Movies

Black Is King

Escrito, produzido e dirigido por Beyoncé, filme refaz a jornada do rei leão Simba com personagens interpretados por mulheres e homens negros

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Disney+/Divulgação

Quando Beyoncé lançou o clipe da música “Formation” em 2016, o programa humorístico SNL fez uma esquete chamada “O dia em que a América descobriu que Beyoncé é negra”. Obviamente a cantora texana nunca escondeu a cor de sua pele, mas para muitos foi um choque o lançamento de uma faixa tão política. Após “Formation”, ela nunca voltou atrás. 

Temas sobre feminismo e negritude tornaram-se uma constante nos trabalhos da popstar. Em 2019, a estrela foi chamada para produzir a trilha sonora do filme live action O Rei Leão. Desse convite nasceu o álbum The Lion King: The Gift, que serviu de inspiração para o longa musical Black is King (EUA, 2020 – Disney), lançado em streaming em julho de 2020 e que no Brasil chegará junto com o canal Disney+ em novembro. A história é uma reimaginação da jornada de Simba, mas, ao invés de animais, os personagens sâo interpretados por mulheres e homens negros.

Black is King mistura música, poesia e falas do filme com Beyoncé como figura etérea. A todo momento junta elementos do catolicismo e de religiões de matriz afro. Os Orixás e o cesto de Moisés conseguem simbolizar a religiosidade antes e depois da diáspora do povo negro. Inclusive, uma das mensagens do longa é a redescoberta dos hábitos, crenças e culturas ancestrais dos povos africanos. 

Beyoncé procurou ao redor do mundo por produtores, instrumentistas, cantores, estilistas, dançarinos, compositores negros para dar vida ao musical. O filme é uma visão negra feita por negros. O único branco que aparece no decorrer de uma hora e meia é o mordomo da música “Mood 4 Eva”, uma reescrita poderosa do mantra Hakuna Matata.

O visual do longa é um prato cheio. Cenários, figurinos e as coreografias são deslumbrantes. A conclamação pela união juntamente de paisagens paradisíacas em “Bigger” ou o minimalismo do funeral em Nile são resultados do que a cantora considera um “trabalho por amor”. O perfeccionismo é visto nos detalhes que saltam aos olhos. 

Black is King atualiza a trajetória de Simba do exílio ao retorno à tribo. As hienas de Scar se transformaram em uma gangue de motociclistas; a floresta em que o jovem leão encontra Timão e Pumba, uma estrada. Essa humanização de Simba, por sinal, ganhou ares políticos sendo trazida às telas em 2020. Lançada em meio aos protestos #BlackLivesMatter, o longa relembra que negros existiam em comunidades com culturas e costumes ricos muito antes da escravidão.

Beyoncé dedica Black is King a seu único filho menino, Sir Carter, e a todos os outros filhos negros do mundo. A obra é uma carta de amor à negritude diaspórica e um lembrete de que homens negros também são vulneráveis e tridimensionais. Assim como Simba. 

Music

Sisters Of Mercy – ao vivo

Andrew Eldritch e sua banda vivem de um passado cada vez mais distante mas os fãs nem ligam para a ausência de qualquer novidade

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Textos de Abonico Smith e Fábio Soares

Fotos: Abonico Smith

A discografia do Sisters Of Mercy é extremamente curta. Primeiro foram lançados dois EPs entre 1983 e 1984. Depois vieram três álbuns entre 1985 e 1990. Nos anos seguintes alguns singles e, enfim, duas coletâneas em 1992 e 1993. Depois mais nada. Neca de pitibiriba. O modelo de negócios do mercado da música mudou do vinil ao compact disc e depois à compressão digital do MP3 e nada de Andrew Eldritch se animar em compor algo novo.

Em 2016, um pouco antes da banda desembarcar pela primeira vez em Curitiba para uma apresentação, ele me disse por telefone que se sentia confortável com essa questão. Não havia planos de lançar material inédito. Três anos se passaram e o Sisters Of Mercy veio de novo à capital paranaense como uma das escalas de nova turnê pela América do Sul. E tudo continua da mesma maneira, com o repertório ao vivo passeando pelos dez anos fonográficos por uma hora e meia de show.

