Music

Roger Waters

A história por trás dos muros que o ex-Pink Floyd quer derrubar em seus polêmicos shows em época de eleições presidenciais no Brasil

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Kate Izor/Divulgação

Observação: O texto abaixo foi publicado pelo MONDO BACANA, com exceção de seus três últimos parágrafos no dia 24 de setembro de 2015

A fama deu um nó na cabeça de Roger Waters. Enquanto o Pink Floyd crescia cada vez mais no decorrer dos anos 1970, ele se fechava. Construía seus próprios muros regidos pelo egocentrismo, intransigência e uma vontade louca de deter sempre o controle de tudo. Afastava-se assim de todos, inclusive dos próprios companheiros de banda. Conforme a década chegava ao seu final, unidade era uma palavra que pouco existia. Obcecado pelo controle artístico e criativo e guiado por rigidez e inflexibilidade, Roger acabou dando o maior passo para transformar o quarteto em uma disfarçada carreira solo sua. Dave Gilmour, Rick Wright e Nick Mason, sem muito espaço, praticamente viraram músicos de apoio em The Wall, uma ópera rock concebida solitariamente pelo baixista, mergulhado nos fantasmas de sua própria trajetória de vida. Tanto que o guia da turnê do disco ressaltava bem a divisão: “escrito e dirigido por Roger Waters; executado pelo Pink Floyd”.

A grandiloqüência de The Wall, lançado em 1979, tratou de esfacelar o que ainda restava da banda. A turnê – que procurava reproduzir visualmente toda a história contada pelas canções do álbum duplo – resumiu-se em apresentações em quatro cidades europeias separadas por um considerável intervalo de tempo. Construir um gigantesco muro separando banda da plateia para depois derrubá-lo deu prejuízo. Financeiro e emocional. Tanto que o Pink Floyd fez mais apenas mais um disco antes da relação interna azedar de vez. Waters saiu da banda esperando que a tal atitude levasse ao seu fim. Gilmour, Wright e Mason decidiram continuar em frente sem seu principal compositor que, revoltado, processou os ex-companheiros pelos direitos do nome. A cisão judicial terminou com um acordo entre as partes: a trinca poderia seguir em frente sob a alcunha de Pink Floyd desde que concordasse em repassar os direitos integrais de The Wall para o seu criador.

Se a criação de The Wall serviu como uma terapia pessoal para o baixista enfrentar de frente todos os problemas da vida, ela desembocou em uma carreira solo modesta e assombrada pela rixa com os velhos amigos da adolescência. Os quatro só voltariam a se reunir no mesmo palco em uma única vez e por um motivo especial: o festival beneficente Live 8 (leia aqui a resenha do evento), que em 2005 celebrava em alguns pontos do mundo os vinte anos do Live Aid. Foram apenas algumas canções, mas o suficiente para fazer brilhar os olhos dos fãs de todos os tempos da banda, que ansiavam por ver os integrantes em paz e tocando juntos novamente.

O Live 8 serviu também como ponto de partida de um processo de aproximação de Roger com a obra do Pink Floyd. No ano seguinte, o baixista resolveu levar para a estrada um espetáculo no qual executava na íntegra a grande obra-prima da banda, The Dark Side Of The Moon (lançado em 1973 e o álbum de rock mais vendido de todos os tempos). Com boas respostas de público e crítica, ele partiu para um passo ainda mais ambicioso: refazer a antiga proposta da malfadada turnê de The Wall, desta vez passando por vários países de quatro continentes e contando com todos os benefícios e possibilidade obtidos através da evolução da tecnologia com o passar dos anos. No dia 15 de setembro de 2010, a cidade canadense de Toronto tornou-se o ponto de partida para uma excursão que duraria três longos anos e ultrapassaria a marca das duas centenas de apresentações (leia aqui a resenha sobre um dos shows realizados no Brasil, em abril de 2012). O espetáculo, estimado em orçamento de quase 40 milhões de dólares somente para ser levado ao palco, bateu todos os recordes destinados a um artista solo na história do showbiz e, apenas durante as escalas nos EUA e Canadá, obteve retorno de quase 200% de todo o investimento.

