Movies

Frozen 2

Princesas que se tornaram o símbolo do empoderamento feminino nas animações da Disney voltam em história de encher os olhos

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Divulgação

Seis anos atrás a Disney lançou aquele que seria um marco entre suas animações. Frozen trazia duas princesas protagonistas (nenhuma delas buscando seu príncipe encantado!) e uma mensagem atual de poder feminino que até então não tinha sido mostrada em suas produções. Anna e Elsa se tornaram ícones, Olaf derreteu corações pelo mundo e a canção “Let It Go” torturou pais e virou hino de libertação.

Agora, depois de muita especulação e espera, chega aos cinemas Frozen 2 (Frozen II, EUA, 2019 – Disney), que vai além de ser uma mera continuação da história das irmãs. Este segundo filme ressignifica muito do que aprendemos no primeiro e se torna, por diversas razões, melhor que o longa de 2013. Desta vez, Anna e Elsa precisam partir para um lugar desconhecido em busca de um segredo do passado que pode salvar ou condenar a todos no reino de Arendelle. Ao seu lado, Kristoff, Olaf e Sven acabam formando praticamente uma equipe de super-heróis em um filme dos Vingadores, onde cada um tem sua habilidade e seu momento de brilhar. Com muito mais aventura e mais momentos dramáticos, Frozen 2 potencializa o primeiro filme. Mas também nos mostra um novo mundo e mais sobre quem são na verdade Anna e Elsa.

Se alguns anos atrás criar água em animação era um desafio, o longa deixa bastante claro que isto foi superado. As sequências envolvendo o mar são de encher os olhos, tecnicamente perfeitas. Também mostram o poder de elevar o primeiro filme. Tudo aqui tem mais brilho, mais textura, mais movimento.

Anna e Elsa vão de meras princesas a super-heroínas de botas e calças, cavalgando e enfrentando sozinhas perigos até então desconhecidos. Novos números musicais pontuam o filme carregando na emoção e o “momento Let It Go” não decepciona. Algumas cenas incríveis de Frozen 2 ficam por conta de seus coadjuvantes: a sequência em que Olaf faz um recap do primeiro longa é impagável e o momento boy band de Kristoff, com direito até a referências a “Bohemian Rhapsody”, do Queen, merece ser visto e revisto (além de deixar a música grudada na cabeça!).

O novo longa estreia no dia 2 de janeiro no Brasil, após já ter quebrado recordes de bilheteria nos EUA e como fortíssimo candidato ao Oscar de melhor animação. Ainda que a briga seja dura entre ele, Toy Story 4 Como Treinar Seu Dragão 3, que nosso amor por Woody, Buzz e Banguela seja imenso e ainda que todos eles tragam histórias emocionantes, Frozen 2 está algumas cavalgadas à frente de seus concorrentes.

Movies

Rocketman

Musical surrealista aborda os intensos conflitos por trás da persona que tornou-se astro do rock sob o nome de Elton John

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

O nicho das cinebiografias sofreu um baque recentemente, pro bem ou pro mal, com Bohemian Rhapsody. Dexter Fletcher, o diretor chamado para apagar o incêndio de Bryan Singer no “filme do Queen”, também é responsável pela realização de Rocketman (Reino Unido/EUA, 2019 – Paramount), a ficção em torno da história do cantor e compositor Elton John. Talvez por isso os filmes compartilhem muitas similaridades.

A estrutura narrativa é, de certa forma, muito parecida. Elton conta sua história para um grupo de reabilitação, rememorando situações boas e ruins de sua trajetória. A infância difícil, o estrelato meteórico e o abuso de drogas e sexo são grandes temas da trama, todos tratados com maior densidade do que em Bohemian Rhapsody. Ainda assim, as comparações desta resenha não passam daqui – Rocketman é uma obra completamente independente de Bohemian Rhapsody e deve ser tratada como tal.

