Music

Vanguart

Quarteto faz sua homenagem ao ídolo Bob Dylan em álbum-tributo que reúne muitas faixas de sua fase áurea nos anos 1960 e 1970

Vanguart2019MB

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Juan Pablo Mapeto/Divulgação

Bob Dylan é um gênio com suas crônicas e poesias rimadas e musicadas no gênero folk. Por conta de sua complexidade e riqueza artística incomparável, ouvidos menos treinados sempre encontrarão certa dificuldade em absorver sua arte. A voz rouca e o timbre anasalado do cantor e compositor norte-americano podem soar um tanto enjoativo para alguns e as canções quase intermináveis são compridas demais para cativar a atenção das novas gerações acostumadas com a fluidez das coisas. Acompanhar “Hurricane” do começo ao fim, por exemplo, exige uma dose extra de paciência.

Por isso, o recém-lançado álbum do Vanguart é um alento para quem gosta de Bob Dylan. Com uma roupagem despretensiosa e leve, Vanguart Sings Dylan (DeckDisc) é perfeito para se ouvir numa manhã de domingo ou durante uma loooonga viagem ao lado de uma agradável companhia, o que renderá um bom papo cabeça durante o percurso.

A bem da verdade as versões não são tão vanguardistas e seguem à risca o jeito Dylan de ser. Há covers que de tão fiéis às originais ficam quase impossíveis de se distinguir até surgir o vocal. Como “Hurricane” (que conta a história da prisão indevida do boxeador Rubin “Hurricane” Carter) interpretada pelo guitarrista David Dafré (que recebeu esse fardo por saber a letra com 880 palavras de cor).

A banda do vocalista Helio Flanders pode até resistir em inovar nos covers até mesmo para não macular a obra do bardo, mas nos presenteia com surpresas como a bela interpretação da violinista Fernanda Kostchak em “The House Of The Rising Sun”. À medida que se vai escutando o álbum fica clara a intenção da banda em gravar um tributo reverenciando o compositor, instrumentista autodidata, que foi grande influência para dezenas de artistas mundo afora. Aliás, essa homenagem até demorou para ser gravada em disco, porque o Vanguart sempre flertou com Dylan, tocou-o ao vivo e até gravou um especial com covers dele para o Canal Bis.

O deus do folk era respeitado, venerado no meio artístico, sobretudo nos anos 1960 e 1970 e continua sendo um grande influencer para artistas contemporâneos. Entre seus principais discípulos estão Beatles (a quem Dylan teria introduzido a marijuana) e Rolling Stones (que regravaram o clássico de Dylan “Like a Rolling Stone”). Claro que é preciso uma certa dose de preparo para consumir suas composições com seis, oito minutos de duração e seus versos com rimas impecáveis. Goste ou não, Dylan é nome de mestre. Que aprendeu de ouvido a tocar piano e violão. E com seu olhar detalhista, a observar e traduzir o mundo e suas reviravoltas, o que lhe rendeu um prêmio Nobel de literatura em 2016.

No Brasil, ele continua sendo fonte de inspiração para muitos cantores – principalmente do Nordeste – que se aventuraram no árduo e complexo trabalho de traduzir o punhado de canções mais famosas e transpor os versos em inglês impecável para a língua portuguesa. O primeiro que me vem à cabeça e cuja aura mais se aproxima do norte-americano é Zé Ramalho. O paraibano lançou em 2008 um disco com versões de Dylan, como “Knockin’ On Heaven’s Door” Mas a tradução fidedigna do refrão, por exemplo, destoa da versão original: como encaixar “céu” no mesmo acorde de “door” (“Bate, bate, bate na porta do céu”)?.

Outra versão que deve ter dado trabalho foi a de “Romance em Durango” gravada pelo cearense Fagner, que nos primeiros versos dá uma velocidade que mais parece um desespero atropelado para casar letra e música. As rimas originais desaparecem na tradução também fiel à original. A primeira estrofe (“Hot chilli peppers in the blistering sun/ Dust on my face and my cape/ Me and Magdalena on the run/ I think this time we shall escape”) se transformou em “Pimenta quente no sol escaldante/ Poeira no meu rosto e minha capa/ Eu e Madalena na corrida/ Acho que desta vez vamos escapar”.