O que muda de tempos em tempos são os integrantes que o acompanham. Agora, na mesma Ópera de Arame, Eldritch trocou um dos guitarristas – o australiano Dylan Smith faz dobradinha com o veterano Ben Christo nas seis cordas. Um cara fica mais recuado comandando os computadores que detonam as bases pré-gravadas de baixo e bateria e lá atrás da plateia, junto ao operador das mesas de som e luz, um quinto músico incógnito se divide entre mais um computador e um teclado de cor laranja (?!?!) e de pendurar nos ombros que parece ter saído da uma típica banda tecnopop dos anos 1980.

Como já faz quase três décadas que Eldritch não faz a mínima questão de desovar material inédito do Sisters Of Mercy, todo o repertório é calcado em cima de velhos conhecidos do público. Não chegam a ser exatamente hits, mas para os fãs cada música que compõe o set list é um clássico. Recebido com urros, cantado em uníssono a plenos pulmões. A voz de Eldritch é bem grave. Não há backings, apenas o acompanhamento de todos os versos pela plateia. As guitarras de Ben e Dylan somente tecem camadas e mais camadas de riffs e harmonias que se somam ao peso dançante da cozinha que já vêm alto e direto dos computadores.

Com os músicos todos de preto e fazendo jogos coreográficos que aproveitavam-se da penumbra como o único elemento cênico, o som que o Sisters Of Mercy despejou na Ópera de Arame foi o convite perfeito para uma festa na antessala das trevas, com uma pista de dança exorcizando em passos lentos todas as suas angústias, melancolias e (por que não?) desejos ardentes e flamejantes.

O que, naquela noite em especial, tornou-se algo ainda mais curioso porque exatamente do lado da Ópera, na Pedreira Paulo Leminski, acontecia um evento cristão. Mais precisamente um concerto de canções de louvor e adoração sob o comando do grupo Hillsong United, formado há duas décadas pela união dos ministérios de uma gigantesca congregação carismática australiana chamada Hillsong. Enquanto a luz estava ali pertinho, Andrew Eldritch fazia nas sombras uma nova celebração gótica tão aguardada havia três anos. Para almas aflitas e torturadas não era preciso ter qualquer ineditismo. Vampiros, afinal, vivem por séculos e séculos e não fazem lá muita questão de novidades. (ARS)

***

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O que esperar de um show do Sisters Of Mercy em 2019? Quanto a você, eu não sei. Mas para mim um mínimo de dignidade a este expoente do dark não seria de todo mal. E foi com este ceticismo que me dirigi ao Tom Brasil no último sábado (9 de novembro). A plateia “quarentona” – como era de se esperar – não lotou o espaço por completo. Também é inexato rotular os fãs do Mercy com a simples alcunha de “gótico”. São seguidores fiéis. Um exército vestido de preto que acompanhará a banda tantas vezes ela pisar por aqui.

Calcado na onipresente figura de seu decano Andrew Eldritch, o grupo retornou a São Paulo com uma econômica formação com o eterno escudeiro Ben Christo e o novo guitarrista Dylan Smith. Para os efeitos de baixo e bateria, esqueça a seminal aura da Doktor Avalanche, histórica drum machine imortalizada pela banda nos anos 1980. O Sisters Of Mercy versão 2019 conta com um par de iBooks operados por um anônimo quarto integrante e que nem de longe faz lembrar o peso da engenhoca sisteriana.

“More” abriu os trabalhos na noite paulistana e o etéreo clima de um show dos Mercy mostrou que permanece com o passar dos anos: muita fumaça, iluminação à contraluz e Eldrich fazendo seu peculiar jogo de gato e rato com a plateia. Surge no centro do palco e desaparece. Ressurge no lado direito para novamente sumir em meio à fumaça no lado esquerdo. A dupla de guitarristas também procura preencher o resto como dá. Porém a proposital falta de iluminação do palco que deveria evidenciar a voz do frontman ressalta o óbvio. Com 60 anos de idade recém-completados, Eldritch tem extrema dificuldade em sustentar os tons graves de voz que os clássicos da banda exigem. Dificuldade esta explicitada em “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, na maravilhosa (no disco!) “Dominion” e na quase constrangedora interpretação de “Marian”. O público pouco importou-se para tal e tratou de reverenciar a figura do pai do dark enquanto pôde. Porém, a falta de punch nas programações de baixo e bateria trouxe um ar taciturno a cada canção. Uma chatíssima execução instrumental beirando os sete minutos e de nome desconhecido marcou a reta final da primeira parte da apresentação.