O surrealismo com o qual Fletcher trata a construção de camadas do filme é uma surpresa ótima. Artista e plateia flutuando; extensas e bem coreografadas cenas musicais; devaneios em tela, quase como alucinações. Estes são meros exemplos, dos quais o mais divertido é, por sua metalinguagem, Elton John transformando-se num foguete. Desta forma, o longa se propõe a adentrar a história do astro tornando clara sua capacidade ficcional – a inspiração na vida dele não faz deste um filme puramente factual. Assim, o roteiro de Lee Hall tem maior abertura para seu dinamismo. Hall trafega por diversos momentos da história de Elton, explorando principalmente a relação entre astro e mero humano (Reginald Dwight, seu eu anterior à fama), com fluidez. Ainda assim, o filme parece por vezes ter pressa em alcançar seu ponto de maior conflito, o fundo do poço do artista, ainda que funcione.

O principal vetor, no entanto, que conecta os episódios temporais do longa com eficiência é seu elenco, com atuações de tirar o chapéu. Matthew Illesley e Kit Connor interpretam Reggie em sua infância e pré-adolescência, ambos satisfazendo o personagem, mesmo com pouco tempo em tela. Resta a Taron Egerton transmitir os traços mais desafiadores de Reginald/Elton. E ele o faz com maestria. Sua ótima atuação torna-se ainda melhor quando contracena com Jamie Bell (que interpreta brilhantemente o parceiro letrista Bernie Taupin injetando camadas de maneira muito verossímil) ou com Richard Madden (que performa o subaproveitado empresário/namorado John Reid, extraindo do personagem um vilão satisfatório). Bryce Dallas Howard e Gemma Jones, o núcleo familiar do filme (fazem a mãe e avó de Reggie, respectivamente), também entregam majestosamente suas personagens.

Porém, por conta da já mencionada inquietação do roteiro, o longa-metragem é musical demais e, evitando comparações, torna-se cansativo ao apresentar montagens “inventivas” somente para avançar a trama temporalmente. Ou seja, existem poucos momentos de diálogos entre uma peça musical e outra – todas as montagens citadas são mescladas nelas. Claro, a música é de Elton John, o que torna o ritmo repetitivo menos entediante.

Rocketman insiste em apresentar o lado humano de Elton John (ou o Reginald Dwight por trás da persona criada pelo astro), transparecendo todas as facetas do personagem em suas duas horas de duração. Seu protagonista borra a linha cinza entre o certo e o errado, fato que o filme entrega sem moralismo algum. Dessa forma, a excelente trilha sonora embala a apressada história, que por sua vez se sustenta pela majestosa atuação de todo seu elenco, acompanhada de uma boa dose de surrealismo, para desprender o filme de seu inspirador. Ficção é ficção. A “história como de fato aconteceu” não protagoniza nem documentários, quem dirá este Rocketman.

Movies, News, TV

Oscar 2019

Oito motivos para você não se esquecer da cerimônia de entrega dos prêmios Academy Awards deste ano

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução

Queen

Muita gente pode ter se perguntado: o que diabos o Queen faria lá no palco do Dolby Theatre em Los Angeles na cerimônia do Oscar em 2019? Afinal, até então, o privilégio para a apresentação de números musicais ao vivo era dado somente às canções originais concorrentes na categoria. A dúvida se desfez logo após a primeira batida da noite deste 24 de fevereiro, dando abertura à festa. Sob o comando de Roger Taylor, o “tum-tum-tá” típico de “Will We Rock” colocou de pé as estrelas de Hollywood e todos os especialistas nos bastidores da sétima arte. Logo depois viriam Adam Lambert na voz e Brian May no matador solo de guitarra que conclui o arranjo. Era o Queen (ou o que sobrou dele; ou, para muitos, apenas um cover oficial da própria banda) abrindo alas para Bohemian Rhapsody brilhar na noite faturando o mais alto número de prêmios para um único filme (quatro, no total, incluindo o de ator para Rami Malek, no papel de Freedie Mercury). Logo em seguida, o trio Taylor-May-Lambert emendou a balada “We Are The Champions”, que, originalmente também vem na sequência de “We Will Rock You”, no álbum News Of The World). Jogo ganho. Não só in locomas também ao redor do mundo inteiro. Já que o Oscar quis fazer desta noite uma aposta mais popular e chamativa, conseguiu logo de cara. De quebra, o filme sobre Mercury e Queen ainda uniu novamente a dupla de Quanto Mais Idiota Melhor (Mike Myers e Dana Carvey, eternamente populares pela cena em que seus personagens batem cabeça no carro ao som da parte mais pesada de “Bohemian Rhapsody”) para fazer o anúncio do videoclipe que apresentava a obra como uma das indicadas ao prêmio máximo da noite.