Claro que a gloriosa segunda chance dada à turnê de The Wall não ficaria nisto. Waters e o diretor visual do show Seth Evans documentaram em filme diversos shows (o áudio foi gravado na Inglaterra; as imagens foram captadas no Canadá, Argentina e Itália). Junto ao mergulho musical do baixista em sua vida, a dupla provdenciou ainda um documentário, não exatamente de bastidores dos shows, mas de pequenos intervalos da perna europeia, nos quais o artista vai literalmente em busca de seu passado. Visita o túmulo do avô (morto em combate na Primeira Guerra Mundial) e do pai que também não chegou a conhecer (Eric Fletcher Waters faleceu na batalha da praia italiana de Anzio, durante a Segunda Guerra, apenas cinco meses após o nascimento de Roger) e refaz alguns dos passos dele e de colegas militares pela França e Itália. Aproveita também para reencontrar alguns parentes mais próximos para reconstituir um pouco da história da família e tentar entender um pouco mais sobre o que aconteceu e todos os reflexos provocados em sua vida desde a mais tenra infância. Então, depois ser exibido em alguns festivais, Roger Waters The Wall, misto de musical de documentário, chega aos cinemas de todo o mundo no final de setembro em 2015. No Brasil, a rede de cinemas UCI fechou a distribuição e exibição da obra em três sessões.

Durante quase três horas o espectador é convidado a entrar no clima de terror e tensão de The Wall. O cardápio temático envolve relações familiares, bombardeios de aviões de guerra, governos autoritários, personagens grotescos (representados por grandes balões e conservando os traços da criação original assinada por Gerald Scarfe), boa dose de dramaturgia ligada à música, a construção gradual de um muro que se estende por 73 metros de comprimento, homenagens a recentes vítimas do terrorismo sob todas as suas formas e manifestações (o brasileiro Jean Charles de Menezes é citado em imagens, discursos e versos de canções) e iconografias atuais (claro que as câmeras de segurança da CCTV que espionam Londres inteira não poderiam faltar!). E, claro, composições clássicas como “Another Brick On The Wall” (em três partes), “Mother”, “Is There Anybody Out There?”, “Comfortably Numb” e “Run Like Hell” dão um molho ainda mais especial a tudo.

E se as imagens do show são grandiosas, a narrativa costurada pela viagem pessoal de Roger pelo seu passado ajudam a decodificar signos, intenções e mistérios por trás da concepção de The Wall. De quebra, para aqueles mais fanáticos pela história do Pink Floyd, Waters ainda oferece uma interessante “coda” logo após os créditos. Durante dez minutos, ele e Mason se juntam para responder perguntas enviadas pela internet por floydmaníacos dos quatro cantos do planeta. Claro que o bom humor e da ironia (sobretudo por parte do baixista) se constituem em itens providenciais para que os pontos mais polêmicos da trajetória da banda sejam abordados de forma superficial e fiquem apenas na tangente. Contudo, o falatório proporcionado pela dupla não deixa de ser um ótimo complemento posterior para entender melhor todo que foi e significa até hoje aquela  obra que, de forma grandiloquente e autoexplosiva, pôs fim à carreira criativa da banda e marcou todo um período em que o rock flertou mais com egos e arenas do que com os ouvidos e a intimidade de quem realmente ama o gênero.

Corta para 2018

Durante todo o mês de outubro, Roger Waters está no Brasil para faze vários shows de sua atual turnê, Us + Them, na qual apresenta algumas canções de seu mais recente álbum, Is This The Life We Really Want? (2017). Produzido por Nigel Godrich (Radiohead, Beck, U2, R.E.M., Paul McCartney), este é o primeiro trabalho de estúdio do músico depois de um longo intervalo de 25 anos. Contudo, não abre mão de tocar os velhos clássicos gravados por ele no Pink Floyd. E mais: persegue obsessivamente o ideal de luta contra o fascismo pelo mundo, inclusive agora nomeando no telão alguns líderes da extrema direita. Claro que o nome de um certo candidato à presidência brasileira entrou na lista, o que acabou dividindo o público e gerando altas polêmicas, inclusive com o absurdo fato de gente saindo do show para fazer um BO na delegacia de polícia contra Roger. Apenas pelo fato dele ter se posicionado politicamente.

