Cinema e TV

ENNIO MORRICONE

11.07.2020

Mente criativa de maestro italiano que assinou mais de 500 trilhas sonoras não se limitava a gêneros cinematográficos 

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Reprodução

O que torna uma experiência cinematográfica mágica? Roteiro? Atuação? Fotografia? Direção? São muitos os encantos da sétima arte, mas existe um elemento que além de ajudar a contar a história, ditar ritmo e emoção, ultrapassa as barreiras da tela: a trilha sonora. A música que acompanha um filme pode passar despercebida, mas também roubar a cena. No caso de Ennio Morricone, seu trabalho sempre roubava a cena.

O compositor e maestro faleceu no último dia 6 de julho aos 91 anos, deixando como legado mais de 500 trabalhos, entre eles grandes trilhas da história do cinema. O italiano deixou também seu próprio obituário escrito, mostrando que, além de tudo, tinha ótimo senso de humor. “Ennio Morricone está morto”, anunciou ele logo de cara neste obituário, mas ainda será possível reviver um pouco desse ícone da música e do cinema sempre que apertar o play.

Em 66 anos de carreira, Morricone produziu trilhas diversas que marcaram época e a memória do público. A mente criativa do maestro não se limitava para gêneros e conseguia compor com a mesma para dramas, romances, ficção científica, comédias e, claro, westerns. Os filmes de faroeste não seriam os mesmos sem as trilhas dele, que em parceria com o amigo de infância Sergio Leone criou uma atmosfera peculiar para os filmes. Com assobios e guitarras elétricas em Por um Punhado de Dólares (1964) e uma trilha feita sob medida para cada personagem em Três Homens e um Conflito (1966), Morricone mudou a história do cinema com a música para sempre.

É fato que Leone alongava as cenas para que as músicas pudessem tocar por mais tempo. Dessa admiração, nasceram mais trabalhos conjuntos. Era Uma Vez na América (1984), o épico que encerra uma série de parcerias, traz uma outra face do artista. A flauta melancólica embala a história de amizade dos gangsters e é considerado por muitos seu melhor trabalho.

A união da música e do cinema chegaria em seu ápice em Cinema Paradiso (1988). Morricone compôs uma linda trilha sonora que acompanhou a descoberta do amor de Toto pela sétima arte e o nascimento de sua amizade com o projecionista Alfredo. A história fica ainda mais sensível com o piano delicado produzido pelo maestro.

O reconhecimento pelo Oscar só veio após a virada do século. Em 2007, a Academia presenteou Ennio Morricone com um prêmio pelo conjunto da obra. Esta, porém, não seria sua última vez no palco da cerimônia. Após aceitar o convite do diretor e admirador Quentin Tarantino para produzir a trilha sonora do filme Os Oito Odiados (2015), o compositor finalmente faturou uma merecida estatueta. O diretor, que já havia utilizado outras músicas do artista em suas produções, descreve-o como seu compositor favorito e gosta de deixar claro que quando diz compositor refere-se a nomes como Mozart e Beethoven e não apenas compositores de cinema.

A obra de Ennio Morricone é espessa e valiosa. Ao utilizar elementos como assobio e chicote, revolucionou a arte de compor para a grande tela. As produções que puderam ter a honra de contar com uma de suas criações sentiram a história tomar nova forma com o poder da música. Ele costumava dizer que as composições simplesmente surgiam em sua cabeça e iam direto para o papel. Pode ser difícil definir o que é genialidade, mas, exatamente nesse caso, não restam quaisquer dúvidas.

 

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI

09.06.2020

Diretor Ken Loach escancara a uberização da sociedade e as falsas ideias trazidas aos trabalhadores pela ilusão da ideia de meritocracia

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Em 2020 é difícil encontrar alguém que não use os serviços de Uber, iFood, Amazon e outros apps de entrega baixados no celulares. A comodidade de conseguir o que deseja diante de alguns cliques tem um preço invisível aos olhos do consumidor. Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You, Reino Unido/Bélgica/França, 2019 – Vitrine Filmes), mais recente trabalho do diretor britânico Ken Loach, aborda a chamada uberização da sociedade e como esse movimento pode afetar pessoas que buscam sair de dívidas e melhorar de vida.

Ricky (Kris Hitchen) é um pai de família que embarca no desafio de tornar-se trabalhador informal, com a ilusão de que terá mais liberdade e facilidade em ascender. Sua esposa Abby (Debbie Honeywood) espreme seus horários como cuidadora de idosos e enfermos em uma agência que pouco se preocupa com os clientes. Enquanto isso, os filhos do casal, um adolescente problemático e uma garotinha sentimental, sentem na pele a ausência e a crise da família.

Já na cena inicial o filme mostra a que veio. O novo chefe de Ricky explica o modelo de trabalho (entregas) e romantiza a profissão dizendo que ele não estará trabalhando para a empresa e sim com a empresa e não terá contrato. O que está nas entrelinhas é que o protagonista está iniciando um emprego sem direitos trabalhistas. Para poder começar as entregas, vende o carro da família para adquirir uma van e passa a trabalhar longas horas.

O roteiro é simples e cru. Tem uma aura de documentário, como se houvesse câmeras escondidas acompanhando as dificuldades de uma família real. É fácil esquecer que se está assistindo a um produto fictício, até porque não é necessário usar a imaginação para saber que o que se passa na tela é real.

Ken Loach, em entrevista promocional desta obra, disse que uma das maneiras de frear a extrema direita é acabando com as inseguranças trabalhistas. Os subempregos relatados no filme são fontes de frustração e infelicidade para os personagens e tantos outros trabalhadores que se iludem com falsas promessas de independência.

Você Não Estava Aqui (o título em português é uma ligeira adaptação da mesma frase em inglês utilizada em um bilhete oficial quando o destinatário não é encontrado no momento da entrega da encomenda) é um soco no estômago para todos que utilizam aplicativos e serviços para facilitar a vida. O diretor é certeiro ao optar pela simplicidade do cotidiano. Isso já o suficiente para atingir o público. Nada neste longa é por acaso. Todos os elementos apresentados, mesmo que sutilmente, tem lugar na trama, sejam eles chaves, porta-retratos ou garrafas plásticas.

Se em Tempos Modernos Charlie Chaplin criticou a mecanização do trabalho proposta pelo fordismo, Loach, em Sorry We Missed You, denuncia o tratamento desumano ao qual o proletariado se submete quando enganado pela ideia de meritocracia. A uberização da sociedade é cruel. Como nas palavras do próprio diretor, “não é mais necessário que um patrão use o chicote, porque o trabalhador explora a si mesmo”.

 

MYSTIFY: MICHAEL HUTCHENCE

07.06.2020

Morte do icônico vocalista do grupo INXS é desnudada em documentário… e você a compreenderá muito bem

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Texto por Fábio Soares

Foto: Netflix/Divulgação

Para quem já passou dos 40 anos como eu, a pronúncia da sigla INXS ativa sinapses cerebrais que nos teletransportam a arenas lotadas, uma banda calcada em dançantes batidas que claramente flertavam com o r&b e à imagem de um vocalista que usava e abusava de seu sex appeal e das caras e bocas quando estava em ação. Ele era o rosto do conglomerado. Peça para uma pessoa citar os nomes de três integrantes do INXS com exceção de Michael Hutchence. Ninguém vai saber. Eu também não sabia até 1997.

Mistify: Michael Hutchence (Austrália/Reino Unido, 2019 – Netflix), documentário dirigido e roteirizado por Richard Lowenstein, tem a missão de mostrar o ser humano por trás daquela imagem de australian lover. Ao contrário do que se imagina, o aquariano Hutchence era tímido. Não se autoelogiava, achava que não tinha qualquer talento e necessitava estar rodeado por seus pares 24h por dia.

Freud explicaria esta exacerbada carência. Segundo de três irmãos filhos de uma modelo e de um executivo que não levavam o menor jeito para lidar com crianças, Michael somente sentiu o real significado da palavra família ao lado de seus companheiros de estrada e de Michelle Bennett, namorada entre 1982 e 1987.

Esta foi o maior de seus amores e musa inspiradora da letra de um dos grandes petardos dos anos 1980. Em entrevista concedida nos intervalos das gravações do videoclipe de “Never Tear Us Apart”, o vocalista foi indagado sobre finalmente o INXS cantar o amor em meio a tantas músicas tendo o sexo como tema central. “Não canto o amor mas obviamente esta canção foi composta para uma garota”, respondeu. “Ela sabe?”, disparou o repórter. “Sim, mas ela me deixou e não posso fazer mais nada em relação a isso”, completou.

O frontman desejado por nove entre dez garotas australianas (e de outras nacionalidades também!) na reta final dos anos 1980 era um leitor voraz e grande apreciador das artes plásticas. E encontrou na também cantora Kylie Minogue a parceira ideal para exercitar este aspecto de sua personalidade. Em meio às agendas lotadas dos jovens astros, é comovente ver o esforço empreendido por ambos para se comunicarem através dos aparelhos de fax das recepções dos hotéis.

Em sua reta final, o documentário dá ao espectador todas as respostas do complexo quebra-cabeça de motivos que levaram o vocalista a desistir de sua existência em um quarto de hotel em Sidney, em novembro de 1997. De um acidente sofrido na Dinamarca em 1992 durante um simples passeio de bicicleta à conturbada e destrutiva relação com Paula Yates (celebridade televisiva britânica e ex-esposa se Bob Geldof), Mistify: Michael Hutchence conduz o espectador a uma sinuosa estrada sinuosa de frustrações, corações dilacerados e tristezas sem fim. No final, vem a certeza de que julgar os suicidas é um dos principais erros da sociedade moderna. Michael era como um de nós. Nada mais nada menos.

Separe a caixa de lenços para assistir a este documentário. Você vai precisar dela.

 

MAIOR VIAGEM: UMA AVENTURA PSICODÉLICA

30.05.2020

Documentário mostra celebridades culturais contando boas histórias sobre o efeito alucinógeno em suas experiências pessoais

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação

Uma discussão sobre os pontos positivos e negativos do uso de alucinógenos poderia durar horas, principalmente se baseada em apenas fatos científicos. Maior Viagem: Uma Aventura Psicodélica (Have a Good Trip: Adventures In Psychedelics, EUA, 2020 – Netflix) coloca a ciência em segundo em plano e foca nas histórias de personalidades famosas que usaram alucinógenos.

Partindo da premissa que pessoas interessantes têm histórias interessantes para contar, o novo documentário da Netflix é uma junção de relatos cortados por esquetes e encenações. O mais bacana de assistir é o uso de animação para dar vida à psicodelia e à confusão que a viagens no ácido podem virar. O visual é bonito, colorido, o que contribui para a experiência.  A escolha dos grafismos é certeira para o tema.

A$ap Rocky, Nick Kroll, Natasha Lyonne, Sarah Silverman, Sting, Kathleen Hanna, Adam Horowitz, Ben Stiller, os saudosos Anthony Bourdain e Carrie Fisher e outros convidados dividem tela para compartilhar suas melhores histórias sobre drogas. Alguns relatos são realmente divertidos, outros apenas desconfortáveis. Algumas histórias, com certeza, se contadas em um grupo de amigos próximos foram motivo de gargalhadas, mas na tela ficaram um pouco sem graça. As encenações com atores não contribuem positivamente para a história e poderiam ter sido deixadas de lado.

Ben Stiller – que, curiosamente, é um dos produtores do documentário – contribui com uma das histórias mais interessantes. Ao contrário de muitos de seus colegas de elenco, sua experiência com o LSD foi desastrosa, fazendo-o recorrer a seus pais por ajuda. A reação do recentemente falecido ator Jerry Stiller ao filho usando drogas fora doce e divertida, trazendo leveza para o filme.

Quem teve algum tipo de programa antidrogas na escola irá reconhecer os absurdos de “Bad Trip”, pequenas esquetes em formato after school special apresentadas por Adam Scott. As piadas com a janela, o exagero na inocência dos personagens, o vilanismo como as drogas são tratadas… Todos os elementos contribuem para boas risadas. É também uma crítica, nas entrelinhas, de como as crianças são ensinadas sobre drogas a base do medo e do castigo, não da informação.

Entretanto Maior Viagem: Uma Aventura Psicodélica se perde ao tocar no delicado assunto de “ser adicto” sem saber de forma desleixada e cômica. A atriz Rosie Perez tem uma boa história para contar, mas usar sua experiência para algo tão sério que pode ser traumático para quem vive é irresponsável.

A participação de Sting, por sua vez, é uma das mais interessantes. O cantor e compositor fala dos alucinógenos de um ponto de vista mais espiritual do que os outros entrevistados. Até por uma iniciação de seita ele passou. O filho de Timothy Leary também faz uma ponta. Ele relembra os estudos de seu pai, psicólogo e neurocientista, que acreditava que o LSD seria responsável pelo progresso humano, expandindo a consciência de seus usuários.

Maior Viagem esteve em produção por onze anos. A quantidade de material coletado pode atrapalhado no produto final. Algumas histórias são muito melhores que outras e alguns entrevistados que despertam curiosidade acabam ganhando poucos minutos de tela. Ao fim dos créditos, o espectador não aprendeu, necessariamente, muita coisa nova sobre alucinógenos. Mas certamente teve a oportunidade de entender mais o efeito dele nas pessoas. Ou, pelo menos, em pessoas famosas.

 

SERGIO

08.05.2020

Apesar da sua extrema importância na história da ONU, diplomata brasileiro ganha filme de ficção água com açúcar voltado ao romance

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Parte de um projeto pessoal de Wagner Moura, que busca ressaltar personagens empáticos da história latino-americana, Sergio (EUA, 2020 – Netflix) é derivado de um documentário homônimo (este de 2009), e discorre a respeito da vida e morte de Sergio Vieira de Mello, diplomata brasileiro e figura importante na história da política internacional da ONU. Ambos são dirigidos por Greg Barker, o que demonstra a afinidade do diretor com o material-fonte – são, no mínimo, onze anos de contato com a vida do diplomata. Contudo, por não ter assistido o documentário de 2009, limito-me a analisar o filme lançado neste ano pelo serviço de streaming. Quaisquer comentários daqui em diante se referem à ficção.

O longa-metragem, roteirizado por Craig Borten e baseado na biografia de Samantha Power sobre o diplomata, intercala o atentado que o vitimou em Bagdad, em 2003, e momentos-chave da carreira e vida amorosa do protagonista. Interpretado por Wagner Moura, Sergio de Mello é o centro deste filme em seus dois modos: ao mesmo tempo que tenta ser biográfico, Barker explora o sentimento de Vieira de Mello, tornando a fundação do filme suas motivações, sensações e conflitos.

No entanto, essa fundação não emplaca tanto quanto deveria, pois há uma aparente confusão estilística na decupagem. No início, parece que o diretor opta por uma abordagem próxima do documental, criando uma atmosfera hiperrealista, com câmeras na mão e uma fotografia aterrada e lavada. No entanto, ao longo da trama, a fotografia e a mise-en-scène tornam-se mais polidas, abraçando a superdefinição e o abuso (saudável) da estética de golden hour – como é conhecido o momento do final da tarde em que a luz solar emana uma cor quente, amarelada. Rende ótimos retratos, por sinal.

Mas essa não é a única inconsistência de Sergio. A principal delas é uma confusão de montagem, que não pode ser claramente adereçada sem a exposição de muitos pontos da trama (não cruciais): são múltiplas as vezes em que a trama alterna entre o momento pós-atentado e as muitas recolecções de momentos fundamentais da carreira do diplomata. No papel, não há evidentes problemas, tanto que esta parece uma decisão proveniente do próprio roteiro. Porém a recorrência da alternação torna as porções do “presente” repetitivas, bem como as do passado do protagonista bastante arbitrárias.

Por fim, para quem se interessa pela carreira de Sergio Vieira de Mello, a insistência no romance deste com Carolina, interpretada por Ana de Armas, incomoda. A trama decide focar nas idas e vindas e na incerteza do relacionamento amoroso ao invés de nos mostrar (e não contar) o que faz o diplomata ser tão importante para a história das Nações Unidas. Ainda, a situação torna-se mais incômoda pela falta de química entre de Armas e Wagner Moura, que têm boas atuações individuais, mas não colam um romance convincente. É uma pena que este, um filme com potencial disruptivo e até subversivo, que poderia mostrar-nos grandes momentos de líderes políticos, debates com criminosos de guerra e demais desafios da vida de Sergio, reduza-se a um romance água com açúcar.

O conjunto da obra sofre por suas inconsistências. Enquanto é possível ver o potencial que a história teria com um roteiro diferente, é frustrante ver que este insiste em afastar-se daquilo que o tornaria único. Sendo assim, Sergio se contenta em ser um filme que, em vez de trazer incríveis diálogos a seus poderosos personagens, resulta em montagem atrás de montagem de seu protagonista nadando a esmo – quando não refletindo em diversas posições diferentes nos mais variados lugares.

 

O POÇO

29.04.2020

Produção espanhola suscita debates interessantes porém pouco se arrisca fora das muletas do choque por meio de fortes imagens

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

É um grande desafio prender seu filme nas amarras de uma única possibilidade de cenário. O Poço (El Hoyo, Espanha, 2019 – Netflix), que estreou recentemente e é uma das tendências da plataforma de streaming, apresenta pouquíssimas cenas fora das celas predefinidas de sua prisão (ou centro de autogestão), que alternam entre um monótono cinza azulado e um igualmente monótono vermelho onipresente. É de se imaginar que o enredo do thriller espanhol seja bom o suficiente para angariar os fãs que sua fotografia deixa de maravilhar.

Escrito por David Desola e Pedro Rivero, o roteiro acompanha Goreng (Ivan Msasagué), que, por livre arbítrio, entra no Poço por seis meses com a intenção de parar de fumar. A estrutura dessa prisão é simples: centenas de andares, cada um com duas pessoas; uma vez por dia, uma mesa repleta de comida desce do andar anterior. Ou seja, enquanto os primeiros andares têm uma farta mesa, os demais devem satisfazer-se com seus restos. O problema é igualmente simples e até óbvio, como diria Trimagasi (Zorion Eguileor), um dos personagens: em um dado momento, os andares deixam de receber comida – e, assim, devem morrer de fome ou matar uns aos outros. É comer ou ser comido.

Dadas as regras, que são transmitidas por Trimagasi assim que a trama se inicia, nossas simpatia e empatia estão com Goreng, que encara com horror o funcionamento do Poço, bem como as consequências deste. Qualquer outro comentário acerca da trama entra em território perigoso de spoiler. Então, só me resta transmitir que, por mais que a franqueza dos diálogos e a rapidez com que eles passam as informações possam incomodar, tais características diminuem e as conversas se normalizam – na medida do possível.

O filme é dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia (em seu primeiro longa-metragem) e traz consigo uma abertura para o debate de inúmeros temas. É possível explorar religião, leis, o papel estatal e assim em diante. Não muito disto, porém, provém da decupagem de Gaztelu-Urrutia, que não parece empregar muitas marcas estilísticas autorais. Tendo isso em vista, encontra problemas em uma das características mais marcantes da obra, sua utilização do grotesco para chocar a audiência. Há exemplos disto não somente na decupagem fotográfica, como também na dimensão sonora da trama – os sons exagerados ao comer, seja o que for.

Mas, principalmente, há uma arbitrariedade da utilização da capacidade de choque da imagem que só se justifica pela busca gratuita deste, a fim de prender a atenção dos espectadores. Convido ao leitor a se perguntar, a cada cena de grafismo agressor (imagens de violência), se esta é realmente necessária. Ela introduz algo novo à compreensão do filme? Provoca o espectador acerca de um tema? E, continuando, peço que faça o mesmo a cada opção por não revelar a violência em sua dimensão gráfica. Não é possível encontrar um exemplo de cena similar que teve exposta sua violência? Existe uma decisão ordenada de quais cenas têm seu conteúdo violento apresentado?

Sinto dizer que não fui capaz de positivar essa resposta. Sendo assim, a direção de Gaztelu-Urrutia oscila entre o convencional e o fetichista, mas não ofusca a funcionalidade do enredo por mérito da montagem de Elena Ruiz e Haritz Zubillaga, que introduzem um ritmo pulsante à narrativa, seja em seus momentos de diálogo ou nas várias montages que cortam a trama. É ela que, quando não ofuscada pela necessidade de gore de seu diretor, aflora o interesse temático e narrativo que a audiência tem em O Poço.

Portanto, o filme espanhol tem seus méritos e também seus deméritos. É capaz de trazer entretenimento, até mesmo servir de base para discussões sobre a natureza da humanidade. Entratanto, seu fetiche pelo gore pode afastar audiências – e suscita, por si mesmo, um debate negativo ao longa. Vale assistir, mas não há motivo suficiente para, como vi por aí, compará-lo a Parasita ou qualquer “melhor filme” dos anos recentes.

 

MARTIN EDEN

10.04.2020

Filme italiano baseado em história de Jack London faz a grande atuação do protagonista Luca Martinelli superar a falta de coesão narrativa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Pagu Pictures/Divulgação

Como de costume, os cinemas brasileiros trazem filmes aclamados em festivais com um grande atraso. Esse foi o caso de Martin Eden(Itália/França/Alemanha, 2019 – Pagu Pictures), que chegou aqui no início de março (antes de estourar o isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus), mesmo tendo estreado no Festival de Veneza, onde desbancou o Coringa de Joaquin Phoenix e angariou o prêmio de Melhor Ator a seu protagonista, Luca Marinelli.

Martin Eden é um longa-metragem italiano, dirigido por Pietro Marcello e baseado no romance homônimo de Jack London. O roteiro, de Marcello e Mauricio Brauzzi, adapta a história, que se passava na Inglaterra, ao panorama italiano do início do século 20. O arco de Martin não é, de forma alguma, ruim. O caminho do marinheiro rumo ao sucesso como escritor, às custas de seu amor e seu desejo de viver, tem tudo para render belíssimos momentos emocionantes, críticas sociais e, de forma geral, um belo filme. Contudo, esse potencial encontra uma barreira absolutamente constitutiva da estética e direção: a má construção das cenas, sua falta de coesão e, principalmente, seu fim antecipado.

As repetidas escolhas de cortar diálogos com “frases de efeito” (das quais a resposta é vital para o avanço da narrativa) e alternar entre elipses longas e montagens insuficientes para avançá-la temporalmente não deixam espaço para a imaginação do espectador, mas um vazio que falha em ser preenchido pelos pequenos indícios do que ocorre enquanto não estamos por lá. A escolha criativa de uma narrativa não somente permeada, mas primariamente construída por elipses, não é, a priori, ruim. Infelizmente, faltou a ela, neste filme, uma cola capaz de atar os espaços produzidos pela não-informação. Isto é, boas cenas.

Deixa a desejar, também, o comentário político que o longa busca fazer, inspirado pelo seu material-fonte. Pela mesma falta de coesão narrativa, os flertes de Eden com o individualismo e sua recusa ao socialismo, que é defendido por seu grande amigo (que aparece pouco e de maneira abrupta; ou seja, mais uma relação completamente desenvolvida nas elipses) Russ Brissenden, interpretado com maestria por Carlo Cecchi.

Nesse sentido, é importante ressaltar que as premiações angariadas por Marinelli são justíssimas. Sua atuação desponta das demais – que são bastante competentes, não me entenda mal – pela densidade que o ator traz às emoções flutuantes de seu personagem. Sua raiva e indignação são sentidas, suas perdas também. No entanto, deixa um gosto amargo na boca, pois teríamos testemunhado uma atuação tão mais potente caso a obra não sofresse de seus males narrativos.

Martin Eden conta com a linda fotografia de Alessandro Abate e Francesco Di Giacomo, uma colagem de diferentes milimetragens de película, movimentação de câmera e padrões de cor, munida de uma belíssima mise-en-scène, que ilustra a expertise de seu diretor. Por mais belo que seja, entretanto, o longa não consegue prender o espectador com tanta potência. Muito mais do que ver os três estados de espírito de seu protagonista e entender o porquê dele ter mudado tanto, queremos vê-lo passar por essa mudança. É a clássica regra do “mostre, não conte” adaptada para “mostre, não pule transformações vitais como se fossem partes de menor importância da trama”.

 

WHAT DID JACK DO?

08.04.2020

Curta-metragem de David Lynch aposta em estética noir e história baseada um surreal interrogatório de um macaco suspeito de assassinato

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Em uma estação de trem, um detetive interroga Jack, um macaco suspeito de assassinato. Esta, simples assim, é a trama do curta-metragem de David Lynch que estreou há três anos, mas só há pouco chegou ao catálogo da Netflix.

O icônico diretor surrealista, de obras como Twin Peaks, Veludo Azul e Eraserhead, explora a simplicidade da trama com poucos planos, recheados de diálogos. Vale lembrar que é praticamente impossível assistir algo de Lynch sem uma interpretação bastante subjetiva, tal como o processo do diretor. É até mais difícil escrever sobre sem cair na própria interpretação. Em What Did Jack Do? (EUA, 2017 – Netflix) a questão é ainda mais delicada.

Os pouquíssimos planos são fotografados por Scott Ressler com estética noir, abusando das sombras e seu alto contraste com os realces das imagens. No entanto, a obra, como é comum na filmografia de seu diretor, roteirista e protagonista, traz constante estranhamento. O primeiro motivo para tal, dentre vários, é o cenário teatral, anguloso e desconfortante, com clara influência no expressionismo alemão. Logo que os diálogos se iniciam, mais um estranhamento: a boca de Jack é humana, e se move como tal, numa colagem que flerta com a websérie Laranja Irritante. Assim, com as cartas na mesa, Lynch inicia o ponto principal, a própria estrutura dos diálogos.

O Detetive e Jack vão e voltam em metáforas, figuras de linguagem e ocasionais sentenças diretas. O jogo é claro: aquele quer incriminar este, que foge de toda e qualquer pergunta. Num mundo onde macacos, orangotangos, galinhas e os mais diversos animais têm acesso à linguagem e cultura dos humanos, Lynch é capaz de criar um texto escuso, cheio de ambiguidades e diversidade de interpretações possíveis. E é nesse jogo de imagens, construídas por essa conotação da linguagem e pela reconstrução de eventos que o detetive almeja (uma estratégia comum de interrogatório), que o curta-metragem entretém, fazendo o tempo voar tão rápido que seus dezessete minutos de duração parecem passar em cinco, dez minutos.

No entanto, para quem espera uma obra-prima de Lynch, ápice de sua experimentação ou algo do gênero, convém abaixar as expectativas. What Did Jack Do? é divertido, mas não passa muito disso. Pode-se dizer que, a fim de aliviar o soco de obras mais densas do autor, que este é um curta introdutório aos demais filmes que compõem a carreira dele. Em tempos de quarentena, é uma opção melhor que reassistir aquela série pela quingentésima vez, não?

 

JOIAS BRUTAS

01.04.2020

Trama caótica, montagem tensa e Adam Sandler fugindo de suas habituais comédias estereotipadas tornam este filme uma divertida surpresa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

É relativamente fácil vermos um filme que cria tensão. Essa ferramenta de linguagem está tão incrustrada no cinema contemporâneo que a tomamos por dada. Difícil, no entanto, é um longa que o faça a todo momento – das mais variadas formas possíveis.

Joias Brutas (Uncut Gems, EUA, 2019 – Netflix) é dirigido pelos irmãos Josh e Benny Safdie, escrito por eles junto a Ronald Bronstein e montado pelos dois últimos. Essa autoralidade, que passa da cadeira da direção para inundar as diferentes etapas da produção cinematográfica, é típica da obra dos Safdie. E se paga completamente neste longa.

A trama acompanha a turbulenta vida de Howard Ratner, um joalheiro nova-iorquino que, ao mesmo tempo que deve muito dinheiro, vê a oportunidade de uma venda astronômica. Tal como sua rotina, a história é frenética. O protagonista vai e volta, num entra-e-sai de lugares, negócios e acordos que, embora bastante simples, tornam-se difíceis de acompanhar. No entanto, a história não seria a mesma – e, por consequência, não seria tão boa – caso não houvesse dois pilares: a direção e a montagem por um lado, Adam Sandler no outro.

