Music

New Order

Oito motivos para não perder o show do histórico grupo que nasceu nas cinzas do não menos histórico Joy Division

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Divulgação

Vai ter New Order de novo no Brasil agora neste fim de 2018. Só que desta vez não será em um grande festival ou em locais abertos para plateias grandiosas. A banda que ajudou a colocar a cidade de Manchester no primeiro escalão do rock mundial logo no comecinho dos anos 1980 vem ao país para fazer três apresentações. A primeira será no Espaço das Américas, em São Paulo, no dia 28 de novembro (mais informações aqui). Depois, o quinteto parte para duas cidades onde jamais tocaram antes. No dia 30, será a vez da arena Sabiazinho, em Uberlândia, na região do Triângulo Mineiro (mais informações aqui). A última escala brasileira se dará na Live Curitiba em 2 de dezembro (mais informações aqui)

Por isso, o Mondo Bacana preparou uma relação de oito motivos para você não perder o show que fará você dançar como nunca dançou sem deixar de olhar para um quinteto de músicos tocando os seus instrumentos, que incluem guitarras e um contrabaixo nada usual no meio de sintetizadores e percussões eletrônicas.

Joy Division

Às vésperas de embarcar com a banda para os Estados Unidos, o vocalista e letrista Ian Curtis, 23 anos, enforcou-se em sua casa nos arredores da cidade de Manchester, no dia 18 de maio de 1980. Desta maneira trágica, encerrava-se assim a promissora carreira de uma banda que estava começando a ser hypada pela imprensa musical britânica e ficando conhecida também fora do Reino Unido. Vale lembrar que o maior sucesso gravado pelo Joy Division não havia sequer saído em disco. A faixa “Love Will Tear Us Apart” chegou às lojas como um single no subsequente mês de junho e não foi incluída no álbum Closer, o segundo da breve carreira, lançado em julho. Por muito tempo o New Order não se rendeu à ideia de incluir a canção no set list de seus shows. Felizmente, de uns anos para cá, a banda reviu seus conceitos e hoje a masterpiece de Ian Curtis é um dos pontos altos do final de cada apresentação. Na atual turnê, o bis ainda costuma ser composto por outras músicas do Joy Division, como “Atmosphere”, “She’s Lost Control”, Disorder” e “Decades”.

Rock para dançar

Lá no comecinho dos anos 1980, quando os sintetizadores pareciam reinar absolutos nas novas tendências da música pop britânica, os três remanescentes do Joy Divison (o guitarrista e agora vocalista Bernad Sumner, o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris) adicionam a então namorada e futura esposa de Morris Gillian Gilbert nos teclados, para estabelecer uma nova ordem sonora: a junção de batidas eletrônicas feitas para dançar com riffs, linhas e acordes de guitarras. Por cima de tudo, algumas pequenas cantadas. Foi o que bastou para que o New Order antevisse a união do rock com a dance musicque viria a se tornar extremamente popular no final da mesma década entre os jovens britânicos. Programações, baterias e percussões eletrônicas, muitos sintetizadores de um lado. Do outro, as afiadas guitarras de Sumner e as potentes linhas melódicas traçadas nas casas mais agudas do baixo de Hook.

Peter Saville

As capas elaboradas por Peter Saville para os discos do New Order lançados pelo selo independente Factory são verdadeiras obras de arte. “Ali tive uma liberdade sem precedentes no designde comunicação. Nós viviamos um ideal, sem nos basear em negócios para cada ação. Foi um fenômeno”, comentou o designer, que também era um dos sócios do jornalista e maluco de carteirinha Tony Wilson no selo. Para o álbum de estreia Movement (1981), a inspiração veio de um pôster do futurista italiano Fortunato Depero, brincando com várias cores de acordo com cada formato e mercado do lançamento. Em Power, Corruption & Lies (1983), a opção foi pela reprodução da natureza-morta pintada pelo renascentista francês Henri Fantin-Latour, hoje pertencente ao acervo do museu da National Gallery, de Londres. Para Low-Life (1985), projetou um capa dupla, com o retrato de um integrante em cada uma das quatro capas. Na frente, junto ao título, vinha o baterista Stephen Morris. Posteriormente, em versões em CD, é permitido a você trocar e escolher o seu membro preferido junto ao nome da obra. As primeiras edições de Brotherhood (1986) traziam a foto de uma folha de liga de titânio e zinco e ainda uma capa metálica para se guardar o disco. Já para a capa de Technique (1989) Saville alugou de um antiquário a estátua de um querubim para se colocar em um jardim. “É uma imagem muito bacana, que se ajustou ao momento anterior ao último crash financeiro e ao novo hedonismo movido a drogas envolvido na cena musical”, segundo o britânico. “É também meu primeiro trabalho irônico: todas as capas anteriores eram de algum modo idealistas e utópicas. Eu tive essa ideia de que arte e design poderiam tornar o mundo um lugar melhor. Que mesmo os pontos de ônibus poderiam ser melhores. De certa forma, também é bem neo-Warhol.”