Parafraseando Mauro César Pereira, comentarista dos canais ESPN, o bis teve um início pífio, pragmático e resultadista com “Lucretia My Reflection” sendo executada sem a sua histórica linha de baixo. É isso mesmo o que você está lendo. “Lucretia My Reflection” sem a sua indefectível linha de baixo é o mesmo que Buchecha sem Claudinho. E cá estava eu a xingar três gerações antepassadas da Família Eldritch quando o par de ases final salvou a apresentação de um naufrágio histórico. “Temple Of Love” e “This Corrosion” foram executadas como se deve: com peso, batidas marciais e atmosfera de catarse coletiva. Ao final de noventa minutos, houve quem saiu de alma lavada, houve quem achou mais ou menos e teve este aqui que vos escreve. No fim das contas, esta apresentação só serviu mesmo para eu dizer que, um dia, vi um show dos Sisters of Mercy. Nada mais, nada menos… (FS)

Set list (SP e Curitiba): “More”, “Ribbons”, “Crash And Burn”, “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, “No Time To Cry”, “Alice”, “Show Me”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Better Reptile”, “First And Last And Always”, (Unknown), “Something Fast”, “I Was Wrong”, “Flood II”. Bis: “Lucretia My Refletion”, “Vision Thing”, “Temple Of Love” e “This Corrosion”.

Music

Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

Music

Gang 90 – ao vivo

Taciana Barros reúne músicos da banda e chama convidados especiais em apresentação para celebrar a aura do fundador Júlio Barroso

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Taciana Barros

Texto por Fábio Soares

Fotos por Edouard Fraipont

No final da tarde do domingo de Carnaval, 24 de fevereiro, dezenas de blocos ainda agitavam os quatro cantos da capital paulista. Porém, na Zona Oeste, um carnaval particular prometia agitar o Sesc Pompeia: a Gang 90 estava de volta! Capitaneado pela multi-instrumentista Taciana Barros, o projeto A Nossa Onda de Amor Não Há Quem Corte, que acompanhou o lançamento do livro de mesmo nome – compilação de poemas, letras e textos escritos por Julio Barroso (1953 – 1984) – revisitou o universo idealizado por ele em duas noites que misturaram os formatos de show, peça teatral e sarau.

A apresentação no Sesc Pompeia imergiu a audiência numa viagem áudio-literária. Na banda principal, veteranos consagrados como Paulo Le Petit (baixo), Beto Firmino (teclados e voz) e Herman Torres (guitarras) além do reforço de peso de Edgard Scandurra (Ira!) nas guitarras e bateria. Nos vocais de apoio, Bianca Jhordão (Leela) e a cantora e atriz Eloiza Paixão, encarnaram as Absurdettes acompanhando Taciana nas coreografias oitentistas.

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Eloiza Paixão , Edgard Scandurra, Taciana Barros e Bianca Jordão

Na abertura, o swing de “Palavras Não Bastam” (do álbum Pedra 90, de 1987) deu o tom, seguido de “Rosas & Tigres” (do álbum homônimo, de 1985) e “Marginal Conservador”, do aclamado álbum de 1983, com seus acachapantes versos “Já me sentindo dopado pelo álcool/ A correr pelas veias/ Com meu ciúme e amor/ Eu teci varias teias”. Nos interlúdios, intervenções poéticas de Ian Uviedo, Natália Barros e do vocalista dos Mickey Junkies, Rodrigo Carneiro. Trechos de poemas beat, escritos de Júlio e o Manifesto Modernista eram o ingrediente a mais na apresentação, que teve, é claro, seus pontos altos nos clássicos radiofônicos e televisivos do grupo.

“Nosso Louco Amor” foi a responsável pela viagem no tempo à abertura da novela global de Gilberto Braga, de 1983. Já em “Telefone”, Taciana convidou o público a entoar o refrão sem parar, deixando bem claro que só uma “onda de amor” é capaz de nos fazer passar incólumes nestes atuais tempos conturbados que vivemos.

