jane Grace (mais dois discos entre 2014 e 2016, sendo o primeiro o essencial Transgender Dysphoria Blues, no qual o conceito é justamente a disforia de identidade de gênero da vocalista), outras sete. Então fã nenhum pode sair reclamando. Teve para todos os gostos, teve para todas as fases.

Um show do quarteto também significa que as músicas falam por elas mesmas. Daí a opção de Laura por falar bem pouco entre as canções. Era uma pancadaria atrás da outra. Quase sem interrupção, com uma banda afiadíssima, contando com o esperado retorno do baixista Andrew Seward, que passou os últimos cinco anos tocando outros negócios, e o novo baterista Atom Willard, nome experiente do rock alternativo, que encaixou-se como uma luva na engrenagem motora do ritmo do Against Me!.

Então, por quase duas horas, a plateia curitibana foi levada à loucura. Do início arrasador (com a dobradinha “FuckMyLife666” e “Transgender Dysphoria Blues”) ao final do set, com uma série de clássicos enfileirados (“I Was A Teenage Antichrist”, “The Ocean”, “Dead Friend”, “333”, “True Trans Soul Rebel” e “Black Me Out”) foi um festival de punhos erguidos no ar, coro em uníssono durante todas as letras e stage divings celebradíssimos – em especial o de uma garota de apenas dez anos de idade, fanática pela banda e levada pelos pais também fãs assumidos. Ainda deu tempo para um bis longo fuçar o repertório da primeira fase do grupo e entregar canções não tão óbvias como um presente especial para quem esperou por tanto tempo.

Na letra de “True Trans Soul Rebel”, Laura pergunta se Deus abençoaria seu coração transexual. Deus é amor, alegria e energia. E ele, com certeza, estava presente junto aquelas pessoas que se espremiam cantando tudo em alto e bom som no Jokers. Um belo e largo sorriso, estampado em seu rosto frequentemente coberto pelos longos cabelos, entregava o estado de espírito da vocalista. Uma verdadeira alma trans rebelde. Rebelde e muito feliz no Brasil.

Set list: “FuckMyLife666”, “Transgender Dysphoria Blues”, “Pints Of Guinness Make You Strong”, “Cliché Guevara”, “Rice And Bread”, “Pretty Girls (The Mover)”, “Miami”, “From Her Lips To God’s Ears (The Energizer)”, “New Wave”, “Piss And Vinegar”, “Ache With Me”, “Haunting, Haunted, Haunts”, “Walking Is Still Honest”, “Those Anarcho Punks Are Mysterious…”, “Animal”, “Americans Abroad”, “I Was A Teenage Antichrist”, “The Ocean”, “Dead Friend”, “333”, “True Trans Soul Rebel” e “Black Me Out”. Bis: “Joy”, “Baby, I’m An Antichrist!”, “We Laugh At Danger (And Break All The Rules)” e “Sink, Florida, Sink”.