Comecemos por aqueles. A constante câmera na mão, perdida no meio de um mar de ações do elenco, é efusiva e sinaliza bem a correria em que Joias Brutas se estabelece. Os Safdie dão bastante espaço para seus atores, porém quase nenhum para sua câmera – sempre claustrofóbica, fechada e cambaleando de quadro a quadro. A fotografia de Darius Khondji é indissociável desse estilo. Granulada, lavada e por muitas vezes fora de foco, ela constrói não somente a cidade em que Howard vive, mas suas incertezas e planos mirabolantes.

Enquanto isso, cabe aos montadores a criação de um ritmo onipresente à obra. O cinema acelerado dos Safdie, a megalomania de Howard e as constantes discussões polifônicas que montam a trama são sempre extrapolados pela constante troca de câmeras, ângulos e pontos de vista. Contudo, a preocupação em construir o ritmo não permite que se perca a coesão narrativa e a sensação de unidade do longa. É bagunçado, mas é um só. Quis ser bagunçado.

E não seria estranho, portanto, que o protagonista fosse a bagunça personificada. Howard fala demais, é canastrão e vivaz, mas autêntico e de uma certeza inabalável. Seu adultério, vício por apostas e a interminável construção de plano atrás de plano para ganhar dinheiro não são somente características externas ao personagem, dadas pela trama porém introjetadas nele mesmo por seu ator. Sandler vive Howard, numa interpretação que resgata a constante “interpretação de si mesmo”, joga-a contra a parede e propõe uma persona que não foge dos maneirismos mas é muito além disso. Vale comentar, num adendo, que não há a infame voz exagerada que o humorista faz quando tenta ser engraçado . O que é um alívio para o espectador.

A trilha sonora de Daniel Lopatin ainda é certeira. Seus sintetizadores por ora dissonantes e deixam a trama respirar (mesmo que em sua respiração ansiosa) e somente a calçam, sem perder a melodia.

Tudo isso faz de Joias Brutas um filme ansioso, que jamais perde tempo, confuso em si mesmo e capaz de desenvolver sua tensão do início ao fim. Construído em volta da melhor atuação de Adam Sandler até o momento e amparado por ótimas interpretações de Julia Fox e Lakeith Stanfield, o longa abraça o caos de sua trama e permite acompanhar Howard por uma história divertida, na qual a tensão irrompe mais num jogo de basquete que numa confusão com a máfia. Uma boa surpresa para algum desavisado que espera de Sandler um Gente Grande atrás do outro. Volta e meia ele faz um filme bom.

 

MIDSOMMAR: O MAL NÃO ESPERA A NOITE

25.03.2019

Diretor de Hereditário traz inovação para o gênero do horror ao apostar em rituais, traumas e uma trama clara e impactante como o sol da meia-noite

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O desconhecido e o diferente podem ser aterrorizantes sem muito esforço. Juntando esses fatores a um relacionamento arruinado e férias frustradas o aumento da adrenalina parece justo. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, EUA, 2019 – Paris Filmes), o novo filme do jovem diretor Ari Aster é um conto de horror em que o medo não se esconde atrás de portas esperando para dar um susto. Ele é claro e impactante como o sol da meia-noite.

Quando cinco jovens viajam para a Suécia para participar de um festival local de verão, inicialmente o mais estranho parece ser o sol que nunca se põe e os hábitos da pequena comunidade. Com o decorrer da história, os rituais, os maneirismos e tudo o que é desconhecido passa a ser temido. Florence Pugh vive o papel de Dani, uma jovem com uma carga de traumas passados, que embarca de última hora na viagem para acompanhar seu namorado (Jack Reynor).

O relacionamento dos dois personagens já está fadado ao fracasso e isso fica cada vez mais evidente a cada interação. Os atores conseguem passar o desconforto de duas pessoas que ainda estão juntas, mas já não se amam ou confiam uma na outra. A crise no namoro é um ponto central para o desenvolvimento da trama e alguns de seus pontos mais tensos.

O visual de Midsommar é atípico para um longa de terror. A claridade conflita com a violência gráfica, deixando tudo mais absurdo e difícil de digerir. É um filme ambicioso que se apropria de diversos elementos que se desenrolam lentamente nas quase duas horas e meia de duração. Aster já havia determinado padrão diferenciado com seu filme de estreia e agora impõe algo novo. Enquanto Hereditário (2018) continha truques tradicionais do gênero, seu mais novo trabalho distancia-se da maioria dos outros títulos, confundindo quem foi ao cinema esperando por uma história linear e recheada de momentos intensos.

A transição de Dani da sala para o banheiro do avião é um rápido e bom resumo do sentimento que o filme traz: o de confusão. Nunca dá para saber exatamente o que está acontecendo. Por partes pelo uso de alucinógenos pelos personagens e por nunca se saber quais os limites dos rituais do até então desconhecido vilarejo sueco. As belas paisagens, as lindas roupas, as flores coloridas, a estética contrasta a todo momento com os horrores vividos pelos personagens.

O terror é um gênero que costuma colocar mulheres em evidência. Aqui não é diferente. Na reta final, Midsommar surpreende (ainda mais) ao escolher um caminho diferente e catártico para sua personagem principal. Dani assume um papel de relevância no local e tem uma epifania, talvez o desconhecido não seja tão esquisito assim, até sueco descobre que consegue falar. Esse inédito sentimento de pertencimento guia a personagem a cena final do longa.

A ambição de Ari Aster é valiosa. Midsommar, que acaba de ser disponiblizado em streaming pela Amazon Prime Video, não é sua melhor obra, mas tem grande importância ao tentar quebrar barreiras de um gênero que implora por novos ares. Com seu segundo filme, o diretor consegue estabelecer um tipo de horror que amedronta. Não por dar sustos, mas, sim, por lidar com sentimentos.

 

BACURAU

22.03.2020

Misturando gêneros e colecionando prêmios e boas críticas, mistura de passado e presente do eterno país do futuro chega ao DVD e ao streaming

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Vitrine /Divulgação

Distopia é a antítese da utopia. Este é um termo que vem bem a calhar nesse novo cenário mundial promovido pela pandemia do covid-19. Nossa realidade parece até roteiro adaptado de um livro de Aldous Houxley ou George Orwell ou mesmo algo criado por Stanley Kubrick. Mentes aptas a imaginar um ataque de um vírus mutante que condicionaria o ser humano a privar-se de sua liberdade e ser impedido de sair de suas casas e ter contato físico com as pessoas.

Futuros distópicos, em regra pós-apocalípticos, onde a paranoia se instaura, originaram uma série de filmes de ficção, muitos baseados na literatura de autores citados acima. Entre eles está Bacurau (Brasil/França, 2019 – Vitrine) , coprodução premiadíssima mundo afora, que levou o prêmio do júri em Cannes cinco meses antes de entrar nas salas dos cinemas no Brasil no ano passado.

O longa é uma ótima pedida para assistir nesse recesso forçado. Já pode ser encontrado em DVD (com venda exclusiva pela Livraria Cultura, aliás) com o plus de um making of mostrando os bastidores da filmagem realizada no sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte. Mas se você não pretende mandar vir pelo correio (já que devemos todos ficar em casa), pode ainda ver o filme pelos canais Play e Premium do Telecine, atualmente com sinal aberto para não assinantes.

Bacurau é o terceiro longa-metragem dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles depois de Aquarius e O Som ao Redor (o primeiro, no catálogo do Telecine; o segundo, disponível na Netflix). Além da conquista de Cannes e outros prêmios, foi eleito o melhor filme de 2019 pela Associação Paulista de Críticas de Arte (APCA). O reflexo disso pode ser conferido nas críticas positivas nacionais e estrangeiras, como dos jornais The New York Times, que teceu elogios à obra, e The Guardian, que a chancelou com quatro estrelas. Esse fascínio por Bacurau se deve muito por conta da ótima performance do elenco, com atores experientes como Sônia Braga e o alemão Udo Kier à frente da escalação predominantemente nordestina.

Tanto sucesso é explicado principalmente pela originalidade do roteiro capaz de tecer uma crítica sociopolítica complexa, sem cair no lugar-comum da maioria dos filmes brasileiros a que costumamos assistir nos cinemas, principalmente na abordagem que faz sobre a violência. Como já dito, a trama se passa num futuro distópico, fato que fica evidente na introdução e a beleza futurística da abertura embalada ao som de “Não Identificado”, composta por Caetano Veloso e eternizada na voz de Gal Costa.  Bacurau é o nome de um povoado fictício que está fora do mapa. Ao descobrirem que não existem oficialmente, moradores percebem uma série de eventos estranhos que vão culminar num verdadeiro bangue-bangue propiciado por um grupo de estrangeiros – americanos liderados por um alemão – que se apropria dessa terra de ninguém a fim de exterminar os moradores como num jogo de videogame.

Os moradores de Bacurau são, literalmente, presas dos gringos. Por isso, precisam lutar com unhas, dentes e armas, bem ao estilo de Lampião, para sobreviver ao domínio dos inimigos. No filme, assim como a figura do cangaceiro, os vilões se transformam em heróis, interpretados de forma magistral por Silvero Pereira (Lunga) e Acácio (Thomas Aquino).

Costurada de forma sui generis, a trama mescla diferentes gêneros como western, comédia, drama e suspense (com uma clara homenagem ao cinema do americano John Carpenter, do qual Mendonça Filho é fã declarado). Numa leitura abrangente, o filme corresponde a uma alegoria do Brasil, sendo capaz de, em 130 minutos, dialogar sobre passado e presente do eterno país do futuro.

 

DE QUEM É O SUTIÃ?

17.03.2020

Diretor alemão aposta em ritmo dinâmico, bela fotografia e críticas sociais nas entrelinhas desta trama sem diálogos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Pandora/Divulgação

Prender a atenção do público na poltrona do cinema para assistir a um filme falado já é tarefa que exige criatividade. Imagine, então, se for uma história sem diálogos. Além de trama engenhosa, é preciso, sobretudo, expressividade do elenco, trilha sonora empolgante e um ritmo dinâmico na montagem. De Quem é o Sutiã? (Vom Lokführer, der die Liebe suchte…, Alemanha/Azerbaijão, 2018 – Pandora) consegue reunir alguns desses requisitos, mas exige uma certa dose de paciência por parte do espectador.

O filme é uma verdadeira torre de babel: trata-se de uma produção alemã, rodada no Azerbaijão (ex-república soviética na Ásia Ocidental que tem a tradição do cinema azeri) e com um time de atores e atrizes de países como Bósnia, Geórgia, Sérvia, Rússia, Espanha (de onde vem Paz Vega, numa curta aparição aqui) e França (representada por Denis Lavant). Alguns espectadores – que não costumam ler críticas antes de assistir ao filme – chegam ao cinema surpresos com o fato de a história ser muda. Pensam até em desistir, mas você, que veio até aqui neste texto, nem pense em fazer isso! O diretor alemão Veit Helmer, esforçadamente, consegue segurar o público na poltrona aproveitando a bela fotografia (que mostra as montanhas do Cáucaso), trilha sonora que lembra a de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain e um enredo que nos remete a filmes do cineasta francês Jacques Tati.

O protagonista é o maquinista interpretado pelo sérvio Predrag “Miki” Manojlović. Prestes a se aposentar e passar o bastão para seu sucessor Kamal (Lavant), Nurlan realiza suas últimas viagens pela capital Baku. O trem passa por vielas que ficam a centímetros dos trilhos e, por isso, vive arrancando uma peça de roupa do varal. Sempre ao final do expediente, Nurlan cumpre o ritual de devolver o objeto para o morador, seja um lençol ou uma bola de uma criança que ficou presa no veículo, e caminha como um príncipe à procura de sua Cinderela.

Na primeira parte do filme, o espectador se familiariza com a rotina de Nurlan, um homem solitário, que tenta pedir em vão a mão de uma jovem moradora da região. Para isso é preciso pagar o dote da noiva, mas ele não consegue por não ter força suficiente, não o dinheiro.

Numa de suas últimas viagens, o trem fisga um sutiã azul e branco. Nurlan fica obcecado pela imagem da mulher, dona da lingerie. Como se trata de uma peça íntima, no início, ele tenta se desfazer do acessório por pudor, mas o dever de devolvê-lo fala mais alto. Depois de um prólogo arrastado, pode-se dizer, então, que a saga de Nurlan começa e o protagonista, lembrando Walter Matthau, bate de porta em porta no vilarejo para encontrar a dona dos seios que se encaixam na numeração do sutiã. Obviamente, a ousadia é vista com desconfiança por todos. Afinal, onde já se viu um idoso entrar na casa de mulheres, viúvas, mães de família com filhos pequenos para criar, mulheres da vida, idosas, adolescentes e entregar a peça íntima para que elas o provem? Para piorar, ninguém fala no filme, seja pra gritar “socorro” ou dizer “seja bem-vindo”. Por isso, os gestos abertos e principalmente as expressões, como sorriso largo e olhos arregalados, são os condutores da performance narrativa.

Até então, o filme parece se tratar de uma fábula encantadora, singela e sutil. Contudo, o roteiro vem acompanhado de um recheio que não lembra a doçura de um manjar turco. A começar por um menino cuja função é avisar os moradores quando o trem se aproxima. O garoto, a grande surpresa da trama, sai correndo com um apito a tiracolo sempre que escuta o outro apito, o do trem. O menino, que também ”trabalha” de garçom num bar, sendo tratado como um cachorro pelo dono, ajuda Nurlan a encontrar o sutiã. Nas entrelinhas da história, também é possível perceber a crítica ao machismo. Volta e meia o maquinista é expulso da casa das donzelas pelo marido barbudo que trata a esposa como propriedade.

A história até chega a arrancar alguns risos da plateia, mas não gargalhadas. Quando se aproxima do final, o mesmo flashback repetido uma série de vezes torna a narrativa um pouco cansativa. Só que vale a pena esperar pelo desfecho poético, emocionante e digno até de provocar lágrimas.

 

O MELHOR ESTÁ POR VIR

05.03.2020

Relação entre dois grandes amigos de infância desconstrói a ideia de que o fim da vida precisa ser apenas triste

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Texto de Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Morte não é um tema simples de ser tratado, nem na vida real e nem no cinema. Um exagero e o filme pode tornar-se triste demais ou escrachado demais. O novo filme da dupla de diretores e roteiristas Matthieu Delaporte e Alexandre De La Patellière, O Melhor Está Por Vir  (Le Meilleur Reste à Venir, França/Bélgica, 2019 – Paris Filmes) acaba sendo uma boa balança entre o comédia e o drama.

Cesar (Patrick Bruel) e Arthur (Fabrice Luchini) são melhores amigos desde a infância. Um dia são impactados ao saberem que um está muito doente e vai morrer em breve. A notícia, fruto de uma grande confusão, leva os dois a realizarem seus maiores desejos. Com momentos cômicos que só poderiam ser proporcionados pelo humor francês, o filme navega pelo doce e o amargo de uma evidente despedida.

Com ótimas atuações dos atores principais, o longa tem roteiro simples e leve. A tristeza da história não é sufocante. Pelo contrário, é esperançosa. Enquanto de um lado existe um Cesar radiante, bem-humorado e enérgico, seu melhor amigo, Arthur, é o oposto: tenso, pessimista, nebuloso. Essa relação em forma de antítese ajuda a história a construir-se sozinha, sem necessitar grandes intervenções. Os dois protagonistas são muito bem construídos, fascinantes de acordo com suas peculiaridades.

Se em uma breve sinopse pode parecer que o tema principal do filme seja a morte (ou a vida), a amizade talvez seja o elemento mais rico e belo dessa narrativa. Além dos desejos exóticos e extravagantes, os dois também desejam melhorias na vida do outro antes do final. Mesmo que o ato de se meter na vida do outro cause conflito na história, eles estão sempre dispostos a ouvir e a seguir os conselhos do amigo. Uma frase que poderia ser a síntese da história é “a amizade tem o que falta no amor: a certeza”. Cesar e Arthur ensinam que apesar das adversidades, separações, reconciliações e doenças a amizade permanece.

O Melhor Está Por Vir desconstrói a ideia de que o encerramento da vida precisa ser apenas triste. A bela montagem ajuda a criar um clima nostálgico em que as quase duas horas de filme passem rápido. Lágrimas podem ser inevitáveis no final, mas, ao contrário de outros dramalhões, essa comédia dramática deixa espaço para um sorriso.

 

TAYLOR SWIFT: MISS AMERICANA

03.03.2020

Documentário procura colocar os pingos nos is ao revelar a intimidade e o amadurecimento pessoal da megaestrela da música pop

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação

Ela apareceu para os holofotes em 2006 como uma romântica cantora country. Aos poucos foi se consolidando como a mais nova princesinha da América (branca, loira, alta e de olhos azuis). Em meio a músicas de sucesso, prêmios, namoros públicos e polêmicas muito especulou-se sobre sua verdadeira personalidade. E agora, em Miss Americana (EUA, 2020 – Netflix), Taylor Swift coloca os pingos nos is.

O documentário dirigido por Lana Wilson é o mergulho mais profundo já feito na vida e na mente de uma das personalidades mais famosas no mundo. Embora em suas canções Taylor nunca tenha tido medo de expressar seus sentimentos, pouco se sabia o que acontecia quando as cortinas se fechavam. Conhecida por ser bastante cuidadosa com sua imagem, a popstar passou anos tentando controlar a própria reputação ao se encaixar nos moldes do que os outros queriam que ela fosse.

Logo no início do documentário, a artista afirma que sempre sentiu a necessidade da aprovação de terceiros e isso influenciou para tornar-se a eterna “garota boazinha”. Não reclamar, não se revoltar, ser sempre agradável e jamais falar sobre política. Influenciada pela execração sofrida pela grupo country Dixie Chicks, que viu sua carreira ruir ao posicionar-se contra a Guerra do Iraque, Swift decidiu ainda no início de sua carreira que nunca iria abordar o tema. Mal sabia ela que nesse caso ser uma “garota boazinha” também lhe renderia muito hate.

Uma das missões do filme é abordar o renascimento da popstar para, agora, uma mulher com posicionamentos políticos definidos. Se em 2016 foi criticada por não ter falado sobre as eleições, inclusive foi acusada de ser eleitora de Donald Trump, Taylor deixa claro que agora será diferente. Miss Americana mostra os bastidores da decisão da cantora de quebrar seu silêncio em relação à política. Em um debate acalorado com seu pai e sua equipe, Swift defende que desta vez precisa estar do lado certo da História.

Já repassada milhões de vezes, a briga com Kanye West também tem seu tempo de tela. É admirável vê-la falando de forma tão crua sobre um episódio que poderia ter destruído sua carreira. A mulher que antes sempre procurava evitar o assunto – ou falar apenas por partes – abre-se sobre o que sentiu e o que viveu nos meses em que foi “cancelada” pelo público. Muitos podem achar uma oportunidade para inserir drama (afinal, todo filme precisa de um pouco de drama!), mas a abordagem do assunto no documentário é essencial. Miss Americana provavelmente não existiria sem esse episódio, Swift nunca precisaria se reinventar em 180 graus se não tivesse visto o fim de tudo tão perto.

O melhor e mais surpreendente momento é quando Taylor fala sobre seu transtorno alimentar. Em um carro em movimento, vemos o lado mais vulnerável da megaestrela que, assim como milhões de mulheres do mundo, também sofre para amar seu próprio corpo. A exposição de um assunto delicado como esse mostra um esforço de Swift em dividir mais de quem ela é com seu público, incluindo os lados do qual não se orgulha.

Miss Americana é um documentário sobre o despertar político e o retrato da intimidade de uma personalidade mundialmente famosa. Porém, acima de tudo, revela o amadurecimento de uma garota que queria ser o que os outros pediam para a mulher que a cada dia adquire mais voz.

 

AVES DE RAPINA – ARLEQUINA E SUA EMANCIPAÇÃO FANTABULOSA

01.03.2020

Colorida trama estrelada e produzida por Margot Robbie fala sobre a emancipação feminina em um mundo governado por homens

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Warner/Divulgação

Força e feminilidade por vezes soam como duas palavras antagônicas: uma só existe se a outra não estiver presente. Entretanto, o longa Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fabulosa (Birds of Prey And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, EUA, 2020 – Warner) veio para libertar o público deste estereótipo e mostrar que é possível, sim, ser as duas coisas ao mesmo tempo. E é no meio desse amálgama de libertações que o filme toma forma.

A produção, estrelada e produzida por Margot Robbie, celebra diversas formas do feminino e – assim como explicita o título – de emancipação de um grupo de mulheres em um mundo governado por homens. Emancipação: substantivo feminino; qualquer libertação; alforria, independência. Diferente das idealizadas Mulher-Maravilha e Capitã Marvel, as personagens de Aves de Rapina têm habilidades modestas e problemas comuns, buscando a própria voz em um mundo que só tem ouvidos para a unissonância masculina. Tudo isso dá ao filme um propósito realista, que funciona muito bem para aproximar o público de uma realidade palpável, ainda que cartunesca e fantasiosa. A relação entre Harley Quinn e seu sanduíche de ovo, por exemplo, diz muito mais ao espectador do que uma luta do bem contra o mal.

Com uma nova perspectiva, o longa captura a essência energeticamente anárquica de sua protagonista. No cenário atual, vê-la sendo abusada enquanto promete seu amor ao agressor logo se torna insustentável. Ela, por sorte, deixa de lado o papel de coadjuvante em Esquadrão Suicida para reivindicar, quatro anos depois, o lugar de protagonista de sua própria história.

O longa dirigido por Cathy Yan traz inúmeras formas de emancipação para compor o arco de cada personagem. Assim, o espectador acompanha a história de Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Renée Montoya (Rosie Perez) e Cassandra Cain (Ella Jay Basco) em suas buscas particulares por liberdade e autonomia. Com o roteiro de Christina Hodson, Aves de Rapina consegue abordar assuntos complexos, como machismo e violência física e psicológica, de uma maneira descontraída. Ainda que cartunesco, com um cenário brilhante e colorido, o filme passa longe de ser infantil. Ele continua sendo sobre mulheres que precisam se libertar de alguma maneira, seja de alguma coisa ou alguém.

Entre outras tentativas de tentar fazer da produção uma extensão da embaralhada mente de Harley, que mais parece um jogo de pinball, está a narrativa não linear. Ainda que ousado como sua protagonista, com cenas de luta deslumbrantemente coreografadas, o longa perde ritmo e torna-se inconstante em algumas cenas e diálogos finais. O enredo, narrado pela agitada personagem principal, vai e volta no espaço e no tempo para preencher a história de todos. Quebrando constantemente a quarta parede, é a própria Harley quem controla o filme – e também sua cronologia – servindo como uma outra forma de emancipação. Mas, por mais prazeroso que seja assisti-la narrando sua história, as diversas idas e vindas no roteiro resultam em uma narrativa confusa. Embora a escolha tenha sido proposital, para transparecer a incompreensibilidade de Harley, tecnicamente não funciona.

Felizmente, o filme acerta ao humanizar sua extravagantemente desequilibrada protagonista, mostrando que ela é muito mais do que apenas uma subjugada do “Mr. J”. Ela é dona de sua história. A anti-heroína começa a perceber o mundo como uma mulher independente e é com esse enfoque que Aves de Rapina tem seu êxito. Sendo assim, as melhores interações da personagem são com a jovem Cassandra Cain, a primeira que enxerga a protagonista como alguém que existe por si só e não inevitavelmente ligada ao Coringa – justamente por não saber quem ele é.

Apesar de se atrapalhar no desenvolvimento da trama relativamente simples, a obra é intencionalmente um caleidoscópio de acontecimentos. Um filme com personalidade, que expõe mulheres brigando por seu espaço, evidenciando que a força, independentemente do gênero, é a luta pela própria autonomia e a compreensão de que garota nenhuma precisa de alguém para ser alguém. Aves de Rapina é mais do que uma história em quadrinhos sobre heróis e vilões, é sobre várias maneiras de se emancipar, encontrar a própria voz. Seja você quem for.

 

A HORA DA SUA MORTE

28.02.2020

Misturando comédia, suspense e história inteligente, produção de baixo orçamento surpreende e emplaca nas bilheterias

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Diamond/Divulgação

Imagine uma mistura de O Chamado com Premonição. Agora modernize a história. Pronto. Você já tem uma boa ideia do que é A Hora de Sua Morte (Countdown, EUA, 2019 – Diamond). Um filme que tinha tudo para dar errado mas que resulta inesperadamente divertido.

A história é a seguinte: uma jovem enfermeira baixa em seu celular um appque promete dizer a hora em que ela vai morrer. O que poderia ser só mais uma brincadeira da internet acaba mais fatal que o esperado quando outras pessoas começam a morrer realmente na hora que o aplicativo indica. E não adianta você tentar trapacear: a morte vai te achar na hora indicada (perceberam a combinação de O Chamado com Premonição?). Quando nossa protagonista descobre que tem apenas alguns dias de vida, ela vai tentar de tudo para enganar a morte e sobreviver, além de salvar sua irmã mais nova das garras do destino.

Com muito susto e toques sobrenaturais, A Hora de Sua Morte combina elementos de terror com traços de comédia e suspense para criar uma história inteligente e envolvente, que ainda vai envolver um padre e uma espécie de exorcismo. Sem nomes conhecidos no elenco e com baixo orçamento, o longa do diretor estreante Justin Dec foi uma surpresa nas bilheterias americanas, ficando em primeiro lugar na bilheteria nacional em seu final de semana de estreia e já tendo arrecadado quase U$45 milhões na bilheteria mundial com um custo de pouco mais de U$6 milhões. É bastante provável que uma sequência do filme já esteja a caminho, inclusive.

 

O HOMEM INVISÍVEL

26.02.2020

Clássica história de ficção científica de HG Wells ganha nova adaptação e se transforma em um thriller psicológico bastante perturbador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Se você pensa que o novo remake do clássico sci-fi de HG Wells O Homem Invisível (The Invisible Man, Austrália/EUA, 2020 – Universal Pictures) é uma história de aventura e ficção científica, está redondamente enganado. Esta versão está muito mais para um thriller psicológico moderno, oportuno e incrivelmente perturbador.

Gaslighting é uma expressão usada para designar um tipo de abuso psicológico. Surgida com o filme À Meia-Luz (Gaslight, 1944), trata-se de uma violência sutil, manipuladora, por meio da qual a autoestima e autoconfiança da mulher são consumidas a ponto de invalidá-la como pessoa, gerando confusão e dúvida sobre tudo que acontece à sua volta. Em um primeiro momento pode não ficar claro, mas é exatamente sobre isso que este novo O Homem Invisível gira em torno.

Seguindo uma linha narrativa possivelmente inesperada, o longa, dirigido e escrito por Leigh Whannell, inteligentemente foca sua história em Cecilia Kass (Elisabeth Moss), vítima de um relacionamento abusivo que está tentando seguir em frente após o suposto suicídio de seu namorado, o cientista Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). Cecilia começa a ter sérias dúvidas em relação à morte do rapaz e acredita que ele não só está vivo, mas também seus abusos atingiram níveis ainda mais brutais. Cecília começa a perder a sanidade enquanto tenta provar que está sendo perseguida por alguém que ninguém pode ver.

O Homem Invisível emprega elementos da ficção científica para retratar um tipo de abuso que não tem espaço nas pautas de discussão da sociedade. De maneira habilidosa, o diretor e roteirista não apenas aborda o horror real que mulheres vivenciam como vítimas de violência, mas também sobre o quão difícil é provar a agressão. A analogia é clara.

Enquanto outros vilões clássicos da Universal mantiveram – na medida do possível – sua capacidade de aterrorizar, o personagem de Wells foi perdendo seu aspecto ameaçador com o passar do tempo, tornando-se quase cômico, com os óculos e curativos no rosto. Já era hora de alguém inovar o enredo e torná-lo assustador novamente. Ao invés de entregar seu homem invisível como o protagonista da trama, Whannell o transformou no antagonista de sua própria história. Ao contrário das versões anteriores, este longa é contado do ponto de vista da pessoa que o homem invisível está atormentando. Colocar o espectador vivendo no lugar da vítima do personagem-título, além de aumentar a plausibilidade e ansiedade da trama, foi uma sacada genial para tornar a narrativa aterrorizante para um público contemporâneo e transformar uma história da era vitoriana recorrendo a um medo muito atual e próximo do público. O tom inovador é tão oportuno que faz com que o último remake feito nos anos 2000 pareça uma relíquia.