Coube a Filipe Catto, a provável participação mais visceral da noite. Sua emocionada interpretação de “Do Fundo do Coração”, do álbum Rosas & Tigres fez com que o cantor se declarasse à timoneira do projeto: “Taciana não sabe, mas escreveu esta canção para mim, muito antes de eu nascer”.

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Filipe Catto e Taciana Barros

No fim, a catarse teve seu epílogo com a reprise de “Perdidos na Selva”. O eterno hit lá do comecinho dos anos 1980, apresentado ao país durante uma performance no festival MPB Shell 81, transmitido pela Globo, pôs todo mundo pra dançar no Sesc Pompeia. De ponto onde eu estava, poderia apostar que na cabeça de Taciana Barros passou-se a sensação de alívio pelo dever cumprido com maestria. Onde estiver, Júlio Barroso deve ter aberto um “sorrisão Colgate” com tamanha homenagem. Ele pode. Ele merece.

Set List: “Palavras Não Bastam”, “Qualquer Gesto”, “Rosas & Tigres”, “Marginal Conservador”, “Nosso Louco Amor”, “Jack Kerouac”, “Românticos A Go-Go”, “Noite e Dia”, “Do Fundo do Coração”, “Perdidos na Selva”, “Quero Sonhar Com Você”, “Cara Pálida”, “Convite Ao Prazer”, “Telefone”, “Eu Sei Mas Eu Não Sei”. Bis: “Perdidos na Selva”.

Music

Dado Villa-Lobos + Marcelo Bonfá + André Frateschi – ao vivo

Em Curitiba, trio relembra (quase) na íntegra as faixas dos álbuns Dois e Que País é Este 1978/1987, da Legião Urbana

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos de Igor Filus/Charme Chulo (Dado e Bonfá) e Abonico R. Smith (André Frateschi)

Nove de abril de 1988. Aquela não era uma noite qualquer. O cheiro de tensão já estava no ar desde antes de começar o show. Depois de um bom tempo de atraso, eis que sobem ao palco montado no Ginásio do Tarumã, em Curitiba, os quatro integrantes da Legião Urbana. Naquela época, a banda ainda era um quarteto, com Renato Rocha tocando o baixo e sem a presença de músicos de apoio nos teclados, violões e segunda guitarra.

Por pressão da gravadora, o terceiro álbum da banda, Que País É Este 1978/1987 tinha acabado de sair no final do ano passado. Foi algo montado às pressas, ainda para aproveitar a carona do extremo sucesso do anterior Dois, lançado em 1986, em um ano de extrema euforia econômica por causa do Plano Cruzado e que impulsionava a vendagem de discos. O novo repertório havia ficado no meio do caminho. Para completar o disco, a banda pegou antigas canções escritas por Renato Russo nos tempos de Aborto Elétrico ou Trovador Solitário, durante o final da adolescência em Brasília.

A banda vivia um período de intensas turbulências internas. Rocha, logo depois, seria desligado da formação por problemas de comportamento. Russo tentava driblar os problemas emocionais trazidos pela fama meteórica com abusos químicos e etílicos. E de certa forma comportamentais. O que viria a se refletir nesta apresentação no Tarumã. Na plateia, um séquito de fãs ensandecidos à espera de seu líder. Sim, porque um show da Legião Urbana com Renato Russo à frente do palco não era uma mera performance artística naquela ocasião. Parecia quase todo mundo ali um exército com o poder de ser comandado (ou sair do controle a qualquer instante) pelo seu grande chefe.

O que rolou dentro no Tarumã foi quase um barril de pólvora pronto para explodir. Russo, sempre imprevisível, improvisava e mandava seus pensamentos sobre vida e política e mais frases impactantes ao microfone entre cada música. A multidão se inflamava. Passou um bom tempo cantando se jogando e deitando no chão, como às vezes costumava fazer. A multidão se inflamava mais. Cantava os versos magnéticos e poderosos de suas músicas, muitas delas sobre revoluções pessoais e coletivas. A multidão se inflamava cada vez mais. Ao final do show, veio a sensação de alívio por nada de errado, estranho ou violento ter acontecido ali dentro. Entretanto, lá fora, quando as pessoas começaram a sair todas ao mesmo tempo por um mesmo portão, tudo explodiu. Policiais batiam em vários. Outros, a cavalo, tentavam conter a fúria ao mesmo tempo em que quase jogavam os animais em cima dos fãs. Algumas bombas de efeito moral explodiam aqui e ali. Eu, um garoto prestes a completar 16 anos de idade e acompanhado apenas por amigos da mesma faixa etária, tentava me proteger e sair são e salvo para um lugar mais distante e sem confusão.

