Music

Chico Bernardes

Um papo sobre passado, presente, futuro, tecnologia, influências diversas e as comparações com o irmão Tim e o pai Mauricio Pereira

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Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Zoé Passos/Divulgação

Quando se nasce numa família musical, é natural tomar o mesmo rumo na vida. Chico Bernardes não se incomoda com o sobrenome. Pelo contrário. Ser conhecido como o irmão de Martim, o Tim, cantor e compositor d’O Terno que também desenvolve carreira solo, é motivo de orgulho. Chico é o caçula da família Bernardes Pereira e, assim como Tim e a irmã, a atriz Manuela Pereira, herdou a veia artística do genial músico paulistano e vanguardista Maurício Pereira, jornalista e criador do duo Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra. Maurício foi também crooner da Banda Fanzine, do saudoso programa apresentado por Marcelo Rubens Paiva na TV Cultura, numa época quando ainda fazia sentido assistir a uma televisão de sinal aberto de boa qualidade.

Portanto, aquela história que os pais costumam dizer aos filhos, a de que “não faça música porque não dá dinheiro”, simplesmente não cola numa família extremamente criativa com essa. Chico até tentou resistir, mas a arte foi maior que ele. Cinco anos após começar a tocar e compor, o garoto de cabelos volumosos e estilo hipster já é multiinstrumentista (violão, piano, bateria). Em junho de 2019, aos 20 anos de idade, lançou seu álbum de estreia Chico Bernardes, autoral, sincero e com arranjos elaborados, que traz canções folk ao estilo Nick Drake, um de seus mestres inspiradores. As letras são poéticas reflexivas, existenciais, com versos de um romantismo doce, porém bastante maduros para a idade dele. Como “Um Astronauta” (“Um astronauta de bom coração/ Demorou muito pra reconhecer/ Que as estrelas que tanto estudou/ Brilham bem menos do que as que deixou/ Em seu planeta”) ou sua primeira canção, “Vago”, escrita aos 15 anos (“Eu não sei o que deu em mim/ De repente eu vi o mundo assim/ De um jeito mesclado de informações/ Complexos gostos e opiniões/ Absolutas verdades em expressões).

Recentemente, Chico pegou seu violão e viajou pela primeira vez sozinho, sem assessores ou amigos, com destino a Curitiba, onde apresentou um show intimista na Casa Quatro Ventos para um público restrito. Foram 11 músicas no set list, com apenas duas covers: “True Love Will Find You In The End”, de Daniel Johnston (falecido em setembro do ano passado) e regravada por gente como Beck e Wilco, e uma delicada versão de “Maria”, de Gilberto Gil. Ao final da apresentação, ele recebeu calorosamente a reportagem do Mondo Bacana para conversar sobre passado, presente e futuro.

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PASSADO

Como foi que você resolveu trilhar o mesmo caminho que seu pai e irmão?

Quando eu era pequeno, não tinha intenção alguma em fazer música. Falava não. Meu irmão já estava começando a carreira, já estava estudando. E eu falava que já tinha  músico demais na família, que não iria ser músico. Mas, aos 15 anos, comecei a tocar bateria numa banda com os amigos e a gostar de tocar violão. Depois, comecei a compor. E então fiquei meio maravilhado. Com 17 me formei e tive de decidir o que eu ia fazer. Prestei Jornalismo, mas não estava muito a fim. Pensei em Psicologia, mas também não estava muito a fim. Entrei em Música e decidi que ia focar nessa área.

A música então está em seu DNA? Você chegou a resistir a trabalhar com isso, mas foi algo mais forte?

Existe a influência também de ter acesso muitos recursos para fazer música. Porque não é de uma hora para outra que você escolhe fazer música. E também não é necessariamente um dom. Na minha casa, tenho pai e irmão músicos e instrumentos soltos. Estamos sempre ouvindo música. Até minha mãe, psicanalista, sempre teve um carinho muito grande pela música. Então, o fato de viver num ambiente musical foi o que me levou a isso, mais até do que o fato de meu pai ou irmão serem músicos. Foi de estar ali num ambiente que a música estava rolando e que eu negava. Falava “não, não vou ser músico”. Mas depois eu gostei e fui…

O que você ouvia em casa? Quais são suas referências? 

