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História de um Casamento

Scarlett Johansson comanda um time de grandes atuações em filme que mostra como um divórcio pode fazer mal sobretudo aos filhos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Netflix/Divulgação

Existe um ditado que diz mais ou menos assim: você só conhece uma pessoa de fato quando se separa dela. Ou seja, uma gatinha pode se tornar uma leoa da noite para o dia quando se trata de proteger a cria.

Enfrentar um divórcio é como entrar numa guerra. Raros são aqueles que chegam a um acordo de paz sem antes lutar contra justamente a pessoa que, um dia, entrou na sua vida para compartilhar o tempo, o espaço e a genética. Aquele que ontem era seu amigo e emprestava os ombros pra você chorar hoje dá de ombros e te faz chorar, transformando-se num rival. Durante o doloroso processo, muitas vezes é preciso cavar até o fundo do poço para, enfim, desmembrar aquele território edificado a dois com enorme dispêndio de energia, afeto, carinho, amor e, claro, dinheiro.

Casamento, enfim, é como qualquer sociedade. Pode ou não dar certo. Tentativa e erro. Para serem bem-sucedidos, os sócios devem estar muito bem alinhados. Caso contrário, o relacionamento chega ao fim, não se sustenta, desmorona, como tudo na vida que é efêmero. A única diferença é que, sem filhos, o adeus pode ser definitivo. Como é impossível dividir um filho, o desfecho pode tomar outro rumo. Nesse caso, o desgaste é maior e o poder de negociação atinge limites impensáveis, com trocas de acusações na frente do juiz, que revelam segredos e deixam feridas expostas. E todo o amor que um dia talvez tenha existido dá lugar à raiva, à amargura, como nos mostra o tocante longa História de um Casamento (Marriage Story, EUA/Reino Unido, 2019 – Netflix), do diretor e roteirista Noah Baumbach, hoje casado com a atriz, diretora e roteirista Greta Gerwig.

Separação, aliás, é um tema recorrente da filmografia de Baumbach. Em sua primeira obra, a autobiográfica A Lula e a Baleia, o diretor se inspirou na separação dos pais e conduziu a história sob o ponto de vista dele e do irmão. Já em seu mais recente e cultuado História de um Casamento, um dos nove indicados ao Oscar de melhor longa em 2020, ele se debruça em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho de 9 anos, praticamente a mesma idade do filho dos protagonistas vividos por Scarlett Johansson, exuberante no papel da atriz Nicole, e Adam Driver, que interpreta Charlie, um respeitado diretor de teatro.

A história do título (que lembra Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman) começa pelo fim do relacionamento entre Nicole e Charlie. Para quem não vivenciou a traumática experiência de uma separação, é bem possível que História de um Casamento seja percebido como uma obra mediana, com uma direção correta e um roteiro bem-feito. Talvez se fosse distribuído para o cinema e não exibido diretamente via streaming, a recepção fosse outra. Eu, no entanto, tive de pausá-lo algumas vezes por causa de tamanha identificação com a personagem de Scarlett, que também se inspirou na experiência pessoal para transmitir com um realismo pungente toda a angústia, frustração e tristeza do fim de um longo relacionamento.

O drama começa numa sessão de terapia de casal, uma tentativa vã de recuperar algo daquela faísca do amor primordial. Charlie escreve sobre as qualidades de Nicole e as lê em voz alta. Ela, por sua vez, não consegue fazer o mesmo. Para Nicole, não há mais salvação. A relação terminou e por motivos comuns a vários casais, como traição e desencanto pelo parceiro. Quando se casou, Nicole abriu mão de uma carreira promissora de atriz de cinema em Los Angeles para morar em Nova York, onde Charlie dirige uma companhia de teatro. Ao longo dos anos, ela passou a se sentir ofuscada pelo marido.

Com a união em colapso, Nicole aceita a proposta para estrelar o piloto de uma série de televisão e se muda para a casa da mãe em Los Angeles, levando com ela o filho Henry (Azhy Robertson). Charlie continua do outro lado do país. Perdido com toda a situação, parece não se dar conta de que Nicole não voltará mais. Os dois, então, permanecem separados física e emocionalmente e ele se desdobra para viajar até a Costa Oeste para visitar Henry.

O ressentimento, aliado ao fator filho, leva Nicole a procurar a advogada Nora, interpretada pela sensacional Laura Dern (que levou os principais prêmios de coadjuvante da temporada por este papel). Quando os advogados entram em cena, o drama toma o rumo bem ao estilo de Kramer vs Kramer, vencedor do Oscar de melhor filme em 1979, com Dustin Hoffman e Meryl Streep. O dilema que poderia se encerrar num acordo – e que seria mais benéfico para Henry – transforma-se em disputa judicial pela guarda da criança. As economias, até então reservadas para pagar a futura faculdade do filho, agora vão direto para o bolso dos advogados, que cobram honorários astronômicos, dignos de estrelas de Hollywood. Durante o litígio, a vida do casal é totalmente esmiuçada; cada detalhe, cada deslize, por mínimo que seja, pode ser usado perante o juiz, desde tomar uma mísera taça de vinho na frente do filho ou esquecer de acomodar o assento no carro.

