Literatura e HQ

LOURENÇO MUTARELLI

02.01.2020

Oito motivos para ler Capa Preta, a recém-lançada antologia que resgata quatro clássicas HQs feitas pelo autor nos anos 1990

mutarelli2019MB

Texto e foto por Abonico R. Smith

Lourenço Mutarelli sofreu um duro golpe emocional em 1988, quando colegas resolveram pregar-lhe uma peça de gosto duvidoso. Planejaram uma festa surpresa de aniversário mas, para levá-lo até o local, chamaram uns amigos para forjar um sequestro. A ação, entretanto, saiu como um tiro pela culatra. Ele, então, uma grande crise depressiva, com direito a ansiedade, síndrome do pânico e um longo período de quase reclusão em casa. Como terapia para superar as adversidades, começou a fazer suas próprias histórias em quadrinhos.

Quatro destas obras produzidas neste período bem barra-pesada acabaram ganhando nos seus respectivos anos de publicação o troféu HQ Mix, premiação criada para o reconhecimento dos melhores trabalhos de cada temporada do mercado da arte sequencial brasileiras. Transubstanciação(1991), Desgraçados (1993), Eu Te Amo, Lucimar(1994) e A Confluência da Forquilha (1997) começaram a pavimentar todo o caminho de culto ao então quadrinista, que depois acabaria ganhando fama também escrevendo livros em prosa. Até então fora de catálogo, estes títulos agora voltam às livrarias na antologia Capa Preta.

Como sempre, Mutarelli escolhe Curitiba para ser a segunda cidade de lançamento de uma obra, após o pontapé inicial em São Paulo, onde mora. Nos últimos dias 15 e 16 de dezembro, ele esteve na Itiban (fotos do evento aqui), onde conversou com o Mondo Bacana, que agora lista oito motivos para você não deixar de ler Capa Preta.

Veia underground

Lourenço reconhece que as obras compiladas em Capa Preta refletem um período muito denso de sua vida, no qual ele enfrentou uma forte depressão que refletia bastante em seu estado de espírito.  “Não estava bem comigo mesmo. Levava sempre as coisas muito a sério. Meu humor não era para distrair ou divertir, mas algo vingativo, feito para machucar”. Por isso, temas como decomposição do corpo e a libertação através da morte de quem você ama podem ser encontrados nestas histórias.

Desenhos impactantes

Com Lourenço Mutarelli não existe meio termo. Ele mesmo admite que não faz concessões e nem possui filtros. Por isso seus desenhos adicionam ainda mais impacto às histórias já fortes por natureza. Sua mulher Lucimar Mutarelli, também quadrinista, designa como “fantástica” a união entre texto e desenho no texto de apresentação que abre o livro. São muitos detalhes convertidos em símbolos integrados nas páginas de cada história.

Morte no museu

A primeira das quatro histórias de Capa Preta é Transubstanciação. Nela Lourenço conta a história de Thiago. Enquanto todo mundo o acha louco, ele diz ser poeta. Thiago costuma sempre procurar significados em seus sonhos e trazê-los para o cotidiano. Até que seus delírios o levam para uma ida volta rumo a um dia de fúria e ele acaba perdendo a cabeça de vez dentro de um museu. Nesta hora, um quadro de página inteira chama a atenção: o quadro O Grito, do norueguês Edvard Munch, exprime uma reação bastante irônica frente à barbárie provocada por Thiago na hora da invasão intempestiva.

Decálogos de Kiezlowski

Quando fez a HQ Desgraçados, Mutarelli estava bastante influenciado por Decálogos, série de filmes em média-metragem do diretor e roteirista Krzysztof Kieslowski feita para a televisão. Nela, em dez episódios com histórias independentes mas que sempre no final de uma apresentavam o personagem de outra, Kieslowski leva o que seria uma reflexão inicial sobre os Dez Mandamentos de Deus para a decadência dos valores de uma Polônia em decadência no século 20, marcada pelos rastros do nazismo e do ateísmo. Aqui, o quadrinista leva as questões para o simples fato da existência. “Entre o nascer e o morrer existe algo, um momento efêmero, único, de um fascínio estúpido, que se chama vida”. Ao mostra a vida com toda a sua brevidade e estupidez, Lourenço se questiona: “por que sinto tanto prazer com a dor?”. No caso, a dor de existir.

