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1917

História ambientada na Primeira Guerra Mundial é tecnicamente perfeita porém sem conteúdo substancial

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Universal Pictures/Divulgação

O mágico Roger Deakins. Sam Mendes, o diretor de Skyfall e Beleza Americana. Composição de Thomas Newman. No elenco, Colin Firth, Andrew Scott e Benedict Cumberbatch, o duo de Sherlock. Mais Richard Madden e Dean-Charles Chapman, Robb Stark e Tommen Baratheon, respectivamente. Mais George McKay, de Capitão Fantástico. Vários ingredientes para o sucesso, não é? Nem tanto.

1917 (Reino Unido/Estados Unidos, 2019 – Universal Pictures) chega aos cinemas brasileiros com um grande hype. Recém-coroado melhor filme de drama pelo Globo de Ouro (algo questionável, para ser bondoso), sua trama, que se passa na Primeira Guerra Mundial (começando em 6 de abril de 1917, precisamente), acompanha os cabos Schofield e Blake (McKay e Chapman, respectivamente) na missão suicida de atravessar as linhas inimigas e cancelar um ataque inglês, que, caso efetuado, cairá direto numa armadilha alemã.

Tecnicamente, o filme é irretocável. Como sempre, a fotografia de Deakins desenvolve a atmosfera, repleta de trincheiras e cidades destruídas, criando magnitude e opressão no mesmo plano. Cada quadro, uma pintura, sem dúvidas. Aqui, no entanto, há um desafio a mais: 1917 é rodado inteiramente em planos sequência, com muita movimentação de câmera e personagens.

Numa versão grandiosa da abertura de Skyfall, Mendes acompanha cada passo de Schofield e Blake, do momento em que são chamados pelo General Erinmore (Firth) até a completude de sua missão. Há uma clara ciência dos riscos, em especial em diálogos, mas o comprimento infindável dos planos torna a tensão da guerra muito mais palpável.

O desenho de som (indicado ao Oscar, aliás) é primoroso, mesclando o hiperrealismo que o gênero pede à sensacional trilha de Thomas Newman, que combina os opressores sintetizadores segurando uma nota com momentos épicos, melódicos e grandiosos. A edição, por outro lado, fica renegada a um trabalho de colar peças no exato momento em que a direção planejou que elas fossem coladas. A dimensão criadora da montagem é inexistente aqui, o que não é em si um demérito, mas uma pena – visto que se perde muito da atuação do ótimo elenco ao abolir a opção de um plano/contra-plano.

No entanto, com todos os seus méritos, 1917 é um filme de espetáculo, e é somente assim que funciona. A excelência de Deakins e o movimento incessante da câmera carregam o filme por suas quase duas horas, porém a falta de densidade dos protagonistas e diálogos curtos e grossos – um ponto alto do longa, já que não se espera exposição à toa no meio de uma guerra, não é? – afasta o público de imersão na jornada do personagem, tornando essa duração um pouco arrastada, quase entediante em dados momentos. Assim, os personagens tornam-se vazios e os coadjuvantes mais ainda – completamente efêmeros e, se não fosse pela densidade das atuações, momentos esquecíveis.

O longa é repleto de bons momentos, com tensão e atuações fenomenais, só que os respiros entre eles desaceleram demais a trama, sem tração para manter o espectador emocionalmente envolvido. 1917 é, no entanto, um ótimo retrato da guerra, crua e assoladora. Neste sentido, o tempo do filme somente engrandece o comentário, por aterrar o público não somente nas batalhas, mas no dia a dia, as longas caminhadas, a fome e o medo de um cabo na Grande Guerra. Contudo, os personagens não passam disso: soldados na WWI, perdendo a camada emocional tão poderosa da sétima arte.

Tecnicamente superior à maioria dos filmes de guerra, 1917 é um experimento cinematográfico impactante, uma experiência fílmica de colar o espectador na cadeira. Quando respira, porém, lembra o público que é oco, uma experiência sem substância. Lindo pacote, presente medíocre.

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Somente o Mar Sabe

Biografia de velejador amador inglês chega às grandes telas propondo boas doses de reflexão e dramaticidade

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Diz o ditado que a História é sempre escrita pela ótica dos vencedores. Entretanto, há um outro provérbio que garante que sempre existe exceção para toda regra. Certamente o britânico Donald Crowhurst é uma destas exceções. Seu nome é lembrado há meio século como um grande loser. Ele foi um dos oito participantes da excêntrica corrida de volta ao mundo, solitária e a bordo de um navio, promovida em 1968 pelo jornal londrino Sunday Times. O único deles que não tinha qualquer experiência profissional ou até mesmo prévia como marinheiro. O único que não tinha grandes patrocínios ou até mesmo uma embarcação disponível – teve que desenhar e mandar fazer o próprio trimarã. O último a zarpar de terra firme por conta dos empreendimentos atabalhoados. Não foi o que chegou antes. Restava lutar para fazer o percurso no menor tempo, sendo o mais competidor rápido.