Conforme a narrativa se desenvolve, Scarlett cresce no papel e nos envolve com sua personagem, como na cena de sua primeira reunião com Nora, quando subitamente começa a chorar ao contar a história. A advogada desce do salto e consola a atriz, num discurso que expõe toda a pressão sobre a figura materna rodeado pelo mito da irgem Maria: a sociedade tolera que o homem seja um pai ausente, mas à mãe jamais é permitido sair da linha.

Sem dúvida, a sequência mais visceral e desconcertante é a cena em que Charlie e Nicole discutem sozinhos e lavam toda a roupa suja. Não sobra nada, nem um par de meias. Nesse ponto, a direção de Baumbach insere o espectador lá dentro do apartamento, como se testemunhássemos a discussão.

Histórias de um Casamento pode não ter levado o Oscar, mas é um filme sensível e honesto, com foco no roteiro e atuação do elenco (tirando a mãe de Nicole, cujo papel é exagerado). E o belíssimo desfecho nos mostra que, para proteger a saúde mental do filho, a mágoa, a raiva e a culpa devem dar espaço à dignidade, à civilidade e ao respeito mútuo.

Music

Jesus And Mary Chain – ao vivo

Retorno dos escoceses, agora tocando em um ambiente fechado, teve sabor especial para os fãs brasileiros

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Texto e foto por Fábio Soares

Meu par de experiências anteriores em apresentações do Jesus and Mary Chain não foi nada agradável. Em 2008, no extinto festival Planeta Terra, eu era uma ilha shoegazer cercada de fãs do Offspring por todos os lados – tendo em vista que a organização do evento escalou os Reid Brothers antes da trupe de Dexter Holland e seu insuportável (pseudo)punk rock. Já em 2014, no Festival Cultura Inglesa, problemas técnicos, chuva e falta de punch em cima do palco pôs aquela apresentação no halldas “esquecíveis” de meu currículo. Mas ainda bem que o tempo passou…

Quando uma nova apresentação de Jim e William foi anunciada em São Paulo, corri para garantir meu ingresso por um motivo muito simples: para mim, o JAMC (assim como o Interpol) não funciona a céu aberto. Sempre quis vê-los num minúsculo pub esfumaçado. Mas como quem não tem cão caça com gato, o Tropical Butantã abrigaria minha primeira vez com os ourives do shoegaze com um teto sobre minha cabeça. Na plateia do último 27 de junho, noite de Popload Gig, cabelos grisalhos davam o tom (eu, incluso). E tudo o que queríamos era, ao menos, um arremedo do que este gigante alternativo proporcionou a três décadas: um infinito universo de possibilidades sonoras, encharcadas de microfonias, sobreposição de efeitos fuzz e letras melancólicas. Expectativa grande, casa cheia e eis que, com pouco menos de quinze minutos de atraso, Will (guitarra) e Jim (voz) adentram o palco ladeados pelo baixista Mark Crozer, pelo baterista Brian Young e pelo outro guitarrista Scott Van Ryper.

“Amputation” abriu os trabalhos com um certo ar de nostalgia porque a bolacha que a abriga como faixa de abertura (Damage And Joy) é uma compilação de sobras de estúdio da banda durante um dos períodos em que William e Jim não se falaram. Aliás, chuto que das mais de cinquenta primaveras que a dupla tem de vida, em 70% delas um desejou ver o outro no fundo de um penhasco ou de uma piscina. Não se suportam. Se aturam. Mas ninguém quer saber disso.

“April Skies” mostrou à plateia como seria o tom da apresentação. A minimontanha de amplificadores montadas no palco foram ajustadas no volume cem para delírio dos presentes (eu incluso de novo). No palco, a fumaça artificial, iluminação etérea e a proposital contraluz entregavam que a música (pura e simples) seria a estrela da noite. Em “Head On”, emocionados semblantes cantavam o refrão em uníssono. Em “Blues From A Gun”, a potência dos equipamentos foi testada ao máximo. A impressão que se tinha é que ursos polares acordaram no Ártico com o volume das guitarras de William e Van Ryper. A performance do último, aliás, merece destaque: com trejeitos insanos e surrando o instrumento, o guitarrista lembra (e muito) Jonny Greenwood, a seminal guitarra do Radiohead. “Between Planets” pôs os esqueletos acima dos quarenta anos para chacoalhar, “The Living End” trouxe a divina sujeira de Psychocandy à tona e “All Things Pass” (a melhor faixa de Damage And Joy) teve efeito hipnótico ao recinto. O volume altíssimo dava às cartas à medida que apresentação se encaminhava para o fim da primeira parte magistralmente fechada com “Reverence”. Sujeira? Microfonia? Pra caralho! Graças a Jesus!