Este O Homem Invisível é uma representação muito mais madura e íntima da fábula original. Com uma abordagem real e moderna, Whannell cria uma obra completamente excitante, profunda e intensa, conseguindo fazer quartos e corredores vazios ficarem inacreditavelmente assustadores. O longa é tenso e angustiante do início ao fim, com momentos de suspense beirando o insuportável, como já na cena inicial, em que Cecilia tenta fugir da casa de Griffin sem acordá-lo. É também um filme de terror que se desenrola na luz, o que pode ser muito mais desesperador, uma vez que tudo está ocorrendo, ironicamente, à vista de todos.

Apesar do sucesso de Whannell, grande parte do êxito desta produção se deve ao trabalho de sua protagonista. A excepcional interpretação de Moss faz o público acompanhar o solitário e cruel declínio de uma mulher em direção à loucura, transformando a ausência física do personagem-título em algo ainda mais convincente e torturante. Mesmo perdendo um pouco da força em seu último ato, com cenas apressadas que soam como se houvesse faltado tempo na produção para desenvolver a trama, a construção e o desenvolvimento do pavor são mais do que suficientes para perturbar.

O Homem Invisível não é apenas um dos thrillers mais angustiantes dos últimos tempos, mas é também um olhar totalmente pertinente e real sobre o pânico e os estragos deixados por uma relação abusiva. O filme deixa de ser apenas mais uma história sobre monstros assustadores quando aborda uma forma de violência muito perversa, contínua e sutil, que é tão frequente quanto invisível. Apresentando o personagem-título como a materialização do gaslighting, o denuncia uma sociedade que continua sem identificar a violência quando não há agressões físicas, não entendendo que, assim como o antagonista do longa, mesmo que seja algo aparentemente invisível aos olhos não significa que ela não esteja lá.

 

ADONIRAN: MEU NOME É JOÃO RUBINATO

22.02.2020

Artista conhecido por imortalizar personagens reais de São Paulo em suas  “crônicas sociais do submundo” ganha documentário

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Pandora/Divulgação

Adoniran Barbosa está para São Paulo assim como Noel Rosa está para o Rio de Janeiro. O filho de imigrantes italianos nascido em Valinhos, cidade perto de Campinas, no interior do estado, imortalizou a capital mais cosmopolita do país e tornou-se um de seus mais populares cronistas. Retratava em versos a imagem sem filtros do cotidiano de um povo trabalhador, do imigrante, do caipira e do crioulo, todos com pouco acesso à educação. Ele mesmo abandonou os estudos para entregar marmita e ajudar a família no sustento. Por isso suas letras cheias de erros de português (“nóis fumo”, “nóis vortemo”, “adifício”, “frechada”, “tauba”), foram barreira para que as composições emplacassem no rádio.

Não há como cantar São Paulo sem lembrar dos sambas genuinamente paulistas, interpretados pelo Dêmonios da Garoa, como “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Tiro ao Álvaro”, esta imortalizada na voz da também saudosa Elis Regina. Não há como passar por locais como Brás, Bixiga, Mooca, Lapa, e, claro, por Jaçanã sem se lembrar de Adoniran, que nasceu João Rubinato em 1910, mesmo ano de Noel. Foi com “Filosofia”, samba do Poeta da Vila, que o artista emplacou a carreira depois de ter sido desclassificado de concursos por causa da voz fanha que foi se tornando cada vez mais rouca, machucada pelo álcool e cigarro, seus parceiros fieis até a morte em 1982. Morreu pobre, deixando de herança apenas uma casa, e quase esquecido. Boêmio por natureza, Adoniran foi se entristecendo cada vez mais com o progresso da sua musa São Paulo.

É a partir da morte do artista que começa o documentário do diretor e roteirista Pedro Serrano, Adoniran: Meu Nome é João Rubinato (Brasil, 2019 – Pandora). O filme, que conta como João virou Adoniran e resgata a memória de um dos mais populares cancioneiros do Brasil, segue em cartaz no Cine Passeio em Curitiba, sendo uma ótima pedida para assistir neste carnaval. Afinal, “Trem das Onze”, um de seus maiores sucessos, foi a grande premiada no carnaval do Rio de Janeiro de 1965.

Fã de carteirinha do compositor paulista, Serrano já havia homenageado o sambista no curta-metragem Dá Licença de Contar, no qual Paulo Miklos dá vida ao compositorPara o documentário, o cineasta fez uma vasta pesquisa sobre a vida e obra de Adoniran, resgatando imagens raras de arquivo, reportagens publicadas em jornais da época e entrevistas a programas de televisão (como a Fernando Faro no Ensaio). Também há o depoimento de personagens fundamentais na carreira e vida do sambista: familiares, amigos, produtores, parceiros (como Carlinhos Vergueiro), o autor da biografia do compositor (Celso de Campos Jr) e, claro, do conjunto Demônios da Garoa, que impulsionou a obra de Adoniran.

O diretor opta por uma linguagem tradicional, simples, assim como era Adoniran, que quando jovem foi entregador de marmita, balconista, garçom até começar a frequentar programas de calouros da rádio Cruzeiro do Sul. Com sua veia para comédia, o artista, além de cantar, atuava em radionovelas e dava vida a personagens como um chamado Charutinho. Participou de filmes e novelas na Record e Tupi, sempre encarnando os personagens da vida real, fazendo a “crônica social do submundo” (expressão que estampou uma notícia de jornal).

O documentário recupera preciosidades – um poema que o cantor Antônio Marcos escreveu na ocasião da morte do compositor – e relembra encontros com Elis Regina e Clementina de Jesus, além da parceria de anos com Osvaldo Moles. Serrano vai em busca de causos pitorescos, como as várias versões que cercam os versos de “Samba do Arnesto”. Aliás, o tal Arnesto é um dos entrevistados.

Tal qual nos sambas de seu ídolo, o diretor mostra imagens de São Paulo através do tempo, dos anos 1930 aos 1980, sobrepondo-se às letras das canções, cujos erros atraíram críticas de gente importante como Vinícius de Moraes (alias, Adoniran mais tarde musicou um poema do Poetinha!). A reputação foi aliviada por conta do texto do intelectual Antônio Cândido na capa do LP em homenagem aos 70 anos do sambista, em que Elifas Andreato retratou o sambista como um palhaço triste.

Serrano faz um belo serviço ao resgate da memória musical brasileira, mas poderia ter acrescentado a essa homenagem mais uma personagem: a voz do próprio povo paulistano, matéria-prima da obra eterna de Adoniran Barbosa/João Rubinato.

 

DOLITTLE

21.02.2020

Nova adaptação do clássico personagem que fala com animais desperdiça ótimo elenco e oferece uma história bastante vergonhosa

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Cringe worthy é um expressão da língua inglesa usada para definir algo extremamente vergonhoso. É um bom jeito de definir a nova adaptação cinematográfica do personagem Doutor Dolittle, do escritor britânico Hugh Lofting. Dolittle (EUA/China/Reino Unido, 2020 – Universal Pictures) é uma confusa, desgastante e por vezes irritante aventura situada na época vitoriana e que não pode ser salva nem pelo elenco recheado de estrelas.

Em seu primeiro trabalho pós vingadores, Robert Downey Jr assume o papel do médico famoso por conseguir conversar com animais. Adotando um sotaque duvidável e irregular, o ator não consegue segurar o filme com seu carisma. Na primeira vez que aparece na tela, o doutor está com barbas longas e roupas sujas. Não sai de sua propriedade em anos desde que a esposa faleceu e o único contato que tem é com seus animais. Tudo muda quando duas crianças o procuram por ajuda e ele precisa sair em uma aventura para salvar a vida da rainha da Inglaterra.

A premissa é esquisita e o enredo, também. A história é narrada pelo papagaio fêmea Polly (dublada por Emma Thompson), o que faz com que detalhes importantes da história sejam perdidos ou minimizados. A inconstância da narração também incomoda. É como se ela aparecesse nos momentos em que não tivesse gravação o suficiente para suprir o tempo de tela.

Os outros animais falantes servem de alívio cômico. Ou pelo menos tentam. Chee-Chee (Rami Malek) é um gorila medroso, Dab-Dab (Octavia Spencer) uma pata atrapalhada, Yoshi (John Cena) é um urso polar friorento. As crianças pequenas podem até rir das interações e peripécias da trupe, mas muitas vezes é apenas cringe worthy. Fica pior quando um dragão é inserido e uma sequência de piadas de pum começa. O diretor e corroteirista Stephen Gaghan parece testar a inteligência do espectador a todo momento, chegando ao ápice do ridículo quando a retirada de uma gaita de fole libera mais gases.

Um filme sobre animais falantes poderia ser extremamente rico e proveitoso considerando o contexto climático e ambiental atual. A escolha de transportar a história para dois séculos atrás é uma oportunidade perdida além de um caminho ingênuo demais. Se animais pudessem falar, eles realmente estariam jogando xadrez com humanos na maior paz do universo? Com certeza não. Talvez se essa versão de Dolittle tivesse sido feita 25 anos atrás isso fizesse mais sentido. Ênfase no talvez.

Antonio Banderas também tem parte no filme, como o sogro do Doutor Dolittle e governante de uma ilha de ladrões e criminosos. Em uma sequência de cenas sem sentido para justificar uma parada antes do verdadeiro destino, o ator espanhol emprestou seu talento para um papel que poderia não existir. Tudo fica pior quando entra em cena um tigre com mommy issues (acredite se quiser!) que é atingido nas partes íntimas em uma tentativa de comédia corporal.

Dolittle desperdiça atores e possíveis enredos em uma história cansativa e embaraçosa. Não é possível saber o que fez com que as estrelas envolvidas no filme concordassem em participar, mas é certo que o arrependimento deve ter sido amargo.

 

LUTA POR JUSTIÇA

20.02.2020

Hollywood volta a escancarar o racismo estrutural na sociedade norte-americana com cruel história verídica

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Warner/Divulgação

Não é de hoje que o cinema escancara a profunda discrepância social decorrente do preconceito. Filmes como Histórias Cruzadas (2011), Eu Não Sou Seu Negro (2016) e Infiltrados na Klan (2018), são exemplos de produções audiovisuais iluminando questões que as pessoas preferem esquecer. Baseado no livro autobiográfico de Bryan Stevenson, este longa soa como algo que já foi feito antes. Longe de ser inovador, o drama jurídico Luta por Justiça (Just Mercy, EUA, 2019 – Warner) pode não passar a sensação de algo inédito, mas é urgente e mais necessário do que nunca.

Dirigido por Destin Daniel Cretton, Luta por Justiça é silenciosamente comovente e em nenhum momento esconde para que veio: escancarar o racismo estrutural enraizado em um sistema socioeconômico fomentado desde a escravidão, que ainda carrega as consequências do passado. Não é agradável, não foi feito para ser. Seu objetivo é justamente deixar o espectador desconfortável, revoltado, impotente e muitas vezes com vergonha, e é muito bem sucedido em passar sua mensagem. Reativa a discussão sobre a pena de morte nos EUA que, assim como todos os problemas, afeta, principalmente, os menos favorecidos.

A história acompanha a vida de Bryan (Michael B. Jordan), um advogado idealista recém-formado em Harvard que chega ao Alabama no final dos anos 1980 com o sonho de mudar o mundo. Seu objetivo é amparar prisioneiros condenados à pena de morte que jamais receberam a devida assistência legal. Junto à ativista social Eva (Brie Larson), ele funda uma organização que fornece representação legal a prisioneiros que possam ter sido erroneamente condenados e garante a defesa de qualquer pessoa no estado num caso de pena de morte. Nesse contexto, Stevenson não está apenas desafiando uma única concepção, mas também o profundo legado que a escravidão deixou no país. Um de seus primeiros casos é o de Walter McMillian (Jamie Foxx), condenado pelo assassinato de uma jovem branca de 18 anos. Conhecido pela família como Johnny D, ele, a princípio, recusa o auxílio de Stevenson, desesperançoso porque vários advogados prometeram a McMillian coisas que nunca cumpriram.

Mesmo o advogado sendo um dos protagonistas da história, por sorte essa não chega a ser uma cinebiografia. Ainda que inevitável a admiração pela coragem e dedicação de Stevenson, os espectadores não necessariamente sentem que o conhecem. Jordan o interpreta como um homem de postura heróica, cujas motivações e caráter jamais serão questionados. Mas esse tipo de personagem vem com restrições. Como resultado da clássica jornada do herói hollywoodiano – em que o personagem principal, honrável, passa por grandes dificuldades até alcançar o reconhecimento e prestígio –, o foco da história acaba permanecendo muito no advogado “salvador da pátria” e pouco em quem talvez merecesse mais atenção. Para além da falta de representatividade efetiva de papéis femininos na produção (como Eva, que não só carece de um arco próprio como parece que entra em cena com o único objetivo de enaltecer o protagonista) e os conflitos pessoais de Minnie (a esposa de Johnny D, interpretada por Karan Kendrick), que, por sua vez, não são abordados ou desenvolvidos em um certo ponto da narrativa, é Stevenson quem recebe consolo de Johnny D e não o contrário. Além disso, ele nem sempre é marcante. Todos seus conflitos internos são anunciados por meio de discursos por vezes exagerados e momentos carregados de trilha sonora.

O roteiro propositalmente acessível de Cretton e Andrew Lanham deixa clara a denúncia contra as injustiças institucionalizadas na sociedade norte-americana e a real emergência no combate ao racismo enraizado em um país que se autoproclama “país de oportunidades iguais”. Seus momentos mais notáveis – além da excepcional atuação de Jamie Foxx e Rob Morgan como Herbert Richardson, outro preso à espera da execução – está nos toques poéticos mais sutis, nos silêncios que permitem com que a dor e o sofrimento quebrem a quarta barreira e cheguem até o espectador como um soco no estômago. O longa é salvo de ser um drama burocrático de tribunal quando sua vitalidade aparece, ironicamente, nas cenas do corredor da morte, quando é aprofundado pelas fortes performances de Foxx e Morgan, ainda que fraqueje na abordagem dos supostos crimes de Herbert e Anthony (O’Shea Jackson Jr). Mesmo que Foxx pareça subutilizado, o ator transmite a vulnerabilidade do personagem, sua essência, sua raiva, com pequenos e sutis gestos, deixando as cenas emocionais ainda mais marcantes. Mas é Morgan que causa maior comoção. Seu personagem é um veterano de guerra com TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) que não nega seus atos e a mistura de dor e sofrimento que ele sente é devastadora. 

Tentando manter-se fiel aos fatos reais, Cretton opta por permanecer dentro de limites bastante convencionais, com planos e estratégias narrativas comuns. A obra não pode ser considerada uma produção tecnicamente impressionante. É o clássico case de quando a mensagem se sobressai à forma. O cineasta decide-se pelo seguro, mas consegue apresentar um filme forte e comovente por conta da brutalidade de sua história verdadeira. É uma narrativa admirável, mas cinematograficamente limitada. Se tivesse sido mais ousada, mantendo a complexidade das cenas do corredor da morte, o resultado poderia ter sido uma obra extraordinária em todos os sentidos.

Luta por Justiça é construído para reter o público dentro de uma história que seria cruel demais para lidar. Felizmente, o filme não é uma simples declaração de que o racismo deve acabar. É uma sufocante e brutal representação, profundamente comovente, do trauma vivido pelas vítimas e praticantes desse preconceito. Mais do que constatar um fato ocorrido na história, confronta posições e ideais sociais. Nunca se fez tão necessário falar sobre os tabus que a sociedade quer esquecer. É no silêncio que a intolerância se torna normal. Por mais que a produção retrate um episódio do passado, infelizmente ela encontra diálogo direto com a nossa atualidade.

 

MARIA E JOÃO – O CONTO DAS BRUXAS

20.02.2020

Clássico conto ganha releitura sinistra, baseada em atmosfera de tensão e centrada na figura da irmã agora adolescente

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Publicada originalmente em 1812, a clássica fábula dos Irmãos Grimm já teve diversas adaptações cinematográficas. Agora ganha uma macabra abordagem com Maria e João – O Conto das Bruxas (Gretel & Hansel, Canadá/Irlanda/EUA/África do Sul, 2020 – Imagem Filmes). Em comparação aos outros remakes, o longa dirigido por Oz Perkins se destaca. Porém, isso não quer dizer muita coisa quando sua competição são os recentes João e Maria: Caçadores de Bruxas e João, Maria e a Bruxa Da Floresta Negra, ambos de 2013.

Como a reintitulação sugere, o foco desta versão está em Gretel (Sophia Lillis), agora oito anos mais velha que Hansel (Sammy Leakey), a quem foi encarregada de proteger. A história segue o curso do conto original, mas sob uma nova interpretação e propondo algumas mudanças. Depois de serem expulsos do lar pela mãe incapaz de os alimentar, os irmãos saem floresta adentro em busca de um lugar para passar a noite. No caminho, encontram um caçador (Charles Babalola) que lhes oferece comida e instruções sobre a viagem que terão pela frente. Quando tudo parece perdido para os dois, eles se deparam com uma casa e um grande banquete, aparentemente só à espera de alguém para comê-lo. Famintos, os irmãos são recebidos por uma suspeita senhora (Alice Krige), que parece ter tudo o que eles haviam almejado e mais um pouco. Gretel fica desconfiada da fartura e teme que algo esteja errado. A partir deste ponto, o espectador provavelmente pensará que sabe para onde a narrativa seguirá. Mas pode ser que haja enganos…

Oz Perkins é conhecido por criar um terror paciente, que está definitivamente de fora do mainstream. Sua preferência pela lenta formação de uma atmosfera de tensão sobre os rotineiros jumpscares, torna suas produções diferenciadas e refrescantes, se distanciando do beabá das franquias de horror e de seus saturados clichês. Suas produções quietamente sinistras e centradas em mulheres sugerem muito mais do que revelam. Logo, sua terceira obra não é diferente. Maria e João, entretanto, demonstra Perkins se apoiando de novo na atmosfera sobre a narrativa, compreendida no roteiro de Rob Hayes. No geral, a história é sobre uma jovem encontrando sua força interior, e por mais que seja macabra, falta um melhor desenvolvimento dos personagens para assustar de fato. O diretor cria para o longa uma iconografia própria e, junto da sedutora e fantasiosa fotografia de Galo Olivares, constrói um cenário arrepiante, mas que acaba sendo enfraquecido pela unidimensionalidade da narrativa.

Dispondo de um roteiro fraco e confuso, nesta nova versão parece que houve uma preocupação muito maior com o visual do que com contar uma boa história. Esteticamente admirável e com uma fotografia hipnotizante, o longa seduz o espectador com ângulos e enquadramentos inteligentemente pensados, uma ambientação sombria e um ar quase que claustrofóbico.

Repleto de simbolismos e diálogos metafóricos, diversos significados implícitos são expressados durante o filme. O cineasta explora um repertório único de códigos e minúcias que tratam de adensar, principalmente, os diferentes lugares que homens e mulheres ocupam. O triângulo, figura recorrente no longa, além de ser um dos símbolos mais místicos da humanidade, representa mudança e desenvolvimento espiritual – referência à trajetória da protagonista.

Mas, ao mesmo tempo que tudo parece ter sido milimetricamente pensado, existem fragmentos que não encaixam e figuras que de nada agregam na história. Como exemplos, o caçador e a cena do “ataque zumbi” (que, além de ser o único momento que o filme se entrega aos baratos jumpscares, parece ter sido adicionado depois, assim como a narração de Gretel, que desnecessariamente explica o que está acontecendo na tela). Tentando inovar o enredo original, Hayes buscou acrescentar e explicar eventos que não têm impacto ou sentido.

Mais sombrio do que excitante, Maria e João é uma tentativa pertinente de trazer uma nova e atual releitura sem deixar de preservar o ar assustador original de um dos contos mais conhecidos do mundo. Oz Perkins é uma voz autoral, clara e intrigante em meio a uma cacofonia de diretores de franquias de horror, mas infelizmente não é apenas o visual que faz um filme se tornar memorável. Bagunçado, com ambições que não se realizam e ideias genuinamente promissoras que se transformam na execução, este longa, assim como os irmãos na floresta, perde-se no campo da narrativa da história. O resultado é uma obra medíocre, que tinha um enorme potencial para ser fantástica.

 

JOJO RABBIT

16.02.2020

Com humor e sensibilidade história sobre o nazismo é centrada em garoto de dez anos de idade que tem o Führer como amigo imaginário

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Fox/Divulgação

Ser criança é um estado de inocência que infelizmente não é eterno. Por isso, Jojo Rabbit (Nova Zelândia/República Checa/EUA, 2019 – Fox) utiliza-se da ótica infantil para contar uma história sobre nazismo, amor e liberdade. Menos controverso do que parece, o filme é uma delicada imersão em um mundo que não devemos esquecer que existiu para jamais repetir.

Jojo (Roman Griffin Davis) é um garoto de dez anos vivendo na Alemanha nazista e que sonha em ser da guarda pessoal de Hitler. Ele entra para a juventude hitlerista junto de seu melhor amigo Yorki (Archie Yates). Aliás, segundo melhor amigo: o primeiro lugar está reservado para o Führer e enquanto não conhece o verdadeiro fica com o imaginário. Interpretado pelo próprio diretor, Taika Waititi, o ditador de faz de conta é uma consciência expandida de uma criança criada em meio ao fascismo. Jojo, porém, acaba se vendo dividido ao entre a cruz e a espada ao perceber a presença de uma judia em sua própria casa.

O cineasta adaptou o roteiro do livro Caging Skies. Com boas doses de humor, o filme faz graça de situações absurdas como queimas de livros e crianças mexendo com granadas. As hipérboles bem colocadas não deixam de ser uma boa reflexão. O exagero é engraçado, mas fora das telas é assustador.

Rosie (Scarlett Johansson), mãe de Jojo, é uma personagem que leva o filme a outro patamar. Trajando verde diversas vezes, ela evoca os melhores sentimentos que essa cor traz, a esperança e a liberdade. Johansson entrega uma bela atuação de uma mulher fiel às suas ideologias e uma mãe devota a seu filho.

Os ator mirim Roman Griffin Davis é surpreendente ao longo da história. Suas emoções são palpáveis durante todo o filme, deixando muito fácil amar seu personagem. Suas cenas com seu amigo Hitler imaginário rendem diálogos divertidos e psicologicamente interessantes. A cabeça das crianças é algo fascinante e o modo como o filme encontra de mostrar o raciocínio nem tão lógico de um menino de dez anos é incrível.

Nem só de risadas, entretanto, vive Jojo Rabbit. Em sua segunda parte, o longa explora as dores e as maravilhas do amor e o preço de ser livre. Seja no desenvolvimento da relação entre Jojo e sua nova hóspede, na falta do pai ou nos sapatos (sim, nos sapatos!) o filme consegue passar bastante emoção. Taika Waititi brilha de novo ao construir uma narrativa que gera um misto de riso e choro, espanto e identificação. Mais leve que outros filmes que já abordaram o nazismo, este ganha justamente por sua suavidade.

 

O IRLANDÊS

16.02.2020

Martin Scorsese reflete sobre o tempo em obra extensa e que traz o brilho de atores como Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Anna Paquin

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Martin Scorsese é, para muitos, um dos maiores cineastas vivos. Maturando a nova Hollywood nas décadas de 1970 e 1980, o nova-iorquino que nunca deixou de fazer filmes com relativa constância agora aterrissa em seu mais recente primeiro em parceria com a Netflix – e numa onda de títulosaclamados, como O Lobo de Wall Street e Silêncio. Mas O Irlandês (The Irishman, EUA, 2019 – Netflix) é divisor dessas boas águas para muitos, em especial por sua duração.

O roteiro de Steven Zaillian, adaptado do livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, traz o assassino da máfia Frank Sheeran (Robert De Niro), já em avançada idade, rememorando seu tempo na ação e sua amizade com Russel Bufalino (Joe Pesci) e o mítico líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). Para tal, o filme abusa das clássicas narrações de Scorsese e de três momentos temporais, que ficam evidentes graças aos efeitos especiais, mas também pelo costumeiramente incrível trabalho de Thelma Schoonmaker na montagem. É nela, no entanto, que temos o “grande problema” deste filme.

Sim, porque três horas e meia é muito, em especial quando o ritmo da trama não é a efusão de explosões do cinema comercial de ação. Por outro lado, não há parte da trama que não esteja em O Irlandês por um motivo – Scorsese e Schoonmaker amarram a trama do começo ao fim, o tornando um filme bastante coeso e tonalmente constante. No entanto, servindo à trama ou não, a duração por vezes exagerada das cenas (o que não é uma questão da montagem, mas do roteiro) torna inescapável a sensação de que, por mais que possamos aproveitar o longa-metragem em sua completude, poderíamos, enquanto audiência, aproveitá-lo ainda mais se uns 40 minutos se perdessem na sala de montagem.

O filme é belíssimo, com a direção de fotografia de Rodrigo Prieto criando a suja e escusa metrópole americana que é tão distinta na filmografia de Scorsese. Ele ainda  aplica a movimentação da câmera, sempre muito suave, de forma a garantir que o ritmo que Schoonmaker constrói não caia em vagarosidade. O filme é longo e lento (o que não é, em si, ruim, vide o movimento do slow cinema), mas é fotografado lindamente e muito dinâmico.

Esse dinamismo também se dá pela atuação dos quatro personagens principais: De Niro, Pesci e Al Pacino são acompanhados pela Peggy Sheeran de Anna Paquin, que, mesmo com pouquíssimas falas, rouba todas as cenas em que aparece. É de um mérito extremo da atriz ser capaz de tanto em tão pouco tempo em tela. Por outro lado, os três “sêniores” gozam de muito tempo em tela, cada um entregando um papel belíssimo, desenvolvendo mais nuances com o passar dos anos da história.

O Irlandês é um filme muito bom no fim do dia. Um Scorsese apenas mediano, mas um destes é muito melhor que a maioria dos títulos que vemos durante o ano. O diretor ainda aproveita o último terço da trama para divagar numa espécie de aceitação da idade – e de toda a história que uma carreira no crime (ou no cinema) carrega. Autoconsciente, Martin Scorsese aproveita uma obra que se aproxima do fim de sua carreira (por mais que esperemos que ela dure o máximo possível!) para, em conjunto com artistas com tanta história como ele próprio, engajar num longo caminho de rememoração.

Com um roteiro melhor, que explorasse mais as batidas emocionais do incrível elenco à disposição, e menos uma construção calma da intimidade de Hoffa e Sheeran, poderíamos ter um dos melhores lançamentos do ano passado. Ele é, de certa forma, entretanto somente se esticarmos a lista um tanto.

 

O PREÇO DA VERDADE

13.02.2020

História de advogado ambientalista que luta pela regulação de produtos químicos ganha adaptação com o também ativista Mark Ruffalo

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Robert Bilott é um advogado ambientalista norte-americano que luta pela regulação de produtos químicos. O Preço da Verdade (Dark Waters, EUA, 2020 – Paris Filmes), acompanha o início a trajetória do ativista neste ramo. O suspense legalista mescla momentos de tensão e enrolação em uma história bem sucedida.

Aqui tudo começa em 1998, quando Billot (Mark Ruffalo) recebe a visita do fazendeiro Wilbur Tennant (Bill Camp) na firma em que trabalha. Desesperado, o homem pede a ajuda do advogado para descobrir de onde vêm os químicos que estão matando suas vacas. No começo hesitante, Robert acaba embarcando na guerra contra uma gigante do ramo químico.

O roteiro é baseado em um artigo do jornal New York Times chamado The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare e percorre um recorte temporal de quase vinte anos. Centralizada na figura de Bilott, a sinopse promete as consequências do processo na vida pessoal do advogado, mas a abordagem é muito rasa. Anne Hathaway, escalada como a esposa de Robert, é tristemente pouco utilizada. Uma atriz já premiada com um Oscar fazer um papel tão pequeno e sem evolução soa esquisito. Em algumas cenas parece que finalmente ela terá seu grande momento, só que tudo acaba rápido, tal como começou.

Mark Ruffalo foi uma boa escolha para viver o ativista, já que fora das telas o ator também abraça a causa do meio ambiente. Sua performance, sólida, convence. Suas interações com Bill Camp rendem alguns dos melhores momentos do filme, ricos em humanidade. Robert Bilott, natural da cidade onde os químicos estão sendo despejados, precisa se reconectar com suas origens para entender a importância do caso e o fazendeiro Tennant é peça-chave nesse processo.