“Blue Monday”

Talvez as gerações mais novas, que cresceram acostumadas à compactação sonora do formato MP3 e à facilidade de disseminação dos mesmos através da internet, não tenham tanta noção assim do que possa ter significado este recorde estabelecido entre 1983 e 1984 pelo New Order e nunca mais quebrado. Lançado na versão vinil doze polegadas (o mesmo tamanho de um long play), o single atingiu a marca, somente no mercado britânico, de 1,16 milhão de exemplares físicos comercializados, tornando-se o mais vendido (em vinil) da História do mercado fonográfico. Marca esta impensável para um simples compacto de uma música voltada às pistas de dança, por sinal. A capa deste single também foi uma brilhante ideia de Saville: a reprodução do visual de um daqueles primeiros disquetões utilizados em computadores até o comecinho dos anos 1990.

Assim no palco como nos estúdios

Com exceção de “Bizarre Love Triangle”, que transforma a plateia de cada show em pista de dança de clube noturno mas apela em demasia para as batidas pré-gravadas, todo o resto da sonoridade é reproduzido com extrema fidelidade às gravações originais, o que torna a banda ainda mais potente quando ela sobe em um palco. Vale lembrar que o New Order é um quinteto desde 2001, com a adição de Phil Cunningham, que se divide entre sintetizadores, guitarras e percussões eletrônicas. Também é compensada a ausência de Peter Hook, que brigou com Sumner em 2007 e desde então se dedica a excursionar com uma banda própria tocando ao vivo os clássicos do Joy Division e do New Order e escrever livros sobre o seu passado nas duas bandas. Adicionado em 2011, o novo baixista Tom Chapman dá conta do recado tanto nos clássicos como nos arranjos no álbum que gravou junto à banda (Music Complete, de 2015).

Títulos de pinturas impressionistas

Você já reparou que o nome de várias músicas do New Order sequer são citados em suas respectivas letras? Além de  “Ceremony”, canção resgatada do repertório do Joy Division e com letra desenhada por Ian Curtis, podem ser incluídas nessa lista “Bizarre Love Triangle” (onde sequer a palavra “love” é mencionada), “Love Vigilantes” (novamente sem a presença do vocábulo “love”), “Temptation”, “True Faith”, “Blue Monday”, “Your Silent Face”, “Everything’s Gone Green” e “Thieves Like Us”. A ligação do New Order com as artes plásticas e gráficas não se resume somente às capas de seus discos: títulos como estes parecem nomes de pinturas impressionistas que seriam dignas de estar em exposição nas paredes do Musée d’Orsay, em Paris.

“Bizarre Love Triangle”

São apenas duas estrofes e um refrão (com direito a interlúdio instrumental antecipando a explosão do primeiro refrão, algo que poucas bandas ousariam arriscar a colocar em qualquer arranjo), depois mais outras duas estrofes e o mesmo refrão repetido. A estrutura da composição – criada em cima de três únicos acordes – é de uma simplicidade só. Porém, como menos é mais, não há como deixar de admitir a beleza de toda a canção. Primeiro porque os versos, bastante imagéticos, tratam de maneira breve e direta todo um estado de confusão mental com dum pezinho no romantismo e o outro na religiosidade. A canção nunca chegou a escalar altos degraus no hit parade britânico quando foi lançada em 1986 e relançada em 1994, mas volta e meia rende boas releituras. As mais conhecidas dos brasileiros são a cara bossa nova dada pelo projeto francês Nouvelle Vague e a transformação em balada voz-e-violão assinada pelo quarteto australiano Frente!, cujo clipe chegou a ter boa veiculação na MTV tupiniquim. Mas Scarlett Johansson já a regravou e Brandon Fowers a tocou ao piano em alguns shows do Killers. Black Eyed Peas, Nada Surf e Echosmith foram outros que arriscaram fazer um cover da música. Até para o mandarim “Bizarre Love Triangle” já foi vertida.