Até a publicação deste texto, Us + Them já passou por estádios de futebol de São Paulo (Allianz Parque), Brasília (Mané Garricha), Salvador (Fonte Nova) e Belo Horizonte (Mineirão). Falta passar ainda por três cidades: dia 24 no Rio de Janeiro (Maracanã), 27 em Curitiba (Couto Pereira – ingressos já esgotados) e 30 em Porto Alegre (Beira-Rio). Vai pegar a semana decisiva anterior ao segundo turno das eleições e acabará nos dias seguintes ao pleito marcado não apenas por discursos de ódio, acusações de fake newsdisparadas em massa pelo WhatsApp e opiniões polarizadas como ainda uma possível intervenção do poder judiciário que poderá mudar seu resultado.

Portanto, além de colocar mais lenha na fogueira, Roger Waters ainda corre o sério risco de ir embora do Brasil e fazer as pessoas não pararem de pensar no título de seu novo disco um dia sequer pelos próximos anos. Afinal, depois das urnas, será mesmo aquela vida que nós realmente queremos?

>> Mais informações sobre todos os shows da parte brasileira da turnê Us + Them você encontra aqui

Music

Radiohead – ao vivo

Thom Yorke brinda o Rio tocando hino cult ao violão; em São Paulo, o evangelho da tristeza mostra que ainda emociona mas poderia ser melhor

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Textos por Natasha Durski e Fábio Soares

Fotos de Natasha Durski

Sexta-feira :: 20 de abril :: Rio de Janeiro

Nove anos de espera. Esse foi o tempo que o Radiohead, uma das maiores bandas da atualidade (embora sempre ligeiramente fora do mainstream) demorou para voltar a se apresentar em terras brasileiras. Dois álbuns após a turnê do muito bem recebido In Rainbows, a banda inglesa mostrou, em show muito mais intimista que o de 2009 (no Rio foram apenas 10 mil pessoas), a elegância das suas composições impecáveis misturando canções de seu mais novo trabalho, A Moon Shaped Pool, com pérolas sonoras do aclamadíssimo divisor de águas OK Computer e In Rainbows. Durante o show, a banda ainda perpassou por outros clássicos de sua extensa trajetória, pincelando canções de Hail To The ThiefAmnesiacKid A, The Bends e The King Of Limbs (Pablo Honey e o grande hit da banda, “Creep”, ficando de fora).

Quem conhece bem a banda sabe que, apesar da coesão entre os set lists executados durante a turnê, sempre cabe espaço para uma surpresa. No Rio de Janeiro, ela foi mais que especial: a canção “True Love Waits”, executada solo por Thom Yorke e que previamente não se encontrava no set, emocionou os fãs que cantavam todas as músicas com paixão. Até o lançamento de A Moon Shaped Pool, a música não tinha versão de estúdio e mesmo assim se tornara uma espécie de hino especial aguardado por todos que já a conheciam desde muito antes do Radiohead resolver finalmente gravá-la.

Com um show durando por volta de 2h30 e 27 músicas executadas, a banda mostrou mais uma vez ao Brasil o seu extremo nível de competência sonora – o que certamente coloca o Radiohead como uma das maiores bandas dos últimos tempos. Suas apresentações são a prova de que é possível ser grandioso e ao mesmo tempo sair dos trilhos, sem ter necessariamente que se ater ao mercado da música pura e simplesmente. São canções elaboradas e desprendidas de rótulos, feitas sob medida para um público que almeja os pontos fora da curva e se entrega totalmente aos encantos de suas melodias.

De coros apaixonados a frenesi intenso e admiração, com certeza o clima da Jeunesse Arena após o fim do concerto era de um êxtase que só uma banda do calibre do quinteto pode proporcionar. O que pode ser comprovado na última música da apresentação, “Karma Police”, cujo coro dos fãs ainda ecoava pela casa de shows minutos após os músicos deixarem o palco.

Ainda no mesmo festival, os fãs tiveram o prazer de desfrutar de duas atrações de abertura: a banda Junun, projeto de Shye Ben Tzur com o guitarrista Jonny Greenwood e Rajasthan Express, mais o DJ e produtor Steven Ellison com o nome de Flying Lotus. (ND)

Set List: “Daydreaming”, “Ful Stop”, “15 Step”, “Myxomatosis”, “Lucky”, “Nude”, “Pyramid Song”, “Everything In Its Right Place”, “Let Down “, “Bloom”, “Reckoner”, “Identikit”, “I Might Be Wrong”, “No Surprises”, “Weird Fishes/Arpeggi”, “Feral”, “Bodysnatchers”. Bis 1: “Street Spirit (Fade Out)”, “All I Need”, “Desert Island Disk”, “Lotus Flower”, “The National Anthem”, “Idioteque”. Bis 2: “True Love Waits”, “Present Tense”, “Paranoid Android” e “Karma Police”.