Temática do duplo

Quem acompanha a obra literária de Mutarelli sabe o quanto ele é fascinado com a ideia do duplo e joga com o tema em suas histórias. Na HQ Eu Te Amo, Lucimar ele já trabalhava com esta ideia. No caso, os irmãos gêmeos Cosme e Damião em uma trajetória que vai desde a gestação no útero da mãe até o post-mortem. Aliás, este é o contraponto com a história anterior: se uma falava sobre existência e vida, esta gira em torno da finitude e da decomposição material.

Maldição do artista

O protagonista de A Confluência da Forquilha chama-se Matheus. Ele largou um emprego sólido numa fábrica de brinquedos para tentar viver de vez das artes plásticas. Só que ele sempre pinta o mesmo quadro há anos e nunca vendeu unzinho sequer. Faz sempre o mesmo rosto de uma personalidade artística. Na primeira fase, pintava somente o compositor e pianista erudito Ludwig Van Beethoven. Na segunda, Larry Fine, pseudônimo do ator Louis Feinberg, integrante dos Três Patetas. Na terceira e atual, produz incessantemente a mesma cara do poeta e ensaísta crítico Charles Baudelaire. Até que se sente afrontado pelo fato de pela primeira vez ter uma venda. E não foi só uma venda: um homem comprou de uma vez só todas as suas obras. Isso o leva ao desespero e a querer ajustar as contas com o seu “rival”.

Nova editora na área

Criada em parceria entre o youtuber Thiago Ferreira e o escritor e ativista  Ferréz, a nova editor Comix Zone! é uma extensão do canal homônimo da internet. O primeiro lançamento da casa foi em junho, com a HQ A Canção de Roland, do canadense Michel Rabagliati, cuja história compartilha uma experiência pessoal do autor sobre a perde de um ente querido. Em outubro veio o segundo título: a trama sci-fi argentina O Eternauta, com argumento de Héctor Germán Oesterheld e arte de Alberto Breccia. Esta antologia das HQs de Lourenço Mutarelli ajudam a compor a trinca das novidades de 2019. No prefácio, Ferréz se assume como um grande fã de primeira hora do quadrinista desde o tempo destes lançamentos originais. Detalhe: os livros têm acabamento caprichado e capa dura. De fato, são especialmente produzidos para colecionadores e aficionados pela arte sequencial.

Artista múltiplo

Lourenço Mutarelli tem a versatilidade artística como uma de suas marcas registradas. Começou desenhando HQs – antes de lançar suas graphic novels autorais trabalhou por um tempo nos estúdios Maurício de Sousa. Depois partiu para a literatura de prosa, onde acabou se encontrando mais do que na arte sequencial – terreno para o qual vive prometendo nunca mais retornar. Nestas duas últimas décadas, escreveu oito romances, entre eles O Cheiro do Ralo, O Natimorto, Jesus Kid e A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, todos eles já adaptados para cinema. Também escreveu algumas peças de teatro e começou a atuar, seja no palco ou nas grandes telas, onde volta e meia integra o elenco de alguma produção alternativa nacional fazendo coadjuvantes ou alguns porém interessantes papéis – como o segurança de O Cheiro do Ralo, o pai da família classe média alta de Que Horas Ela Volta? e o insano jardineiro de O Escaravelho do Diabo. Em 2020, Lourenço estará em dois novos longa-metragens: Música Para Ninar Dinossauros (adaptado da peça escrita pelo amigo Mario Bortolotto, de cuja primeira montagem também participou) e Sem Seu Sangue. Também assinará as ilustrações a nova edição brasileira de A Colônia Penal, de Franz Kafka, além de ter outras duas suas relançadas pela Companhia das Letras: o livro Jesus Kid (originalmente de 2004) e a HQ A Caixa de Areia ou Eu Era Dois em Meu Quintal (2006). Nova obra inédita somente em 2021: uma história surreal que promete causar polêmica e será pincelada com alguns tons autobiográficos cujo nome provisório é O Filho da Burra. “Já tenho cerca de cem páginas escritas até agora. Sei que já passei da metade mas não tenho a menor ideia de onde ela vai parar”, antecipa para o Mondo Bacana.