O bis se iniciou com um filme na cabeça de todos os presentes. Se tem algo que me deixa puto, é constatar que “Just Like Honey” jamais é citada em listas de “melhores canções de todos os tempos”. Dane-se! No top ten de meu coração, ela sempre figurará. A seguir, a execução de “Cracking Up” deve ter rendido uma multa ao Tropical Butantã por excessivo barulho após às 22h. Ainda atordoado e sem perceber a rapidez da apresentação que descia como água, o público viu o teto tremer, devido à exacerbada microfonia de “In a Hole” e celebrou “I Hate Rock ‘N’ Roll” como o fim do mundo que todos alí queriam ter.

Ao final, luzes acesas, amplificadores ligados e microfonia latente. Um público em êxtase por, finalmente, ver o gigante escocês do shoegaze numa sonora cápsula particular que fez nosso mundo girar ao contrário por noventa minutos. Zumbidos acompanharam o sistema auditivo de cada um no caminho de casa. Mas quer saber? Com certeza, ninguém reclamou. Afinal, a volta de Jesus entre os seus seguidores nunca foi tão saborosa.

Set list: “Amputation”, April Skies”, “Head On”, “Blues From a Gun”, “Mood Rider”, “Black And Blues”, “Far Gone And Out”, “Between Planets”, “Taste Of Cindy”, “The Living End”, “Never Understand”, “All Things Must Pass”, “Some Candy Talking”, “Halfway To Crazy” e “Reverence”. Bis: “Just Like Honey”, “Cracking Up”, “In a Hole”, “War On Peace” e “I Hate Rock’n’Roll”.

Movies

Creed II

Continuação do sucesso de 2015 consegue empolgar mas ainda permanece à sombra dos clássicos do boxeador Rocky Balboa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Em Creed II (EUA, 2018 – Warner), continuação do universo Rocky, Adonis Creed (Michael B. Jordan) revive fantasmas do passado ao enfrentar Viktor Drago, o filho do homem que matou seu pai (Ivan Drago, interpretado por Dolph Lundgren). Assim como em seu predecessor, os eventos do ringue são a parte mais importante da trama . E o filme não almeja esconder isso.

O reencontro multigeracional das famílias Creed e Drago é um dos pontos mais explorados da narrativa deste longa, que tem seus problemas. Desta forma, o arco de Adonis é construído em cima da imagem do pai, seja via roteiro ou pela narrativa visual, que ostensivamente enquadra o protagonista abaixo de uma figura de Apollo. Por outro lado, o mesmo arco pelo qual o personagem de Jordan passa satisfaz o espectador, em uma atuação vibrante deste. Ainda que não supere Killmonger, seu vilão em Pantera Negra (principal filme da Marvel no ano passado), o ator consegue viver as enxutas nuances escritas para seu personagem.

A rasa construção em tela de Ivan e seu filho os torna vilões de motivação fraca. Viktor (Florean “Big Nasty” Munteanu), por exemplo, apresenta poucas falas durante o longa. A falta de carisma e talento de Sylvester Stallone (que volta a viver Rocky Balboa) anula momentos arquitetados visando o impacto emocional, motivo de seu conflito interno parecer pouco aproveitado. Por fim, temos Tessa Thompson reprisando seu papel como Bianca. Sua interação com Jordan é satisfatória, criando uma das melhores químicas do filme. Porém a personagem faz parte de mais uma subtrama pouco aproveitada na história.

Ainda assim, o roteiro de Stallone e Juel Taylor é bem dirigido por Steven Caple Jr, que não diferencia em muito o estilo de Creed II e seu antecessor de 2015. As cenas de luta criam um aguçado senso de urgência. Por outro lado, quando longe da ação dentro do ringue, o filme tende a ficar maçante. Escolhas estilísticas óbvias – como o contraste entre tons quentes e frios para diferenciar Adonis dos Drago e a ostensiva câmera na mão ao retratar os russos – e o uso de montagens musicais, marca dos clássicos filmes de Rocky, são escolhas razoáveis do diretor apesar de utilizadas repetitivamente. Desta forma, ao tentar inovar, Caple Jr cai em conhecidos clichês e, ao repetir as convenções que consagraram a série de Stallone, mergulha na fonte da nostalgia sem resultados arrebatadores.

Mantendo-se à sombra dos longas de Rocky, Creed II consegue empolgar mesmo que seus conflitos e subtramas não sejam desenvolvidos a ponto de torná-lo um filme de camadas. Se você busca por escapismo, cenas de ação tensas e uma trilha sonora repleta de boas faixas de hip hop, com certeza não vai se decepcionar.