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Domingo :: 22 de abril :: São Paulo

Uma verdadeira “Disneylândia da tranquilidade” foram os arredores do Allianz Parque na noite do último domingo para quem (como eu) tem idade demasiada avançada para aturar um mercado de pulgas de Istambul em dias de grandes espetáculos. As ruas e bares estavam praticamente vazias nos arredores e o ambiente era tão tranquilo que adentrei o estádio somente 15 minutos antes do início da apresentação do Radiohead. Os problemas na pista comum, porém, eram evidentes: horrendos andaimes laterais atrapalhavam a visão do público e o palco estava baixo demais para quem estava na pista comum. Mas nada que abalasse a expectativa pela banda que acompanha minha geração desde a adolescência. Os tempos, porém, são outros. Se em 2009 os ingressos para o festival Just a Fest (que pela primeira vez trouxe os britânicos para cá) foram disputados a tapa, em 2018 as entradas para o SoundHearts encalharam. A organização declarou que 30 mil pessoas estavam presentes mas, sinceramente, duvido muito destes números. Pista comum cheia mas arquibancadas laterais e pista premiumcom muitos clarões era o que se via.

Com dez minutos de atraso, a banda pisou no palco do Allianz Parque com “Daydreaming”, faixa de A Moon Shaped Pool, disco de 2016 que teve fria recepção da crítica. A faixa (nada espetacular) é compensada pela emoção do público. Imagino que muitos ali presentes não estavam no show de nove anos atrás na horrenda Chácara do Jockey e encararam o show do último domingo como o “show da vida”. Neste quesito, a banda oferece o que tem de melhor: Jonny Greenwood (no alto de seus 46 anos) impressiona com sua performance no palco. Veste a capa de guitar heropara nunca mais a despir, sobretudo no refrão de “My Iron Lung”. Já Thom Yorke ainda sustenta a figura de buda midiático de uma geração depressiva e com visíveis problemas emocionais.

O set list (que jamais se repetiu nesta turnê de quase 60 shows) excluiu por completo o primogênito Pablo Honeymas transitou com coesão pelos outros oito álbuns de estúdio do grupo. “All I Need”, “Let Down”, “Weird Fishes”, “2+2=5” e, como esperado, “No Surprises” foram os pontos altos da primeira parte da apresentação. No primeiro bis, “Exit Music (For a Film)” emocionou com Yorke ao violão, sem a banda mas acompanhado por 30 mil vozes. O ponto alto, porém, foi “There There”. Minha relação com esta canção beira o amor profundo com sua indefectível batida marcial. Cantada em uníssono pela plateia foi, para mim, o ponto alto da noite. A grande decepção, para mim, foi o segundo bis: “Present Tense” poderia muito bem ser substituída por “Karma Police” que, inexplicavelmente, ficou de fora. “Paranoid Android” foi prejudicada pela má equalização do som, soando fraca e sem punch. Já a derradeira “Fake Plastic Trees”, cantada a plenos pulmões pela audiência, compensou a irregularidade pelo simples fato de sua existência. Um hino, símbolo de uma geração e que jamais perderá sua força.

Após duas horas e quinze de show, a sensação de saldo positivo era evidente mas que poderia ser melhor, também. O Radiohead 2018 soa melancólico como nunca mas o sinal de desgaste é evidente. Resta saber para qual direção o futuro da banda apontará. A única certeza que fica é que seu público continuará a segui-la como uma religião. O evangelho se perpetuará. Triste, talvez, mas continuará. (FS)

Set List: “Daydreaming”, “Ful Stop”, “15 Step”, “Myxomatosis”, “You And Whose Army?”, “All I Need”, “Pyramid Song”, “Everything In Its Right Place”, “Let Down “, “Bloom”, “The Numbers”, “My Iron Lung”, “The Gloaming”, “No Surprises”, “Weird Fishes/Arpeggi”, “2+2=5”, “Idioteque”. Bis 1: “Exit Music (For a Film)”, “Nude”, “Identikit”, “There There”, “Lotus Flower”, “Bodysnatchers”. Bis 2: “Present Tense”, “Paranoid Android” e “Fake Plastic Trees”.