 

LOURENÇO MUTARELLI

21.07.2018

Novo romance une ficção científica, uma garota supostamente reptiliana, nomes iguais, o mal e um grande desprezo por Nova York

lourencomutarelli2018b

Texto e fotos de Abonico R. Smith (Lourenço) + Divulgação (capa do livro)

Curitiba está tão intrinsicamente ligada à alma de Lourenço Mutarelli que não tem mais jeito: ele já perdeu as contas de quantas vezes esteve na cidade. Uma coisa, porém, é certa: a cada novidade sua que chega às prateleiras das livrarias e lojas especializadas em quadrinhos a capital paranaense é sempre brindada com sua presença, algumas vezes, antes mesmo que a São Paulo onde ele mora. “Amo muito Curitiba e até passei férias por aqui. É a única cidade de fora do estado paulista que sempre faço questão de vir para lançar algo”, atesta.

E nesta sábado, 21 de julho de 2018, Lourenço se prepara para bater ponto no cartão fidelidade de convidado especial da Itiban Comic Shop Às 16h ele participa de um bate-papo seguido de sessão de autógrafos de O Filho Mais Velho de Deus e/ou Livro IV (Companhia das Letras, 336 páginas). Mais informações sobre este evento você encontra aqui.

capalourencomutarellifilhomais velho

Oitavo romance de sua carreira, o livro faz parte da coleção Amores Expressos. A Companhia das Letras teve a ideia de mandar 17 escritores para 17 cidades diferentes ao redor do planeta, com o compromisso de que fosse escrito, no retorno, um romance que tivesse conexões e inspirações com o que foi visto e vivido pelos autores durante as semanas em solo estrangeiro. Mutarelli foi enviado a Nova York em 2007 por um único: ele era o único desta turma que ainda não conhecia a cidade. “Se eu pudesse ter escolhido, preferia ter ido ao Alentejo, em Portugal, onde já havia estado antes e tivesse uma experiência enriquecedora naquela região.”

Só que Lourenço odiou a experiência em Nova York. “Para começar eu peguei um outono quente, seco, de quase trinta graus diários. E também o meu inglês é o meu inglês. Entendo pouco, não falo nada. Eu até que me virei bem por conta disso, afinal, no desespero, você sempre acha um jeito de se virar. Chegou uma hora lá que eu estava em local e solicitaram gentilmente que o segurança acompanhasse ‘aquele senhor ali com problemas mentais’”, relata, rindo da própria experiência. Ainda me colocaram no Brooklyn, em um lugar onde o taxista parava dez quadras antes e me mandava completar o percurso andando. Você olhava os moradores e via todos eles iguais ao pessoal do GTA [sigla que virou a referência ao videogame Grand Theft Audio, considerado um dos mais violentos de todos os tempos]. Na rua só tinha latinos e negros com cara de maus e aquelas bandanas na cabeça”. Ao voltar ao Brasil, Lourenço passou a nutrir um profundo desprezo pela maior metrópole mundial. “Tudo o que me irrita profundamente estava ali. Os hipsters, o politicamente correto, essa geração saudável, o hábito de não fumar”, exclama.

Do período malfadado passado em Nova York ao lançamento do livro passaram-se onze longos anos. Primeiro o autor foi acometido de um longo período sem inspiração para desenvolver uma história, que foi sendo deixada de lado gradativamente. Quatro anos atrás entregou aos editores uma obra pronta. Recusada, ela acabou sendo tão remexida por ele na sequência que acabou sendo considerada desfigurada e acarretou em uma nova postergação do projeto. Até que chegou outra nova ideia, que resultou na obra que está sendo mostrada ao seus leitores.

“Para começar eu fiz questão que quase tudo acontecesse em Nova York e houvesse um protagonista oriundo do próprio Estados Unidos mas que não suportasse viver em Nova York. Quis que ele fosse alguém bem mediano, do tipo que se orgulha de ter estudado junto com o ator mais medíocre que eu conheço. A pessoa em questão é Richard Dean Anderson, o cara que faz o MacGyver da série de TV. Então um monte de referências tem a ver com a vida do ator, que é do Minnesota assim como o personagem.”

lourencomutarelli2018a

A história de Charles (ou George ou Albert, porque o cara tem três nomes ao longo dos dez anos em que tudo se passa) possui altas doses de brincadeira com o universo da ficção científica – não à tôa um dos agradecimentos vai ao escritor americano Kurt Vonnegut, forte inspiração deste livro por ter feitos obras de tom semelhante. O disco-voador, que aparece na colagem fotográfica que compõe capa e contracapa, indica ainda uma possível vinda de seres de outro planeta. “É a garota por quem o protagonista é apaixonado. Ela também tem mais de um nome: chama-se Trudi e Sarah. Ele tem uma forte suspeita de que ela seja reptiliana mas quem for ler só saberá se é ou não no final do livro.”

