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Alan Parker

Oito filmes para lembrar para sempre a trajetória do diretor e roteirista britânico que morreu aos 76 anos de idade

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos: Reprodução

Difícil saber qual filme de Alan Parker fez mais sucesso. O diretor e roteirista, que morreu aos 76 anos decorrente de uma “longa doença” (não informada pela família) no último dia de julho deste ano pandêmico, foi mestre em fazer um cinema comercial de qualidade e capaz de arrebatar grandes bilheterias. Saudosa época em que se formavam filas para assistir aos filmes do londrino que migrou da publicidade para o cinema na década de 1970.

Versátil, Parker transitava entre gêneros e conseguia tecer críticas ao sistema, denunciando a violência sem soar agressivo. Alcançou o estrelato com O Expresso da Meia-Noite (1978). O drama, com roteiro assinado por Oliver Stone, foi inspirado em fatos reais. A história do jovem americano preso por tráfico de drogas na Turquia rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar. A segunda foi por Mississipi em Chamas (1988), com Willem Dafoe, Gene Hackman, Frances McDormand, sobre violência racial que marcou (e ainda persiste) nos EUA dos anos 1960.

Mas foi o flerte com a cultura pop que fez Parker alcançar popularidade. Seus musicais marcaram duas décadas seguintes, época em que os jovens passavam a consumir videoclipes com o advento da MTV. Assinou a direção de Fama (1980), Pink Floyd – The Wall (1982), The Commitments – Loucos pela Fama (1991) e o longa Evita (1996), protagonizado pela diva pop Madonna.

Parker respirava e transpirava cinema. Gostava de estar na frente e atrás das câmeras. Atuou em alguns de seus filmes (como em The Commitments), escreveu o livro que deu origem ao roteiro de Quando as Metralhadoras Cospem (1976) e ainda compôs parte de algumas trilhas sonoras. Em 2015, Parker anunciou sua aposentadoria, após ver seus filmes arrebatarem dez estatuetas do Oscar e quinze Baftas.

O Mondo Bacana faz uma homenagem ao cineasta britânico, lembrando oito filmes que marcaram sua trajetória na sétima arte.

Quando as Metralhadoras Cospem (1976)

A estreia de Parker no cinema veio com um inusitado filme que certamente seria proibido hoje por ter atores mirins no papel de gângsteres. Parker se inspirou na própria rotina para criar o musical Bugsy Malone (seu título original), uma vez que atuava com publicidade e vivia cercado de crianças, seja nos comerciais pra TV ou em casa, já que tinha quatro filhos pequenos na época. Ambientada na Nova York de 1929, ano do crash da bolsa de valores de Wall Street, a obra talvez seja uma das mais subestimadas dele. No elenco, estavam a talentosa iniciante (e futura diretora) Jodie Foster, que no mesmo ano também fez o clássico Taxi Driver, e ainda Dexter Fletcher, o futuro diretor de Rocketman e Bohemian Rhapsody.

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O Expresso da Meia-Noite (1978)

O trabalho seguinte de Parker já mostrava uma veia mais eclética e densa, deixando clara a sua intenção de não se prender a estilos. Midnight Express é um drama sombrio baseado na história real do norte-americano Billy Hayes (Brad Davis), estudante que é preso na Turquia por contrabando de haxixe. O longa escancarou a violência no sistema prisional de países de fora do primeiro mundo e traz uma das cenas mais parodiadas na história do cinema: aquela em que um vidro separa a personagem de John Hurt e sua amada.

Fama (1980)

Musical que abriu a década de 1980 e se transformou em febre entre os jovens, tendo conquistado o Oscar de Trilha Sonora e Canção Original, categoria que também rendeu um Globo de Ouro. Fame revelou a atriz e cantora Irene Cara, que interpreta a música-tema e três anos depois triplicou sua fama ao estrelar Flashdance. O musical traz a história de oito adolescentes que pleiteiam uma vaga na New York’s High School of Performing Arts e virou fenômeno entre os primeiros millennials. Todo mundo passou a copiar o figurino de Irene, principalmente usando as tais polainas. Curiosidade: nomes como Madonna, Tom Cruise, Patrick Swayze e Michelle Pfeiffer não foram aprovados nas audições para participar do elenco. Depois este filme foi adaptado para uma série de televisão e chegou a ganhar um remake em 2009. O nostálgico videoclipe da música-tema, com o elenco dançando nas ruas de Nova York, está disponível no YouTube.

Pink Floyd – The Wall (1982)

Esta é a versão cinematográfica do clássico álbum do quarteto inglês e trouxe a grande influência dos videoclipes seguindo a estética inicial da MTV. Roger Waters escreveu o roteiro com tons autobiográficos. O musical (parte feita em animação assinada por Gerald Scarfe) conta a história de Pink, interpretado por nada menos que Bob Geldof (cantor e compositor irlandês e que anos depois seria o idealizador do festival Live Aid). Ele interpreta um roqueiro deprê e viciado em drogas que perdeu o pai na Segunda Guerra Mundial. The Wall fez um grande sucesso e teve, de fato, cenas transformadas em videoclipes. No entanto, o longa revelou-se um experiência desgastante e acabou minando a relação entre o cineasta, Waters e Scalfe.