Muito Beatles. Minhas primeiras lembranças são das viagens de carro que a gente fazia e ia ouvindo música. Lembro de ouvir Beatles, Bob Marley, Police, Chuck Berry, Los Hermanos.

Por falar nisso, o trecho “além do que se vê” na canção “Astronauta” é uma referência a Los Hermanos? 

Acho que foi inconsciente. Só depois que me liguei. Até porque eu ouvia o CD no carro com 7 anos de idade e não lia as letras. Depois que eu vi o encarte e o nome da música, me toquei.

Você nasceu na época do CD e dos iPods. Hoje ouvimos música por streaming. Você acha importante resgatar o estilo retrô de consumir música, como vinil ou fita cassete por exemplo? 

Sim. Lá em São Paulo, estão vendendo pôster, que é só o encarte, sem o CD.

Sua vibe mesmo é bem retrô, pelo seu jeito de se vestir e estilo que decidiu seguir que é o folk. Foi em parte influência do Tim?

Acho que tem um pouco de influência do meu irmão, pelas referências que ele me mostrava quando eu estava na sexta, sétima série. Eu era pequeno e ouvia um monte de coisa, era bem eclético. Daí eu pedi para ele encher meu iPod com algumas músicas. E a partir daí, comecei a gostar de folk. Ele colocou Fleet Foxes, Bob Dylan, que eu escuto até hoje. Mas o engraçado é que as coisas que me pegam não são as mesmas pra ele. Dentro das referências dele, tem coisas que eu incorporei mais.

E de MPB, o que você escuta? 

Depois que eu entrei na faculdade, comecei a ouvir mais MPB. Ouvia muita coisa de fora. Conhecia Caetano, mas pouco. Só depois fui tocar violão e estudar compositores na faculdade que passei a ter mais contato com vários estilos. Teve um semestre que estudei Gil, outro Caetano, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Adoniran Barbosa…

PRESENTE

Como é seu processo criativo?

Pelo fato de eu fazer faculdade de música, posso dedicar meu tempo exclusivamente a isso. Em casa, sento na frente do piano e surgem as ideias. Começo a gravar e vou juntando tudo. Por isso, eu já tenho uma abertura grande. Não é como se eu estivesse, por exemplo, fazendo Administração e no meu tempo vago eu fizesse música. Quando me bate a inspiração, já estou a postos.

Você disse que estava lendo no aeroporto. A leitura te influencia a compor?

Eu não leio muito, mas o que eu leio me marca. Trouxe um livro de contos da Clarice Lispector. Recentemente li O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe.

Clarice Lispector disse que escrever é se expor. Você tem algum receio quanto a isso? É preciso muita coragem para fazer arte?

Antes de me lançar como artista, eu estava com medo do que as pessoas iam achar pelo fato de me sentir exposto, analisado. Mas ao mostrar meu trabalho cada um ouviu e interpretou da sua maneira. Por mais que sejam músicas em primeira pessoa, uma galera coloca o fone e ouve e se vê protagonista. Isso me tranquilizou, mesmo porque meu disco tem temas que todo mundo vive de alguma forma, cada um do seu jeito.

Você se incomoda em ser comparado e rotulado como sendo o irmão do Tim Bernardes?

Eu vejo isso numa boa. Antes eu estava com um pouquinho de medo de ouvirem meu som e falarem “olha aí o irmão do Tim!”. Mas as pessoas estão dizendo: “olha o Chico! Como ele tem coisas diferentes do Tim e do Maurício!”. Estou feliz por ver essa diferença. Porque sempre vão comparar, pois Tim é meu irmão. A gente cresceu na mesma casa e justamente ele montou parte do meu iPod. Ele me ensinou muita coisa. Eu sou o caçula, ele é o mais velho. A gente cresceu junto. Eu vendo de baixo pra cima. Ele vendo de cima para baixo.  Admiro muito o trabalho do meu irmão, assim como o do meu pai. Tenho sua influência, mas o trabalho é diferente, porque temos personalidades muito diferentes. Meu irmão é superfamoso. Muito conhecido por aí, então é normal. Às vezes tem gente que sabe que eu sou irmão dele e fala assim: “gosto muito do seu som e do seu irmão”. Às vezes tem gente que nem sabe quem eu sou, que gosta muito do som dele mas não me conhece. Tem gente que fala também: “gosto muito do som do seu irmão, cheguei no seu som e adorei, tô ouvindo direto”. Acho que é uma ponte também. Existe muito mais vantagem do que desvantagem.