Outro detalhe marcante na trama tem a ver com o seu primeiro título. O filho mais velho de Deus, no caso, segundo as escrituras, é Lucifer. “Falo sobre o mal enquanto essência. A gente precisa entender o mal. O personagem, assim como eu, acha que o bem não tem nada a ver a gente”. Em sua teoria sobre a maldade estar bem mais próxima da humanidade, Mutarelli vai mais além. “Faço uma analogia com o big bang. No começo a gente vivia tudo juntinho. Era tudo muito quente, muito bom. Mas o atrito de estar junto foi tão grande que isso explodiu. A partícula do bem foi jogada para muito longe, é indiferente e não vai mais olhar para trás. Já a do mal veio mais abaixo da gente, mais perto. E o mal também precisa bastante da gente para subir mais pouquinho”. E ele revela também uma curiosidade: os nomes de quase todos os personagens foram retirados da Murderpedia (isto é, uma Wikipedia dedicada somente a serial killers).

Toda esta questão a respeito do mal e de Lucifer remete a outra obra inspiradora do livro: a música do grupo britânico Current 93, considerado por muitos como “portador de mensagens satanistas”. O que, para Lourenço, não passa de uma grande besteira. “Às vezes até minha mulher reclama e pede para eu parar de ouvir. Mas o vocalista e criador do grupo já se declarou até cristão”, reflete, a respeito de David Tibet, na ativa desde o início dos anos 1980, seja explorando formas experimentais do folkno Current 93, fazendo parcerias com outros artistas alternativos (Björk, Anohni, Andrew WK, Will Oldham, Nick Cave) ou ainda apostando em coisas ainda mais doidas ao acompanhar a lenda do rock industrial Genesis P-Orridge em sua banda Psychic TV. “Mas o que eu posso fazer? Gosto de coisa minimalista, de música do capeta”, brinca.

Para finalizar, Mutarelli esclarece uma das dúvidas centrais de todo o seu novo livro: o porquê do título – e também cada capítulo – ter a possibilidade de ter dois nomes. Todo mundo no mundo tem um homônimo, até eu tenho. Os personagens têm mais de um nome também. Os capítulos também. O livro também”. A respeito do batismo do romance, aliás, ele entrega uma história curiosa. “Meu título original era Livro IV e/ou O Filho Mais Velho de Deus. Meu editor não gostou a primeira opção e propôs cortar. Eu bati o pé e acabamos chegamos à decisão de colocar na ordem inversa”. Mas, afinal, o que seria o tal Livro IV, já que este é o oitavo romance do autor? “Esta é uma forte questão mítica que eu tenho. De cara, noto que o número IV já está incluído na própria palavra “livro”. Gosto muito disso.

Mas eu também tenho outras crenças. Como, por exemplo, manter em um caderno a Igreja de um Homem Só, da qual só eu faço parte. Mas também isso não me rende dinheiro nenhum porque ninguém pode se juntar a ela para pagar o dízimo”. E o romance anterior, O Grifo de Abdera, já conta um pouco da história de como uma moeda antiga comprada em uma feira de antiguidades acabou se tornando um grande amuleto, transformado em anel e que nunca sai do dedo dele.

>> Leia aqui a matéria sobre o lançamento do romance O Grifo de Abdera, publicada em 2015

>> Leia aqui a matéria sobre o lançamento do romance A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, publicada em 2008

 

GARFIELD

21.06.2018

Quarenta curiosidades para celebrar os 40 anos de publicação da primeira tira do gato mais preguiçoso do mundo

odiejimdavisgarfield

Texto por Flavio St. Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Reprodução

Neste ultimo dia 19 de junho de 2018, o gato mais preguiçoso e famoso do mundo completou 40 anos de publicação. Já faz quatro décadas que Garfield atormenta a vida de Jon e Odie e nos deixa a cada dia mais apaixonados por ele. Para marcar a data, aqui vão 40 curiosidades sobre a história de Garfield.

>> A primeira aparição de Garfield se deu em 19 de junho de 1978. A primeira tirinha foi publicada em 41 jornais dos Estados Unidos. No Brasil, elas só chegaram em 1985.