Coração Satânico (1987)

Adaptação do romance de William Hjortsberg, Angel Heart se transformou em obra cult ao misturar terror com policial noir bem ao molde de Stephen King, que, por sinal, tece elogios ao livro. A história se passa em Nova York, em 1955. Louis Cyphre (Robert De Niro) contrata o detetive Harry Angel (Mickey Rourke) para encontrar um cantor desaparecido no pós-guerra. Recentemente, o título foi relançado no Brasil pela DarkSide Books.

Mississipi em Chamas (1988)

Este é um filme que infelizmente soa atemporal por tratar de questões ainda não resolvidas pela sociedade como a segregação e preconceito racial. Rupert Anderson (Gene Hackman) e Alan Ward (Willem Dafoe) interpretam em Mississipi Burning dois agentes do FBI que investigam o desaparecimento de militantes dos direitos civis em meados dos anos 1960. A atriz Frances McDormand foi revelada neste trabalho e Parker, por ele, indicado ao Oscar de melhor diretor.

The Commitments – Loucos pela Fama (1991)

Parker retornou aos musicais com esta história baseada no romance de Roddy Doyle sobre músicos amadores de Dublin que se reúnem para formar um grupo para tocar soul music. O sucesso foi tão grande, que o filme não só levou quatro prêmios Bafta em 1992 como a própria banda ganhou vida fora das telas, fazendo turnês mundo afora. A trilha sonora de The Commitments vendeu mais de 15 milhões de cópias e é considerada um marco dos anos 1990, trazendo clássicos do soul como “Mustang Sally”, “Take Me To The River”, “The Dark End Of The Street”, “In The Midnight Hour” e “Try A Little Tenderness”.

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Evita (1996)

Se Madonna foi descartada em Fame, aqui ela tornou-se a estrela principal no papel da primeira-dama Eva Perón. O filme arrebatou vários prêmios, como os Globos de Ouro de musical, canção original (“You Must Love Me”) e atriz para Madonna. A música também levou o Oscar. Baseado na ópera-rock homônima de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, arrecadou mais de 140 milhões de dólares de bilheteria. Na esteira do sucesso, porém, vieram polêmicas e problemas diplomáticos, como protestos do povo argentino, que não aprovou Madonna no papel de um verdadeiro mito, além do fato de terem transformado um drama político e uma tragédia pessoal num musical. Peronistas chegaram a pichar muros com “Fora Madonna”. Também estão no elenco o espanhol Antonio Banderas (Che) e Jonathan Pryce (Juan Domingo Perón).

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Shazam!

DC se aproxima da Marvel ao apostar no humor no longa do mitológico super-herói com poderes dos heróis do Olimpo

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

A DC tem mostrado que, embora tenha sido tortuoso seu começo na construção de seu universo cinematográfico, ela vem aprendendo com seus erros. Aquaman é um bom exemplo da nova onda de frutíferos produtos nos cinemas. Com Shazam! (EUA, 2019 – Warner), a produtora atira-se na comicidade tanto atribuída à Marvel. Derrota para os ortodoxos fãs da seriedade do universo que se iniciou com Homem de Aço (2013).

Com a direção de David F. Sandberg, o mitológico Shazam, cujos poderes provêm das virtudes dos heróis do Olimpo, apresenta-se agora o mais jocoso dos super-heróis da produtora. Mas, antes de conhecê-lo, na forma de Billy Batson (Asher Angel), somos introduzidos a Thad, uma criança passando por um difícil momento com seus pais. Ao ser convocado pelo mago Shazam (Djimon Hounsou), que não é o herói em si, mas o responsável por seus poderes, o garoto é posto à prova: deve resistir às tentações dos Sete Pecados Capitais. Revoltado por sua falha, Thaddeus (agora interpretado por Mark Strong) passa a vida em busca dos Pecados, para obter o Olho (uma estrutura mágica que lhe concede poderes) que fora tentado. Ao consegui-lo, o vilão serve como “casa” para os Sete Pecados, que obedecem a seus comandos.

De volta a Billy Batson, o roteiro de Henry Gayden constrói um adolescente de catorze anos cuja vida se resume a fugas de lares de adoção desde que fora perdido por sua mãe, aos três anos, e sua busca interminável por ela. Assim, quando Billy é adotado por uma nova família, composta inteiramente de crianças adotadas, apresenta resistência ao novo universo. É nele que conhece Freddy (Jack Dylan Grazer), cujo conhecimento sobre o mundo dos heróis é parte importante do crescimento do protagonista. É importante ressaltar a existência de dois Billies: o interpretado por Angel, adolescente, e o de Zachary Levi, que assume o corpo de Batson quando este se transforma. Este é fortemente infantil, preenchendo os quadros com suas faces caricaturais, enquanto aquele representa toda a amargura da difícil vida de Billy.