Você disse durante o show em Curitiba que curte fotografar com câmera analógica. Como consegue equilibrar o offline e o online?

Sou meio contra a corrente. Os eletrônicos, em geral, me deixam meio confuso. Fui fazer aula de guitarra antes de tocar violão e é outra relação com instrumento, sempre ligado na tomada, energia elétrica, e volume… Uma coisa alta, botar um pedal de distorção, uma coisa barulhenta. E eu ia tocando violão ao mesmo tempo. Com o violão, você pode ir a qualquer lugar. Já era. Pronto. Eu e minha família viajamos muito para o campo. Eu sempre levo o violão e fico tocando. Componho muito nessas viagens. Tenho tempo de ficar sozinho e refletir. Gosto muito de estar desconectado, olhar em volta. Não ficar preso a certas tecnologias. Depois disso, fui buscando outras coisas, como tirar foto com câmera analógica. Também tenho uma máquina de escrever, que eu acho muito gostoso de usar. Tocar piano também. São pequenas coisas que deixam o dia menos saturado de informação. Mais orgânico.

Quando ouvi o seu album, tive a sensação de “flutuar”, de estar “desplugada” deste mundo frenético em que vivemos…

Tem gente que acredita em signos também. Eu sou geminiano e dizem que geminianos são uma galera meio avoada. Por isso voltei a ouvir vinil. Porque no Spotify eu escutava uma música, ouvia 20 segundos e clicava em outra. Vinil você ouve inteiro, escolhe a ordem e ouve como foi feito, numa ordem pensada. Você não pega, por exemplo, a cena favorita de um filme e coloca na frente das outras. A música também é uma obra que tem justamente seus momentos organizados.

FUTURO

Como você percebe os jovens da sua geração quanto ao engajamento na arte e na política por exemplo?

Bom, não vou entrar em pormenores de política, mas genericamente quando a gente se vê em tempos tão sombrios é um momento que esse contramovimento faz com que a arte cresça, porque toda essa repressão continua gerando sentimento e os artistas continuam produzindo. Então, por mais que a gente passe por tempos difíceis, os artistas estão produzindo. Por exemplo, se o nosso presidente fala uma cagada sobre o público LGBT, tem músicos, atores, drags, muitas figuras que podem representar esse pessoal e ir contra isso. Esse movimento de resistência ajuda também a nos unir nesse mundo tão solto e tão bagunçado. Acho que na música também tem isso, muitos estilos e gêneros, mas cada um tem sua voz adquirida. Como o pessoal da voz LGBT. O pessoal mais famoso, que tem visibilidade grande, como o Caetano, que está sempre tentando trazer movimentos, como para a questão da Amazônia, e aproveita o sucesso do passado pra realmente se posicionar. O Felipe Neto também tem grande visibilidade e está usando isso pra fazer alguma coisa.

E da atual geração de músicos, como você, quem vai substituir os grandes nomes da MPB?