É disso que trata a cinebiografia Somente o Mar Sabe (The Mercy, Reino Unido, 2018 – Paris Filmes), drama que chega aos cinemas brasileiros no mesmo dia do blockbuster dos Vingadores, tornando-se uma opção perfeita para quem não quer ir a uma sala de projeção lotada para ver um filme de ação de super-heróis. Aliás, o contraponto do lançamento simultâneo é justificado. Aqui tudo transcorre em um ritmo bastante lento, como as ondas do mar e propício para reflexões.

Conhecidos nomes do cinema do Século 21 povoam a ficha técnica. A direção é de James Marsh (especialista em documentários e mais conhecido no terreno da ficção por ter assinado A Teoria de Tudo, bio do recém-falecido cientista Stephen Hawking) e o roteiro de Scott Z Burns (O Ultimato Bourne, Contágio). Já a montagem vem com os nomes de Jinx Godfrey (do episódio “Arkangel” da série Black Mirrore também de A Teoria de Tudo) e Joan Sobel (de Animais Noturnos). Jóhann Jóhannsson (outro que participou de A Teoria de Tudo) é o responsável pela trilha sonora densa e pesada como a história contada nas telas. Tudo marcado por níveis de tensão, humor ou agilidade que certamente não batem ponto nesta obra, protagonizada pelos atores também britânicos Colin Firth e Rachel Weisz.

Firth vive o empresário Donald Crowhurst, que acaba mergulhando de cabeça (e entrando de gaiato) em um sonho vendido pelo Sunday Times: dar a volta ao mundo encarando solitariamente os oceanos e embolsar cinco mil libras sendo o primeiro a chegar ou o mais rápido de todos (já que cada partida era marcada por um grande intervalo de dias). Como velejador, ele é um ótimo pai de família. Sem qualquer experiência e munido apenas de um misto de sonho, ambição, perseverança e uma pequena montanha de empréstimos financeiros, ganha o aval da esposa dedicada Clare (Weisz) e dos três filhos para embarcar na maior aventura de sua vida. Sabe muito bem dos problemas que terá de enfrentar em alto-mar mas o otimismo parece ser sua maior arma durante toda a parte inicial do longa-metragem, que se aproxima mais do formato tradicional de uma história biográfica adaptada para o cinema.

A partir do momento em que zarpa com seu trimarã do porto de Portishead, porém, a narrativa muda de figura. Aos poucos, Marsh e Burns vão embaralhando a cabeça do espectador, misturando sensações, delírios e pensamentos que vão se amontoando na cabeça de Crowhurst, muita coisa que passa ao mesmo tempo em terra firme e ainda vagas lembranças de uma vida familiar não muito distante. Com a ajuda de muitas narrações em off (a cargo do velejador e da esposa) e o recurso visual alucinações, provoca intencionalmente confusões sobre as possibilidades de Donald completar a prova marítima e conseguir seu objetivo de ser o mais rápido entre os concorrentes mesmo tendo em mãos um material improvável para tal. Tudo se transforma em um jogo entre realidade e expectativas que consome tanto quem está calmamente sentado na poltrona do cinema como ainda a cabeça do pobre coitado Crowhurst, que decide, ainda no início da empreitada, ludibriar as regras do jogo. Pouco a pouco tudo se encaminha para que ele passe a enfrentar seus maiores perrengues psicológicos no trecho entre a Argentina governada por militares e um tortuoso trecho do Oceano Atlântico na altura do Caribe.

Apesar de todos os seus aparentes atrativos, Somente o Mar Sabe não é um filme de digestão tão fácil quanto os mais incautos podem imaginar. Entretanto, destaca-se de outros exemplares do gênero por propor muita reflexão e tonalidades de dramaticidade que não são tão comuns em cinebiografias. E ainda se lança na ousadia de não querer finais felizes ou que louvam os feitos de seu protagonista. Aqui os feitos são mais históricos do que heroicos. Os distúrbios provocados podem ainda ser grandes em espectadores mais sensíveis.

Em tempo: em português, o título original significa “A Misericórdia”. Este é um sentimento de piedade, despertado pela desgraça alheia. A etimologia da palavra vem do latim e une os termos “misere” (ter compaixão) e “cordis” (coração). É tudo o que Donald Crowhurst chama para si desde quando enfia na cabeça a ideia de participar da competição. Isto é, já na primeira cena.