Heróis e vilões

Muito de falou nas últimas semanas sobre quem poderia ser o apresentador oficial do Oscar. Contudo, nenhum ator ou comediante acabou fechando contrato para o papel de âncora. A Academia, então, anunciou que as aberturas dos envelopes seriam feitas por “heróis e vilões do cinema”. Contudo, quem esperava que alguém pudesse surgiu caracterizado com uniformes, roupas, cabelos e maquiagens típicas dos personagens encarnados nas telas, errou redondamente. Por conta de direitos autorais, isso não foi realizado. Entraram, sim, atrizes e atores vestidos formalmente (com exceção da dupla Melissa McCarthy e Bryan Tyree Henry, que partiram de vez pro escracho misturando exageros e símbolos referentes aos longas A Favorita e Pantera Negra). A “Rainha Anne” de Melissa estava com dezenas de coelhos adornando uma capa de cauda longuíssima, por exemplo. Um dos poucos momentos de humor debochado da noite. Valeu a pena.

Lady Gaga e Bradley Cooper

Já era prevista a vitória de “Shallow” como a canção original da temporada cinematográfica. Contudo, o número musical protagonizado pela dupla de atores de Nasce Uma Estrela foi comovente. A balada poderosa – que entre seus compositores, além da Gaga, tem o DJ e produtor Mark Ronson (responsável por muitos discos de primeira, entre eles Back To Black, de Amy Winehouse) e o guitarrista Anthony Rossomando (cujo currículo traz serviços prestados a excelentes bandas indie como Libertines e Dirty Pretty Things) – começou com um playback instrumental na medida para Gaga e Cooper soltarem o gogó de forma franca, sincera e emocional. De quebra, a cantora e atriz ainda tocou piano na parte final do arranjo. Como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo.

Spike Lee

Justiça foi feita a um dos diretores e roteiristas mais importantes do novo cinema autoral norte-americano das últimas décadas. Infiltrado na Klan, uma das obras mais interessantes desta temporada, concorria nas categorias filme, direção e roteiro adaptado. Pode ter perdido nas duas primeiras, mas pelo menos abocanhou uma “consolação de luxo” por contra a história do policial negro que consegue, do modo mais absurdo e inteligente possível, ser aceito nos quadros da organização fascista e racista que tocava o terror nos estados do Sul dos Estados Unidos até bem pouco tempo atrás. Vestido de chofer com a cor violeta dando o tom dos pés ao quepe, ele chegou no palco pulando no colo do apresentador Samuel L Jackson e ainda fez um belo discurso cheio de conteúdo sóciopolítico.

Olivia Colman

Quem também brilhou no discurso foi a atriz britânica Olivia Colman. Ou melhor, no não-discurso. Visivelmente transtornada de emoção e surpresa por ter superado “a favorita” (não dá para escapar do trocadilho infame!) Glenn Close na categoria, ela não sabia se falava, chorava, gaguejava ou mandava beijos para as concorrentes superadas. Com a estatueta na mão, protagonizou informalmente um dos mais espontâneos e engraçados momentos da cerimônia. De quebra quase se pôs de joelhos aos pés de Lady Gaga, que, sentada na fila da frente, retribuiu o carinho também de forma histriônica. E convenhamos: o trabalho de Colman como a Rainha Anne da A Favorita está espetacular. E nem é pela transformação física, de ter ganhado quinze quilos a mais para fazer o papel.