Não sei, porque sou protagonista da minha vida. Não me vem esse delírio de querer ser uma imagem grande da música, mas de construir a minha história. Acho que a imagem que os outros têm de mim não é o que eu construí exatamente. É algo muito idealizado. Acho que essa ideia de ir construindo uma trajetória é muito mais importante. O sucesso pra mim é construir o que eu acho bonito e ir sempre melhorando. E não o sucesso que outros consideram, como ficar famoso, aparecer na TV. Claro que eu quero também conversar com o público, trazer meus feedbacks, ter uma troca. Mas meu objetivo não é atingir muitas pessoas, até porque é uma exposição muito grande. Sou artista pequeno, tenho visibilidade pequena. Vou fazer um show e, no meio desse caos todo, tão maluco, eu busco tentar fazer algo que saia de mim pra tranquilizar as pessoas, deixá-las confortáveis. Fazer com que elas pensem e tentem atingir um relacionamento delas consigo mesmas. Justamente o que eu falei no show, porque está tudo tão corrido e não conseguimos parar para olhar para nós mesmos. Muita gente evita esse sentimento. Passa a semana inteira trabalhando, faz um monte de coisas, final de semana vai para o bar, enche a cara e não confronta de fato os problemas internos.

Hoje em dia as pessoas terminam relacionamentos via WhatsApp e escolhem parceiros pelo Tinder.

Igual ao iFood. Assustador…

Como você lida com esse mundo digital?

Acho que toda tecnologia tem algo interessante, que avança. Você pode achar alguém interessante no Tinder por acaso. Se não fosse por ele, você não acharia.  Então, é um recurso que pode tornar algo viável. Mas acho que tudo, o Instagram, as mensagens, estão ali para ajudar a gente a ver como estão as pessoas, nossos amigos. Mas aí a gente acaba sabendo tanto que quando a gente se encontra pessoalmente não tem graça. Tem um vídeo que eu vi outro dia com a minha irmã, do Porta dos Fundos, que é um pessoal da firma reunido para jantar. Alguém ia contar uma história e aí todo mundo começou a falar as mesmas palavras porque a pessoa já tinha postado. Ou seja, você já postou. Eu já sei o que está acontecendo. Não é nenhuma novidade pra mim. Isso eu acho que passa um pouco do limite, mas, claro, a tecnologia ajuda a gente. Só não podemos abusar muito dela, porque fica meio confuso.

O Instagram e o Facebook são ferramentas importantes para divulgar o seu trabalho?

Sim, o Instagram eu uso geralmente para divulgar o trabalho. O Facebook eu uso para evento e trabalho da faculdade, quando o pessoal cria grupo. Mas não fico mais lá perdendo tempo. Depois, quando a gente precisa desse tempo, você se pergunta o que aconteceu lá atrás e o que você fez.

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Vanguart

Quarteto faz sua homenagem ao ídolo Bob Dylan em álbum-tributo que reúne muitas faixas de sua fase áurea nos anos 1960 e 1970

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Juan Pablo Mapeto/Divulgação

Bob Dylan é um gênio com suas crônicas e poesias rimadas e musicadas no gênero folk. Por conta de sua complexidade e riqueza artística incomparável, ouvidos menos treinados sempre encontrarão certa dificuldade em absorver sua arte. A voz rouca e o timbre anasalado do cantor e compositor norte-americano podem soar um tanto enjoativo para alguns e as canções quase intermináveis são compridas demais para cativar a atenção das novas gerações acostumadas com a fluidez das coisas. Acompanhar “Hurricane” do começo ao fim, por exemplo, exige uma dose extra de paciência.

Por isso, o recém-lançado álbum do Vanguart é um alento para quem gosta de Bob Dylan. Com uma roupagem despretensiosa e leve, Vanguart Sings Dylan (DeckDisc) é perfeito para se ouvir numa manhã de domingo ou durante uma loooonga viagem ao lado de uma agradável companhia, o que renderá um bom papo cabeça durante o percurso.

A bem da verdade as versões não são tão vanguardistas e seguem à risca o jeito Dylan de ser. Há covers que de tão fiéis às originais ficam quase impossíveis de se distinguir até surgir o vocal. Como “Hurricane” (que conta a história da prisão indevida do boxeador Rubin “Hurricane” Carter) interpretada pelo guitarrista David Dafré (que recebeu esse fardo por saber a letra com 880 palavras de cor).