 O Preço da Verdade impressiona ao mostrar as consequências que a indústria química pode causar na sociedade, sem explorar dores ou tragédias. A linha temporal por vezes fica um pouco cansativa, são gastos muitos minutos em fatos repetidos enquanto descobertas novas passam na tela em segundos. Em determinado momento, cria-se a sensação de que o advogado corre risco de vida mas isso deixa de ser explorado – e a cena, então, vira algo solto no meio do filme.

A nova obra dirigida por Todd Haynes deixa qualquer um com um gosto amargo na boca ao final do créditos com a iminência de que grandes indústrias não se importam com regulações na hora de fazerem o que querem. A torcida é para que existam mais Robert Bilotts no mundo.

 

SONIC – O FILME

13.02.2020

Jim Carrey e novo design do famoso ouriço azul dos games não salvam do convencional a nova adaptação para as grandes telas

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Quem não cresceu jogando Sonic que atire a primeira pedra. Seja no Sega Master System ou até no computador, por meio de jogos em Flash, todo mundo conhece o ouriço azul. Devido às inúmeras tentativas falhas de adaptações dos games para as telas, é natural que se olhe a Sonic – O Filme (Sonic The Hedgehog, EUA/Jaoão/Canadá, 2020 – Paramount) com um pé atrás, principalmente depois do assombroso design que fora apresentado inicialmente.

Dirigido por Jeff Fowler, um iniciante em longas-metragens, e escrito por Patrick Casey e Josh Miller, Sonic – o Filme é tão convencional quanto se pode ser. A começar pelo longo emaranhado de sequências de narração, nas quais o personagem-título faz questão de contar toda sua história, além de deixar óbvio seu conflito interno – que permeia todo o filme, mas também figura diversos outros títulos. O resto da narrativa não é lá muito boa. Na verdade, é um repeteco de temas e tropos já utilizados, sejam eles de trama ou de conflito de personagem, sem frescor algum, dependendo (e muito) do carisma de seu elenco.

Por mais preguiçosa que seja, essa aposta se paga. Jim Carrey e a animação de Sonic roubam toda cena em que aparecem, divertindo o público-alvo e volta e meia entregando uma boa piada para os adultos. Friso o “volta e meia”, pois a direção de Fowler ainda não foi capaz de encontrar uma consistência de ritmo. Algumas piadas insistem em si mesmas por tempo demais, como uma infame cena que explora o humor corporal de Carrey até torná-lo chato e continua insistindo para muito além desse ponto.

A animação, que foi muito criticada pelo primeiro modelo de Sonic, está irretocável, seja no físico do ouriço ou na interação das gravações com objetos de computação gráfica. A própria construção de Dr. Robotnik depende fortemente de sua relação com os robôs, perfeitamente animados.

Sonic não é exatamente ruim, mas passa longe de ser bom. Uma repetição de tudo que já deu certo, o longa não tem qualquer característica que o torne distinto dos demais lançamentos, em especial os focados ao público infantil. Há as boas atuações de Jim Carrey e Ben Schwartz, mas uma os outros membros do elenco estão bem aquém. Esses elementos tornam este um filme bastante divertido para as crianças, mas maçante para os adultos, até os apaixonados pelo “demônio azul”.

 

O GRITO

12.02.2020

Novo remake americano de conhecida franquia nipônica fica na superficialidade e nada traz de inovador ou assustador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Sony Pictures/Divulgação

O mais novo remake da franquia nipônica Ju-On (2002), O Grito (The Grudge, EUA/Canadá, 2020 – Sony Pictures), não só falha na tentativa de inovar a velha história da casa mal-assombrada e do fantasma vingativo, como apenas evidencia que a ultrapassada maldição do grito está fadada ao fracasso. O enredo da nova produção, dirigida por Nicolas Pesce, já é a segunda versão americana da obra original de Takashi Shimizu. Como os iniciados na franquia bem sabem, o grito é uma maldição que surge quando alguém é assassinado em um momento de ódio extremo. A entidade passa a atormentar a vida de qualquer um que colocar os pés no local do crime. Ao que tudo indica, isso nunca tem fim, assim como os filmes que habita. Baseado no script de Shimizu, o roteiro do novo longa ainda é sobre uma casa japonesa amaldiçoada – o que muda são as vítimas e o lugar. Desta vez, a trama é levada para uma pequena cidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Este filme acompanha a vida da policial Muldoon (Andrea Riseborough), viúva e mãe solteira, que está determinada a solucionar o caso de um cadáver encontrado na floresta. A investigação é a linha norteadora da película. Assim como o remake de 2004, o novo filme dispõe de histórias cruzadas por meio de múltiplas linhas de tempo para apresentar os destinos de vários personagens, entre eles, um casal de corretores de imóveis (John Cho e Betty Gilpin) que enfrentam uma difícil escolha na gravidez, um casal de idosos (Lin Shaye e Frankie Faison) que procuram a ajuda de uma assistente de suicídio assistido (Jacki Weaver), o detetive Goodman (Demian Bichir) e seu antigo parceiro Wilson (William Sadler).

Apostando nos clichês de todo filme de terror, Pesce parece não conseguir fazer o longa se destacar em quase nenhum quesito. Além dos excessivos e costumeiros jumpscares, que acabam sendo fracos e previsíveis, a película se baseia no pretexto mais básico e óbvio de qualquer franquia de horror (como os famosos “você nunca irá escapar” e “a maldição nunca te deixará em paz”). É decepcionante o fato não ser construída uma atmosfera de tensão, ficando tudo preso na segurança de entidades que aparecem desfocadas atrás das pessoas e que desaparecem e reaparecem à medida que um personagem apaga e acende as luzes. Estes clichês se tornaram clichês por um simples motivo: eles funcionam. Entretanto, no caso da franquia de O Grito, eles já foram exaustivamente usados. Talvez fosse a hora de tentar algo novo.

Mesmo que por vezes se apoie no óbvio, este novo longa tem suas passagens favoráveis. Para aqueles que são familiarizados com a franquia de remakes do J-Horror, nesta nova versão ainda existem os famigerados sustos no chuveiro, na pia e na banheira, trazendo um sentimento de nostalgia ao espectador, ao recordar cenas do auge do filme original. As histórias são todas permeadas pela dor e pela perda, numa válida tentativa do diretor de fazer com que a audiência se sinta próxima e acredite em uma realidade muito plausível, mostrando como as pessoas são frágeis e vulneráveis, e que a maldição não perdoa ninguém. Mesmo que o desenvolvimento dos personagens deixe a desejar e acabe sendo um tanto superficial, Pesce investe no sofrimento de cada um. Não apenas o causado pela maldição, mas também aquele que qualquer pessoa poderia ter – o que muitas vezes não é abordado em outras produções do gênero.

Para além da falta de criatividade e originalidade de sustos, o filme não se diferencia daqueles que vieram antes, muito menos justifica sua própria criação. Para os amantes do terror, infelizmente essa é só mais uma maçante e saturada história sobre a já esgotada casa mal-assombrada e que desperdiça um elenco talentoso e não traz nada de novo ou assustador para a realidade atual. O Grito, mesmo que tenha seus momentos arrepiantes, prova ser apenas mais um remake de uma história batida, que continua amaldiçoado por um conceito fatalmente clichê.

 

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO

11.02.2020

Scarlett Johansson comanda um time de grandes atuações em filme que mostra como um divórcio pode fazer mal sobretudo aos filhos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Netflix/Divulgação

Existe um ditado que diz mais ou menos assim: você só conhece uma pessoa de fato quando se separa dela. Ou seja, uma gatinha pode se tornar uma leoa da noite para o dia quando se trata de proteger a cria.

Enfrentar um divórcio é como entrar numa guerra. Raros são aqueles que chegam a um acordo de paz sem antes lutar contra justamente a pessoa que, um dia, entrou na sua vida para compartilhar o tempo, o espaço e a genética. Aquele que ontem era seu amigo e emprestava os ombros pra você chorar hoje dá de ombros e te faz chorar, transformando-se num rival. Durante o doloroso processo, muitas vezes é preciso cavar até o fundo do poço para, enfim, desmembrar aquele território edificado a dois com enorme dispêndio de energia, afeto, carinho, amor e, claro, dinheiro.

Casamento, enfim, é como qualquer sociedade. Pode ou não dar certo. Tentativa e erro. Para serem bem-sucedidos, os sócios devem estar muito bem alinhados. Caso contrário, o relacionamento chega ao fim, não se sustenta, desmorona, como tudo na vida que é efêmero. A única diferença é que, sem filhos, o adeus pode ser definitivo. Como é impossível dividir um filho, o desfecho pode tomar outro rumo. Nesse caso, o desgaste é maior e o poder de negociação atinge limites impensáveis, com trocas de acusações na frente do juiz, que revelam segredos e deixam feridas expostas. E todo o amor que um dia talvez tenha existido dá lugar à raiva, à amargura, como nos mostra o tocante longa História de um Casamento (Marriage Story, EUA/Reino Unido, 2019 – Netflix), do diretor e roteirista Noah Baumbach, hoje casado com a atriz, diretora e roteirista Greta Gerwig.

Separação, aliás, é um tema recorrente da filmografia de Baumbach. Em sua primeira obra, a autobiográfica A Lula e a Baleia, o diretor se inspirou na separação dos pais e conduziu a história sob o ponto de vista dele e do irmão. Já em seu mais recente e cultuado História de um Casamento, um dos nove indicados ao Oscar de melhor longa em 2020, ele se debruça em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho de 9 anos, praticamente a mesma idade do filho dos protagonistas vividos por Scarlett Johansson, exuberante no papel da atriz Nicole, e Adam Driver, que interpreta Charlie, um respeitado diretor de teatro.

A história do título (que lembra Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman) começa pelo fim do relacionamento entre Nicole e Charlie. Para quem não vivenciou a traumática experiência de uma separação, é bem possível que História de um Casamento seja percebido como uma obra mediana, com uma direção correta e um roteiro bem-feito. Talvez se fosse distribuído para o cinema e não exibido diretamente via streaming, a recepção fosse outra. Eu, no entanto, tive de pausá-lo algumas vezes por causa de tamanha identificação com a personagem de Scarlett, que também se inspirou na experiência pessoal para transmitir com um realismo pungente toda a angústia, frustração e tristeza do fim de um longo relacionamento.

O drama começa numa sessão de terapia de casal, uma tentativa vã de recuperar algo daquela faísca do amor primordial. Charlie escreve sobre as qualidades de Nicole e as lê em voz alta. Ela, por sua vez, não consegue fazer o mesmo. Para Nicole, não há mais salvação. A relação terminou e por motivos comuns a vários casais, como traição e desencanto pelo parceiro. Quando se casou, Nicole abriu mão de uma carreira promissora de atriz de cinema em Los Angeles para morar em Nova York, onde Charlie dirige uma companhia de teatro. Ao longo dos anos, ela passou a se sentir ofuscada pelo marido.

Com a união em colapso, Nicole aceita a proposta para estrelar o piloto de uma série de televisão e se muda para a casa da mãe em Los Angeles, levando com ela o filho Henry (Azhy Robertson). Charlie continua do outro lado do país. Perdido com toda a situação, parece não se dar conta de que Nicole não voltará mais. Os dois, então, permanecem separados física e emocionalmente e ele se desdobra para viajar até a Costa Oeste para visitar Henry.

O ressentimento, aliado ao fator filho, leva Nicole a procurar a advogada Nora, interpretada pela sensacional Laura Dern (que levou os principais prêmios de coadjuvante da temporada por este papel). Quando os advogados entram em cena, o drama toma o rumo bem ao estilo de Kramer vs Kramer, vencedor do Oscar de melhor filme em 1979, com Dustin Hoffman e Meryl Streep. O dilema que poderia se encerrar num acordo – e que seria mais benéfico para Henry – transforma-se em disputa judicial pela guarda da criança. As economias, até então reservadas para pagar a futura faculdade do filho, agora vão direto para o bolso dos advogados, que cobram honorários astronômicos, dignos de estrelas de Hollywood. Durante o litígio, a vida do casal é totalmente esmiuçada; cada detalhe, cada deslize, por mínimo que seja, pode ser usado perante o juiz, desde tomar uma mísera taça de vinho na frente do filho ou esquecer de acomodar o assento no carro.

Conforme a narrativa se desenvolve, Scarlett cresce no papel e nos envolve com sua personagem, como na cena de sua primeira reunião com Nora, quando subitamente começa a chorar ao contar a história. A advogada desce do salto e consola a atriz, num discurso que expõe toda a pressão sobre a figura materna rodeado pelo mito da Virgem Maria: a sociedade tolera que o homem seja um pai ausente, mas à mãe jamais é permitido sair da linha.

Sem dúvida, a sequência mais visceral e desconcertante é a cena em que Charlie e Nicole discutem sozinhos e lavam toda a roupa suja. Não sobra nada, nem um par de meias. Nesse ponto, a direção de Baumbach insere o espectador lá dentro do apartamento, como se testemunhássemos a discussão.

Histórias de um Casamento pode não ter levado o Oscar, mas é um filme sensível e honesto, com foco no roteiro e atuação do elenco (tirando a mãe de Nicole, cujo papel é exagerado). E o belíssimo desfecho nos mostra que, para proteger a saúde mental do filho, a mágoa, a raiva e a culpa devem dar espaço à dignidade, à civilidade e ao respeito mútuo.

 

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA

09.02.2020

Na pele de um famoso e carismático apresentador de programa infantil da TV americana, Tom Hanks rouba a cena mesmo como coadjuvante

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Tom Hanks é conhecido por ser um dos caras mais legais de Hollywood. O papel de Fred Rogers parece ter sido feito sob medida para ele. O apresentador conhecido por seu programa infantil, que deu nome a este filme, não é protagonista da história, mas Hanks e seu carisma criam a sensação de que o filme gira em torno apenas dele.

A história de Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day In The Neighborhood, China/EUA, 2019 – Sony Pictures), acompanha o cético jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) na missão de entrevistar o astro Mr. Rogers. Cheio de conflitos internos, o repórter acaba passando por uma transformação ao conhecer mais a fundo o sempre doce apresentador.

Um Lindo Dia na Vizinhança ganha, (e muito) pela presença de Hanks no elenco. Certeiro, o ator consegue cativar em um personagem de muitas nuances. As conversas entre Lloyd e Rogers são delicadas e humanas, de longe os pontos altos do filme. Destaque especial para quando os dois dividem uma refeição em um restaurante sob olhares curiosos.

O filme apropria-se do cenário do programa infantil para realizar transições e inclusive uma cena de epifania do jornalista. Esse artifício rico traz dinâmica a história, inserindo quem está do outro lado da tela ao mundo colorido e lúdico construído por Mr. Rogers.

Tom Hanks segura o quanto pode, mas a história água com açúcar acaba por perder o embalo por vezes. Quando o ator ganhador do Oscar não está na frente das câmeras, nem sempre dá paral manter o foco. Lloyd não é carismático o suficiente para prender em seus momentos solo. É fácil entender sua raiva e sua dor, mas é mais fácil ainda entendê-la quando Mr. Rogers o auxilia.

Dirigida por Marianne Heller, a história cai em um lugar comum ao render-se a um dramalhão nas partes derradeiras. Claro, é bonito ver o desfecho do protagonista, mas e Mr. Rogers? É possível ver o final feliz de um personagem secundário? O filme, principalmente em sua última cena, atiça a curiosidade de entender mais sobre a vida e os sentimentos de Fred e não de Lloyd. Por isso, Um Lindo Dia na Vizinhança torna-se uma agridoce reflexão sobre a beleza e a complexidade dos sentimentos. Não é culpa do ator escalado para ser o protagonista, mas nesse caso competir com Tom Hanks não foi justo.

 

JUDY: MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS

04.02.2020

Renée Zellweger entrega uma fantástica performance em cinebiografia que retrata o conturbado último ano de vida da estrela de O Mágico de Oz

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Judy Garland continua brilhando no inconsciente coletivo mesmo após meio século de seu falecimento. É o que revela Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy, Reino Unido, 2019 – Paris Filmes), longa-metragem que aborda o último ano da vida da estrela enquanto ela fazia estadia em uma casa de shows em Londres tumultuada pela bebida e pelo vício em remédios. Além de um pedaço da história dela, o filme mostra uma estrela se apagando aos poucos.

A cinebiografia apresenta diversas faces de Judy. Tem a mãe, a artista, a ex-esposa, a garota-prodígio, a estrela decadente, a amante frágil, a mártir e, a mais marcante, a mulher que acredita que sua própria identidade era mais um de seus inúmeros personagens. Em um momento do filme, a atriz aparece dando uma entrevista na Inglaterra em que afirma que era Judy Garland por apenas uma noite, depois era uma pessoa comum com uma família e que queria ser feliz. A declaração permeia o filme como um norte. Judy Garland não queria ser estrela o tempo todo, só que precisava disso. E não apenas por dinheiro, mas porque a fama era quase como um comprimido.

Renée Zellweger encarna a protagonista em uma interpretação por vezes doce e simpática e outras conturbada e explosiva. A atriz emagreceu e dedicou-se a aprender maneirismos específicos de Garland. Por isso, entrega a melhor atuação de sua carreira e torna-se o ponto alto e absoluto do filme.

Judy não inova e segue um formato bastante quadrado. O roteiro não ajuda. Um texto mais ambicioso poderia ter tirado o filme da zona de conforto da biografias. As inserções do passado da atriz são um pouco confusas e por vezes quebram o ritmo do filme, mas a história sai da mesmice em sua linda cena final.

Uma grata surpresa é a delicada menção da importância do público LGBT na carreira de Judy Garland. Considerada o “Elvis” dos gays, a atriz se tornou um símbolo da comunidade, principalmente por conta de seu papel em O Mágico de Oz, no qual pregava o amor e aceitação às diferenças. Em épocas mais repressoras, era comum que os gays nos Estados Unidos se identificassem entre si usando os códigos “amigo da Judy” ou “amigo da Dorothy”.

Judy: Muito Além do Arco-Íris encontrou uma forma tocante e digna de contar a triste história de uma das maiores estrelas de Hollywood. O maior legado do filme, juntamente dos prêmios merecidamente vencidos de Renée Zellweger, é mostrar a luta de uma estrela infantil em sua vida adulta e como as consequências do estrelato precoce podem afetar profundamente uma pessoa. Judy Garland teve toda sua vida controlada por homens, executivos, estúdios, empresários, remédios, bebida. Muito famosa desde muito jovem, nunca conseguiu conquistar independência completa, fosse ela profissional ou emocional.

 

OS ÓRFÃOS

30.01.2020

Adaptação de conhecido livro de horror repete fórmulas, aposta em clichês batidos e desperdiça personagens que poderiam ser mais intereantes

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Existe uma nova leva de filmes de terror que estão repensando o gênero e trazendo novos elementos para o público. Entretanto, Os Órfãos (The Turning, Reino Unido/Irlanda/Canadá/EUA, 2020 – Universal Pictures) vai contra essa corrente de inovação e aposta nas muletas já desgastadas e que não causam mais medo.

O filme, dirigido por Flora Sigismondi, acompanha Kate (Mackenzie Davis) em seu novo emprego como professora particular da órfã Flora (Brooklynn Prince), que mora com seu irmão mais velho, Miles (Finn Wolfhard), em uma gigante mansão no Maine. Logo, coisas estranhas começam a acontecer. A premissa não é inovadora mas o desenrolar da história poderia ser. Mansões mal assombradas já são um clichê do cinema. Se mesmo assim diretor e roteiristas escolherem esse cenário, um ar fresco é necessário. E Os Órfãos tem todos os clássicos desse subgênero de terror, desde as aparições no espelho a pesadelos vívidos. Os jumpscares estão lá e em sua maioria são fáceis de ser previstos.

O roteiro é pobre e desperdiça uma boa atuação da protagonista. Em diversos momentos, a história parece que vai tomar um rumo interessante só que acabar por escolher o óbvio e o seguro. Como a trama é mais uma adaptação da história fantasmagórica Outra Volta do Parafuso (de Henry James e publicado pela primeira vez em 1898), talvez pelo texto já ter inspirado vários outros títulos a criatividade pareceu engessada aqui.

Os Órfãos ensaia uma modernidade com o personagem de Finn Wolfhard que, influenciado pelo antigo empregado da casa, torna-se um clássico exemplo de masculinidade tóxica. Mas fica por isso mesmo, não evolui. A história desse antigo empregado também é muito interessante para enredo e se fosse melhor aproveitada renderia um ótimo filme. Pena que no final é completamente desperdiçada por uma tentativa de plot twist a laM Night Shyamalan.

O que diretores e roteiristas de muitos títulos de terror ainda não entenderam é que os medos clássicos (como fantasmas e monstros) precisam entrar na realidade moderna, para que não fiquem datados. Este, infelizmente, é mais uma prova disso.

 

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS

27.01.2020

Obra francesa sobre um amor intenso entre duas mulheres é um primoroso exemplo de como o cinema pode emocionar

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Supo Mungam/Divulgação

Há alguns meses, a declaração de Martin Scorsese diferenciando o cinema “arte” dos filmes “parque de diversões” rendeu fervorosos debates, angariando defensores dos dois lados da pergunta “filmes tais como os da Marvel são cinema?”. Em Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la Jeune Fille en Feu, França, 2019 – Supo Mungam), temos um exemplo perfeito do que Scorsese quis dizer com sua distinção.

Dirigido e escrito por Céline Sciamma, o longa retrata a jornada de Marianne (interpretada por Noémie Merlant), uma pintora contratada para fazer um retrato de Heloise (Adèlie Haenel), que, prometida a um cavaleiro milanês, não deseja ser pintada. Portanto, Marianne é instruída a agir como sua acompanhante, pintando sua senhora em segredo ao longo de seis dias. A premissa, simples, abre espaço para o desenvolvimento silencioso de suas três personagens principais, as já citadas e a jovem Sophie (Luàna Bajrami), criada da mansão de Heloise. As três desenvolvem amizade e confiança inabaláveis ao longo destes dias, que inevitavelmente se transforma em amor entre Marianne e Heloise.

Amor, não paixão, como Sciamma deixa perfeitamente claro ao longo do desenvolvimento da trama e de sua linguagem enquanto diretora. A câmera é calma, estática por vezes, mas movimentando-se de acordo com suas personagens. Terna, ela opta por closes não muito fechados, mas de modo suficiente para isolar as reações formidáveis do elenco. Com diálogos típicos da frieza europeia, cabe a Merlant e Haenel transmitir todo o mar de emoções pelas quais passam com o olhar e a linguagem corporal – o que fazem de maneira exemplar. Vemos como o desejo se estabelece e, lentamente, torna-se paixão e, então, um amor capaz de durar toda a vida das mulheres. E, numa demonstração do talento de Sciamma, a sensibilidade com a qual Retrato de uma Jovem em Chamas o faz é primorosa.

Grande parte do subtexto da obra pode ser enxergada em torno da arte, seja ela a pintura de Marianne ou a música, diegética ou não. É por meio daquilo que está implícito e, principalmente, pela elipse, que a direção e a montagem alçam o filme para uma densidade tremenda, muito maior que o mero romance. A condução de Sciamma (uma mulher lésbica) de um relacionamento lésbico que deve permanecer em segredo é emocionante, sem se manter superficial, muito menos correr atrás do sexo explícito fetichista que, para muitos, seria a saída fácil – vide a trajetória abusiva de Abdellatif Kechiche (Azul é a Cor mais Quente e Mektoub My Love).

O ritmo da montagem assinada por Julien Lacheray é tão calmo e espaçoso quanto a direção do longa, o que permite que a condução das cenas seja feita pelo simples olhar das atrizes. Ainda, há momentos onde a necessidade (dada puramente por convenção) do corte é sentida, mas Lacheray insiste em segurar o plano, amplificando o poder de toda a linguagem de Sciamma e desenvolvendo uma coesão não somente narrativa, mas artística entre começo, meio e fim de uma história tão bela, porém tão triste. Há dois momentos que, logo que acontecem, causam um estranhamento pelo descolamento estético com o resto do filme, mas que se pagam ao final, numa das últimas cenas da obra, que introduz o sentido que faltava a tal escolha.

Retrato de uma Jovem em Chamas é um exemplo primoroso de como o cinema tem capacidade emocional e artística por muitas vezes desperdiçada para dar lugar a Velozes e Furiosos 47, Transformers 12 e a vigésima história de origem de um super-herói nos cinemas. Sem pretender demais e paralelamente, alcançando muito, esta obra se desenvolve em um romance belíssimo, acalentador, para transformar-se num balde de água fria, carregando consigo as marcas de um amor proibido, intenso e perene. Digo isso, é claro, sem spoiler algum.

 

O FAROL

26.01.2020

Thriller psicológico com Robert Pattinson e Willem Dafoe aumenta as expectativas para o futuro da carreira do diretor Robert Eggers

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Sendo um dos mais antecipados filmes do ano passado, O Farol (The Lighthouse, Canadá/EUA, 2019 – Vitrine Filmes), de Robert Eggers, distancia-se do horror comercial que ocupou as telas dos cinemas brasileiros – com cobertura modesta em Curitiba, o longa só está em exibição no Cine Passeio. Estrelado por Robert Pattinson e Willem Dafoe, O Farol é de cair o queixo.

O roteiro, assinado por Eggers e seu irmão Max, retrata o isolamento de Thomas Wake (Dafoe) e Ephraim Wilson (Pattinson), que fora contratado por aquele para ser seu ajudante no farol que comanda no meio do mar. Aos poucos, o clima na pequena ilha que habitam torna-se cada vez mais nervoso – (e o espectador acompanha esta tensão), transformando O Farol num retrato do enlouquecimento ao mesmo tempo que uma visita ao enlouquecimento que nos é subjetivo. O texto é conciso, oscilando entre o falatório de Wake e o silêncio inquieto de Wilson, amparado por um simbolismo que flerta com a mitologia greco-romana e uma estética aterrorizante, mas não do jeito jumpscare de se aterrorizar.

Em vez de “terror” de fato, esta é uma obra de thriller psicológico. Convida o espectador para uma jornada tão enclausurada quanto a de seus personagens por meio de sua razão de aspecto: o filme é praticamente quadrado, mais estreito que os filmes clássicos dos primórdios do cinema, filmados em uma razão 1.33:1. O Farol, por sua vez, é fotografado em 1.19:1.

Essa é somente uma das inúmeras decisões de Eggers que destacam seu trabalho de direção. As imensas sombras projetadas nas paredes e nos próprios atores, o enquadramento de seus personagens (muitas vezes em um contra-plongée anguloso) e a utilização de planos longos são marcas registradas aqui, aproximando a obra da estética do impressionismo alemão, com reflexos da inventividade do noir. Tal proximidade é fruto da colaboração do diretor com o diretor de fotografia Jarin Blaschke, com quem trabalhou em A Bruxa. Ele faz um ótimo uso do filme de 35mm, que confere mais desta atemporalidade à trama. Ainda há a manipulação da cor do filme – que traz céus mais escuros que o mar em planos de beleza ímpar.

A montagem de Louise Ford (pasmem: também egressa de A Bruxa) é exemplar. Criando um ritmo que é próprio de O Farol, Ford corta apenas quando necessário, entregando ao espectador planos longos, com mise-en-scène exemplar de Eggers, mas sem medo de justapô-los aos densos close-ups, onde Dafoe e Pattinson têm total controle da tela – e mais podem brilhar.

Contudo, há um ponto de primor em O Farol que nada contra a revisitação estética do passado do cinema: a música de Mark Korven (pasmem: ele também trabalhou em A Bruxa). O compositor cria uma atmosfera eletrizante e desconfortável, com timbres atuais e uma experimentação que é típica deste século 21, que acaba por atribuir à obra um frescor contemporâneo. Não é nada extremamente inovador, mas é único ao longa. As sequências não teriam tanto impacto psicológico sem a música de Korven.