O problema de roteiro não está, no entanto, tão fortemente na construção divergente do mesmo personagem em dois momentos, mas em sua estrutura. Shazam! falha em oferecer sensação de perigo ao espectador, alongando-se em sequências puramente cômicas e diminuindo as consequências dos atos de seus personagens. É justamente na transição do cômico ao dramático que o filme se embola. Thaddeus é, até certo ponto, bem interpretado, porém falta-lhe uma motivação consistentemente explanada. O espírito palhaço de Billy interrompe insistentemente os momentos de ação – que na maior parte das vezes, consiste na fuga do “herói” do filme. A inteligente intenção de demonstrar a resolução do conflito interno de Billy como causa da resolução do conflito externo é apressada, tornando-se indigesta.

O design dos Sete Pecados Capitais, principais vilões do filme, é estranho, reduzindo-os a monstrões malignos, cuja extensão dos poderes não é abordada na trama. Assim, a sensação obtida no ato final é tão vazia de expectativa quanto as centenas de sequências de heróis combatendo exércitos de “caras maus”.

A atuação dos personagens principais é bastante competente – embora a infantilidade de Levi seja difícil de aceitar. Esta é amplificada, porém, pelo elenco infantil que compõe a família de Billy. Embora narrativamente simples e unidimensionais, Darla (Faithe Herman), Eugene (Ian Chen) e Mary (Grace Fulton) são bem trabalhados, enquanto Pedro (Jovan Armand) parece existir para completar o bando. Deste núcleo, é a atuação de Jack Dylan Grazer que mais se ressalta, ainda que presa demais no humor facial.

A direção de Sandberg é bastante competente, embora não passe disso. A impressão constante é de que o filme poderia ser feito por qualquer diretor de estúdio que trabalha atualmente em Hollywood. A feliz exceção, porém, é quando o diretor imerge sua influência do terror na mise-en-scène de Shazam. A música, no entanto, é plenamente esquecível, copiando melodias já ouvidas nos demais filmes de heróis. A montagem é astuta, mas também não foge do padrão do nicho de mercado.

Dessa forma, Shazam! almeja colocar-se como o filme mais marvelesco da DC, mas sofre de problemas de roteiro que o reduzem a uma tentativa de comédia mal formulada. É competente e arranca boas risadas em diversos pontos, mas contém uma estrutura fraca demais, tanto em construção narrativa como em desenvolvimento de personagens, para ser lembrada futuramente.

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WiFi Ralph: Quebrando a Internet

Sequência de Detona Ralph leva às telas tudo aquilo que as pessoas imaginam existir no universo on-line dentro dos computadores

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Você é daquelas pessoas que fica imaginando como são as coisas “dentro da internet”? Imagina pequenos robôs fazendo suas buscas, a Amazon parecendo um grande supermercado, que os anúncios são iguais àquelas pessoas que nos param na rua e o Instagram como uma imensa galeria de arte?

Então você vai adorar WiFi Ralph: Quebrando a Internet (Ralph Breaks The Internet, EUA, 2018 – Disney/Buena Vista). A sequência de Detona Ralph, lançado em 2012, é esperta, ágil e traz pra tela todo esse mundo que a gente imagina. Amazon, eBay, Instagram, Google, Pinterest mais jogos e quiz on-line são o plano de fundo para a aventura de Ralph e Vanellope. Entediada com a vida dentro de seu jogo de fliperama, a princesa do jogo Corrida Doce acaba indo com seu melhor amigo para o desconhecido “mundo da internet”. Lá eles vão conhecer Shank, uma piloto de carros em um jogo de corridas mortal e Yesss, a responsável por um site de compartilhamento de vídeos.

Entre mensagens implícitas, como “nem sempre os anúncios da internet são verdadeiros” e “o que vale nos vídeos não é ser original mas uma ideia copiada que renda curtidas”, Ralph e Vanellope irão se aventurar num universo totalmente novo para poder voltar ao mundo confiável dos fliperamas. E mais uma vez a produção da Disney foca na amizade. A principal mensagem de WiFi Ralph é esta: valorize seus amigos, mesmo que eles pensem diferente de você.

Não muito diferente de quando entramos em um site, ao chegar “na internet”, os dois são bombardeados por anúncios, informações, cores, luzes e sons de forma avassaladora. E vão ter que aprender a viver naquele mundo.

Para os pais, os easter eggs são um prato cheio. Desde pontas de stormtroopers e princesas (todos pertencentes ao conglomerado Disney) até as representações visuais de sitese vírus de computador, o filme agrada desde os maiores até os menores, seja pela história, pelo visual incrível ou pelas sacadas espertas.

Vale ressaltar também que as grandes personagens do filme são femininas. Vanellope e Shank (que no original tem a voz de Gal “Mulher Maravilha” Gadot) dão um show nas cenas de corrida e deixam os marmanjos de filmes de ação no chinelo.

No fim, tudo se resolve um pouco rápido demais, é verdade, mas ainda assim WiFi Ralph fica acima da média. Muito melhor que Os Incríveis 2, por exemplo, lançado pela Disney/Pixar no ano passado e que não acrescenta em nada à franquia, com uma história fraca toda calcada nas gags visuais de Jack Jack.