>> Garfield foi batizado em homenagem ao avô do cartunista, John Garfield Davis, que morreu quando Jim Davis tinha 6 anos. Segundo ele, seu avô, assim como o gato, era “ranzinza por fora”, mas tinha “um coração mole por dentro”.

>> Ele adora comer lasanha. Jim também.

>> Originalmente, as tirinhas de Garfield eram centradas no dono do gato, Jon Arbuckle. Quando levou seu trabalho às editoras querendo publicá-lo, Jim Davis foi orientado a deixar o protagonismo das histórias com o felino e assim o fez.

>> Garfield é extremamente preguiçoso e tem alergia às segundas-feiras. Segundo o gato, elas seriam melhores “se começassem mais tarde”.

>> Ele vive humilhando seu dono, Jon Arbuckle, e seu fiel companheiro, o cachorro Odie. Aliás, já declarou que os “cachorros são a forma que a natureza encontrou para nos dizer que poderíamos estar em pior situação”.

>> Jon é cartunista. Isso é dito somente na primeira tirinha de Garfield publicada.

>> A Suécia, junto com a Noruega e a Finlândia, é um dos três países nos quais Garfield foi rebatizado. Por lá, o felino é conhecido como Gustav.

>> Garfield é do signo de gêmeos — o gato comemora o seu aniversário no dia 19 de junho, data de sua estreia nos jornais. Seu criador, Jim Davis, é leonino.

>> Inicialmente publicada em 41 jornais (1978), a tira aumentou o número de periódicos que publicavam as suas histórias diárias – já eram cem em 1979 e 2,5 mil em 1995. Garfield é publicado em 111 países e lido diariamente por cerca de 260 milhões de pessoas.

>> Garfield só perde para Peanuts na quantidade de publicações mundiais.

>> O site Garfield Minus Garfield publica as tirinhas subtraindo digitalmente o gato. O resultado são histórias surpreendentemente reflexivas e melancólicas, focadas no depressivo Jon Arbuckle. Criado pelo irlandês Dan Walsh, o site tornou-se sucesso imediato e já ganhou uma versão em livro.

>> A estreia de Garfield na TV aconteceu no programa Here Comes Garfield, em 1982. Ao longo da década de 1980, os desenhos animados ganharam 3 prêmios Emmy.

>> A tira mostrando o 10º aniversário de Garfield ironiza pessoas que transformam os animais de estimação nos “donos da casa”. Também mostra um gato atuando como homem e enfrentando problemas humanos (dieta, tédio, aversão às segundas-feiras). As primeiras tirinhas também traziam um personagem recorrente chamado Lyman, que era o primeiro dono do cachorro Odie e roommate de Jon. Isso era necessário para que o humano pudesse interagir, já que o cão e o gato “só pensavam”. Aos poucos, Davis foi notando que mesmo através de pensamento era possível criar interações e acabou, por fim, excluindo Lyman das histórias.

>> Em 1980, Jim Davis redesenhou Garfield, com olhos ovais e barriga menor, dando como justificativa uma dieta forçada.

>> A tirinha tornou-se colorida em 7 de junho de 1999.

>> Em 2004 foi lançado o filme Garfield. O segundo longa-metragem, Garfield 2, chegou aos cinemas em 2006.

>> No longa de 2004, Garfield fala “Eu amo o cheiro de torta de maçã pela manhã”. A fala é uma referência ao filme Apocalipse Now!, do diretor Francis Ford Coppola, em que um soldado americano na Guerra do Vietnã fala “Eu amo o cheiro de napalm pela manhã.”

>> Entre 2007 e 2009 houve o lançamento de diversos produtos, como, respectivamente, o DVD Garfield Cai na Real, Garfield Fun Fest, a série animada O Show de Garfield e o terceiro filme, Garfield Pet Force.

>> Nos anos 1970, Jim Davis escrevia uma tirinha, Gnorm Gnat, que não tinha boa recepção. Um editor disse que as piadas eram boas, mas não dava para o público se identificar com um inseto. Davis respondeu criando outra tirinha com um gato. O motivo para escolher o animal foi a falta de tirinhas estreladas por gatos (e também ter um personagem que pudesse criar merchandising).

>> Garfield nasceu na cozinha de um restaurante italiano. Por isso gosta tanto de comida italiana, com preferência para lasanha, pizza e espaguete.