Dois meses depois, em junho o que não havia saído do controle durante o show de Curitiba acabou saindo no fatídico retorno da banda a Brasília. Resultado foram cenas de tensão, horror e vandalismo que pôs em risco a integridade física dos próprios músicos, destruíram o estádio Mané Garrincha, e tomou as ruas da cidade que havia revelado a banda e não a mais queria nas redondezas. Fato que foi determinante para a suspensão das apresentações e viagens pelo país durante um bom tempo e marcou uma virada de página na carreira da banda. Depois disso ver assistir a um show da Legião Urbana tornou-se um fato ainda mais difícil de acontecer quando Russo, Dado e Bonfá decidiram por retomar as turnês.

>> Clique aqui para ouvir a gravação do show de 9 de abril de 1988 em Curitiba

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Exatos trinta anos depois o repertório baseado nos discos que sustentavam aquela tensa e polêmica fase voltou a Curitiba. À meia-noite e meia da madrugada do último sábado, dia 24 de novembro de 2018, Dado e Bonfá, novamente acompanhados pelo vocalista André Frateschi e a mesma banda de apoio da turnê anterior (Lucas Vasconcellos nas guitarras e violões, Mauro Berman no baixo e direção musical e Roberto Pollo nos teclados e programações eletrônicas), que comemorava as três décadas de lançamento do álbum de estreia, agora estavam na Live Curitiba para tocar (quase) integralmente Dois e Que País É Este 1979/1988. Das 21 faixas, apenas uma, a vinheta instrumental “Central do Brasil” ficou de fora do set list do live project.

Em primeiro lugar devem ser feitas considerações a respeito da plateia que parecia que iria comparecer em bom número e, mais próximo ao início da apresentação, acabou enchendo a casa. Poucos eram os que tinham abaixo dos 30 anos de idade – ainda assim os teens estavam devidamente acompanhados por pais ou familiares. A maioria claramente era de gente que cresceu/adolesceu quando as músicas cantadas por Renato Russo povoavam a playlist da maioria das rádios FM e discos físicos – em vinil ou a laser – eram vendidos aos borbotões, os brasileiros não votavam para presidente baseados em fatos irreais do WhatsApp e a juventude ainda carrega uma certa esperança ingênua em um país que mal havia se libertado de duas décadas de ditadura militar. Portanto, não houve renovação do público da Legião Urbana. Apesar de suas canções mais antigas exalarem espírito juvenil, a garotada de hoje não se conecta mais com Renato, Dado e Bonfá. Nisso também ajudou – e muito – a interminável rusga com o herdeiro do vocalista, seu filho, detentor dos direitos sob o nome da banda e, que, segundo a dupla remanescente, impede o lançamento oficial de projetos novos e antigas gravações ainda inéditas.

Contudo, quando Dado e Bonfá sobem ao palco a coisa muda de figura. “Ah, mas não tem Renato Russo!”, muita gente pode  tentar argumentar. Bom, não tem mesmo. Infelizmente Renato morreu em 1996, o que não pode ser revertido e ainda determinou o fim oficial da banda. Portanto este não é um show da Legião Urbana em si, mas uma celebração de dois artistas que compuseram e gravaram com o amigo as canções que construíram a carreira de todos eles. E também André Frateschi se transformou em um grande achado para compensar as saudades do vocalista. O ator e cantor – com respeitável carreira solo no underground brasileiro – não quer substituir, muito menos imitar o seu também ídolo. Não faz os mesmos trejeitos e coreografias, não tem o mesmo timbre vocal, mas está cada vez mais solto e acostumado à condição de estar à frente do guitarrista e baterista. Sua performance é própria, ele toca instrumentos (bateria e harmônica) e tudo é tão energético quanto as músicas que canta. Sem falar que, em determinados momentos, é um dos dois que assume a função de bandleader.