Pantera Negra

Antes de começar a cerimônia, o filme já havia quebrado uma escrita e entrado na História: foi a primeira produção baseada em um super-herói dos quadrinhos a concorrer à premiação máxima da noite. Se o drama com elenco negro e vivido quase que inteiramente na África (no fictício país de Wakanda) não foi agraciado como o melhor longa-metragem da noite, pelo menos saiu com três importantes prêmios técnicos: trilha sonora, figurinos e design de produção (categoria antigamente chamada direção de arte). Sinal de que uma produção caprichada nicho do grandioso público nerd pode, sim, rimar arte com altas bilheterias.

Alfonso Cuarón

Produtor, diretor, roteirista, fotógrafo. Alfonso Cuarón foi praticamente um faz-tudo nas funções mais importantes de Roma. Seu trabalho competentíssimo – e carregado de emoção e lembranças de sua vida na infância – garantiu a ele um excesso de bagagem para a volta para casa: faturou três estatuetas na noite, referentes às categorias filme em língua não inglesa, cinematografia e direção. Não levou a de melhor filme, é bem verdade, embora merecesse também. Entretanto, ninguém pode sair reclamando da falta de reconhecimento de seu múltiplo talento. Muito menos o México, o país onde nasceu. Afinal, a dinastia mexicana de direção no Oscar continua nas mãos de Cuarón, Iñarritú e Del Toro, vencedores dos prêmios nas últimas cinco edições.

Green Book

Como era de esperar, o filme mais mediano – e agradável à maioria das pessoas – foi agraciado com o prêmio principal da noite. Tocando de modo light na questão do racismo (a história se passa no início dos anos 1960, quando a luta pelos direitos civis nos EUA ainda não estava em momento explosivo e tenso) e também passando superficialmente por outros temos polêmicos, incluindo a homossexualidade, Green Book (esqueça o subtítulo pavoroso que o filme ganhou de sua distribuidora no Brasil) favoreceu-se do critério de votação dos membros da Academia. Vale lembrar que desde 2010, quando o número de concorrentes a melhor filme passou de cinco para até dez (são sempre oito ou nove, dependendo do coeficiente de corte na listagem apurada para o anúncio das indicações), todo votante precisa numerar esta lista de um a oito ou nove, segundo sua preferência pessoal. Portanto, aquela produção que fica ali no meio, entre segundo e quarto, justamente por ter o menor índice de rejeição, acaba sendo projetada no cômputo geral dos pesos e levando a estatueta. Foi o que aconteceu agora à história do branco bronco italiano de Nova Jersey que, por necessidade, durante algumas semanas do ano de 1962, trabalha como motorista de um renomado músico de jazz de Nova Yordurante uma turnê por cidades racistas ao sul dos Estados Unidos – e, ao fim da convivência cheia de diferenças culturais e ideológicas, um acaba sendo modificado pelo outro. Nada mais água com açúcar para agradar à maioria das pessoas. E, de quebra, Green Book faturou outros dois prêmios importantes da noite: roteiro original e ator coadjuvante (Mahershala Ali). Pode não ter sido o mais premiado na noite, mas saiu do Oscar 2019 como o principal filme da temporada pela importância das categorias.