>> Nas primeiras tirinhas, Jim Davis quis manter a maior quantidade possível de características felinas no Garfield. Isso incluía, por exemplo, que ele só andasse nas quatro patas. Foi o cartunista Charles M. Schulz, o criador do Snoopy, que sugeriu a Davis que ele desenhasse patas traseiras maiores no Garfield e permitisse que ele se tornasse bípede.

>> Em 1981, Davis criou a Paws, Inc, a empresa responsável pelos direitos da tirinha e os produtos licenciados de Garfield. A empresa fica na cidade natal de Davis, Muncie, no estado de Indiana. A Paws também possui a equipe de artistas que desenha a tirinha, que é apenas escrita por Davis atualmente.

>> Em 1982, Garfield estrelou um especial de TV chamado, em português, Aí vem Garfield. Outros onze especiais foram feitos até 1991. Uma série animada, Garfield e Seus Amigos, foi produzida entre 1988 e 1995. O gato fora dublado no Brasil por Carlos Marques.

>> Nos EUA, a editora Ballantine Books lança dois livros compilando as tirinhas por ano. Em 2001, os primeiros livros começaram a ser republicados em tamanho maior e com as tirinhas em cores.

>> No Brasil, a pioneira em edição de Garfield foi a Editora Salamandra, com livros lançados a partir do fim da década de 1970. Suas impressões foram até o final da década posterior. Algumas séries como Garfield em Ação (que dividia os livros da Ballantine em dois volumes) foram reeditadas ao longo desses dois anos com novas capas.

>> Após virar livro, filme e desenho animado, Garfield tentou conquistar também os palcos. Uma versão musical de sua história estreou em 2011, em Indiana, nos Estados Unidos. Mas o sucesso dos quadrinhos não se repetiu e Garfield Live terminou sua turnê no ano seguinte, sem alcançar grandes números.

>> Garfield já foi desenhado de quatro maneiras diferentes. Mais gorda e realista, a versão original, de 1978, foi substituída após dois anos por um felino antropomórfico, que andava usando as patas traseiras. Já em 1990, um desenho parecido com o gato laranja que os fãs conhecem hoje foi lançado. Em 2000, foi a vez do Garfield atual estrear.

>> Em 1982, sete livros com tirinhas de Garfield apareceram, simultaneamente, na lista de livros mais vendidos do New York Times.

>> No mesmo ano, Garfield foi capa da revista americana People, que o elegeu como a maior celebridade americana do momento. Na ocasião, o gato aproveitou para anunciar seu primeiro programa de televisão.

>> Garfield é uma das atrações principais de dois parques de diversão nos Estados Unidos: Silverwood e Kennywood.

>> Em uma homenagem aos amigos de Garfield na história em quadrinhos, o criador Jim Davis também tem um gato, Nermal, e um cachorro, Pooky.

>> Garfield é da raça Exótico de Pelo Curto. Este nome se explica porque ela foi criada a partir da mistura das raças Persa e com o gato da raça Pelo Curto Americano. O Exótico de Pelo Curto da vida real é menos temperamental do que Garfield. É considerado amoroso e paciente, por isso é ideal para casas com crianças.

>> Já Odie é da raça beagle, a mesma do Snoopy.

>> Em 2002, Garfield entrou para o Guinness Book como a tirinha em quadrinhos com maior número de republicações em todo o mundo: nada menos do que 2.570 jornais exibiam simultaneamente os quadrinhos diários do gato folgado e preguiçoso.

>> Apesar de por aqui chamarmos de “o” Garfield, a ideia de protagonizar as tirinhas com um cão e um gato era a de não precisar especificar gênero aos personagens. Como os gatos da fazenda do avô de Davis serviram de inspiração, o cartunista conta que nunca pensou em uma idade ou gênero específicos para Garfield.

>> A marca Garfield gera, em média, 1 bilhão de dólares por ano em produtos licenciados. Filmes, séries animadas, brinquedos e tudo mais vale quando é para lucrar em cima do gatão. Porém, Jim Davis se arrepende apenas de uma autorização, que ocorreu quando criaram uma versão zumbi de Garfield. No começo ele achou que seria engraçado, mas hoje acha que isso não acrescentou em nada no desenvolvimento do seu principal personagem.

>> Nos anos 1980 e 1990, fez muito sucesso um brinquedo do Garfield com ventosas nas patas, que serviam para pendurá-lo no carro. Isso surgiu de um erro de comunicação, já que o brinquedo deveria vir com velcros, que era a moda de alguns bonecos da época. Quando o protótipo chegou, Davis resolveu grudá-lo em um vidro e esperar para ver se ele não cairia. Como funcionou, ele autorizou a produção daquele jeito.