“The Perfect Kiss”

A música é  irresistível, mas o videoclipe feito em 1985 pelo cineasta Jonathan Demme (que anos depois ganharia o Oscar com O Silêncio dos Inocentes) consegue ser ainda mais icônico. Ele flagrou a banda fazendo uma performance desta música ao vivo em um estúdio de ensaio. É tudo e cabo a rabo, em pouco mais de nove minutos. Quatro câmeras focalizam as compenetradas expressões faciais dos quatro integrantes. Outras pegam detalhes pontuais, como o solo mequetrefe de Sumner na guitarra, a poderosa e agudíssima linha de baixo de Hook, as texturas de Gilbert nos teclados (que vão de acordes a inusitados sons de buzinas, freadas e batidas de automóveis). Bem… E quanto a Morris? O baterista só aparece no vídeo nos closes de seu rosto. Foi o que restou a Demme quando este soube, de última hora, que toca a bateria era previamente toda programada.

Movies

O Primeiro Homem

Menino-prodígio de Hollywood, Damien Chazelle volta a assombrar na cinebiografia do primeiro homem a pisar na lua

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Damien Chazelle Chegou em Hollywood metendo o pé na porta. Nos últimos quatro anos, o diretor e roteirista – atualmente com apenas 33 anos – fez dois filmes e conquistou a condição de menino-prodígio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Em 2014, fez Whiplash – Em Busca da Perfeição, um filme de suspense sobre música e a dedicação intensa de um baterista (tal qual ele havia sido para ser o melhor do mundo em sua profissão). De cara, o filme levou cinco indicações para o Oscar, incluindo a de melhor longa-metragem, e arrebatou três estatuetas. Dois anos depois voltou às telas com La La Land: Cantando Estações, musical sobre o sonho de atores, músicos e cantores iniciantes de entrar para a indústria do entretenimento e ganhar a fama em suas carreiras. Concorreu em treze categorias ao Oscar, igualando o recorde de A Malvada (1950) e Titanic(1997). Perdeu a principal, mas ganhou em seis delas. Já no Globo de Ouro, ganhou todos os sete prêmios aos quais concorria.

Normal que, depois de tanto hype e celebração, muitos se perguntassem para onde iria a carreira do jovem cineasta depois desta arrancada inicial fenomenal. A resposta não tardou a vir. Dois anos depois ele entrega um terceiro filme tão sensacional quanto os anteriores. E diferente. E criativo.

O Primeiro Homem (First Man, EUA, 2018 – Universal Pictures) é baseado no livro homônimo sobre a vida de Neil Armstrong, astronauta da Nasa e o primeiro homem a pisar na lua. Poderia ser adaptado às telas do cinema como tantas outras cinebiografias produzidas incessantemente pelos grandes estúdios hollywoodianos: com narrativa histórica linear, escalando bons atores para viverem seus protagonistas na esperança de abocanhar algo na temporada de premiações e apostando na instigação ou memória afetiva provocada por estes mesmos retratados no coração de quem assiste aos filmes. Contudo, O Primeiro Homem vai muito além disso. Não se prende ao convencional. Tudo porque é o nome de Chazelle quem está por trás da condução das quase duas horas e meia de projeção.

Damien, agora se restringindo apenas à direção, fez a escolha de colocar a câmera na mão, como um personagem no local da ação, com muitos travellings trepidantes e zooms. Deste modo, ora ela faz a função subjetiva de ser os olhos do protagonista ora convida o espectador a se sentir in loco junto com Armstrong, sua família, seus colegas de trabalho na Nasa e ainda na imensidão do espaço. A questão de voltar a trabalhar com Ryan Gosling – com quem fizera La La Land – também traz outro ponto positivo. A tão ressaltada falta de expressividade facial do ator cai como uma luva para as cenas que exigem um Armstrong frio diante de situações adversas ou ainda sem saber muito o que fazer diante de algo novo em sua vida ou que pode vir a dar errado. Também tem quem interprete a carência de Gosling neste quesito como uma chance para que quem esteja assistindo ao filme possa projetar as suas próprias emoções em sua cara de nada.

O recorte temporal foi outro acerto. Todo mundo já conhece o ápice da história: no dia 20 de julho de 1969, a nave Apollo 11 finalmente pousa em solo lunar e o primeiro tripulante a sair dela é Armstrong. A cena dele descendo a escada e fincando a bandeira no chão virou um ícone da cultura pop e transformou-se até em logomarca de vinhetas da MTV e troféus do Video Music Awards, promovido todo ano pela emissora norte-americana. Só que isso é o que menos importa – embora Chazelle consiga fazer o espectador se sentir o próprio Armstrong na cena. O que vale, no roteiro assinado por Josh Singer (ganhador do Oscar pelo trabalho em Spotlight – Segredos Revelados) é toda a trajetória vivida por ele, desde os tempos em que era piloto de caça, nos anos 1950, até a fama mundial pelo feito. Assistimos ao início da transformação em astronauta, provocado pela morte da filha pequena, até os perrengues passados em testes e posteriormente malfadadas tentativas do programa aeroespacial dos EUA pra fazer o ser humano pousar no satélite natural da Terra. Paralelamente à obstinação profissional, o roteiro mostra ainda a vida em família, sobretudo as tentativas da esposa Janet (a atriz britânica Claire Foy, em excelente atuação) de se manter equilibrada entre o apoio à nova carreira do marido e os abalos emocionais ao entender que, a qualquer momento, um erro pode ser fatal e fazê-la ficar viúva.