VEJA OS GANHADORES DE CADA CATEGORIA

Filme: Green Book: O Guia

Direção: Alfonso Cuarón (Roma)

Atriz: Olivia Colman (A Favorita)

Ator: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)

Canção original: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Trilha Sonora: Pantera Negra

Roteiro adaptado: Infiltrado na Klan

Roteiro original: Green Book: O Guia

Curta-metragem de ficção: Skin

Efeitos visuais: O Primeiro Homem

Documentário em curta-metragem: Period. End Of Sentence

Animação em curta-metragem: Bao

Animação: Homem-Aranha no Aranhaverso

Ator coadjuvante: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)

Montagem: Bohemian Rhapsody

Filme em Língua não inglesa: Roma

Mixagem de som: Bohemian Rhapsody

Edição de som: Bohemian Rhapsody

Fotografia: Roma

Design de produção: Pantera Negra

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Bohemian Rhapsody

Cinebio da carreira de Freddie Mercury à frente do Queen esbarra na postura conservadora e em problemas no roteiro e na direção

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Cinebiografias são uma coisa complicada. Muitas são feitas e poucas delas acabam apresentando algo memorável, aquele resultado convincente que acaba deixando o filme para a posteridade. Se não, mostram-se fogo de palha, uma obra que só se beneficia da memória afetiva de fãs ou pessoas ligadas de algum modo ao meio de quem é biografada(o). Bohemian Rhapsody (Reuno Unido/EUA, 018 – Fox) não foge desta grande galeria de exemplos. Sua proposta é contar boa parte do tempo em que Freddie Mercury ficou conhecido como o vocalista do Queen. Só que patina no meio do caminho e deixa a desejar ao final de suas duas horas e catorze minutos.

Primeiro vamos às qualidades do longa. Rami Malek – que entrou no projeto após a desistência de Sacha Baron Cohen – está irrepreensível na sua atuação como Farrokh Bulsara, o jovem de origem indo-persa nascido na Tanzânia e radicado em Londres desde o fim da adolescência. Incrivelmente parecido nas telas, ele também se traveste de Mercury ao tomar para si a personalidade flamboyant do músico, sempre aultoconfiante e autoindulgente não só palcos mas sobretudo nos bastidores. Da vida em família enquanto ainda trabalhava como carregador de malas nos aviões da pista do aeroporto de Heathrow às festas nababescas com dezenas de convidados que dava em sua mansão, passando pelo início da fama do Queen e a transformação da banda em ícone mundial do rock.

Quem também atua de forma soberba, porém em pouco tempo, é Mike Myers. Transformado em um alienado e pouco ousado executivo de gravadora, o comediante protagoniza uma das melhores cenas: a reunião em que ele conhece a banda que acabou de contratar e quase a perde por não aceitar ouvir a opinião dos músicos. Vale a pena ressaltar a private joke do convite feito a Myers. Ele foi o protagonista do filme Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne’s World, no original), lançado em fevereiro de 199 e que o levou de vez da televisão para o cinema. A cena em que os jovens Wayne e Garth balançam freneticamente a cabeça dentro de um carro ao som de “Bohemian Rhapsody” levou a música novamente ao topo das paradas norte-americanas dezessete anos após o seu lançamento.

A trilha sonora, óbvio, também favorece. Ouvir trecho de alguns dos maiores hits do Queen sentado na poltrona do cinema é uma experiência prazerosa. Conhecer detalhes por trás da criação de alguns deles ainda pode adoçar mais a vida de quem curte o quarteto. Quando o foco da cena são os shows, então, é para se esbaldar, como na hora em que se mostra a participação de Merucry, Brian May, John Deacon e Roger Taylor no Live Aid, em julho de 1985.