>> Jim Carrey recusou o papel de Jon na adaptação da tira para os cinemas.

>> Inicialmente mais “pensativo”, melancólico e adulto, Garfield acabou por se tornar um personagem infantil por conta do merchandisinge do retorno financeiro. O personagem dos filmes, construído em CGI (imagem gerada por computação gráfica), pouco tem a ver com o gato dos quadrinhos.

 

MORT WALKER

29.01.2018

Oito curiosidades sobre o criador do Recruta Zero e o cartunista com a produção de maior longevidade dos quadrinhos

mortwalkerpersonagens_gigante

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Bob Daugherty/Associated Press/Reprodução

No último sábado, dia 27 de janeiro de 2018, a agência Associated Press comunicou ao mundo a morte de Mort Walker, por pneumonia. O cartunista norte-americano tinha 94 anos, ainda estava na ativa e há quase 68 fazia, sem interrupção, as histórias de seu mais famoso personagem, o Recruta Zero. Era auxiliado, á havia algumas décadas, pelos dois filhos Brian e Greg. Eles anunciaram que irão dar prosseguimento ao trabalho do pai.

Em sua homenagem, o Mondo Bacana publica oito curiosidades sobre o artista, batizado Addison Morton Walker e que detinha o recorde de permanência de produção contínua de um trabalho em quadrinhos de um mesmo trabalho – inclusive batendo seu principal “rival” na área, Charles Schulz, o criador de Peanuts. As tiras diárias do recruta Zero começaram a ser publicadas em jornal no dia 4 de setembro de 1950. De lá para cá elas alcançaram 200 milhões de leitores em 1,8 mil jornais de mais de 50 países, com extensão para o formato de histórias em quadrinhos, desenho animado e até selo do serviço postal dos Estados Unidos.

Inspiração na vida real

As histórias do recruta se passam no Camp Swampy, quartel militar inspirado no Fort Crowder, construído durante a Segunda Guerra Mundial no sudoeste do estado de Missouri. Walker serviu ao exército dos EUA lá em 1943, quando foi enviado em uma tropa para a Itália. Chegou ao posto de tente, quando acabou sendo dispensado em 1947. Muitas das referências às burocracias e trapalhadas internas vieram de observações e experiências reais do cartunista. A década de 1960 também trouxe bastante inspiração, devido ao envolvimento de seu país na Guerra Fria e na Guerra do Vietnam.

Início universitário

Depois de se graduar na universidade de Missouri em 1948, onde já era chefe de arte de uma revista de humor feita pelos alunos da instituição. Mort desenhava desde a pré-adolescência. Aos 11 publicou seu primeiro cartoon e dois anos depois passou a realizar trabalhos periódicos na área. Aos 15 acabou contratado por um jornal para publicar sua primeira tira de HQ. mudou-se para Nova York para tentar a vida na área. Em setembro de 1950 começou a publicar no Saturday Evening Post as tiras de Spider, um estudante universitário que primava pela preguiça mas sempre conseguia se dar bem através de astúcia e esperteza para driblar as sanções e perseguições.

Mudança bem-sucedida

Spider não fazia muito sucesso perante os leitores e Walker resolveu adaptar a sua criação a um detalhe do momento nos EUA. Aproveitando a onda de nacionalismo que se abatia sobre o país por cauda Guerra da Coreia, em 1951 ele “alistou” o personagem nas Forças Armadas, transformou-o em soldado raso do exército e trocou seu nome (e o da HQ) para Beetle Bailey. Conseguiu renovar seu contrato com a distribuidora de quadrinhos King Features Syndicate, do magnata das comunicações William Randolph Hearst, e passou a publicar em diversos jornais norte-americanos.

Personagens coadjuvantes

O Sargento Tainha (Sgt. Snorkel, no original) é o eterno antagonista do recruta Zero nas suas histórias. Procura sempre ser linha dura com o recruta preguiçoso e seus demais companheiros. Entretanto, Zero sempre acha uma maneira de driblar seu superior imediato. Nisto reside o mote principal das histórias. Tainha também tem um cachorro buldogue chamado Otto, que, por sinal, tem a mesma cara e o temperamento do dono. O intelectual Platão (Plato), o tapado Dentinho (Zero), o jogador Cosme (Cosmo), o revoltado Roque (Rocky) e o mulherengo Quindim (Killer) são os soldados que estão sempre ao redor de Zero (Bailey) nas histórias.

