Music

Garotos Podres + Sick Sick Sinners – ao vivo

Noite do Psycho Carnival também contou com as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Red Lights Gang e a húngara Tom White and The Mad Circus

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Sick Sick Sinners

Texto por Guilherme Motta

Fotos: Priscilla Oliveira/CWB Live

Curitiba têm o carnaval mais rock’n’roll da América Latina. Graças ao Psycho Carnival, festival que reúne bandas de psychobilly, rockabilly, punk e outros estilos ligados à contracultura contemporânea do rock. O evento é realizado sempre no feriadão do carnaval. Geralmente são quatro ou cinco dias de muita música extrema. Confesso que não sou o maior dos fãs do gênero musical predominante do evento, o psychobilly, porém meu primeiro contato com o festival e o gênero musical foi há cerca de 16 anos, graças a minha mãe, que estava fazendo a cobertura do evento. Como eu era muito jovem, não pude acompanhá-la. No dia seguinte, ao acordar, ela imediatamente me deu o CD Rock’n’Roll is a Devil’s Music, autografado da banda alemã Chibuku, uma das principais atrações daquela edição do Psycho Carnival. Ali eu descobri o que era o psychobilly e às vezes escuto esse álbum. Até hoje. Inclusive agora, escrevendo esse texto.

Mas agora voltemos aos tempos atuais. Em 2019, na vigésima edição, foram quatro noites de puro barulho dançante no Jokers, estabelecimento que recebe o evento desde suas primeiras edições. E vamos falar especificamente da noite do dia 3 de março, quando se apresentaram as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Tom White and The Mad Circus, Red Lights Gang, Sick Sick Sinners e Garotos Podres.

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Wood Surfers

A abertura da noite ficou por conta dos caras da banda João Cascaio e seu country folk à moda tradicional. Para quem curte um country music “de raiz” vale muito a pena ir atrás do trampo dos caras. O destaque é a utilização de diversos instrumentos não muito convencionais nas bandas do festival, como o lap steel e o banjo, que inclusive são tocados simultaneamente pelo guitarrista. Logo na sequência o palco foi do trio londrinense de surf music instrumental Wood Surfers. Na minha humilde opinião, foi a surpresa da noite. Lembrou muito uma banda curitibana chamada Maremotos, que costumava ouvir quando mais jovem. A banda faz um trabalho excelente mantendo a linha tênue entre a surf music clássica e o psicodelismo.

Depois chegou a vez de uma das atrações mais esperadas do festival, Tom White and The Mad Circus. Banda de origem húngara, que conta com um brasileiro no contrabaixo. O som é o clássico rockabilly. Muito enérgico. Realmente não dá pra assistir parado. Logo no início da apresentação já se formou uma imensa roda de dança no centro do salão. As músicas são executadas com extrema maestria por parte dos integrantes, o que resulta em uma experiência satisfatória vê-los ao vivo. A The Red Lights Gang subiu ao palco com a mesma energia. Com som influenciado por country, western swing e rockabilly, não deixou ninguém parado. No set list rolaram versões de clássicos de Siouxsie & The Banshees e Sonics. A banda desempenha um papel importante na cena paulistana. Vale conferir o álbum 13 desses caras.

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Tom White and The Mad Circus

A próxima atração era figurinha carimbada do festival, inclusive com a formação trazendo os organizadores do mesmo. O trio curitibano Sick Sick Sinners é sempre um dos nomes mais esperados de todos os anos. E com razão. Os caras chegam arregaçando tudo o que está pela frente. Já no primeiro instante em que Vlad Urban soa o primeiro acorde da guitarra começa um sinistro, violento e amoroso moshpit em todo o salão. No Jokers ninguém ficou de fora, nem mesmo nos camarotes. É realmente muito impressionante a energia que os caras passam ao vivo. Se você nunca viu os caras tocarem, vai por mim: tenta não perder a próxima oportunidade.

Fechando a terceira noite tivemos uma lenda viva do punk rock nacional. Depois de uma longa briga judicial, os Garotos Podres voltaram à ativa com o seu vocalista, único remanescente da formação original, Mao. Assim que as cortinas se abriram, um coro de absolutamente todas as pessoas que estão ali presentes ecoou pela casa. A música “Garoto Podre” Foi extasiante. O salão se dividia entre pogos, empurrões e muitos abraços. Difícil descrever o sentimento na hora. Entre hinos do punk e aulas de História, a madrugada foi seguindo com a extrema empolgação dos integrantes. A felicidade de voltar a fazer o que a banda sempre pregou era visível.  O set list da banda foi composto por todos os clássicos lançados nesses quase 40 anos fazendo punk. Ninguém deixou de cantar nada em nenhum momento, o que, à parte, foi um espetáculo e tanto.

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Garotos Podres

Obrigado, Garotos Podres, por proporcionarem uma das melhores noites de punk rock da minha vida. Obrigado, Vlad e toda a organização do Psycho Carnival, por nos dar a oportunidade de vermos algumas das bandas das quais gostamos tanto.