A banda do vocalista Helio Flanders pode até resistir em inovar nos covers até mesmo para não macular a obra do bardo, mas nos presenteia com surpresas como a bela interpretação da violinista Fernanda Kostchak em “The House Of The Rising Sun”. À medida que se vai escutando o álbum fica clara a intenção da banda em gravar um tributo reverenciando o compositor, instrumentista autodidata, que foi grande influência para dezenas de artistas mundo afora. Aliás, essa homenagem até demorou para ser gravada em disco, porque o Vanguart sempre flertou com Dylan, tocou-o ao vivo e até gravou um especial com covers dele para o Canal Bis.

O deus do folk era respeitado, venerado no meio artístico, sobretudo nos anos 1960 e 1970 e continua sendo um grande influencer para artistas contemporâneos. Entre seus principais discípulos estão Beatles (a quem Dylan teria introduzido a marijuana) e Rolling Stones (que regravaram o clássico de Dylan “Like a Rolling Stone”). Claro que é preciso uma certa dose de preparo para consumir suas composições com seis, oito minutos de duração e seus versos com rimas impecáveis. Goste ou não, Dylan é nome de mestre. Que aprendeu de ouvido a tocar piano e violão. E com seu olhar detalhista, a observar e traduzir o mundo e suas reviravoltas, o que lhe rendeu um prêmio Nobel de literatura em 2016.

No Brasil, ele continua sendo fonte de inspiração para muitos cantores – principalmente do Nordeste – que se aventuraram no árduo e complexo trabalho de traduzir o punhado de canções mais famosas e transpor os versos em inglês impecável para a língua portuguesa. O primeiro que me vem à cabeça e cuja aura mais se aproxima do norte-americano é Zé Ramalho. O paraibano lançou em 2008 um disco com versões de Dylan, como “Knockin’ On Heaven’s Door” Mas a tradução fidedigna do refrão, por exemplo, destoa da versão original: como encaixar “céu” no mesmo acorde de “door” (“Bate, bate, bate na porta do céu”)?.

Outra versão que deve ter dado trabalho foi a de “Romance em Durango” gravada pelo cearense Fagner, que nos primeiros versos dá uma velocidade que mais parece um desespero atropelado para casar letra e música. As rimas originais desaparecem na tradução também fiel à original. A primeira estrofe (“Hot chilli peppers in the blistering sun/ Dust on my face and my cape/ Me and Magdalena on the run/ I think this time we shall escape”) se transformou em “Pimenta quente no sol escaldante/ Poeira no meu rosto e minha capa/ Eu e Madalena na corrida/ Acho que desta vez vamos escapar”.

Esses exemplos levam a concluir que a arte de Bob Dylan deve se perpetuar na língua inglesa. É preciso ouvi-lo no original, caso contrário, pode se perder todo o sentido. Por isso, o álbum de Vanguart é tão significativo por respeitar a voz e a língua do compositor.

Quinze das dezesseis faixas contemplam a primeira fase da sua obra entre suas décadas mais expressivas. Começa com baladas mais suaves como “Tangled Up In Blue” e “Don’t Think Twice it’s All Right”, “Just Like a Woman” (com a clássica gaita na introdução), “Hurricane” e “Like a Rolling Stone” aparecem em sequência, mais para o final do álbum que encerra com a obra-prima “Blowin’ In The Wind”, hino entoado em coro pela banda. Claro que faltam singles bastante conhecidos, como “Knockin’ On Heavens door” (escrita em 1972 por Dylan para o filme Pat Garrett & Billy The Kid) e “Mr. Tambourine Man”. Entrada e prato principal para um segundo Vanguart Sings Dylan, quem sabe.

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Father John Misty – ao vivo

Imbuído do charme canastrão e da persona sarcástica de seu alter-ego, Josh Tillman faz show histórico em SP

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Texto e foto por Fabricio Zorzella

Num gélido domingo de 26 de agosto, a parceria entre os cariocas do Queremos! e os paulistas da Popload trouxe para São Paulo a performance do alter-ego de Joshua Tilman, chamado Father John Misty, para tocar no remodelado Auditório Simón Bolivar, dentro do Memorial da América Latina. Parceria essa que deu certo naqueles dias com a vinda de outras das atrações do Queremos! Festival do Rio para tocarem em São Paulo, como no caso do Animal Collective e Cut Copy.