Politicamente incorreto

Alguns tipos secundários do quartel, entretanto, formavam a deixa para Wlaker exercer a sua veia de sátira e contestação sexual. O cozinheiro Cuca (Cookie) é um destes personagens. Além de ser mestre em fazer pratos que acabam com o apetite de toda a caserna, tinha sempre um cigarro junto à boca, inclusive deixando cair as cinzas nas panelas. Um dos dois tenentes, Mironga (Lieutenant Flap) foi criado em 1970 e é o primeiro personagem afro-americano retratado em uma HQ diária norte-americana. Sua marca registrada, aliás, é o cabelo black power, estilo bastante comum entre os negros da época. Já o General Dureza (Halftrack) é a representação da inaptidão completa. A esposa Martha faz dele de gato e sapato, o Pentágono nem lembra que seu quartel existe, os militares sob seu comando não o respeitam e quase sempre aparece nas histórias entregue à bebida. Uma história acabou não publicada por um jornal de Minneapolis por ser tachada de “sexista”. Na verdade, era apenas mais uma das muitas investidas de assédio sexual do general à sua secretaria, a loira Dona Tetê (Miss Buxley), cujo combinado de decotes, minissaias e rebolados atiça os desejos da macharada inteira do Swampy e a torna “mais competente” do que a colega que tem a mesma função. Mas também era o ano de 1981 e o assunto estava bastante longe de figurar na pauta das conversas e jornais do dia a dia.

Parceria com outro mestre

Em 1954 Walker criou a irmã de Bailey e passou a desenvolver, paralelamente, outra gama de histórias. Com o nome de Hi and Lois(publicado no Brasil sob o nome Zezé & Cia), o spin-off de Recruta Zero era uma publicação centrada em uma família, mais voltada para o universo classe média norte-americano. Mort apenas escrevia os roteiros. Quem assumiu os traços foi o desenhista nova-iorquino Dik Browne, que se tornaria famoso mundialmente bem depois, ao criar as história do vikingHagar, o Horrível em 1973.

Humor bíblico

Depois de explorar o universo militar e o das famílias classe média, Mort criou em 1968 uma terceira HQ, desta vez com inspiração nas religiões pentecostais que já haviam se transformado em uma forte instituição em seu país. Com base em um famoso trecho da Bíblia, o cartunista, assinado apenas com o primeiro nome Addison, lançou Boner’s Ark, a sua versão bem-humorada da mítica Arca de Noé. Ali ele retratava uma variada mistura de animais, todos monocromáticos, presos em um barco e constantemente em busca de uma terra. A tal Arca, aparentemente pequena vista por fora e inacreditavelmente gigante por dentro, era conduzida pelo Capitão Boner e possuía quartos de dormir para todos os bichos, além de um cinema, um restaurante (dirigido pelo hipopótamo), um pub e um campo de golfe (?!?!).

Em defesa da classe

Além de ter ocupado temporariamente o cargo de presidente do Sindicato dos Cartunistas dos EUA, em 1974 Mort Walker criou o National Cartoon Musem, dedicado à preservação e exibição de trabalhos de desenhistas de quadrinhos (revistas e tiras de jornais) e animação. Na verdade ele já tinha iniciado em 1940 uma grande coleção particular, iniciada em 1940. O material de acervo – com valor avaliado em 20 milhões de dólares – compreendia, entre outras coisas, 200 mil originais, vinte mil livros e mil horas de fitas e filmes. O item mais importante era o primeiro desenho do personagem Mickey Mouse, feito por Ub Iwerks (que trabalhava para Walt Disney nos anos 1920) para o curta-metragem Plane Crazy, em 1928. Grande parte disso veio de doação de importantes artistas da área, como Chester Gould (criador de Dick Tracy), Hal Foster (Príncipe Valente), Stan Lee (super-heróis da Marvel) e Dik Browne. O museu começou na cidade de Stamford, em Connecticut. Depois sua sede, em virtude de apoios e patrocínios, foi transferida para Greenwich (no mesmo estado), Port Chester (Nova York) e terminou em Boca Ratón (na Florida) até ser fechado em definitivo ao público em 1992. Até que, em 2008, Walker aceitou uma oferta de transferir todo o material para a universidade do estado de Ohio.