Music

Arquivo MB: E.S.S. (2002)

Texto publicado nos primeiros meses deste site celebrava o futuro da banda curitibana de digital rock, comandada por André Sakr

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução Facebook (obs: se foi você quem fez este clique, por favor, entre em contato para que possamos dar o devido crédito)

Não faz muito tempo assim. Década e meia atrás, na Inglaterra, o amor tomava conta de todos os dias do verão, guitarras andavam de braços dados com baterias eletrônicas e sintetizadores. Todo mundo só pensava em se divertir. Descendo o hemisfério e cruzando o Oceano Atlântico, porém, o panorama estava longe de ser igual. Música de pista era tudo taxada de dance music (ou – pior ainda – algo 100% comercialóide e por isso mesmo totalmente condenável e indefensável), sair para se acabar de dançar até o sol raiar e relatar publicamente a simpatia pelas músicas de Depeche Mode e New Order para todos os defensores do “rock-testosterona” significava o mesmo que assumir uma “orientação sexual heterodoxa”, mesmo que você não a tivesse.
Pois patrulhamento e preconceito acabaram. Com a (r)evolução tecnológica tomando o mundo a passos largos, a música eletrônica não só transformou-se em algo completamente usual como também oficializou de vez seu casamento com as guitarras – raivosas ou sentimentais, dedilhadas ou à base de riffs, reprocessadas ou orgânicas. E em Curitiba uma turma vem se especializando em promover cada vez mais esta espécie de ex-bicho papão, o digital rock.
Igor Ribeiro (teclados, guitarras e vocais; também integrante dos grupos/projetos Tods, OAEOZ e Iris), André Sakr (bateria, teclados, programações e vocais; também Iris), Fernando Lobo (baixo e vocais; também Tods) e Alessandro Oliveira (guitarra e vocais – nota posterior do autor: o mesmo que, futuramente, tocaria no Copacabana Club e no Audac) formam o E.S.S., quarteto que está com seu primeiro álbum quase finalizado. Enquanto o disco não fica pronto, o grupo se divide entre a produção de algumas festas bacanas (que já contaram com apresentações de bandas como Bad Folks, Mosha, Grenade, Suite Number Five e o hoje “importado” Wry) e viagens para o exterior (mais precisamente Igor e André, que passaram um tempo em Londres ao lado dos outros companheiros do Tods). Há ainda um EP chamado Rossfield rolando pelas mãos mais antenadas da cidade.
Rossfield é uma grande viagem para a cidadezinha que existe no interior de cada um”, explica vagamente Sakr, parafraseando uma antiga entrevista dada pelo grupo a uma emissora de rádio do litoral de Santa Catarina. O ponto de partida começa nos cem segundos de “Introducting Myself”, gravada na véspera do embarque de Igor e Fernando para Londres, no início deste ano. A faixa de abertura é um irresistível big beat construído a partir de biblioteca própria de samples. Enquanto o loop com o batidão funky rola solto, uma voz grave, reverberante e alterada pelo pitch serve de mestre-de-cerimônias para a própria banda. Entram alguns efeitos sobrepostos, uma linha melódica cantarolada e, enfim, palmas quando é anunciado o grupo.
Chega então, o “verdadeiro” E.S.S. em “Nine”, épico de quase nove minutos aberto pela confluência de graves teclados kraftwerkianos, batida com variação entre o housee o glammais e guitarras com linhas e riffs calcados na herança do blues e do rockabilly. A sonoridade à la Depeche Mode vai aumentando à medida que entra a primeira voz. “Things you do don’t make me change my mind/ Things you do don’t make me change my way of thinking about you”, protesta Igor. Depois entram camadas de órgãos e outros teclados e berros sufocados de Sakr, para os versos serem repetidos algumas vezes, agora com guitarras mais fortes (com muito delay) e em primeiro plano. Gravada ao vivo e em apenas dois canais, a música é um mistério até mesmo para seus integrantes. “Acho que é sobre estar puto com alguém”, arrisca o maior responsável pelas programações eletrônicas do grupo.
No mesmo dia e esquema de “Nine” o quarteto gravou “Mr Alexander”. Esta é uma faixa dividida em duas partes distintas. A primeira puxa um pouco mais para o lado psicodélico, com profusão de ecos, órgãozinho e batida funkeada. Lembra um pouco da veia rocker de Manchester do começo dos anos 1990 (leia-se a trinca Stone Roses, Inspiral Carpets, Happy Mondays) e abusa dos vocais de Alessandro invertidos no software usado para a edição. Enquanto isso, os versos retratam uma típica noite adolescente em Curitiba – mais precisamente ao encontrar os amigos em um dos mais famosos pontos indie da capital paranaense, o James Bar. “Talvez até esteja cantando algo autobiográfico”, revela Sakr. Alessandro então assume sua porção guitar hero entre solos e novos riffs e lá pela metade o arranjo começa a acelerar de maneira absurda, bombardeando os ouvidos por quase quatro minutos de pura viagem.
“Wake up/Look Around”, comanda uma misteriosa voz no terceiro épico do disco. House de dez minutos e a primeira música a ser composta pela banda, “Rossfield” está cheia de mensagens subliminares (pelo menos é o que garante André, que não quis entrar em maiores detalhes). Quem não quiser ficar de ouvido ligando procurando pistas feito Mulder e Scully, porém, pode se ligar no riff do baixo distorcido de Fernando – seguindo a escola do Primal Scream. E depois de um breve interlúdio ambient, volta a detonação de ritmo e barulho, cheia de efeitos, guitarras e gritos por Rossfield.
A julgar pela prévia, o E.S.S. (segundo André, “a sigla veio da expressão Experimental Sex Sound, mas hoje não significa nada em especial”) promete dar muito o que falar em 2003. Apostas estão feitas.

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André Sakr faleceu em São Paulo, neste último domingo, 3 de março de 2019.