“Ah, mas não tem coisa inédita!”, outros tantos podem disparar. Não tem mesmo e ainda bem. Banda brasileira não sabe acabar após uma longa carreira e fica se arrastando ao tocar pelo país quase sempre o mesmo repertório, com os mesmos hits que já foram executas outras 35 mil vezes ao vivo. Quando aparecem faixas novas, elas são bem poucas e estão aquém de distância na qualidade se comparada aos velhos clássicos. Com Dado e Bonfá não tem isso. Velhos sucessos, sim, podem muito bem sumir do set list e a intenção destas duas últimas turnês é executar os discos no palco, de cabo a rabo. Por isso ouvir pérolas escondidas dos álbuns (como “Depois do Começo”, “Metrópole”, “Música Urbana 2”, “Química”, “Mais do Mesmo”, “Conexão Amazônica”, “Acrilic on Canvas”, “Plantas Embaixo do Aquário” e “Fábrica”) é muito mais importante, neste momento, do que ficar relembrando “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto”, “Monte Castelo”, “Meninos e Meninas”, “Geração Coca-Cola”, “Ainda é Cedo” ou “Por Enquanto”.

O set é temático e brinda as canções gravadas entre 1986 e 1987. Portanto, o tom das canções vai do folk (soberano em Dois, gravado com muitos instrumentos acústicos de corda) ao punk (herança deixada pelo Aborto Elétrico absorvida em Que País É Este 1978/1987), abandonando as nuances pós-punk da estreia (1985) e ainda sem soar tão pop ou progressivo quanto os vindouros quarto e quinto álbum As Quatro Estações (1989) e (1991). Ainda era uma época em que as palavras bem trabalhadas valiam em letras de música neste país. O discurso era virulento ao mesmo tempo em que tentava buscar a tomada de consciência para um amanhã melhor. Buscava sintonia com os jovens da mesma época, empolgados por uma suposta mudança dos rumos que estaria por vir. Os fãs respondiam à altura, com ardor e devoção jamais vistas até então no rock brasileiro, alçado à condição de megagênero naquele momento do mercado fonográfico nacional.

Hoje a graça está mais em cima do palco do que do lado de cá dele. É bom ver como muitos versos (“Fábrica”, “Que País é Este”, “Faroeste Caboclo”, “Angra dos Reis”, “’Índios’”, “Mais do mesmo”, “Conexão Amazônica”) até hoje dizem muito a respeito de nosso universo cotidiano ao redor. E que quem as interpreta ali, na frente de muitos (e isso inclui os três músicos de apoio) parece que está se divertindo tanto quanto em quase duas horas e meia de show. Tudo passa longe de ser um relógio-ponto burocrata que funciona com base em harmonias e melodias. O que, por sinal, a Legião Urbana sempre foi. Uma banda movida apenas pelo compromisso consigo mesma e a sua necessidade de expressão e não pelo o que os outros pensam ou querem dela. Dado e Bonfá já passaram dos 50 anos de idade mas parecem ter alma muito mais jovem do que a maioria do público que foi vê-los na Live Curitiba. Estes, sim, parecem eternamente satisfeitos em ter sempre mais do mesmo.

PS: Para o bis, foi escolhido um minirrepertório pinçando, de brinde aos fãs, uma faixa representativa de cada um dos outros quatro álbuns executados ao vivo em turnês pelo trio. No caso do sexto, O Descobrimento do Brasil (1993), ainda houve uma “música-bônus”: “Giz” (anunciada como a preferida entre todas as da banda pelo vocalista) e “Perfeição” (o sempre indispensável “Hino Nacional Brasileiro” alternativo).

Set list: “Daniel na Cova dos Leões”, “Quase Sem Querer”, “Eu Sei”, “‘Índios’”, Acrilic on Canvas”, “Tédio (Com um T Bem Grande Pra Você)”,  “Mais do Mesmo”, “Metrópole”, “Química”, “Plantas Embaixo do Aquário”, “Depois do Começo”, “Conexão Amazônica”, “Música Urbana 2”, “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Que País é Este”, “Angra dos Reis”, “Andrea Doria”, “Fábrica” e “Tempo Perdido”. Bis: “Vento no Litoral”, “Giz”, “Há Tempos”, “Será” e “Perfeição”.