Entretanto, há detalhes que pendem para o desequilíbrio e fazem Bohemian Rhapsody desperdiçar a oportunidade de ser uma obra fenomenal. Primeiro há a decisão de Roger e Brian, produtores executivos do filme e os músicos que excursionam sob o nome Queen hoje em dia (John ainda tem participação na banda mas preferiu se aposentar dos palcos), por fazer um filme “família”. Isto é, não mostrar todos os exageros de Mercury e cortar do recorte biográfico todo o tempo em que a banda se retirou dos palcos em virtude da doença de Mercury – o que durou de 1986 a 1991, até o vocalista falecer em decorrência do vírus HIV em novembro daquele ano. Muito provavelmente o motivo por esta opção tenha sido o financeiro: um acordo com um grande estúdio e a possibilidade de ganhar mais bilheteria ao redor do mundo, inclusive não limitando a faixa etária do longe. Algo que não traz riscos é bastante conservador e isso não passou despercebido pela crítica, muito menos por Baron Cohen, que, doido para construir mais um personagem histriônico em sua carreira cinematográfica, pulou fora da barca.

O roteiro também mostra muitos descompassos temporais ou conceituais com relação às músicas do Queen. Exemplos? Os dois primeiros discos são solenemente esquecidos e muita gente pode sair com a impressão de que o início do sucesso veio somente com o hit “Killer Queen”, do terceiro trabalho da banda, Sheer Heart Attack, lançado no finalzinho de 1974. “We Will Rock You” aparece sendo composta bem depois de 1977, quando a faixa chegou às lojas abrindo o álbum News Of The World. Durante a criação do arranjo de “Another One Bites The Dust” fala-se da necessidade da incorporação de sons de sintetizadores. OK, a faixa está no álbum The Game, lançado em 1980 e que trazia estampado em sua contracapa o aviso de que este era o primeiro trabalho do Queen que utilizava este instrumento. Mas cadê ele nesta música? Mais pro final, fala-se em um longo hiato do Queen, no qual o vocalista aproveitou para desenvolver uma carreira solo. Bobagem. Freddie tocou as duas coisas meio que em paralelo, sem dedicar longos espaços para um lado ou para o outro. Em janeiro de 1985, a banda foi um dos destaques da primeira edição do Rock In Rio, em dois shows destacados até hoje pelos próprios músicos. Mas o roteiro desse filme não só ignora isso como ainda força a barra dizendo que a banda estava havia muito tempo se tocar ao vivo antes do Live Aid, em julho do mesmo do mesmo ano.

Houve também sérios problemas no set. O diretor Bryan Singer acabou expulso do projeto por conta de comportamento inadequado e falta de profissionalismo, com direito a atrasos constantes e brigas com a equipe de produção e os atores – em uma delas chegou a arremessar um equipamento pesado na direção de Malek. Seu nome só continuou na ficha técnica porque ele já havia feito dois terços do trabalho e, mesmo assim, deixando boa parte das cenas para serem rodadas a cargo do diretor de fotografia por se ausentar das filmagens em períodos não autorizados. O britânico Dexter Fletcher (mais conhecido por ter feito Voando Alto em 2015 e também ator) foi contratado às pressas para juntar os pedaços que já haviam sido feitos e terminar os trabalhos (por causa de regras do sindicato dos diretores, não tem direito a ser incluído nos créditos). Toda essa instabilidade provocada por Singer ocasionou uma inevitável quebra na unidade estética do filme.

Por fim, Bohemian Rhapsody passa a sensação de estar mais para um misto de drama da televisão mexicana com novela menos inspirada de Gloria Perez. Insiste em bater na tecla da heterossexualidade de Mercury (que compôs “Love Of Life” para uma namoradinha da juventude que acabaria por se tornar uma grande amiga ao longo do tempo), esconde todo o período barra-pesada da doença, toca apenas na tangente dos excessos descontrolados de drogas e sexo.

Sabe aquele filme sem cortes e pronto para passar na TV e ser visto por toda a família “de bem” que consome a música, aprova a banda, vai vê-la tocar nas próximas edições do Rock In Rio e sempre canta “We Are The Champions” quando a música é executada em associação a alguma celebração da meritocracia? Bem isso daí. Tudo fica apenas no nível do entretenimento raso e descompromissado com algo além do momento. Por enquanto, só resta ficar com a expectativa de algum dia venha uma outra cinebiografia realmente compensadora de Freddie Mercury.