Os estímulos auditivos também se agigantam no decorrer do filme. A trilha sonora original, assinada por Justin Hurwitz, também parceiro em La La Land e vencedor do Oscar por este trabalho, é espetacular e se dá ao luxo de usar até um inusitado theremin. O Primeiro Homem também, desde já, surge como favorito para o Oscar da categoria Mixagem de Som (na qual ruídos e efeitos sonoros são colocados na pós-produção, depois de gravadas e montadas as cenas).

Por tudo isso, resta sair do cinema com uma nova pergunta martelando a cabeça. Afinal, até onde irá Damien Chazelle?

Movies

My Name Is Now, Elza Soares

Documentário desconcerta o espectador pela opção de desnudar a alma da cantora por caminhos não convencionais

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: It Filmes/Divulgação

Meu nome é agora, diz a cantora durante a série de depoimentos dados para o filme. Ela agradece a Deus por tudo o que viveu e aconteceu na sua vida, inclusive os momentos mais difíceis e as tragédias constantes que teve em família. Tudo isso, segundo ela, foi responsável por transformá-la no que ela é.

Em My Name Is Now, Elza Soares (It Filmes, 2018), a diretora Elizabete Martins Campos opta por um caminho nada convencional em se tratando de documentário. Ela dispensa uma narrativa histórica linear da vida e da carreira biografada. Tampouco quer contar a sua trajetória de fato. Sua opção é por uma estética sensorial. Imagens e sons vão se misturando e complementando. Por vezes Elza canta acompanhada de uma banda nunca vista pela câmera. Por vezes ela fala sobre seus sentimentos e um pouco do que já viveu em quase noventa anos de idade. Nascida no Rio de Janeiro no dia 23 de julho de 1930 (segundo ela mesma conta no início do filme), Elza Soares é uma mulher múltipla e vulcânica. Uma força da natureza capaz de assombrar sempre que abre a boca. Pela voz, pelo timbre, pela lucidez, pela sagacidade, pela resiliência, pela emoção. E a diretora, ciente demais de tudo isso, ainda brinca com o espectador fundindo áudio e vídeo de maneira difusa, brincando com efeitos (ecos, filtros, closes, sobreposições de música e fala).

Claro que as mais importantes informações sobre a vida de Elza estão lá. O enfrentamento da fome, a gravidez muito precoce, a perda dos maridos, o romance com Mané Garrincha (que acabou por se eternizar no inconsciente coletivo da população brasileira), seu ressurgimento para o primeiríssimo escalão da MPB nas últimas décadas. Mas nada aparece de forma tão mastigada assim. Por vezes é Elza quem relembra misturando emoções (raiva, alegria, saudade, indignação), por vezes a música que rola naquele instante (ora com letras cantadas, ora com a melodia tracejadas pelos scats inacreditáveis que ela arranca do gogó), por vezes são as imagens de arquivo (vídeos antigos, fotografias, recortes de jornais e revistas) ou uma câmera subjetiva que se apresenta como os olhos da biografada.

Ao espectador resta a condição de se conformar como um voyeur. Não se sabe onde se vai chegar, não há muitas explicações que não sejam a da memória e a do afeto. Por isso mesmo é inevitável se sentir desconcertado por este filme. E não só pela boca, mas também pelo olhar de Elza Soares. E, claro, por sua alma desnudada de maneira tão incisiva e corajosa.

Obs: My Name Is Now, Elza Soares entrou em cartaz no circuito nacional neste primeiro dia de novembro, através do projeto Circulabit (Circuito Laboratorial de Produção e Difusão do Audiovisual em multiplataformas, com os eixos LabiT – Incubadora de Criações, Prêmio Circulabit, Circuito Salas de Cinema, Laboratório de acessibilidade, Exibição ao Ar Livre e Cirucito Brasil – Exibições Gratuitas. Este projeto teve início no último mês de outubro e se estenderá até abril de 2019, com programação no Brasil e em Portugal, em diferentes formatos, plataformas e parcerias.