Ela acompanha todo um desenho de som, de Mariusz Glabinski e Damian Volpe, que a auxilia a desenvolver essa atmosfera opressiva e de tensão inigualável. No entanto, este filme faz jus às capacidades criativas do desenho de som de modo tal que nenhum título lançado em 2019 (embora tenha se atrasado por aqui, O Farol teve lançamento mundial no ano passado), em um instante que se impregna na memória. Assim que assistir ao longa, o leitor será capaz de identificar o momento que descrevo. E digo mais: O Farol deveria se encerrar ali.

O Farol se destaca entre todos os lançamentos dos últimos anos, aumentando as expectativas para a carreira de Robert Eggers vertiginosamente. Com sensibilidade, tensão e a medida certa de experimentação para afastá-lo do convencional sem fazê-lo de vez, o filme é destaque em todas as áreas da produção cinematográfica. Do começo a depois de seu fim, ele te prende na cadeira da sala de cinema. E o convida a enlouquecer junto ao seu incrível elenco.

 

UM ESPIÃO ANIMAL

22.01.2020

Paródia de clássicos filmes de espionagem, animação vai além do público infantil e cativa também os adultos

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Fox/Divulgação

Todos os anos chegam aos cinemas filmes sobre espiões, mas com tantas novas produções, nem sempre é fácil inovar nas tramas. A mais nova produção da Blue Sky consegue trazer frescor ao gênero e ainda por cima no formato de desenho animado.

Um Espião Animal (Spies In Disguise, EUA, 2019 – Fox) narra a história do melhor espião do mundo, Lance Sterling (dublado na versão original por Will Smith e na brasileira por Lázaro Ramos), que precisa unir-se ao ingênuo cientista Walter Beckett (Tom Holland, em inglês) ao ser acusado de um crime que não cometeu. Querendo desaparecer para iniciar sua própria investigação, Sterling acaba, acidentalmente, transformando-se em um pombo e assim a jornada dos dois opostos se desenrola.

A animação é uma ótima paródia de longas de espionagem. Com enredo interessante, traz mensagens importantes para o público infantil como o trabalho em equipe, autoconfiança e como a violência não precisa ser a resposta. Os dois personagens principais são carismáticos e bem construídos, fazendo com que a história flua de maneira natural e divertida.

Como qualquer filme de espião, as cenas de luta estão presentes, seja com apetrechos hipertecnológicos, pombos ajudantes ou até mesmo glitter, elas não deixam a desejar. Um Espião Animal torna-se atrativo não só para crianças, mas para toda a família. O humor não se baseia em piadas clichês de histórias infantis e é capaz de divertir outras faixas etárias.

O roteiro é criteriosamente pensado: nada é citado ou aparece na tela sem motivo. Todo esse cuidado só não foi dedicado à introdução do vilão. O antagonista é extremamente promissor, mas suas razões e explicações ganham pouco tempo na história. Uma pena, já que é um personagem que destoa muito do típico vilão de filmes de criança e seria interessante entender mais sobre sua trajetória anterior.

Mesmo assim Um Espião Animal surpreende e presenteia o público com um enredo divertido e cheio de ação. Consegue quebrar barreiras do subgênero de espionagem ao entrar na animação e sair do foco infantil e cativar também o público adulto.

 

1917

19.01.2020

História ambientada na Primeira Guerra Mundial é tecnicamente perfeita porém sem conteúdo substancial

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Universal Pictures/Divulgação

O mágico Roger Deakins. Sam Mendes, o diretor de Skyfall e Beleza Americana. Composição de Thomas Newman. No elenco, Colin Firth, Andrew Scott e Benedict Cumberbatch, o duo de Sherlock. Mais Richard Madden e Dean-Charles Chapman, Robb Stark e Tommen Baratheon, respectivamente. Mais George McKay, de Capitão Fantástico. Vários ingredientes para o sucesso, não é? Nem tanto.

1917 (Reino Unido/Estados Unidos, 2019 – Universal Pictures) chega aos cinemas brasileiros com um grande hype. Recém-coroado melhor filme de drama pelo Globo de Ouro (algo questionável, para ser bondoso), sua trama, que se passa na Primeira Guerra Mundial (começando em 6 de abril de 1917, precisamente), acompanha os cabos Schofield e Blake (McKay e Chapman, respectivamente) na missão suicida de atravessar as linhas inimigas e cancelar um ataque inglês, que, caso efetuado, cairá direto numa armadilha alemã.

Tecnicamente, o filme é irretocável. Como sempre, a fotografia de Deakins desenvolve a atmosfera, repleta de trincheiras e cidades destruídas, criando magnitude e opressão no mesmo plano. Cada quadro, uma pintura, sem dúvidas. Aqui, no entanto, há um desafio a mais: 1917 é rodado inteiramente em planos sequência, com muita movimentação de câmera e personagens.

Numa versão grandiosa da abertura de Skyfall, Mendes acompanha cada passo de Schofield e Blake, do momento em que são chamados pelo General Erinmore (Firth) até a completude de sua missão. Há uma clara ciência dos riscos, em especial em diálogos, mas o comprimento infindável dos planos torna a tensão da guerra muito mais palpável.

O desenho de som (indicado ao Oscar, aliás) é primoroso, mesclando o hiperrealismo que o gênero pede à sensacional trilha de Thomas Newman, que combina os opressores sintetizadores segurando uma nota com momentos épicos, melódicos e grandiosos. A edição, por outro lado, fica renegada a um trabalho de colar peças no exato momento em que a direção planejou que elas fossem coladas. A dimensão criadora da montagem é inexistente aqui, o que não é em si um demérito, mas uma pena – visto que se perde muito da atuação do ótimo elenco ao abolir a opção de um plano/contra-plano.

No entanto, com todos os seus méritos, 1917 é um filme de espetáculo, e é somente assim que funciona. A excelência de Deakins e o movimento incessante da câmera carregam o filme por suas quase duas horas, porém a falta de densidade dos protagonistas e diálogos curtos e grossos – um ponto alto do longa, já que não se espera exposição à toa no meio de uma guerra, não é? – afasta o público de imersão na jornada do personagem, tornando essa duração um pouco arrastada, quase entediante em dados momentos. Assim, os personagens tornam-se vazios e os coadjuvantes mais ainda – completamente efêmeros e, se não fosse pela densidade das atuações, momentos esquecíveis.

O longa é repleto de bons momentos, com tensão e atuações fenomenais, só que os respiros entre eles desaceleram demais a trama, sem tração para manter o espectador emocionalmente envolvido. 1917 é, no entanto, um ótimo retrato da guerra, crua e assoladora. Neste sentido, o tempo do filme somente engrandece o comentário, por aterrar o público não somente nas batalhas, mas no dia a dia, as longas caminhadas, a fome e o medo de um cabo na Grande Guerra. Contudo, os personagens não passam disso: soldados na WWI, perdendo a camada emocional tão poderosa da sétima arte.

Tecnicamente superior à maioria dos filmes de guerra, 1917 é um experimento cinematográfico impactante, uma experiência fílmica de colar o espectador na cadeira. Quando respira, porém, lembra o público que é oco, uma experiência sem substância. Lindo pacote, presente medíocre.

 

O ESCÂNDALO

16.01.2020

História sobre os assédios sexuais que derrubaram recentemente o CEO da Fox News chega aos cinemas de forma confusa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O escândalo Bombshell estourou em 2016, em pleno período eleitoral (quando Donald Trump foi eleito), e envolveu estrelas do maior canal de TV conservador dos Estados Unidos. Nele, estrelas da Fox News, bem como diversas outras mulheres, acusaram o diretor e CEO Roger Ailes de abuso sexual. Entre elas, Gretchen Carlson e Megyn Kelly, duas das maiores apresentadoras da emissora.

Em O Escândalo (Bombshell, EUA/Canadá, 2019 – Paris Filmes), filme dirigido por Jay Roach e escrito por Charles Randolph, acompanhamos a trajetória dessas mulheres, desde o momento em que Gretchen (Nicole Kidman) entra em litígio com Ailes (John Lithgow) até o momento em que aceita o acordo judicial, que conta com um pedido de desculpas oficial da Fox. No entanto, não é Gretchen a protagonista – a história foca no conflito interno da jornalista Megyn Kelly, que demorou a se pronunciar no escândalo, mostrando também a pressão produzida dentro do quadro de funcionários da Fox News, condenando seu inicial silêncio. Ainda, há Kayla (Margot Robbie), uma jovem evangélica que acredita nos ideais do canal mas torna-se a mais recente vítima do CEO. As três “protagonistas” têm pouco tempo de tela compartilhado, suas tramas são solitárias e pouco se entrelaçam.

Este é um filme fortemente necessário, que traz luz a um caso seríssimo de assédio sexual no ambiente de trabalho, demonstrando com crueza a dinâmica de poder opressora entre patrão e empregadas. Mais obras com a mensagem de O Escândalo devem surgir, visibilizando o comportamento deplorável de homens em posição de poder. No entanto, é uma pena que uma história tão rica e impactante tenha sido conduzida de uma maneira tão confusa como esta.

A direção de Roach, que está em seu terceiro drama, com um passado de comédias pastelão como Austin Powers, Entrando Numa Fria e Os Candidatos, é confusa e bastante inquieta. Com exposição despejada num rompante nas cenas iniciais, com quebras inconstantes da quarta parede e câmeras na mão, com muito zoom e montadas em uma justaposição estranha, O Escândalo inicia num conflito de estilos radicalmente divergentes, buscando sua estética num emaranhado de ideias que, a partir do segundo ato, são abandonadas em prol de uma abordagem mais comercial. Há cenas em que a quebra da quarta parede chega a ser incômoda, por ser súbita, breve e um caso isolado – uma das personagens o faz uma única vez; outra, duas ou três; e a última não chega a tanto.

No entanto, Roach busca um hiperrealismo que, apenas na trama de Kayla, é muito eficiente. Grande parte do mérito é de Margot Robbie, que interpreta muito bem uma millennial de extrema direita com certas nuances – incluindo sua sexualidade. Seu texto não é dos melhores, o que cria uma personagem por vezes estereotipada, mas que se redime quando Robbie rouba a cena.

A montagem, assinada por Jon Poll, é, no máximo, eficiente. Contudo, erra a mão em momentos que quebram o ritmo do longa, com uma sensação de estranhamento terrível. A maquiagem é ótima em Charlize Theron, que também atua muito bem, porém causa um leve desconforto em Nicole Kidman, que parece um pouco imobilizada pelas próteses.

Por mais necessário que seja, o longa afasta o espectador com sua indecisão, que cria momentos desnecessários e desconfortantes, em especial o início de sua trama. Sinto que, nas mãos de outro diretor e com melhor cuidado de desenvolvimento de personagens, a fim de evitar unidimensionalidade das protagonistas e coadjuvantes, O Escândalopoderia alcançar resultados muito mais impactantes que nas mãos da equipe atual. Uma história tão importante não deveria, de forma alguma, se tornar esquecível – e é isso que ocorre aqui.

 

PARASITA

14.01.2019

Contraste socioeconômico promove questionamentos entre ações e intenções dos personagens em vibrante história sul-coreana

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Textos por Andrizy Bento e Janaina Monteiro

Fotos: Pandora Filmes/Divulgação

“É por isso que as pessoas não deveriam fazer planos. Sem plano, nada pode dar errado. E se algo sair do controle, não importa”.

Drama sul-coreano, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2019, Parasita (Gisaengchung, Coreia do Sul, 2019 – Pandora Filmes) é brilhante, surpreendente e um verdadeiro soco no estômago. O título do longa não poderia ser mais oportuno. É como parasita que uma família, cujos membros estão todos desempregados, infiltra-se na rica e abastada mansão do clã Park, lançando mão de sua sagacidade, ardis e de um impressionante dom para a vigarice. Mas, ao abordar os vínculos de dependência e dominação e a total ausência de gratidão da família Park por aqueles que os servem, o diretor Bong Joon-ho propõe um questionamento: quem são os verdadeiros parasitas nessa história?

O motorista desempregado Kim Ki-taek (Song Kang-ho) e sua esposa Choong-sook (Jang Hye-jin) vivem com seus dois filhos, Ki-woo (Choi Woo-shik) e Ki-jeong (Park So-dam), em condições precárias, em um apartamento sujo e claustrofóbico situado no subsolo de um prédio na área mais pobre de Seul. A família atravessa uma situação financeira lastimável, exercendo alguns trabalhos esporádicos a fim de pagar as contas, mas sem perspectiva de empregos efetivos. Quando o filme tem início, os integrantes da família estão se virando como podem, lutando para encontrar um lugar da casa em que possam conectar seus smartphones à rede wi-fi de algum vizinho. É então que recebem a visita de Min-hyuk (Park Seo-joon), um amigo de Ki-woo, que lhes traz um presente – uma rocha que o rapaz alega ser capaz de trazer grande fortuna e saúde para a família – e uma oportunidade irrecusável para o primogênito dos Kim: dar aulas particulares de inglês para Da-hye (Jung Ji-so), a filha de um rico empresário do ramo da tecnologia que vive em uma luxuosa mansão.

Desde o momento em que coloca os pés na residência dos Park, ele se mostra bastante entusiasmado com sua sofisticação, não escondendo o fascínio que a elegante construção, projetada por um renomado arquiteto, exerce sobre si. Munido de currículo e certificados falsos, Ki-woo não demora a conquistar a confiança da Sra. Park e se torna efetivamente o tutor de sua filha adolescente. Ao perceber que o filho caçula da família, Da-song (Jung Hyun-joon), é hiperativo e tem uma imaginação profícua, ele convence a madame Park a dar uma oportunidade de emprego para sua irmã como professora de arte do garoto, sem revelar, no entanto, o grau de parentesco que possui com ela. Ki-jeong chega à mansão se apresentando como Jessica, uma brilhante profissional, dona de um currículo invejável. Já na primeira noite, ela arma uma cilada para o motorista da família ser despedido e seu pai ocupar a função. Removendo empecilho por empecilho do caminho, resta apenas se livrar da funcionária mais antiga, que trabalha na residência desde antes de a família Park adquirir a propriedade: a governanta Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun). Aproveitando-se de uma informação revelada acidentalmente por Da-hye, eles utilizam a fraqueza da governanta contra ela mesma e, enfim, conseguem fazer com que seja despejada e substituída por Choong-sook. Desse modo, toda a família acaba empregada na mansão.

Eles mantêm a farsa, omitindo seus laços sanguíneos e reais identidades. Apesar de soar como um plano engenhoso e elaborado com minúcia, na verdade, cada integrante da família apenas se vale do senso de oportunidade perfeito. É quase orgânico como tudo ocorre; o timing é que parece estar sempre a favor deles. A primeira grande reviravolta da trama, no entanto, ocorre quando Moon-gwang retorna à mansão em uma noite em que os ex-patrões encontram-se fora, e revela que seu marido tem morado secretamente há quatro anos no porão da casa dos Park, escondendo-se de agiotas. A antiga governanta, eventualmente, acaba descobrindo a verdade sobre a família de Kim e, a partir daí, se inicia um jogo de coerção entre eles que aponta para um desfecho violento e catastrófico.

Com um roteiro bem engendrado e direção de atores cuidadosa, Parasita é bem-sucedido em todos os requisitos, tanto estéticos quanto narrativos. A cinematografia é eficiente e primorosa ao explorar a arquitetura da requintada mansão, tornando o local um personagem na história, tamanha a importância que o cenário desempenha para a trama. Versando sobre os extremos da pobreza e da riqueza e o choque resultante disso, direção de fotografia e roteiro se empenham em explorar os contrastes entre o ambiente espaçoso e ostentatório dos Park e o local claustrofóbico e humilde dos Kim, e essa compreende a simbologia elementar do longa.

Da janela de sua modesta residência, em um bairro pobre de Seul, tudo o que a família de Kim vê durante a hora do jantar são indivíduos alcoolizados que insistem em urinar bem em frente à sua casa. Já em uma noite que os Park vão acampar em comemoração ao aniversário do filho caçula, a família de Kim se apropria da mansão e desfruta de luxo e conforto – fantasiando com uma vida que não possuem, mas almejam –  ao mesmo tempo em que observam a paisagem verdejante e idílica que a enorme janela da mansão lhes proporciona. A chuva, elemento que confere um efeito belo e poético para aquele momento, mais tarde traz desgraça para modesta residência dos Kim. Figura similar possui a escada na narrativa. Reparem como a família Kim está sempre descendo pelas escadas de modo a acessar os porões e mesmo a sua residência no bairro pobre, como se para simbolizar as distinções entre os altos e baixos níveis que compõem uma injusta e desigual estrutura econômica. O presente de Min-hyuk, a rocha, também agrega um valor metafórico à trama. O objeto contundente desempenha um papel fundamental no trágico clímax do filme.

O conflito entre patrões e empregados tem sido um mote bastante trabalhado no cinema atual. O tema foi tratado de maneira mais direta no brasileiro Que Horas Ela Volta?, ganhou contornos mais líricos no mexicano Roma e, agora, no sul-coreano Parasita alcança um simbolismo perfeito. As três obras citadas, apesar das abordagens distintas, carregam pontos em comum. Em todos eles, os patrões veem algo de intrusivo no comportamento daqueles a quem consideram subalternos; mostram um inegável desprezo pelas suas condições humildes; os tratam como mera mão de obra, sem nenhuma individualidade, criados apenas para obedecer cegamente às ordens de seus empregadores. Os burgueses são retratados defendendo uma estrutura vertical de classes, mas também apresentam uma inegável dependência e necessidade dos serviços daqueles a quem julgam inferiores, precisando que estes se responsabilizem com zelo e afinco pelas extensivas e ingratas tarefas domésticas, pela educação de seus filhos e condução de seus automóveis luxuosos. Desde que nunca, logicamente, transcendam os limites e invadam espaços que não lhes dizem respeito, eles são “bem-vindos”. Ao ultrapassarem essa linha, no entanto, são vistos como pragas a infestarem seu habitat. E é exatamente nesse ponto que o texto de Bong Joon-ho alcança uma consistência e brilhantismo inigualáveis, pois, no fim das contas, mais parasitários são os Park dada a forma como exploram seus empregados.

Os recursos encontrados para abordar a velha temática desigualdade social são inventivos, passando longe de qualquer discurso clichê. Impressiona o quão redondo, bem resolvido e arquitetado é o longa. A história mescla drama e thriller temperados com um humor ácido e cruel e converge para as disparidades sociais e econômicas existentes no país. Trafegando com exímia destreza e naturalidade por entre esses elementos dramáticos, Bong Joon-ho reveste sua obra de um tom preciso de denúncia e crítica social, compondo um retrato ímpar da distinção entre classes, com direito a um plot twist surpreendente no ápice da produção.

Outro dos acertos do cineasta é jamais separar seus personagens em bons e maus, em núcleos de mocinhos e vilões, evitando o fácil caminho do maniqueísmo. Os Kim podem ser vistos como vigaristas, trapaceiros, alpinistas sociais, mas não são pintados na tela como vilões ou psicopatas. Isso se estende também à família burguesa ou a ex-governanta e seu marido. Todos acreditam em sua própria verdade, carregam suas próprias convicções e visões deturpadas do mundo e da realidade que os cerca, o que acaba por justificar suas atitudes, ainda que por vias tortas.

Embora todo o elenco esteja muito bem, o destaque do cast é mesmo é Song Kang-ho como o motorista Kim Ki-taek. O ator impressiona em diversos momentos. É doloroso observar a mágoa em seu olhar ao ouvir os comentários inapropriados do Sr. Park a respeito do cheiro peculiar “de metrô” que ele e sua família possuem. A humilhação e o desejo de vingança expressos em sua face na cena da festa, que representa o clímax do filme, são tão palpáveis que não tem como se sentir indiferente.

É inteligente a escolha de Bong Joon-ho em observar o desenrolar dos eventos e as ações de seus personagens com um olhar frio, distante e até mesmo didático, quase como um voyeur durante a maior parte da projeção. Porém, em seus minutos finais, o cineasta faz questão de adentrar os sentimentos e propor um mergulho nas emoções dos personagens, garantindo um tom de maior humanidade e pessoalidade a eles, utilizando o famigerado recurso do voice over de maneira segura, astuta e quase onírica.

Apesar de refletir uma realidade sul-coreana, Parasita é universal. (AB)

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O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, um dos poucos pensadores que conseguem traduzir em ideias a sociedade contemporânea, afirma que o capitalismo é um sistema parasitário: “como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento”. Por isso, não é à toa que o sul-coreano Bong Joon-Ho (Okja, Mother, Hospedeiro) tenha batizado seu novo longa de Parasita” (Gisaengchung, Coreia do Sul, 2019 – Pandora Filmes), um filme denso e complexo sobre a exploração resultante da desigualdade social e que leva ao pé da letra a luta de classes entre pobres e ricos. O pano de fundo desse embate é a Coreia do Sul, uma potência econômica e tecnológica, mas que ainda guarda o ranço do subdesenvolvimento.

Em cartaz há várias semanas no Cine Passeio, em Curitiba, Parasita é, em sua essência, um suspense com uma carga de tragicomicidade surpreendente e eloquente, que se adequa à proposta de Joon-Ho de retratar a disparidade entre classes no que ele define como um filme-escada: enquanto “o de cima sobe, o de baixo desce”. A cena do início já evidencia essa noção de hierarquia social, mostrando um cabide para varal pendurado com meias em frente à janela de um apartamento emporcalhado, cheio de tranqueira, no subsolo de uma viela. Assim vive a família de Kim Ki-taek (Song Kang-ho). Ele, os filhos e a esposa estão desempregados e sobrevivem fazendo bico, montando caixas de pizza. Vivem no submundo da existência como no porão habitado por ratos. Abaixo do nível da rua, da sociedade e de padrões éticos e morais. Da janela, é possível ver um bêbado mijando na lixeira em contraste com a água da chuva capaz de inundar em segundos toda a propriedade. Chuva que, em vez de lavar o apartamento sujo, faz eclodir o esgoto coreano e que poderia muito bem ser as entranhas de qualquer cidade de terceiro mundo. Dessa mesma janela, é possível ver a neve que congela a alma e os sonhos de um pai que sempre quis ver o filho estudar numa universidade.

No primeiro ato, o espectador é apresentado a essa família peculiar e grotesca, que caiu na pobreza por conta de falências e demissões. O filho de Ki-taek, Ki-woo (Choi Woo-shik), está preocupado em captar o sinal do wi-fi do restaurante para conseguir acessar um vídeo no YouTube: por necessidade e não entretenimento. O humor negro faz o espectador rir, mas com uma dose de melancolia. É aquele riso com culpa da tragédia alheia. E de tanto apanhar da vida, a moral dessa família se confunde com a malandragem. Para quem não tem nada a perder, a fraude e mentira se tornam algo habitual. Passar a perna em quem tem dinheiro é uma atitude condescendente, como se os ricos tivessem culpa pela pobreza alheia e fossem obrigados a pagar por isso.

A reviravolta na vida da família acontece quando Ki-woo aceita a proposta de um amigo abastado para assumir seu lugar como tutor de inglês de uma adolescente rica. Com o pretexto de visitar o amigo e oferecer a oportunidade de emprego, o rapaz lhe presenteia com uma pedra que promete trazer riqueza material. “Isso é tão metafórico”, responde Ki-woo, seu bordão ao longo do filme. A riqueza para quem não a conhece é algo assim, metafórico.

Ki-woo passa, então, a trabalhar para a família Park, uma versão às avessas da família Kim, que ocupa uma mansão modernosa projetada por um arquiteto famoso. O ritmo e os travellings de Joon-Ho mostram a opulência e a sofisticação do ambiente que contrastam com o núcleo suburbano. Ampla, sem um sinal de poeira, a fortaleza é como um museu de porcelana onde vive o casal e seus dois filhos, uma menina adolescente e um garotinho que adora brincar de índio e dar uma de cacique pra cima dos pais. Com o desenrolar da narrativa, Joon-Ho mostra que a diferença entre classes não se prende ao nível dos cifrões: que inteligência, esperteza e sagacidade não se compram com dinheiro. Que o conforto e segurança podem gerar o comodismo e alienação.

O filho de Ki-taek vai encontrando brechas para ludibriar a dona da casa a demitir todos seus criados. Pouco a pouco e com o auxilio do YouTube (por onde aprendem dicas valiosas), ele, a irmã, a mãe e o pai passam a trabalhar para a madame desempenhado funções como motorista, governanta e professora de artes do caçula. Para interpretar esses novos papéis (ou empregos), a família ensaia em conjunto, proporcionando os momentos mais hilários do filme.

E assim, do lixo ao luxo, o plano é “conquistar” a casa dos ricos, lembrando o que Jordan Peele fez em Nós. Porém, a descoberta de um bunker (construído nas casas como proteção contra uma possível ataque da Coréia do Norte) abala o plano da família invasora. No decorrer de 132 minutos, a narrativa, então, vai abrindo espaço para a questão sobre quem são de fato os parasitas: os criados que sustentam a família rica ou a família rica que depende dos criados?

Seja pela direção de fotografia excepcional (como na “cena dos líquidos”, quando os Kim tentam impedir o medindo de fazer xixi jogando um balde de água fria) ou pela edição e montagem (como na sequência em que a sinfonia de Georg Friedrich Händel é a música clássica para representar a sofisticação da família rica e atinge uma sincronia perfeita com a imagem), Parasita é esteticamente sublime, tendo arrebatado a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro como melhor obra em língua estrangeira e levando seis indicações para o Oscar, inclusive para concorrer a filme e diretor.

No final, Joon-Ho escancara a luta entre pobres e ricos de forma cruel e sangrenta e nos leva à conclusão que, por mais que façamos planos (a representação da esperança), sempre seremos, de certa forma, prisioneiros do sistema. (JM)

 

KURSK – A ÚLTIMA MISSÃO

09.01.2020

Distante do Dogma 95, Thomas Vinterberg resgata história de submarino russo que explodiu e a dramática tentativa de resgate de sua tripulação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Diferente do tradicional filme de resgate, este é um caso bastante incomum no cinema, onde tudo dá errado. Isso não é spoiler, é claro, visto que o próprio subtítulo brasileiro evidencia o fatídico fim de sua história – embora o nome do longa para o mercado em língua inglesa seja The Command (O Comando, em tradução livre), aqui ele foi batizado como Kursk – A Última Missão (Kursk, 2018, Bélgica/França/Luxemburgo/Dinamarca).

O filme, dirigido por Thomas Vinterberg, pelo expoente do Dogma 95, e escrito por Robert Rodat, é baseado no livro A Time To Die, de Robert Moore. Seu roteiro revolve em torno da explosão do submarino russo Kursk, em agosto de 2000. Por um lado, o espectador acompanha Mikhail (Matthias Schoenaerts) e sua tripulação, os sobreviventes da explosão inicial. Por outro, a busca de suas esposas, capitaneadas por Tanya (Léa Seydoux), por escassas informações advindas do governo russo, que por sua vez trava um cabo de guerra interno a fim de decidir se a ajuda oferecida pelo comodoro americano David Russell (Colin Firth) seria aceita.

Vinterberg está bastante distante do que o consagrou em Festa de Família, porém mantém um estilo baseado em câmeras na mão, acompanhando o movimento de seus personagens, e planos longos – embora dinâmicos. Enquanto as sequências de dentro do Kursk são capazes de transmitir uma tensão fora do comum, as demais são medíocres, aproximando-se de um filme puramente comercial.

A forma com que retrata a negligência estatal, no entanto, é exemplar. Graças a Max von Sydow no papel do almirante Petrenko, o espectador tem um vislumbre da facilidade com que o alto-escalão militar se recusa a salvar vidas a troco de manter intactos seus segredos militares. O resultado disso é desastroso, porém sua dimensão mais aterradora é demonstrada em uma das últimas cenas de Kursk, numa troca entre Von Sydow e o jovem Artemiy Spiridonov, que interpreta o filho pequeno de Mikhail, Misha. O problema, no entanto, é que tal subtrama é jogado para o escanteio, beneficiando a espaçosa e desinteressante trama de Tanya.

A fotografia do filme, embora abuse de composições amenas e desinteressantes, tem seu ponto forte novamente nas sequências dentro do submarino. O jogo de luzes é rico e inventivo, em especial quando a cena em questão envolve submersão. O Vinterberg de vinte anos atrás certamente odiaria este filme, que, além de um complexo sistema de iluminação, conta com cenas em CGI e música de Alexandre Desplat, um dos mais melódicos em atividade.