Esses exemplos levam a concluir que a arte de Bob Dylan deve se perpetuar na língua inglesa. É preciso ouvi-lo no original, caso contrário, pode se perder todo o sentido. Por isso, o álbum de Vanguart é tão significativo por respeitar a voz e a língua do compositor.

Quinze das dezesseis faixas contemplam a primeira fase da sua obra entre suas décadas mais expressivas. Começa com baladas mais suaves como “Tangled Up In Blue” e “Don’t Think Twice it’s All Right”, “Just Like a Woman” (com a clássica gaita na introdução), “Hurricane” e “Like a Rolling Stone” aparecem em sequência, mais para o final do álbum que encerra com a obra-prima “Blowin’ In The Wind”, hino entoado em coro pela banda. Claro que faltam singles bastante conhecidos, como “Knockin’ On Heavens door” (escrita em 1972 por Dylan para o filme Pat Garrett & Billy The Kid) e “Mr. Tambourine Man”. Entrada e prato principal para um segundo Vanguart Sings Dylan, quem sabe.

Movies

Te Peguei!

Grupo de quarentões não mede esforços para manter viva anualmente a brincadeira de pega-pega da infância

tagmovie2018

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

Te Peguei! (Tag, EUA, 2018 – Warner) é um filme que já nasceu para ser bobo. Bobo no sentido mais literal do termo Afinal o que esperar de um grupo de quarentões que faz questão de, sempre que chega o mês de maio, deixar em plano secundário todo o resto de suas vidas para cultivar um velho hábito de infância: brincar de pega-pega. Sim, aquela brincadeira em que todos saem correndo de uma pessoa e quem for tocado por ela é aquele que precisa correr atrás dos outros para reverter a situação e dar o “está com você” a qualquer outro. Como um desses amigos resume a certa altura da história, é um jogo onde não há vencedores, somente um perdedor.

Hoagie, Bob, Chili e Reggie formam este grupo de velhos amigos ao lado de Jerry – todos morando em uma cidade diferente depois da vida adulta. O último, porém, tem uma grande vantagem neste quinteto: ninguém nunca conseguiu alcançá-lo. Jerry tem como trunfos rapidez, astúcia, inteligência, habilidades físicas e um grande reflexo para se livrar de todos nem que seja atirando na direção contrária o que estiver pela frente. E é justamente em torno deste fato que gira o filme. Não importa quem tem de pegar os outros. Agora são os quatro que vão à caça do amigo invicto. Custe o que custar. Nem que seja atrapalhando todo o planejamento do casamento dele. E pior: carregando junto uma jornalista do The Wall Street Journal, louca para contar aos leitores uma história tão absurda como esta.

Por isso este é um filme bobo. Não é spoiler nenhum dizer que não existe qualquer empecilho (dinheiro, viagens, vexame em público, invasão de propriedade, vandalismo) para, apenas, a manutenção de um hedonismo infantil. Contudo, não significa que Te Peguei! seja uma comédia rasa e de baixa qualidade. Pelo contrário. O roteiro entrega de vem em quando situações e tiradas bem engraçadas. A edição frenética e muitas vezes utilizando o recurso da câmera superlenta (aquela em que cada milésimo de segundo é expandido, gerando maior dramaticidade a gestos, expressões e detalhes que seriam visualmente imperceptíveis em uma cena) também corrobora para o deleite do espectador.

Com experientes atores vindos de seriados de humor (como Ed Helms e Jake Johnson) e atrizes emergentes em Hollywood fazendo com que suas personagens acabem tomando a mesma força e importância que os homens nesta história (Isla Fischer, Annabelle Wallis, Leslie Bibb), Te Peguei! reforça a ideia de que um produto entretenimento pode, sim, carregar sagacidade, criatividade e humor inteligente. Nem que seja para mostrar um monte de marmanjo gastando seu tempo e energia em uma bobeira só.

Detalhe: o roteiro é inspirado em uma história real contada em uma reportagem publicada pelo mesmo The Wall Street Journal alguns anos atrás.