Conheço FMJ desde o lançamento do álbum I Love You, Honeybear em 2015! Na época, curtia, mas as músicas não me batiam tão forte a ponto de ir para um show… Mas foi com o lançamento de Pure Comedy, em 2017, e as influências que vão de Elton John até Bob Dylan se acentuando ainda mais que comecei a virar fã de carteirinha. Fiquei na época até bem chateado que ele acabou não tocando no Primavera Sound do ano passado.

Ai chegamos neste ano de 2018, com a divulgação do novo álbum (o excelente God’s Favourite Customer), os novos singles, a turnê mundial. E, de repente, um Queremos! Festival. Até comprei o ingresso para o evento para garantir vê-lo, embora no fim tenha vendido quando foi anunciada a apresentação de São Paulo. Deu tudo certinho no fim!

Voltando para o dia 26 de agosto, o que foi visto era um remodelado auditório com 70% da capacidade cheia (o lado de lá da venue estava consideravelmente vazio). Lá estava uma banda absurdamente bem ensaiada e um Josh que a cada duas ou três músicas invertia o lado para ninguém que pagou (eu diria um preço “carinho”) se sentir menosprezado e prometia: “I will do my best to look in everyone’s eyes, I promise”. Lugar marcado que, aparentemente, todos respeitaram… até não dar mais!

“Nancy From Now One” e “Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)” abriram magistralmente a apresentação, dando o tom do que viria pela frente! As sequências entre “Mr. Tillman” e “Total Entertainment Forever” e “Please Don’t Die” e “I’m Writing a Novel” eram daqueles momentos para se sair e pagar de novo o ingresso, tamanha a performance! Ponto um pouco negativo para a casa ficava para a equalização do som que estava exagerando nos agudos. #fikadika para as próximas!

Mas quando Josh não fica “preso” em nenhum instrumento e pode desfilar para os dois lados da plateia à vontade, esbanjando todo o seu charme canastrão e sarcasmo peculiares de sua persona John Misty, que aquele toque especial é dado para a noite. Isso aconteceu em “Hangout At The Gallows”, “Bored In The USA”, “Date Night” e “Pure Comedy”, ainda na primeira parte do set. A belíssima “God’s Favourite Customer” com FJM tocando tecladinho, e o principal single da carreira, “I Love You, Honeybear”, vieram para encerrar o set.

No bis, fomos agraciados de tudo. Teve “The Palace” na galera (no meu lado… hahaha!). Teve a chiclete “Real Love Baby” com o povo levantando (finalmente!) para dançar. Teve “So I’m Growing Old On Magic Mountain” com a galera sendo convidada a ficar ao redor dele. O fim veio com duas deep cuts do álbum de 2015: “Holy Shit” (com o povo sendo convidado a descer do palco!) e “The Ideal Husband” (música mais Crocker de toda a carreira do ex-baterista do Fleet Foxes… sorry “Hollywood Forever Cemetery Sings” por isso!).

Talvez preferisse ter visto em pé e pulando em várias músicas? Acho que sim. Mas valeu cada centavo da experiência (meu nome ainda estava no pôster oficial)! Faltaram “Strange Encounters”, “True Affection”, “Birdie” e “Just Dumb Enough To Try”? Talvez… Mas teremos outras oportunidades. Tomara que Josh continue fazendo álbuns tão bons pela frente e venha mais vezes para o Brasil! Ou calhe de tocar em algum fest na gringa para o qual eu acabe indo! E que a Popload e o Queremos! façam mais parcerias pelo bem da boa música!

Set list: “Nancy From Now On”. “Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)”, “Only Son Of The Ladiesman”, “Disappointing Diamonds Are The Rarest Of Them All”, “Mr. Tillman”, “Total Entertainment Forever”, “Ballad Of The Dying Man”, “Hangout At The Gallows”, “Bored In The USA”, “Please Don’t Die”, “I’m Writing A Novel”, “Date Night”, “Hollywood Forever Cemetery Sings”, “Pure Comedy”, “God’s Favorite Customer” e “I Love Houy, Honeybear”. Bis: “The Palace”, “Real Love Baby”, “So I’m Growing Old On Magic Mountain”, “Holy Shit” e “The Ideal Husband”.