Quanto foca em seu real interesse, Kursk é um bom filme, que navega em mares da autoralidade de seu diretor e potencial mercadológico ao mesmo tempo, com fortes atuações entremeadas por um elenco de apoio diminuto. Ao se distanciar e explorar as demais linhas, torna fraco e até mesmo desinteressado. É apenas em seu clímax que as três partes da história se desenvolvem suficientemente e trabalham em conjunto.

Kursk é capaz de produzir entretenimento e tem inclusive mercado para tal. Porém, seu foco na tragédia é capaz de afastar este demográfico de espectadores. Se você procura um filme divertido, feel good movie ou até um desastre como Battleship, melhor ir a outra sessão. A obra de Vinterberg é provocativa e angustiante em seus melhores momentos. Entendia é nos demais.

 

ADORÁVEIS MULHERES

09.01.2020

Com ótima química e belas atuações, elenco estelar encabeça as muitas qualidades do novo filme da diretora Greta Gerwig

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Greta Gerwig é uma das personalidades em maior ascensão no mercado de Hollywood dos últimos anos. Roteirista e atriz, ela cresceu vertiginosamente nos rankings da mídia de cinema americana desta década, principalmente com o mumblecore de Frances Ha e Mistress America, ambos coescritos por ela e Noah Baumbach, seu companheiro e autor do atualmente badalado História de um Casamento. Em 2017, Gerwig assumiu a cadeira de direção em seu primeiro longa, Lady Bird. Dois anos depois, chega com Little Women, baseado no romance homônimo de Louisa May Alcott. A história já teve diversas adaptações cinematográficas, sendo a mais famosa a de 1994, com Winona Ryder, Kirsten Dunst e Christian Bale. Pouco importa, pois, como de praxe, não tecerei comparações com quaisquer versões ou com a fonte original, o livro de Alcott.

A trama gira em torno das irmãs March: Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen). Em uma narrativa bastante intimista e focada nas personagens, o longa detalha – em dois momentos distintos, com sete anos de diferença – o desenvolvimento de suas relações em família, bem como com vizinhos e companheiros. As irmãs constroem uma grande relação com Laurie (Timothée Chalamet) e seu avô, que se prova bastante importante. Ela se dá, bem como grande parte dos acontecimentos, porque todas as quatro têm um pé nas artes – Jo é escritora; Meg, atriz; Amy, pintora; e Beth, pianista.

E a direção de Gerwig faz questão de desenvolver a química de suas protagonistas, bem como de cada uma com sua arte. Ela é, de fato, o ponto alto da trama. É a condução de Greta que dá o peso necessário a cada acontecimento, feliz ou trágico, provando seu amadurecimento em comparação com o primeiro longa. A maleabilidade do elenco leva a uma atmosfera intensa – o espectador sente como se, de fato, as quatro jovens atrizes fossem irmãs, Laura Dern sua mãe e Chalamet seu grande amigo. A mise-en-scène transforma a história tão grandiosa quanto intimista. Sua câmera começa dinâmica e inquieta. Enquanto a história progride, o olho do público vai perdendo sua vivacidade – acompanhando a trama que desenvolve.

Greta também mostra como os conflitos de Adoráveis Mulheres, por mais importantes que sejam, tornam-se, por serem tão íntimos e subjetivos, “pequenos”, acompanhados por planos gerais, soterrados pelo mundo à volta de sua história. E isto não teria tanta magnitude se não fosse pela trilha sonora de Alexandre Desplat. Num de seus melhores trabalhos, se não o melhor, o compositor traz seu habitual tom onírico a uma história que se beneficia, permeada de ingenuidade e leveza. No entanto, quando em momentos de suma importância, seus floreios dão espaço a uma composição diferenciada, que amplifica a sensação que o filme transmite – novamente, seja ela feliz ou trágica. Há, infelizmente, um ou dois momentos em que a cafonice bem intencionada de Desplat passa do ponto, mas não causa estragos ao filme.

Porém, nada seria sem a excepcional atuação de todo o elenco, mas especialmente de Saoirse Ronan, Emma Watson, Laura Dern, Eliza Scanlen e Timothée Chalamet. Cada um destes tem seu(s) momento(s) para brilhar, seja por monólogos, diálogos intensos ou o próprio peso de seu silêncio. Ronan, que protagoniza boa parte do filme, está em um dos melhores papeis de sua carreira. Watson e Scanlen têm menos tempo de tela, mas trazem suas emoções com extremo naturalismo. Todo o resto, sem exceções, soma ao conjunto excelente que é Adoráveis Mulheres.

Ainda, vale citar a ótima fotografia de Yorick Le Saux, que confere a cada momento temporal (passado e presente) sua característica distinta, com uma mudança tonal grande, talvez até exagerada. Porém, nas pequenas cenas, diálogos e astutos movimentos de câmera – em especial com ela na mão –, Le Saux se sobressai. Junto dele, a edição de Nick Houy, que trabalhou em Lady Bird, é impecável, adicionando ritmo e criando espaço para cada performance em tela. A edição também é responsável pelo sucesso da trilha de Desplat, visto que é nas montages silenciosas que ambos têm espaço de brilhar.

Este é um filme ingênuo no melhor sentido, intimista, vivaz e muito poderoso. Greta Gerwig solidifica elementos de seu cinema que já demonstrava em seu debut, mas traz mais corpo ao caldo que é sua linguagem. Com sua marca cada vez mais distinta, a diretora projeta um futuro, no mínimo, animador. Adoráveis Mulheres é divertido, instigante e, por vezes, bastante emocionante. Tudo isso graças à boa mão de Gerwig e seu elenco estelar.

 

STAR WARS: A ASCENSÃO SKYWALKER

02.01.2019

Com direção de JJ Abrams, nono filme encerra a saga criada há mais de quatro décadas por George Lucas

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Textos por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop) e Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Fotos: Disney/Divulgação

O último longa de Star Wars, o derradeiro capítulo, o fecho, o encerramento, aquele filme que chega com todas as respostas, soluções e explicações é … mais ou menos. Triste dizer isso, mas qualquer admirador da história criada por George Lucas precisa fazer uma ginástica cognitiva para poder embarcar na proposta de “Ascensão”. Do contrário, ficará buscando explicações e entendimentos ao longo das mais de duas horas de projeção e então será pior. Vai constatar o raso de alguns personagens, o ritmo frenético da narrativa. Enfim, vai sair do cinema com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Com JJ Abrams de volta à direção, o filme tem a árdua missão de explicar as pontas soltas dos seus dois antecessores (O Despertar da Força e Os Últimos Jedi) tendo em vista que, assim como eles, precisa ter alguma semelhança com os longas da primeira trilogia (A Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi). Até aí, no quesito “livre interpretação da dinâmica e detalhes” destes primeiros longas, Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise Of Skywalker, EUA, 2019 – Disney) até cumpre seu propósito. O problema maior e definitivo do roteiro é a proposição feita nos primeiros minutos, que se vale de um detalhe no uso da Força, para ser viável. Se você aceitar “de boas” essa proposta, verá o filme com relativo conforto. Do contrário, viverá um crescente desconforto até o fim.

Outro problema é a quase anulação do que aconteceu no ótimo Os Últimos Jedi, quando a Resistência foi reduzida a um punhado de gente e apenas a Millenium Falcon. Aqui tudo começa com os rebeldes organizados, operantes e capazes de receber informações sobre uma nova armada que estaria se incorporando à Primeira Ordem. A partir daí, tem início um verdadeiro rocambole de eventos em velocidade altíssima, quase sem tempo para que possamos perceber o que está acontecendo. O filme se vale da mesma esquizofrenia de efeitos especiais da segunda trilogia, quase sem tempo para o espectador respirar. São cidades, planetas, personagens, subpersonagens, tramas e subtramas que vão correndo em paralelo, dentro de uma caçada a um artefato que pode revelar a origem da tal armada de naves. É tudo mal explicado e rápido demais.

Fica difícil acreditar em algumas soluções que vão surgindo ao longo do caminho, como, por exemplo, a chegada de Lando Calrissian à trama, um personagem importante e clássico, reduzido aqui a quase nada. Também é irritante a ginástica que é feita nos escalões da Primeira Ordem para que possamos entender um dos fios condutores da narrativa. E o grupo de heróis se mostra duro de engolir. Afinal de contas, algo está errado quando as melhores falas até quase a metade do filme são de C-3PO, transformado numa criatura com humor peculiar e aproveitado como um bom alívio cômico diante da pouca capacidade de Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) de renderem cenas mais dramáticas. Os dois heróis são rasos, uma pena.

Mas, e Rey? E Kylo Ren? Bem, eles estão lá. Ela, fortíssima; ele, atormentadíssimo. Vão se comunicar pela Força ao longo da narrativa, vão se enfrentar em bons duelos de sabre de luz em todos os cantos e farão o que muitos esperam que eles façam, lá pro fim das contas, com um triste e desnecessário bônus melodramático. Neste espaço de tempo, aparições banais de Han Solo e Luke Skywalker irão turbinar alguns momentos, sem falar no malabarismo de montagem e inserção das cenas com Leia, uma vez que Carrie Fisher não estava mais presente nas filmagens.

Como filme de ação, A Ascensão Skywalker é ok, no mesmo sentido que um filme de ação em 2019 precisa ser esquizofrênico em sua montagem e roteiro. Como fecho de todas as trilogias, ele é feito para um público específico, criado e gestado nos últimos anos, que frequenta o parque de Star Wars na Disney e que não tem a ideia real da magia grandiosa da primeira trilogia. Aliás, se a série imaginada por George Lucas tem, de fato, algum feito para o cinema, ele está em algum ponto entre o meio de O Império Contra-Ataca e o fim de O Retorno de Jedi. Ali, sim, George Lucas, sem Disney por perto, marcou seu nome na história do Cinema. O resto está abaixo e precisamos conviver com isso. (CEL)

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Faz quatro anos que JJ Abrams trouxe o universo de Star Wars de volta ao mundo dos vivos. Trinta e oito anos depois da estreia do primeiro filme, o diretor provou que, sim, a saga ainda é uma força a ser reconhecida (com o perdão do trocadilho). Agora, em 2019, o mesmo diretor encerra a nova trilogia e uma saga que durou mais de quatro décadas e teve nove filmes e mais dois spin-offs. Abrams consegue, ao mesmo tempo, manter tudo que o público ama em Star Wars e modernizar as histórias e seus personagens. E A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise Of Skywalker, EUA, 2019 – Disney) comprova isso de forma magistral.

Os novos personagens, apresentados em 2015 no Episódio VII (O Despertar da Força), são as peças principais da nova história. Rey, Poe, Finn, BB-8 e Kylo Ren são o centro das atenções e personagens-chave em longas sobre tradição, família e amizade. Aos poucos, vemos relações sendo construídas e destruídas, vamos nos despedindo de personagens conhecidos e amados e conhecendo este novo grupo de amigos.

E chegou a hora de nos despedirmos de todos eles. E QUE DESPEDIDA! JJ Abrams constrói um dos melhores filmes de todos os nove, entregando emoção, comédia e ação na medida certa. Vemos cada um dos personagens tomar o seu lugar naquela saga que amamos há tanto tempo. Vemos a importância dos novos e dos antigos protagonistas. Aprendemos com eles e nos emocionamos a cada adeus.

Abraçando a representatividade, o diretor coloca como maior protagonista desta história uma mulher: Rey, que entrará em conflito e terá seu passado enfim revelado. Mas vai além. Seus protagonistas são negros, latinos. Numa história que mistura diferentes espécies de seres-vivos, por que não mostrar toda a diferença dos seres humanos em seus personagens?

A Ascensão Skywalker encerra a saga de Luke, Leia, Rey, Finn, Poe, Ben e Han Solo de forma épica e bem construída, com uma história relativamente simples e repleta de emoções. Um filme incrível para nenhum fã de Star Wars botar defeito. Uma despedida agridoce, que mostra como vamos sentir saudades destes personagens que fazem parte da nossa vida e da nossa cultura. J.J. Abrams se provou mais uma vez um dos melhores contadores de histórias da atualidade e conseguiu reavivar e manter um dos maiores fenômenos da cultura pop, mesmo mais de 40 anos depois de sua criação pela mente de George Lucas.

Ao final do filme, a grande pergunta que fica é se estamos preparados para dar adeus. (FSJ)

 

O CASO RICHARD JEWELL

28.12.2019

Clint Eastwood segue na zona de conforto dirigindo mais um longa que aposta a temática do heroísmo americano

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Warner/Divulgação

A ideia do heroísmo americano é trabalhada exaustivamente em diversas produções cinematográficas. Clint Eastwood fez toma uma carreira interpretando papéis e dirigindo filmes que abordam o tema, como, mais recentemente, Sully – O Herói do Rio Hudson e Sniper Americano. Seu mais novo longa não foge a regra.

Contando a história real do segurança que consegue identificar uma bomba durante as Olimpíadas de Atlanta em 1996 e evitar uma tragédia maior, O Caso Richard Jewell (Richard Jewell, EUA, 2019 – Warner) traça uma narrativa rica sobre a construção e destruição de ídolos pela mídia. Em um primeiro momento, o protagonista é considerado um herói. Contudo, após a imprensa divulgar que ele está sob investigação, sua imagem é drasticamente transformada na do vilão.

Essa seria uma ótima reflexão, se o rumo escolhido pelo diretor não fosse tão tortuoso. Olivia Wilde interpreta a ambiciosa jornalista Kathy Scruggs, retratada no filme como uma mulher implacável, sem empatia e disposta a oferecer favores sexuais para conseguir um furo. A empresa de mídia Cox Enterprises, dona do Atlanta Journal-Constitution, jornal em que a verdadeira Kathy trabalhava, levantou acusações contra a produção por conta da retratação errônea e difamatória da jornalista. Segundo o The New York Times, não existem relatos de que a jornalista agia de tal maneira. Considerando em que vive-se a época do movimento #MeToo, é absurda a direção escolhida para a personagem de Wilde.

Richard Jewell (Paul Walker Hauser) é apresentado como um cidadão comum, que só quer servir e fazer o bem. Exageradamente ingênuo, Jewell tem fascinação por policiais e sua maior meta é tornar-se um. A empatia que deveria ser dedicada a ele é quase toda destinada a sua mãe Bobi, em uma bela atuação da sempre incrível Kathy Bates.

O filme é mais um conto americano em que “qualquer um pode ser tornar um herói”. Porém, com críticas à máquina da mídia e ao governo, que usam seus poderes para interferir na vida de pessoas comuns.

Clint Eastwood, hoje com 89 anos de idade, certamente sabe produzir dentro de sua zona de conforto. O Caso Richard Jewell é uma obra que não poderia ser feita por outro diretor e isso não é nem uma crítica tampouco um elogio. Sem ousar mas certamente causando polêmica, o diretor alcançou aqui um filme mediano e 100% americano.

 

FROZEN 2

27.12.2019

Princesas que se tornaram o símbolo do empoderamento feminino nas animações da Disney voltam em história de encher os olhos

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Divulgação

Seis anos atrás a Disney lançou aquele que seria um marco entre suas animações. Frozen trazia duas princesas protagonistas (nenhuma delas buscando seu príncipe encantado!) e uma mensagem atual de poder feminino que até então não tinha sido mostrada em suas produções. Anna e Elsa se tornaram ícones, Olaf derreteu corações pelo mundo e a canção “Let It Go” torturou pais e virou hino de libertação.

Agora, depois de muita especulação e espera, chega aos cinemas Frozen 2(Frozen II, EUA, 2019 – Disney), que vai além de ser uma mera continuação da história das irmãs. Este segundo filme ressignifica muito do que aprendemos no primeiro e se torna, por diversas razões, melhor que o longa de 2013. Desta vez, Anna e Elsa precisam partir para um lugar desconhecido em busca de um segredo do passado que pode salvar ou condenar a todos no reino de Arendelle. Ao seu lado, Kristoff, Olaf e Sven acabam formando praticamente uma equipe de super-heróis em um filme dos Vingadores, onde cada um tem sua habilidade e seu momento de brilhar. Com muito mais aventura e mais momentos dramáticos, Frozen 2 potencializa o primeiro filme. Mas também nos mostra um novo mundo e mais sobre quem são na verdade Anna e Elsa.

Se alguns anos atrás criar água em animação era um desafio, o longa deixa bastante claro que isto foi superado. As sequências envolvendo o mar são de encher os olhos, tecnicamente perfeitas. Também mostram o poder de elevar o primeiro filme. Tudo aqui tem mais brilho, mais textura, mais movimento.

Anna e Elsa vão de meras princesas a super-heroínas de botas e calças, cavalgando e enfrentando sozinhas perigos até então desconhecidos. Novos números musicais pontuam o filme carregando na emoção e o “momento Let It Go” não decepciona. Algumas cenas incríveis de Frozen 2 ficam por conta de seus coadjuvantes: a sequência em que Olaf faz um recap do primeiro longa é impagável e o momento boy band de Kristoff, com direito até a referências a “Bohemian Rhapsody”, do Queen, merece ser visto e revisto (além de deixar a música grudada na cabeça!).

O novo longa estreia no dia 2 de janeiro no Brasil, após já ter quebrado recordes de bilheteria nos EUA e como fortíssimo candidato ao Oscar de melhor animação. Ainda que a briga seja dura entre ele, Toy Story 4 Como Treinar Seu Dragão 3, que nosso amor por Woody, Buzz e Banguela seja imenso e ainda que todos eles tragam histórias emocionantes, Frozen 2está algumas cavalgadas à frente de seus concorrentes.

 

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3

26.12.2019

Paulo Gustavo volta a interpretar Dona Hermínia em filme que parece não ter sido feito para ser exibido nos cinemas

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Downtown Filmes/Divulgação

Há certos tipos de filme que não têm seu lugar no cinema. Não me entenda mal, este não é um juízo de valor – um filme não é feito para o cinema simplesmente por ser ruim (ou é ruim e, portanto, não é adequado para os cinemas). Este, inclusive, é o caso de Minha Mãe É Uma Peça 3 (Brasil, 2019 – Downtown). Um filme que não é ruim, porém nem por um segundo é adequado para as telonas.

O longa dirigido por Susana Garcia é uma série de esquetes, escritas e protagonizadas por Paulo Gustavo. Interpretando uma personagem fortemente inspirada em sua mãe, ele encarna uma desbocada e desaforada senhora, mãe de três, que descobre que será avó e, ainda por cima, seu filho gay (que, por sua vez, é inspirado no próprio protagonista) irá se casar. É uma série de esquetes que, de fato, acabam por estruturar-se desta forma. Classifico desta maneira pela falta de coesão na passagem de uma cena a outra. Não há “cola” que una o filme, além de um fiapo de história que se estende demais.

Desta forma, tal como seus antecessores, Minha Mãe É Uma Peça 3 é um compilado de eventos cômicos de Dona Hermínia. Logo, é evidente que o longa depende fortemente da atuação de Paulo Gustavo, que entrega muito bem suas melhores piadas. Há, no entanto, momentos fracos, e até mesmo entediantes, sequências inteiras que poderiam ser descartadas e, com isso, nada na trama mudaria.

Só que Minha Mãe É Uma Peça 3 é completamente desinteressado em sua trama. Sua intenção é, e isto está claro desde o início, o puro entretenimento esquetista e barato. Os punchlines. Este é um fator importantíssimo ao analisar um filme como este. Dentro do que se propõe, o longa opera contundentemente. É ciente de suas lacunas mais cinemáticas, por assim dizer, mas traz consigo uma vontade (do público) completamente diferente da de um filme “comum”. O espectador deste longa está interessado em encontrar as semelhanças de suas mães e avós com Dona Hermínia e suas colegas.

Outro ponto que deixa clara a inaptidão deste filme para as telonas é a fotografia. Dante Belluti, fotógrafo da série Coisa Mais Linda, entrega um quadro completamente plano na maioria das vezes. Utilizando clássicas estratégias de iluminação novelesca, ele, aqui, anula todo o potencial de linguagem que a fotografia fílmica carrega. Adiciona-se a isto a mais cafona das trilhas sonoras, que entra nos momentos mais telegrafáveis possíveis, para construir um perfeito filme de fim de tarde de domingo – mas um desastre para os cinemas.

Minha Mãe É Uma Peça 3 entretem o público, tira boas risadas, até mesmo gargalhadas. Contudo, não traz consigo nenhum valor além do mais barato entretenimento, esquecível. Por tudo isso, é mais adequado à telinha que à telona.

 

PLAYMOBIL – O FILME

12.12.2019

Clássicos bonequinhos infantis dos anos 1970 e 1980 não empolgam em seu primeiro longa-metragem

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Quem foi criança nas décadas de 1970 e 1980 certamente traz na memória brincadeiras com Playmobil, aquele bonequinho com mãos em forma de U, cabelo-cuia que virou sinônimo de gíria e um sorrisinho no rosto. O brinquedo, objeto de desejo da garotada, era inicialmente importado e caro pra chuchu, assim como ter uma Barbie (lembro até hoje do meu único exemplar azulzinho). Inventados por alemães há 44 anos, esses Playmobil aterrissaram no Brasil antes mesmo do inigualável Lego, que começou a ser produzido em terras tupiniquins em 1986, numa fábrica instalada na Zona Franca de Manaus.

Nos cinemas, porém, Playmobil – O Filme (Playmobil: The Movie, França/EUA, 2019 – Paris Filmes), que estreia agora no Brasil, chega com um delay de cinco anos em relação a Uma Aventura Lego. O longa que dá vida ao brinquedo escandinavo tornou-se sucesso de público e crítica, rendendo uma franquia. Já Playmobil – O Filme vem amargando prejuízo desde que entrou nos cinemas mundo afora.

A expectativa era de que esta produção – parte live action, parte animação – proporcionasse momentos nostálgicos, remetendo àquela infância na qual a criatividade ainda era a força-motriz das brincadeiras de criança, numa era pré-Atari e demais jogos de console. Lino DiSalvo, que aqui estreia na direção e roteiro, até que conseguiu transparecer na mensagem a importância do lúdico, inclusive com o fim de superar obstáculos e recuperar autoestima nessa aventura da vida. A animação traz um colorido exuberante e é repleta de personagens secundários cativantes. Contudo, parece que DiSalvo e os corroteiristas Greg Erb, Blaise Hemingway e Jason Oremland abusaram da imaginação, deixando a trama com eventos em excesso (talvez por conta da história ter sido composta a quatro mãos), diálogos exaustivos, e uma introdução apressada e pra lá de clichê. A aventura, de cem minutos, equipara-se àquela viagem cansativa, em que as crianças sempre perguntam: “Já chegou, Mamãe? Já chegou, Papai?”.

E viagem boa era aquela com o som do carro ou o walkman recheado de canções originais. No caso da trilha sonora de Playmobil, assinada pelo guitarrista brasileiro Heitor Pereira, é preciso ter paciência para acompanhar as canções. O compositor, que tocou com Ivan Lins e Simply Red, foi o mentor de soundtracks de animações como Angry BirdsMeu Malvado FavoritoMinions e George, O Curioso.  Talvez a culpa seja das versões em português e da voz dos dubladores (principalmente a da protagonista!), que tornaram a experiência maçante.

Também é de surpreender que o resultado não tenha sido satisfatório, já que DiSalvo tem um currículo extenso como colaborador da Disney Animation, contabilizando participações em projetos excepcionais, atuando como chefe da equipe de animadores, supervisor de animação e animador em produções como Frozen: Uma Aventura CongelanteEnroladosBolt: SupercãoO Galinho Chicken Little (que tem na trilha sonora nomes como Elton John, Queen e Diana Ross). Na semana passada, ele veio ao Brasil para a pré-estreia do seu primeiro “filho”, escolhido para abrir a edição de 2019 da Comic Con Experience, e contou em entrevista à imprensa que a diferença entre Lego e Playmobil está no conceito. Para ele, o primeiro brinquedo é sobre montar e deixar na estante enquanto o outro é sobre “contar histórias”.

Playmobil narra, enfim, a história de Marla (Anya Taylor-Joy, em atuação exagerada) e seu irmão mais novo Charlie (Gabriel Bateman). Os dois usam a imaginação ao arquitetar suas aventuras com os bonequinhos. Mas a diversão deles é interrompida por um evento trágico e os dois precisam se adaptar a uma nova rotina. Até que um dia Charlie resolve fugir de casa e vai parar numa exposição de Playmobil. No local, um evento mágico transporta os irmãos para o universo em miniatura dos bonequinhos, onde diferentes cenários coexistem – como o velho oeste, a cidade futurista, a megalópole e o vale dos dinossauros, aos moldes do imaginário infantil, que subverte qualquer lógica e torna tudo possível. Charlie transforma-se em um boneco viking, é sequestrado por piratas e se separa de Marla. O objetivo dela vira reencontrar o irmão perdido. Para isso, contará com amigos corajosos como o divertido caminhoneiro Del, o agente secreto Rex Dasher (um misto de James Bond com o agente Ethan Hunt, de Missão: Impossível, dublado no original pelo eterno Harry Potter Daniel Radcliffe). Entre uma missão e outra na tentativa de resgatar o irmão vendido a um imperador romano, Marla também interpreta canções, que reproduzidas nos alto-falantes ensurdecedores das salas de cinema resumem-se numa experiência desconfortável (pelo menos para os adultos!).

Por isso, o insucesso de Playmobil deixa evidente que uma boa animação merece um bom roteiro. E os fãs dos bonequinhos, certamente, não se importariam em esperar por mais alguns meses ou até anos por uma história mais empolgante e menos decepcionante.

 

CRIME SEM SAÍDA

11.12.2019

Trama policial mostra a beleza noturna de Nova York mas se atrapalha com o ritmo inconstante do enredo

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

A nova produção dos irmãos Russo, responsáveis pela direção dos dois filmes dos Vingadores (Guerra Infinita e Ultimato), é o policial Crime Sem Saída (21 Bridges, EUA. 2019 – Galeria Distribuidora). Estrelado por Chadwick Boseman (o Pantera Negra), o filme acompanha a saga do detetive da polícia de Nova York Andre Davis para encontrar dois assassinos de policiais.

A direção de Brian Kirk deixa claro desde a primeira cena que o sentimento que reinará neste filme é a tensão. Cenas de ação intensas, trilha sonora envolvente e a atuação fria de Boseman contribuem para a criação do universo de Kirk. Além de uma intensa perseguição policial, Crime Sem Saída é uma interessante imersão pela cidade de Nova York durante a noite, com toda sua beleza e peculiaridade.

JK Simmons e Sienna Miller reforçam o elenco e a força policial da trama. O primeiro, atuando como Capitão McKenna, não tem todo o seu potencial explorado. Em alguns momentos parece que está mais fazendo mais uma participação especial do que engajando ativamente na história.

O ritmo inconstante de Crime sem Saída atrapalha o envolvimento com o enredo. Cenas de ação mescladas com investigações muito enroladas dão sensação que o diretor queria causar um grande suspense sobre a reviravolta do final. Não funcionou. A todo instante o espectador sabe o que está acontecendo, como se tivesse dado uma espiada no roteiro.

Eis que o fim chega de maneira apressada. São apenas 99 minutos. Poderia ter sido usado mais tempo para aprofundar o desfecho e não deixar a sensação de que o que foi mostrado não convenceu. A justificativa usada pelo roteiro para explicar a motivação do antagonista é ruim. Faria mais sentido não ter justificativa alguma.

Crime Sem Saída junta elementos interessantes e atrativos para um bom filme policial. Conflitos internos, protagonista com defeitos, perseguição à noite, cenas de ação envolventes… Tudo isso está presente mas o produto final não convence 100% quem está olhando para a tela.

 

ENTRE FACAS E SEGREDOS

07.12.2019

Daniel Craig encabeça superelenco que revive as clássicas histórias de mistério com humor e elementos atuais de crítica política e social

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Nos últimos anos, o nome de Rian Johnson ganhou projeção meteórica. Infelizmente, não pelo melhor motivo: sua direção em Star Wars: Os Últimos Jedi dividiu fãs da saga ao redor do mundo. No jogo de “ame ou odeie”, ouve-se muito mais o ódio a Johnson que o amor. Entre Facas e Segredos(Knives Out, EUA, 2019 – Paris Filmes), que conta com um elenco de renome, pode ser a redenção de um talentoso diretor diante de uma camada furiosa de entusiastas do cinema.

A trama, roteirizada por Johnson, envolve um caso clássico de mistério: um aclamado escritor do gênero é encontrado morto, num aparente caso de suicídio com indícios de assassinato. Então, um igualmente aclamado detetive particular é contratado de forma anônima e, acompanhado da polícia, volta à cena do crime para investigar a fundo o possível homicídio. Essa investigação, no entanto, desvia-se em muito dos clássicos de mistério. A audiência acaba por descobrir na virada do primeiro para o segundo ato o que realmente ocorreu e o longa deixa de ser um mero filme de mistério para tornar-se algo mais.

A direção conduz o título brilhantemente por entre seus caminhos de mistério e humor, sem perder-se entre dois tons radicalmente diferentes. Johnson constrói sua mise-en-scène com primazia, astutamente dando pistas ao espectador, sem que, no entanto, acabe estragando as reviravoltas de sua trama. Entre Facas e Segredos é mais um filme sobre relacionamentos e, num certo nível, a discrepância de valores morais entre indivíduos e estilos de vida, que qualquer outra coisa, seja humor ou mistério – e a direção sabe muito bem disso. Portanto, o longa toma seu tempo para revelar os segredos (de linguagem e texto), estabelecer seus planos e desenvolver sua trama, sem que perca o ritmo, que por sua vez é brilhantemente orquestrado pelo editor Bob Ducsay.

Entre crosscuts, diálogos convencionais e jogos de câmera rebuscados, ora brincando com angulação, ora com profundidade de campo, a edição cria uma coesão narrativa que une perfeitamente a, talvez, mais complicada característica deste filme. Entre múltiplos interrogados, há múltiplas verdades – e Entre Facas e Segredos dinamiza essa variedade de narrativas, nunca deixando com que elas tomem conta e confundam seu espectador, mas dando-as espaço para respirar. É um belo exemplo da força do ditado de ouro do cinema: “mostre, não conte”.

Mas, justamente por ser algo focado no relacionamento de seus personagens, o fardo de carregar o filme cai não somente na equipe técnica, como também no elenco. Por sorte, a escolha dos atores é perfeita. Destacam-se os personagens com mais tempo em tela, como o Benoit Blanc de Daniel Craig, que se descola de James Bond para criar um personagem completamente novo; a Marta Cabrera de Ana de Armas, que assume o protagonismo com um misto de introversão e coragem, num arco belo e bem desenvolvido; e o cínico e manipulador Ransom Drysdale de Chris Evans. No entanto, todo o elenco está bem, desde a breve participação de LaKeith Stanfield como o policial Elliott ao também breve, porém de impacto tremendo; Harlan Thrombey de Christopher Plummer, a vítima que move o filme. Michael Shannon e Jamie Lee Curtis, que interpretam os irmãos Walt e Linda, também têm seus momentos para brilhar, entregando seus personagens de maneira divertida e não muito caricata.

A caricatura, entretanto, faz parte de cada personagem. Ainda que não seja o foco do filme (um ponto alto, aliás), há um forte comentário político, disseminado no discurso de cada personagem, em seu egoísmo que reverbera ao lado da xenofobia ou até, como é descrito um dos personagens mais jovens, para o nazismo e a trolagem da extrema direita. É aqui, então, que o nível de estereotipagem dos personagens faz sentido – no fim, acaba por adicionar camadas aos personagens, pois torna a crítica que Johnson quer fazer implícita nos próprios personagens sem transformar o tema do filme.

Assim, Entre Facas e Segredos chega como um dos melhores lançamentos do ano, com grandes chances de premiações na temporada que se inicia logo menos. Mais do que isso, ainda, estabelece-se como um filme de entretenimento inteligente, astuto, engraçado e misterioso, surpreendendo o espectador a cada passo do roteiro.

 

BROOKLYN SEM PAI NEM MÃE

06.12.2019

Trama escrita, dirigida e protagonizada por Edward Norton como um detetive cheio de tiques e TOCs rompe com a clássica estética noir

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Brooklyn Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn, EUA, 2019 – Warner), o novo filme de Edward Norton e segundo de sua carreira de diretor, é uma história detetivesca com enfoque em Lionel Essrog, portador de uma síndrome que provoca tiques nervosos, vocais e comportamentos obsessivo-compulsivos. Após a morte de seu chefe e mentor, Lionel desvenda uma trama política com diversos podres por baixo dos panos.

O texto, também de Norton, é adaptado de um livro homônimo de Jonathan Lethem e explora dois conflitos de Lionel: a busca pelo assassino de Minna, seu mentor interpretado por Bruce Willis, e a batalha diária contra uma doença incurável – e toda dor de cabeça que vem com isso. É justamente esse aspecto do personagem que prende o foco do filme e de seu espectador – a brilhante atuação de Norton é capaz de criar um protagonista multidimensional, capaz de comédia, mas também do drama. No entanto, Lionel é muito passivo. Isto é, os elementos da trama ocorrem a ele, não por causa dele, traço que se reflete no andamento de duas horas e meia – o que, infelizmente, é “tempo demais” para um longa-metragem hoje em dia.

Norton não é o único a realizar um ótimo trabalho em frente às câmeras. A maior companheira de tela de Lionel é Laura Rose, interpretada por Gugu Mbatha-Raw. Ela trabalha na intensidade certa, dosando bem as reações de outra personagem muito reativa. Alec Baldwin, o antagonista da trama, cria um personagem consciente de sua ameaça, sem precisar extrapolá-la para surtir efeito.

A fotografia traz à tona uma decisão estética interessantíssima de Brooklyn Sem Pai Nem Mãe, à qual até o roteiro contribui, em certa instância. Este é um longa com trama girando em torno de um detetive, nos anos de ouro dos Estados Unidos, em plena Nova York. Ainda assim, a obra rompe com diversas tradições do film noir, imortalizado como o “filme de detetive” por excelência. As cenas rodadas de dia, sem sombras duras projetadas ou até mesmo o chiaroscuro (o alto contraste entre sombras e realces), distanciam-se em muito dessa decisão estética que imperava lá pelos anos 1940 e 1950. No entanto, é possível ver as homenagens ao estilo fílmico em cenas noturnas, que são poucas, mas abusam dos conceitos do chiaroscuro para trazer dramaticidade. Ainda há de se levar em conta o esforço do desenho de produção em construir a ambientação da história, das grandes externas aos sets internos e intimistas, dentre os quais podem ser destacados  clube de jazz e o escritório de Minna. Convém, também, levar em conta o impacto que a música de Thom Yorke, tal como a versão de Wynton Marsalis, tem sobre a obra. Um dos momentos mais emocionantes, ainda no primeiro ato, é amparado inteiramente em Daily Battles, que toca até perto de seu final.

Enfim, Brooklyn Sem Pai Nem Mãe é um filme interessante, bem feito, bem atuado e bem dirigido. No entanto, ele não tem quaisquer características excepcionais: da mesma forma que é bom também mas não é memorável. Diferentemente de demais títulos esquecíveis, esse não é assim por ser mediano. Sua história é interessante, estética apurada e ótimas atuações fazem de Motherless Brooklyn um belo filme de telecine, daqueles ao qual assistimos tranquilamente no fim de semana, zapeando os canais da TV por assinatura.

 

O JUÍZO

06.12.2019

Thriller psicológico brasileiro desperdiça ótimos nomes em seu pequeno elenco com sérias lacunas em sua linguagem

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Nos últimos anos, o terror brasileiro tem ganhado projeção nos circuitos de festivais mundo afora. Junta-se ao coro um já estabelecido diretor, Andrucha Waddington, responsável por alguns documentários sobre artistas da MPB mais diversas colaborações com Fernanda Torres, sua esposa, e Fernanda Montenegro, sua sogra. Em O Juízo (Brasil, 2019 – Paris Filmes), estas parcerias se repetem.

O roteiro, segundo assinado por Torres em sua carreira, gira em torno de uma família que recém se mudou para a Casa Grande herdada por Augusto (Felipe Camargo). Além dele, Tereza (Carol Castro) e seu filho Marinho (Joaquim Torres Waddington) devem adaptar-se à nova casa, sem luz e isolada da cidade mais próxima. No entanto, a família é ameaçada pelos espíritos de um escravo (Criolo) e sua filha (Kênia Bárbara), assassinados por um antepassado de Augusto (por problemas temporais da narrativa não fica claro se é seu avô, constantemente citado ao longo do filme, ou alguma geração anterior). Aqui, Andrucha e Torres desenham um thrillerpsicológico, claramente inspirados em clássicos de Stephen King, como O Iluminado e Cemitério Maldito, porém sem sucesso.

Este é, sem dúvidas, um filme problemático. Não necessariamente em seu tema, mas em seus aspectos mais técnicos, desde a direção e o roteiro à atuação do pequeno elenco que compõe o longa. A integração desses problemas, no entanto, dificulta uma análise fragmentada destes aspectos.

Explico. O Juízo abre desenhando perguntas que jamais são respondidas. A principal delas, que está presente em todo filme, é “quem são esses personagens?”. A segunda, de igual importância, é “por que estes personagens estão se mudando para esta casa, sem luz e completamente isolada de sua aparente vida anterior?”.  Nenhuma dessas questões é satisfatoriamente solucionada, o que prejudica a imersão do espectador na história. Como vamos nos importar com o que ocorre com personagens que mal conhecemos, muito menos entendemos o porquê de estarem nessa situação? As tentativas, propostas pelo roteiro, são insuficientes, mas a direção parece estar igualmente despreocupada com a imersão do público. Há, aqui, a ausência de elementos fundamentais do cinema, uma fundação para a construção do filme.

Waddington tenta estabelecer suspense, principalmente por meio de imagens estilizadas (estilo não falta nesse filme!), porém nos distancia de seus personagens, já que não há uma conexão primordial ao funcionamento de qualquer filme (a saber: entre personagens e espectador). Ainda, não há uma definição espacial-geográfica. Como exemplo, não conhecemos pontos fundamentais da estrada que liga a cidade à casa ou até mesmo os ambientes internos desta casa. A magnitude opressora da arquitetura do Brasil escravocrata é minimizada pelo não-estabelecimento dessa magnitude. Da mesma forma, pontos importantes ao suspense não são elucidados. Surgem elementos de cena aqui e ali e o arco da loucura gradual de Augusto, o único na trama, é pouco explorado pela direção.

Outro ponto fraco é a condução do elenco que conta com nomes de peso, como Fernanda Montenegro e Lima Duarte. Ela é restrita a uma dicção novelesca – aquela que preocupa-se em verbalizar cada sílaba com perfeição, distante da língua falada – e esta destitui cada personagem de uma ferramenta importante de sua construção, a fonética particular a cada pessoa. Com exceção dos dois veteraníssimos atores citados acima, que cumprem um bom trabalho, na medida do possível, o elenco do longa sofre mais com esse imobilismo. Destacam-se Criolo e Joaquim Torres Waddington. Ambos ainda têm uma carreira curta dentro do cinema mas fazem personagens unidimensionais e monótonos. Carol Castro, que ganha uma importância cada vez maior com o andar do filme, visivelmente entrega uma Tereza profunda, porém sua atuação é amputada pelo conjunto da obra.

Ainda, como dito anteriormente, O Juízo é bastante estilizado, com planos muito bonitos e, em questão de iluminação, muito inventivos. A fotografia de Azul Serra é, por vezes, escura demais, mas manipula as sombras do longa com competência, flertando, ao mesmo tempo, com o chiaroscuro(forte contraste entre o claro e o escuro, marca registrada do cinema noir) e a iluminação com luz natural.

O Juízo é um filme de suspense que é ineficaz. Dá a impressão de que seus criadores compreendem o material – que pode ser interessante – com clareza e profundidade, porém foram incapazes de transmitir tal densidade ao produto final, que sofre com lacunas seríssimas em sua linguagem. Deixa no espectador a estranha sensação de que a parte mais importante da história está faltando.

 

GUGU LIBERATO

28.11.2019

Oito motivos para nunca se esquecer do apresentador que fez fama nas noites de sábado e tardes de domingo do SBT e, mais tarde, da Record

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Record/Divulgação

A televisão brasileira perdeu, na semana passada, um de seus nomes mais importantes. O apresentador Gugu Liberato morreu no último dia 22 de novembro, aos 60 anos, após sofrer um acidente doméstico em sua residência em Orlando. Ele deixou esposa e três filhos.

Com quase quatro décadas à frente das câmeras, animando os finais de semana dos brasileiros numa época em que não havia televisão a cabo e plataformas on demand, Antônio Augusto Moraes Liberato fez história no SBT. O paulistano do bairro da Lapa tinha apenas 23 anos quando ficou famoso nos anos 1980 com o programa Viva a Noite, de onde saíram quadros como o icônico “Sonho Maluco”, quando uma fã era sorteada para realizar um desejo ao lado do ídolo, ou o “Sonho de Última Hora”, no qual uma garota do auditório bolava na hora uma peripécia com um dos artistas presentes ali no palco.

Em 1988, depois de passar alguns meses contratado pela Globo e voltar à casa anterior, o animador de auditório recebeu a missão de substituir Silvio Santos no comando de programas dominicais e disputar com a Vênus Platinada no Ibope. O dono do SBT havia passado por uma cirurgia delicada nas cordas vocais e acreditava que não voltaria a se apresentar. Gugu, porém, foi mais que um nome para a sucessão de Silvio. Foi uma espécie de filho que ele nunca teve. Tanto é que, quando Liberato assinou com a Record em 2009, os dois continuaram amigos.

Gugu fez parte de uma era romântica da televisão, com atrações e quadros que hoje não caberiam nas teles digitais politicamente corretas, como a clássica “Banheira do Gugu”, do programa Domingo Legal, transmitido ao vivo nos domingos de tarde. Foi ainda um empresário de visão, sempre revelando artistas musicais que viriam então a fazer sucesso estrondoso.

O Mondo Bacana lista oito motivos para lembrar da trajetória desse veterano apresentador. Viva a Gugu! Viva, viva, viva!

Passarinho quer dançar

Sábado à noite, em meados da década de 1980, era o momento de sentar no sofá e assistir ao Viva a Noite com a família. O programa, que tinha quadros divertidos e trazia artistas famosos na época, encerrava, em 1983, com o clássico “Baile dos Passarinhos”, versão de uma música alemã que fora lançada um ano antes – e sem fazer qualquer sucesso – pela Turma do Balão Mágico

Parada de sucessos sertanejos

No começo dos anos 1990, o Viva a Noite deu lugar ao Sabadão Sertanejo. Era o auge de vendagem de discos de duplas como Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Zezé di Camargo e Luciano. Detalhe: bandas de pagode também viviam se apresentando por lá.

Tardes de domingo

Ao lado de Silvio Santos, Gugu era o rosto e a voz das tardes dominicais, comandando na mesma emissora programas como Cidade Contra Cidade, Passa ou Repassa, Corrida Maluca e TV Animal.

Compactos de grande sucesso

Durante o período de Viva a Noite, outros clássicos na voz do apresentador foram “Pintinho Amarelinho”, “Bugaloo Da-Da” e “Docinho Docinho”. Clássicos de forte apelo infantil, lançados apenas em compactos de sete polegadas em vinil, que permanecem até hoje no inconsciente coletivo daqueles anos 1980.

Veia dramatúrgica

Além de apresentador, Gugu era um ator de mão cheia, tendo participado de longas-metragens cinematográficos ao lado de Xuxa e dos Trapalhões. No Domingo Legal, ele soltou a veia artística no quadro “Táxi do Gugu”, no qual se disfarçava e assumia o posto de taxista sem que, em princípio, o passageiro soubesse de tudo o que estaria armado. Havia ainda todo um processo meticuloso de maquiagem para torná-lo irreconhecível. Recetemente, o humorista Marcelo Adnet homenageou Gugu na Globo, fazendo o quadro satírico “Domingo Pesado” no programa Tá no Ar – A TV na TV.

Boy & girl bands

Primeiro foi o Menudo, boy band portorriquenha que Gugu lançou no Brasil, fazendo sucesso estrondoso e alavancando a popularidade e audiência do Viva a Noite. Logo depois, ele foi o responsável por lançar famosas boy bands nos anos 1980 e 1990 através da Promoart, empresa de entretenimento dirigida pelo apresentador. Entre estas criações estavam o Dominó (com Afonso Nigro, Nill, Marcos Quintela e Marcelo Rodrigues na primeira formação; o futuro ator e apresentador Rodrigo Faro na última) e o Polegar (com Rafael Ilha como um dos membros originais). Gugu aindaapostou nas meninas, lançando o grupo Meia Soquete, da qual Adriane Galisteu era integrante, e o Banana Split, que contava com a sua futura colega apresentadora Eliana.

Ícones do pop dos anos 1990

Quem não se lembra da original Shakira, morena e com um quilinhos a mais, cantando no Domingo Legal os seus primeiros sucessos em espanhol? E os domingos em que os também saudosos Mamonas Assassinas passavam a tarde inteira na televisão cantando o CD de cabo a rabo e fazendo estripulias ao lado de Gugu e batendo a audiência do rival Fausto Silva na Globo?

Amor incondicional à TV

Gugu era um apaixonado pelo seu ofício. Ele começou a carreira como assistente de Silvio Santos aos 13 anos de odade, depois de tatas cartas cheias de ideias que escrevia para o apresentador, então pertencente ao elenco da Globo nos anos 1970. Aos 22 anos de idade, começou a carreira à frente das câmeras, apresentando sorteios nos intervalos de filmes exibidos à noite pelo SBT. Nas duas últimas décadas, comprou estúdios na região do Alphaville, em São Paulo. Lá, por exemplo, foi rodada a biografia de Hebe Camargo que estreou neste ano nos cinemas brasileiras.

 

UMA SEGUNDA CHANCE PARA AMAR

28.11.2019

História inspirada em canção de George Michael traz Emilia Clarke como uma jovem atrapalhada em busca da felicidade em tempos natalinos

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Filmes românticos que se passam nos feriados de final de ano já são rotineiros em Hollywood. Uma Segunda Chance Para Amar (Last Christmas, Reino Unido/EUA, 2019 – Universal Pictures) faz parte de mais uma leva de longas que tentam emplacar bilheteria com carisma e uma história açucarada. Com direção de Paul Feig e roteiro dos atores Emma Thompson e Greg Wise, o longa conta a história de Kate (Emilia Clarke) uma jovem sem rumo que acabou de se recuperar de um problema de saúde. A atriz de Game of Thrones dá vida a personagem de forma natural, gostosa de assistir. Com todos os erros, acertos, atrapalhos e reviravoltas, Kate torna-se uma mulher de fácil identificação.

Tudo muda para a protagonista quando ela conhece Tom (Henry Golding), um homem misterioso que parece enxergar a vida de uma maneira muito mais leve. A premissa clichê não compromete momentos genuinamente divertidos e emocionantes, somados a atuações espontâneas e nem um pouco tediosas. Emma Thompson também faz uma participação como Petra, a peculiar mãe de Kate. Sempre impecável, a atriz diverte e torna-se um dos destaques de Uma Segunda Chance Para Amar.

O filme apresenta uma visão interessante sobre a necessidade – ou não – de um relacionamento na vida de uma mulher. Ponto positivo. É um refresco para o gênero apresentar uma reflexão sobre um tema tão usado e desgastado. A trilha sonora embalada por George Michael é outro acerto e tanto. A delicada homenagem ajuda a contar a história e a criar a imagem da personagem principal, fã de carteirinha do cantor – cuja música “Last Christmas”, gravada em 1984 quando ele ainda participava da dupla Wham!, inspira a trama deste longa-metragem.

Mesmo com sua história bonitinha e divertida, Uma Segunda Chance Para Amar não foge do brega e do previsível. A reviravolta, não tão surpreendente, dá a sensação de que algo não foi explicado direito. A revelação poderia ter sido feita de uma maneira um pouco mais natural e menos nos moldes de novela das 6.

Com um elenco estrelado, um diretor acostumado a fazer comédia e a mesma roteirista responsável por Razão e Sensibilidade, as expectativas para esse filme eram altas. A sensação ao fim dos créditos é a de que faltou algo. Pois, afinal, tantos nomes grandes juntos deveriam produzir algo grandioso como um todo.

 

MEDO PROFUNDO: O SEGUNDO ATAQUE

22.11.2019

Sequência de história de dois anos atrás chega aos cinemas com elenco desconhecido mas de sobrenomes famosos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Esqueça as leis da física. Esqueça a lógica. A sequência do terror survival Medo Profundo: O Segundo Ataque (47 Meters Down: Uncaged, Reino Unido/EUA, 2019 – Paris Filmes) menospreza a capacidade intelectual do espectador mas nem por isso deixa de proporcionar alguns sustos. Rasos, por sinal. De profundo mesmo só o mar da Península de Yucatán, no México, onde se passa a aventura de quatro garotas (duas irmãs, como no primeiro filme) que decidem mergulhar para conhecer um recém-descoberto santuário maia.

O filme traz sobrenomes famosos entre as atrizes novatas. A modelo Sistine Rose Stallone faz sua estreia no cinema. E adivinha quem é o pai dela? Essa é fácil: Sisitine é a segunda filha de Sylvester, o Rambo, o Cobra, com a também modelo americana Jennifer Flavin (para ver que ela seguiu mesmo a profissão dos pais). Corinne Foxx é filha do ator e cantor Jamie Foxx. Há também a novata Brec Bassinger que, apesar do sobrenome, não é filha de Kim. No elenco também há um ator jovem chamado Khylin Rhambo, que, obviamente, não é filho do Sly. Para fechar, integram o cast John Corbett, Nia Long, Sophie Nelisse, Brianne Tju e o carioca radicado nos Estados Unidos Davi Santos.
O primeiro Medo Profundo, de 2017, também dirigido pelo inglês Johannes Roberts, entrou para a lista de mais um daqueles filmes sobre tubarão que surgiram na esteira do clássico de Steven Spielberg. O longa virou hit, apesar da premissa um tanto absurda: duas irmãs vão passar as férias num praia paradisíaca mexicana e decidem entrar numa daquelas gaiolas de mergulho usadas por turistas para ver os tubarões-brancos mais de pertinho, mas a gaiola arrebenta do barco que a sustenta e as garotas afundam em alto-mar a exatos 47 metros da superfície.

follow-up do ataque de tubarões surge dentro do mesmo contexto com as irmãs Mia (Sophie Nélisse) e Sasha (Corinne Foxx) que moram na península paradisíaca no México. O pai delas é interpretado por Corbett, o mergulhador que descobre o tal santuário do povo maia submerso. Certo final de semana, ele propõe que as filhas façam um passeio típico de turista, até como estratégia para aproximá-las (já que as duas não se bicam!) e observar os tubarões num daqueles aquários submersos. Na fila da atração, Mia acaba encontrando suas rivais da escola. Sasha e mais duas amigas convidam-na para uma aventura mais empolgante: mergulhar no cemitério subaquático.

Por um momento, o suspense nas primeiras cenas debaixo d’água gera a expectativa de que o filme trará surpresas. Porém, as decepções são grandes e várias situações não tardam a incomodar, como a voz límpida das garotas mesmo usando máscaras de mergulho e o fato de o mar parecer um piscinão já que nenhum peixe surge nos primeiros minutos. Quando você começa a se perguntar sobre onde estariam os peixes, surge a resposta através de um único exemplar de nadadeiras cego. A explicação é que o peixe evoluiu para se adaptar às profundezas, como os abissais. As garotas, porém, muito ingênuas desconheciam que ali também era habitat de tubarões, que também são cegos, mas não bobos como elas. As garotas viram iscas numa armadilha e precisam lutar contra os peixões e a falta de oxigênio.

A primeira cena de ataque, por mais previsível que seja, ainda é capaz de provocar certo susto. Como praticamente toda a trama se passa debaixo d’água, o diretor não tem para onde fugir e até consegue ser criativo em algumas sequências – como na cena em que um mergulhador é abocanhado com Roxette ao fundo. Os demais jump-scares se tornam ineficientes. Aliás, alguns chegam a provocar risos de indignação. Afinal, como ser mordido por um tubarão-branco sem ao menos ter a perna amputada?

O filme, enfim, mostra que ser filho de peixe grande não é suficiente e que as atrizes carecem de mais aulas de interpretação. Numa das sequências finais, é nítido quando Mia dá risada enquanto a irmã se esforça pra sobreviver (vamos entender que foi um riso de desespero…). Um ponto positivo é para o make à prova d’água das garotas (queria saber a marca!) e os ferimentos, que pareciam reais.

Apesar de ter no elenco herdeiras de astros de Hollywood, essa seqüência não merece mais do que três estrelas. Nem o tubarão, coitado, é tão assustador assim. Talvez se fosse em 3D escaparia de ir água abaixo.

 

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK

21.11.2019

Woody Allen mistura passado e presente em ambientação de trama que fica aquém de seus momentos mais inspirados

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Não há necessidade de introduzir a carreira brilhante de Woody Allen. O cineasta também trabalha com profissionais que, hoje em dia, chegam a dispensar introduções – por motivos diferentes. O aclamado diretor junta-se a Timothée Chalamet, Elle Fanning, Jude Law e até Selena Gomez em seu novo longa.

Tal como a extensa filmografia de Allen, Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day In New York, EUA, 2019 – Imagem Filmes) é, do início ao fim, repleto de narrações. O roteiro, também do autor americano, segue Gatsby Welles (Chalamet) e Ashleigh Enright (Fanning) durante o dia em que o casal de estudantes universitários passa em Nova York. Enquanto ela segue um cultuado diretor de cinema (Liev Schreiber, em curta aparição) e seus colegas de trabalho por Manhattan, Welles passeia pela cidade em que cresceu, reencontrando conhecidos e familiares no meio do processo. A trama parece operar como um fluxo de consciência, com personagens indo de ponto A ao ponto B a bel prazer do roteirista, sem motivações claras e suficientes.

O nervo central do filme é a dinâmica interna de seus dois protagonistas e, também, destes com o ambiente. Enquanto o Gatsby de Allen é culto, esperto e confortável com a cidade, Ashleigh é ingênua e jovial, respirando ares do Arizona – onde nasceu – em uma megalópole que a carrega de um lado a outro, como uma correnteza inescapável. Assim, a oposição entre os dois personagens é clara desde o primeiro ato do filme, que trabalha bem sua incompatibilidade mesmo que estejam separados por grande parte de sua duração.

É assim que o roteiro introduz seus principais coadjuvantes, não somente por peso na história, mas por capacidade de interpretação: Selena Gomez e Jude Law. Ele faz um roteirista que, a caminho de encontrar seu diretor – que enfrenta dificuldades criativas com seu novo filme –, descobre que sua mulher está o traindo com seu melhor amigo. O ator consegue tornar seu breve personagem bastante crível, fugindo da caricatura. No entanto, quem brilha é Selena Gomez, que entrega Shannon, velha conhecida do protagonista de Chalamet, com bastante naturalidade, transparecendo a enorme química entre eles.

Retorna-se, então, à discussão do roteiro, pois a efusão de personagens secundários e sequências vagas é um dos maiores problemas do filme, em conjunto com narrações que parecem escritas às pressas. Deixo evidente que a definição anterior de Gatsby carrega consigo um ponto de vista bastante bondoso, o “de Allen”, visto que o personagem, de fato, esbanja características desagradáveis ao espectador. Por vezes, é pretensioso e de movimentação muito caricata, tornando constante a suspeita de de que Timothée Chalamet fora instruído a imitar seu diretor ao invés de construir seu próprio personagem. O texto de Gatsby revela ainda diversas falas e ideais que facilmente seriam atribuídas a Woody Allen. Dá-se a impressão de que, no fim, Gatsby Welles é um Woody Allen que, como o personagem diz em dado momento, “não quer envelhecer nunca”.

No entanto, a confusão do roteiro é amenizada pelo brilhantismo de Vittorio Storaro, o mítico diretor de fotografia que assume a obra, criando uma Nova York onírica, existente somente nas memórias de Allen. O que é um ponto alto da fotografia torna-se um defeito do desenho de produção, já que os cenários e ambientações têm um tom enquanto certos personagens têm outro. Explico: Gatsby, Shannon e até mesmo Ashleigh parecem viver numa Nova York de meados do século 20, ainda que tenhamos iPhones, táxis e sets bastante contemporâneos. Assim, o filme se ambienta numa mistura de passado e presente, uma confusão que se demonstra até mesmo nas relações entre as personagens, em especial entre Gatsby e sua mãe.