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Fall – ao vivo

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Texto por Cassiano Fagundes

Foto: Reprodução

Vi o Fall ao vivo duas vezes: em 1989, no Canecão, no Rio; e em 1999, em NYC, aquela cidade lá no grande norte do supercontinente. O show do Rio marcou minha vida. Eu tinha apenas 16 anos, e estava com o meu primo, o Guilherme, meu companheiro de sons até hoje. O show do Rio mudou minha vida.

Por quê? Primeiro, porque a plateia ficava sentada em mesas compridas, dividindo-as com estranhos. E quem sentou conosco? LULU SANTOS. Lá pela terceira canção, ele se levantou e foi embora. Na cabeça de um piá de 16 anos, aquilo significou: “que babaca, que careta do cacete, que bostalhão”. Talvez ele estivesse com dor de dente. Talvez tivesse lembrado de fazer uma ligação urgente e saiu procurando o orelhão mais próximo. Ou talvez tenha sido atingido por uma ideia fulminante de canção, e teve que encontrar o violão mais próximo para compô-la. O lance é que isso ficou em mim como algo não muito legal.

Segundo, porque Mark E. Smith estava particularmente inspirado naquela noite. Não fazia muito tempo que seu casamento com Brix (por quem eu tinha um desejo adolescente muito fértil) tinha terminado. Eu e meu primo chegamos a achar que vimos em determinado momento meia lágrima escorrer de seu rosto.

Terceiro porque foi ali que entendi que músico é uma coisa e artista é outra um pouquinho ou muito diferente – e para mim, bem preferível. No Canecão, nasceu em mim a ideia de que artistas que se servem da música de uma forma pervertida para criar seus esquemas são os únicos dignos de nota, o resto é reprodutor de fórmula, por melhor que sejam (tipo aquele cara que deixou o show cedo demais). Sem menosprezar os galináceos, digo que até galo depenado canta bem (parafraseando um senhor iluminado que me disse isso e de quem nunca esquecerei), mas prefiro a elocução que se tornou uma gema da língua inglesa falada, que é a de Smith em canções como “Wrong Place, Right Time” ou “Frenz”, que tem sussurros de Brix, a responsável por tornar o som do Fall mais “palatável” para os ouvidos mais sensíveis do além-mar estadunidense e de quebra, brasilianos.

Se o Ruy Castro não curte Bob Dylan, ele certamente não gostaria do canto descantado e declamante de Mark E. Smith. Não vou xingar o Ruy Castro por isso, ele é um gigante, talvez não tenha uma ligação suficientemente íntima com as línguas germânicas para entender seus arranjos estéticos (se bem que nem precisaria de muito conhecimento, né? É só curtir a onda, como eu mesmo faço, na maior parte do tempo). E nem vou xingar o Lulu Santos, que, bem ou mal, compôs algumas das canções mais memoráveis da música popular. Já essa gente que reproduz sem nenhuma vergonha a estrutura escravagista luso-brasileira do século 16 sem se dar conta que está na senzala, junto com os famintos e bem longe da Casa-Grande, eu faço questão de dizer: FODAM-SE!!!

Ah, claro: o show de 1999 em Noviorque foi aquilo que John Peel dizia sobre o Fall: Sempre igual, sempre diferente.

Vale terminar esse texto dizendo que Mark E. Smith era da classe trabalhadora inglesa, assim como a maioria esmagadora dos bastiões de sua geração, que compreende o punk e o chamado pós-punk. Gente revoltada com o neoliberalismo desumano de Thatcher e Reagan por princípio e por questão de sobrevivência, que acharia muito estranho alguém gostar de música popular e ser contra os movimentos sociais e o movimento trabalhista. Nos últimos anos, Smith disse besteiras contra imigrantes e refugiados – ele andava irremediavelmente bêbado, Mas também disse coisas como: “o problema da indústria musical é que ela se tornou muito burguesa. Um negócio da classe média, como a polícia”.