Ainda que amparado por Storaro, Woody Allen parece ter perdido a mão em Um Dia de Chuva em Nova York. Seu roteiro é um dos mais fracos da aclamada carreira. Ele mostra-se preocupado em finalizar filme atrás de filme, distanciando-se da qualidade que um dia o consagrou. Da mesma forma, o longa soa repetitivo, pois acomoda-se até demais no estilo de seu diretor. No fim, é uma confusão em si mesmo, que não é resolvida nem pelo talento de seu elenco ou de seus diretores. É agradável, certamente, mas está bem aquém dos melhores filmes de Allen.

 

AS PANTERAS

13.11.2019

Kristen Stewart encabeça elenco de nova adaptação da série da TV, que finalmente faz jus às mulheres empoderadas na grande tela

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Sony/Divulgação

Em 1976 estreava na televisão americana a série Charlie’s Angels, com Jaclyn Smith, Farrah Fawcett e Kate Jackson. Mais de 40 anos depois, uma nova adaptação de As Panteras chega aos cinemas. Dessa vez, fazendo jus à premissa de empoderamento feminino.

Com direção e roteiro assinados pela também atriz Elizabeth Banks, o novo filme da consagrada série finalmente traz um olhar feminino por trás das câmeras. A nova versão não foca na sensualidade ou nos corpos das atrizes, dando espaço para mais ação e ressaltando as verdadeiras habilidades de cada personagem.

As Panteras (Charlie’s Angels, EUA, 2019 – Sony) funciona como se fosse continuação das adaptações para a grande tela do começo dos anos 2000, que contavam com Cameron Diaz, Lucy Liu e Drew Barrymore no elenco. Porém, dessa vez a figura de Bosley é feminina. A própria Banks aparece como a mentora das angels, dando finalmente espaço para uma mulher em uma posição de poder em um filme sobre poder feminino. Isso não deveria ser óbvio?

A nova produção segue a linha clássica do trio com a inteligente, a engraçada e a durona. Kristen Stewart brilha como Sabina, responsável pela maior parte dos alívios cômicos do longa. Seu carisma e desenvoltura mostram que a atriz percorreu um grande caminho desde a insossa Bela de Crepúsculo. Banks conseguiu construir personagens femininas interessantes e complexas e promover um crescimento significativo delas ao longo do filme. Elena (Naomi Scott), a nova recruta, vai de nerd insegura a espiã confiante. Já Jane (Ella Balinska), que começa a história preferindo atuar sozinha, consegue perceber a importância da irmandade.

O ritmo peca em alguns momentos. A amizade das angels poderia ser trabalhada com mais calma, construída melhor ao longo da trama. A apresentação do antagonista também deixa um pouco a desejar. Apesar da reviravolta, é inevitável a sensação de que faltou ser dito ou explicado algo sobre o vilão.

O roteiro é uma grata surpresa. Com diálogos divertidos e cutucadas bem colocadas ao patriarcado as quase duas horas de filme passam rápido. A construção dos personagens masculinos é um dos pontos mais fortes do roteiro. Frágeis, egocêntricos e estereotipados, ao contrário dos clássicos filmes de ação, aqui os homens não detém o poder.

As Panteras faz uma bonita homenagem ao legado da série televisiva. Pela primeira vez, o empoderamento que tenta ser vendido no cinema parece real. As mulheres, aqui, parecem reais.

 

FORD VS FERRARI

13.11.2019

Personalidades contrastantes dos personagens de Matt Damon e Christian Bale dão o tom à história que opõe duas gigantes do automoblismo

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Divulgação

O nicho de filmes de corrida é um daqueles bastante complicados de disseminar ao público. Com o advento de Rush, em 2013, esse subgênero ganhou um respiro para fora de sua bolha. Nesse caminho, Ford vs Ferrari – que chega agora ao circuito nacional – é muito mais que uma obra de nicho.

Ford vs Ferrari (Ford v. Ferrari, EUA/França, 2019 – Fox) prende a atenção do espectador desde seu primeiro plano. A direção de James Mangold, que já fez títulos como Logan, Garota, Interrompida e Johnny & June, é perspicaz e configura um estilo próprio ao tratar suas cenas de ação. A cobertura fotográfica e o ritmo dessas cenas são um show à parte. O filme ainda tem a capacidade não somente de prender o espectador, mas entretê-lo com algo bem além de carros, barulhos de motor e planos velozes. A trama gira em torno do relacionamento de Ken Miles e Carroll Shelby – uma dinâmica conturbada desde seu início, parte por conta do forte temperamento de Miles, brilhantemente interpretado por Christian Bale. A briga corporativa que ocorre entre as gigantes autmobilísticas Ford e Ferrari em meados dos anos 1960 é mero plano de fundo, por sorte.

Bale dá vida a um esquentado, teimoso e persistente mecânico, cuja paixão é pilotar carros de corrida. Sua personalidade contrasta muito com a do ex-piloto e agora empresário do ramo que Matt Damon retrata de forma muito mais serena, ainda persistente. Shelby, hoje, é um negociador. Miles é tudo, menos um negociador. Essa dualidade torna-se o ponto alto do relacionamento que se desenvolve, com muita química entre os personagens, que por sua vez são o ponto alto do filme. Ford vs Ferrari prefere não assumir como protagonistas os magnatas, homens corporativos em guerra por capital. Ao contrário, é um roteiro, até certo ponto, bastante intimista em seu desenvolvimento. Carros não são o fim, muito menos Ford tampouco Ferrari. E isso torna o filme muito melhor do que poderia ser caso não o fosse.

Essa relação é muito bem retratada pela fotografia de Phedon Papamichael, que traz dramaticidade a cada cena, apostando em altos contrastes e uma diminuição quase inexistente de sombras nos rostos de seus personagens. A fotografia é bastante estilizada e dinâmica, com diversos movimentos e distinções de ângulos entre planos, porém não arrisca o anticonvencional, mantendo-se na zona de conforto do espectador comum ao mesmo tempo que atiça a atenção daquele outro espectador ávido e interessado nos detalhes técnicos da sétima arte.

Nesse mesmo sentido, a montagem do trio Buckland-McCusker-Westervelt merece os holofotes e premiações que tem recebido – afinal é dela a responsabilidade de manter o ritmo dos 152 minutos de projeção. Além disso, o ritmo entre sequências não é prejudicado. Ao mesmo tempo que temos velocidade, pulso e, até, ritmo na parte de corridas, os montadores não se apressam nas cenas que mais requerem sua calma.

Ainda, vale mencionar que Ford vs Ferrari não deixa de trazer um importante ritmo cômico para a telona. Grande parte de suas piadas funciona, principalmente por sua função complementar à narrativa. Aqui, as piadas não são o objetivo final da cena, mas o meio para incitar um subtexto ainda maior. Deve-se, por exemplo, prestar atenção nas provocações entre as equipes Ford e Ferrari no ato final do longa.

Divertido e instigante, o filme de Mangold consegue providenciar bom entretenimento até mesmo àqueles que detestam o nicho no qual se insere, sem perder o estímulo dos apaixonados por corrida. Destaca-se a atuação de Matt Damon e, em especial, Christian Bale para tal. Mas não há como negar o evidente esforço que preenche o todo de Ford vs Ferrari, refinando direção, fotografia e edição num filme que, à primeira vista, pode não parecer florescer tão bem.

 

DOUTOR SONO

07.11.2019

Sequência da história de O Iluminado se equilibra entre a fidelidade ao livro de Stephen King e o universo criado nas telas por Stanley Kubrick

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Stephen King demorou 36 anos para lançar a sequência de O Iluminado, livro que originou um dos mais clássicos filmes de terror, dirigido pelo inigualável Stanley Kubrick e lançado em 1980. O tal iluminado do título é o garotinho de cabelo tigelinha Danny Torrence, de cinco anos de idade, que se muda com os pais Jack (Jack Nicholson) e Wendy (Shelley Duvall) para o Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado, onde o pai vai trabalhar de zelador. Por conta de seus poderes paranormais, Danny vive rodeado por fantasmas que habitam o lugar e tem um amigo imaginário chamado Tony. No decorrer do filme, Jack fica completamente transtornado, a ponto de colocar a família em risco.

Além da atmosfera de suspense kubrickiana, o êxito de O Iluminado se deve a uma interpretação espetacular de Jack Nicholson. Quase quarenta anos depois, a sequência, Doutor Sono (Doctor Sleep, EUA, 209 – Warner), estreia nos cinemas com a assinatura de Mike Flanagan, que dirigiu, escreveu o roteiro e também editou o longa. Flanagan já havia trabalhado com a obra de King na adaptação de Jogo Perigoso e é uma espécie de faz-tudo. É cria do gênero de terror, e tem em seu currículo filmes como A Maldição da Residência Hill (2018) e Ouija: Origem do Mal (2016). Doutor Sono recebeu o consentimento de King, mas ele pediu para ler o roteiro antes de Flanagan rodar o filme.

O rei do terror já havia revelado seu desgosto com a adaptação… digamos… mais fria de Kubrick (segundo ele, faltou o viés familiar!). É bem possível que tenha escrito a continuação para dar respostas sobre O iluminado e consertar erros do passado. Flanagan deve estar rindo à toa, pois King simplesmente amou o resultado. Em sua conta no Twitter – bastante ativa, por sinal – o escritor não se cansa de elogiar as críticas favoráveis à adaptação: “DOCTOR SLEEP: Mike Flanagan é um diretor talentoso, mas ele também é um excelente contador de histórias. O filme é bom. Você gostará dele se você gostou de O ILUMINADO, mas você também gostará se você gostou de UM SONHO DE LIBERDADE. É imersivo”, tuitou King no útlimo dia 23 de outubro.

As diferenças entre os dois filmes são muitas, começando pelo fato de que a história de O iluminado se passa quase exclusivamente dentro do hotel macabro. Já na primeira hora de Doutor Sono viajamos por um punhado de estados americanos. O garotinho Danny se transformou em Dan, um adulto alcoólatra, assim como o pai, e que se mudou para a Florida para fugir da neve que tanto o traumatizou na infância. O ator escocês Ewan McGregor, que interpreta o protagonista, surge na tela bem ao estilo Trainspotting, de ressaca ao lado de uma prostituta com quem passou a noite. Os inimigos na trama são um grupo de ciganos, meio vampiros meio hippies, que se alimentam do “vapor” de crianças especiais, fazendo com que eles vivam “eternamente enquanto dure”. Com essa informação, você consegue adivinhar o que esse bando, chamado de Verdadeiro Nó e liderado pela bruxa Rose The Hat (a atriz sueca Rebecca Ferguson), é capaz de fazer com as pobres criancinhas.

Em outro estado americano mora Abra Stone (a atriz-mirim Kyliegh Curran em seu primeiro grande papel). Paranormal, a garotinha se torna a única apta a derrotar os vilões. Aconselhado pelo guia imaginário Dick Hallorann (ex-chefe de cozinha do Hotel Overlook em O Iluminado), Dan viaja a Frazier, cidade de New Hampshire, decidido a se reabilitar do vício e a se reconciliar com seu dom de prever as coisas (chamado na história de shining). Começa a frequentar o Alcoólicos Anônimos (assim como fizeram também na vida real Ewan, que largou o álcool, e o próprio Stephen King) e recebe a oferta para trabalhar como enfermeiro num hospital cuidando de pacientes terminais, onde recebe o apelido de Doutor Sono – pois é capaz de adivinhar quem vai morrer, assim como o gato do hospital.

O tempo passa e Dan se torna mentor de Abra. Como ambos têm o poder da telepatia, eles mantêm uma conexão através de uma parede, onde escrevem um pro outro (parece coisa de tabuleiro ouija!). Durante boa parte do filme, Rose tenta encontrar Abra numa história de cão e gato, recheada de cenas de terror trash que nos anos 1980 fariam mais sentido do que na era do cinema digital. Como na sequência em que o bando sequestra um garotinho após uma partida de beisebol – e que remeteu ao filme O Campo dos Sonhos.

Os efeitos sonoros são um dos destaques do filme e por vezes simulam a respiração e batimentos cardíacos, reforçando o clima de tensão. O longa também traz referências a O Iluminado. O número da casa onde Abra mora é 1980. Na parte final, o quarto de hotel número 217 também reaparece, quando Dan retorna ao Overlook, com seus carpetes coloridos, corredores intermináveis e o buraco na parede feito pelo machado de Jack.

Fato é que muitos fãs de King gostaram do livro e dizem que o escritor conseguiu entregar uma sequência à altura, com uma história bem amarrada. Na telona, o filme parece ter sido bastante fiel à publicação e ainda faz várias referências ao filme de Kubrick. E justamente essa fidelidade, a obrigação de entregar o que King queria, pode ter engessado Flanagan. A continuação nas telas se torna arrastada – com mais de meia hora a mais do que o primeiro – e tem personagens deslocadas, interpretações medianas dos coadjuvantes, cenas grotescas de homicídio e uma dose de suspense a conta-gotas.

Mas o que importa é que o diretor, montador e roteirista conseguiu entregar um filme com a chancela do rei do terror, que tem o incrível poder de escrever sobre temas pesados, como o alcoolismo destruidor de famílias, de uma forma que entretém e não faz ninguém cochilar na poltrona.

CIDADE DOS PIRATAS

06.11.2019

Animação baseada na vida e obra da cartunista Laerte Coutinho estreia nas telas depois de 25 anos com muitos percalços

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Lança Filmes/Divulgação

Durante os 25 anos em que o diretor de animação Otto Guerra manteve a ideia de levar para as telas de cinema a versão dos quadrinhos de Piratas do Tietê, a vida real – como ele mesmo disse quando esteve em Curitiba no último dia 27 de outubro, para lançar o filme – atropelou o projeto original diversas vezes. Ele, a cartunista Laerte Coutinho, o país e o mundo não são mais os mesmos. Otto descobriu um câncer metastático e por um triz não deixou o projeto órfão. Já Laerte, como todo mundo sabe e está cansado de saber, assumiu sua transexualidade e de seus colegas cartunistas do passado – a tríade Adão (Rocky & Hudson), Angeli  (Wood & Stock) e Glauco (Geraldão, Rê Bordosa) – o último foi assassinado, o do meio anda recluso (com depressão, segundo Otto) e o primeiro se debandou para a Argentina. Ou seja, tudo virou de cabeça para baixo.

O mundo também parece estar em derrocada, com a ascensão da extrema direita fascistoide e o Brasil liderado por um presidente que incentiva o uso de armas de fogo e sempre manteve  o discurso homofóbico. Por isso, não há arma melhor do que o humor irônico dos quadrinhos de Laerte para combater esse caos todo. Com um diretor de sobrenome Guerra, melhor ainda.

Cidade dos Piratas (Brasil, 2019 – Lança Filmes), a primeira animação proibida para menores, retrata exatamente esta confusão, sendo a obra em si totalmente caótica, mas com caráter extremamente filosófico e histórico. Depois de oito roteiros e muitas reviravoltas como o fato de quase morrer, Otto insistiu como todo brasileiro e, finalmente, conseguiu lançar a animação com storyboard de Laerte – que é corroteirista, ao lado dos sobreviventes Rodrigo John e Thomas Créus. O resultado foi um trabalho duplamente autobiográfico, que retrata tanto os percalços sofridos pelo diretor gaúcho, como a doença e a demissão da produtora executiva do projeto, e principalmente a mudança de identidade sexual da cartunista criadora dos piratas, um marco da contracultura nacional dos anos 80. Nesse caso, a criadora se tornou tão revolucionária quanto a criatura e sua transgeneridade deu novo rumo à história. Por isso o subtexto do filme é “livremente inspirado na vida e obra de Laerte Coutinho”.

Assim como Laerte, a animação também se metamorfoseou diante de todas essas situações sui generis e se transformou num filme fora da reta, com recortes, alegorias e metalinguagem, mas que, ainda assim, faz todo o sentido se juntarmos todos os caquinhos. Principalmente quem já têm um conhecimento prévio sobre a obra da cartunista. Caso contrário, sem este background, fica um tanto difícil entender alguns detalhes do humor refinado.

Diante de todo o cenário mutante, Otto definiu a animação como um “bicho de quatro cabeças”. “A produtora Marta Machado abandonou o projeto na metade. O roteiro mudou oito vezes. A sorte é que eu tive um câncer com metástase. Depois disso eu decidi: agora eu faço o filme que eu quero”, brincou Otto, diante da própria tragédia. Ao lado de Benett, representante da nova geração de cartunistas, o gaúcho conversou com a plateia curitibana, após a primeira exibição comercial do filme no país, no Cine Passeio. “Vou aproveitar que é aniversário do Lula e vou visitá-lo”, ainda disse o diretor na ocasião.

Otto revelou ainda que a linguagem dos quadrinhos tem um universo parecido com a animação. “Mas a estrutura é muito difícil. Me perdi completamente”, confessa. E por se desviar do tradicional, existe a dificuldade em definir a animação, principalmente fora do Brasil, onde é considerado um filme “exótico”.

Da história original foi mantido o confronto entre os bandeirantes e os índios escravos, que pegam em armas de fogo com a música de fundo de Raulzito Seixas, a superplausível “Aluga-se”. São Paulo cortada pelo seu rio marginalmente poluído representa toda a sujeira do Brasil.  A animação é costurada com aparições de personagens da cartunista, hoje com 67 anos, cujo traço é indefectível. Estão lá o político homofóbico e enrustido Azevedo, como se fosse uma previsão de Bolsonaro em quadrinhos, dublado por Marco Ricca. Hugo e seu alterego Muriel, que é travesti, surgem na voz de Matheus Nachtergaele. Também há trechos de depoimentos da Laerte para a imprensa, com uma montagem bem irônica. O próprio Otto também estrela o filme, narrando numa subtrama o ocorrido durante o tempo de filmagem. Aliás, um dos culpados pelos seu câncer aparece numa das cenas de bar: o conhaque da propaganda maliciosa cujo slogan era “Deu duro? Tome um Dreher!”.

No final, Otto vence a doença e ganha elogios de Laerte. “Ela me deu um beijo na boca”, confidenciou. Por sua vez, a cartunista segue combatendo o preconceito com seu nanquim. Já São Paulo continua à mercê dos piratas, sendo cenário do apocalipse. Resta, agora, esperar como será a recepção da patrulha ideológica a esta animação.

 

A ODISSEIA DOS TONTOS

01.11.2019

Novo filme argentino com Ricardo Darín no elenco retrata os reflexos sofridos do povo quando planos econômicos impactam a nossa vida

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Um plano econômico quando é adotado num país não só confisca o dinheiro da poupança, “come” os zeros e altera o nome da moeda ou limita a quantia que você deve sacar do banco. Termina, sim, por confiscar os dias, devorar a saúde do povo, principalmente a dos idosos, mudar o sentido de justiça e limitar nossas forças diante da vida. Quantos traumas e suicídios a ministra Zélia Cardoso de Melo não endossou ao anunciar, há quase três décadas, o fatídico Plano Collor, do presidente caçador de marajás? Quantos aposentados não infartaram em 2001, quando foi instalado o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários, fantasma que ainda persegue o povo argentino?

Pois este é o tema do mais recente filme estrelado pelo ator Ricardo Darín, que pela primeira vez atua ao lado do filho Chino Darin. O roteiro de A Odisseia dos Tontos (La Odisea de los Giles, Argentina/Espanha, 2019 – Warner), que estreou nesta quinta-feira no Brasil, é baseado no romance do escritor Eduardo Sacheri e feito em coautoria com o diretor Sebastián Borensztein, do fantástico Um Conto Chinês. Em vez de abordar o assunto de forma pesada, o tom da narrativa procura atenuar os reflexos sofridos pelo povo portenho com um bom humor inteligente presente em diálogos dinâmicos, repletos de ironia e palavrões colocados na medida.

Trata-se de uma comédia dramática leve, ao estilo sessão da tarde, porém sem deixar as críticas políticas de lado, como muitas citações ao peronismo e o anarquismo do russo Mikhail Bakunin. O filme usa aquela máxima de que o povo é sempre tratado como idiota, enganado pelo sistema. Como o próprio nome diz, a odisseia é a saga de moradores da província de Alsina (os “tontos”) que viram o desejo de montar uma cooperativa ir para os ares depois da crise, assim como a vida de pessoas queridas que também se esvaíram após o golpe. Mas o que desperta a grande revolta por parte dos locais é o fato de terem sido enganados pelo advogado Manzi (Andrés Parra), amigo do gerente do banco, que conseguiu informações privilegiadas e trocou, a tempo, os pesos argentinos por dólares.

Darín interpreta Fermin Perlassi, um ex-jogador de futebol que se transforma em Robin Hood e convoca os amigos fiéis a bolar um plano para recuperar o dinheiro do advogado malandro. Como todo bom argentino, a solidariedade é o antídoto para combater a injustiça (e não a vingança, como no papel do mesmo Darin em Relatos Selvagens).

O filme traz ainda ótimas atuações de atores veteranos. Luís Brandoni, que faz um anarquista dono de uma oficina mecânica, chega a brilhar mais que próprio protagonista. Além de Rita Cortese, que aparece tímida no papel de uma empresária local.

Vale lembrar que o livro que deu origem a este longa-metragem foi escrito pelo mesmo autor da obra que originou O Segredo de Seus Olhos, que conquistou o Oscar de melhor produção em língua não inglesa em 2010. Depois disso, o trabalho de Darín alcançou outro patamar e ultrapassou as fronteiras do então país comandando por Cristina Kirchner, que volta à cena agora política como vice-presidente. Pois Darín, a prata da casa e sinônimo de cinema argentino, acertou na decisão de não se juntar aos americanos, recusando papeis secundários oferecidos por Hollywood. E, ainda, para alegria de seus fãs, inspirou o filho a trilhar a mesma profissão. Com apenas 30 anos de idade e oito de carreira, Chino já acumula um currículo extenso, tendo estrelado um punhado de excelentes filmes, entre eles As Leis da Termodinâmica (disponível na Netflix).

A Odisseia dos Tontos fica aquém de outras comédias estreladas pelo mais famoso ator do cinema argentino. No entanto, mesmo sendo um filme sem grandes pretensões, vale a pena ver o dono dos olhos azuis e cabeleira cada vez mais grisalha atuando nas telonas. A família Dariín é sempre um bom convite para ir ao cinema e rir da tragédia. Pelo menos enquanto o fantasma retratado no filme está adormecido…

 

A VIDA INVISÍVEL

31.10.2019

Com extrema sensibilidade, Karim Aïnouz emociona ao retratar a invisibilidade feminina na sociedade brasileira de algumas décadas atrás

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Textos por Janaina Monteiro e Leonardo Andreiko

Fotos: Sony/Divulgação

Quando A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) termina e surgem os letreiros, a sensação é de que acabamos de vivenciar uma profunda imersão na vida secreta de nossas avós, principalmente para os espectadores – como eu – cujo sangue português corre nas veias. É bem possível que você fique atônito, perplexo, abalado, devastado ou se renda a qualquer outro sentimento que talvez provoque lágrimas, como ocorreu à plateia de críticos do último festival de Cannes, onde o filme do diretor Karim Aïnouz ganhou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar. Em agosto, o título também foi escolhido pelo país como o seu candidato a uma possível vaga ao Oscar de filme em língua não inglesa em 2020, superando o também premiado, badalado e cultuado Bacurau.

Martha Batalha, autora do livro que inspirou o filme e cuja história retrata a vida de duas irmãs separadas primeiro pela paixão, depois pelo pai e então pelo destino, já adverte na introdução: as personagens Eurídice e Guida foram, sim, baseadas “na vida das minhas e das suas avós”. Eurídice, Guida e todo o núcleo feminino são retratos da mulher que teve de abandonar – ou pelo menos adiar – os sonhos para se dedicar à família, aos próprios filhos ou aos filhos dos outros. Elas são o espelho da mãe solteira e da mulher que era chamada de biscate caso ferisse os bons costumes. É sinônimo da mulher invisível, que tinha como dever obedecer às regras sociais, ser refém do marido. Sua frustração era combatida com esperança, convertida em forma de netos em vez de diplomas pós-doc.

O melodrama tropical (como fora rotulado o filme) nos remete à tradicional família de imigrantes portugueses na época pré-pílula anticoncepcional, quando a mulher era feita para ser mãe e ainda precisava, sim, trabalhar fora. Para adaptar a história às telas, o diretor Aïnouz e os roteiristas Inês Bortagaray e Murilo Hauser (este, um curitibano da gema) trabalharam por três anos a fim de extrair a essência da obra de Martha e conseguiram retratar a sociedade patriarcal daquele tempo com uma verossimilhança impressionante.

O cenário é a cidade do Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, o bairro de Santa Tereza. Eurídice (Carol Duarte) mora com os pais e a irmã mais velha Guida (Julia Stockler) numa casa em São Conrado. A jovem, de 18 anos, é um talento nato no piano, sonha em ser concertista e sempre dá cobertura à Guida, interpretada no final do filme pela magnífica Fernanda Montenegro. Dona de um temperamento extrovertido, Guida se apaixona e decide fugir com o namorado grego sem ao menos saber dizer uma palavra do idioma. De mala e cuia, ela deixa a casa, rumo ao porto, onde embarca de navio para sua aventura amorosa.

Com o sumiço da irmã, Eurídice fica à deriva e se apega ao brinco perdido por Guida. Carol exterioriza essa condição de desorientação de forma surpreendente, com seu olhar sempre perdido, tentando encontrar alguma resposta no horizonte. Quando Guida volta ao Brasil, pouco tempo depois de terminado o romance, ela é expulsa de casa e as duas se separam. O restante do filme é sobre a busca de Eurídice em rever a irmã, que para seu marido Antenor Campelo, funcionário dos Correios e amigo da família, já está morta. Gregorio Duvivier, ator dedicado à comédia e que até surpreende no teatro, tenta convencer ao interpretar o estereotipo do marido dos anos 1950, porém se perde no meio do caminho. Fica caricato, ora exagerando na veia cômica, ora se esforçando no drama.

Guida consegue sobreviver sozinha na capital do país. Toma um rumo que nunca sonhou e paga o preço por ter fugido de casa. Enquanto vive à procura de Guida, Eurídice também toca a vida: engravida e adia o sonho de ser musicista.

Enfim, A Vida Invisível é uma obra que retrata estereótipos e costumes da metade do século passado, revirando a memória afetiva do espectador. Mostra o pai português severo, a mãe que vive na cozinha trabalhando e cuidando da casa, a família que se reúne ao redor da bacalhoada e da rabanada na ceia de Natal. O realismo e a naturalidade como o diretor trabalha essas figuras são surpreendentes. Nada fica de fora, seja o suor de seus corpos, o sangue pós-parto, as relações sexuais não consentidas. Aliás, as cenas de sexo, sem cortes e explícitas, nos remetem a muitos títulos dos anos 1970 e 1980 que hoje são exibidos de madrugada no Canal Brasil. Assim como a textura e proporção de tela escolhidos por Aïnouz que costuma ser comparado a Pedro Almodóvar. Isso porque ele consegue imprimir uma visão feminina da história, ao dar corpo a personagens com atitude feminista, no limiar da segunda onda do feminismo. Os saltos temporais também são executados com maestria. Apenas os erros de continuidade prejudicam a perfeição do filme.

Depois de A Vida Invisível certamente vamos olhar para essas senhoras de cabelos brancos com mais curiosidade e atenção. Mulheres podem, agora, ter o canudo que quiser, escolher o parceiro ou parceira, decidir pela maternidade. Somos fruto de cada Eurídice e cada Guida, as irmãs que resistiram ao fardo de pertencer a uma sociedade conservadora. Sociedade que, ainda hoje, guarda o ranço do machismo. (JM)

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Karim Aïnouz é um autor. Seu forte estilo de direção, bastante focado em seus personagens, como ele próprio definiu, angariou fãs dentro e fora do Brasil, além de diversos prêmios. No entanto, ele confidenciou ao espectador curitibano durante a pré-estreia do filme, na noite de 24 de outubro no Cine Passeio, que A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) surgiu da vontade de alçar voos mais próximos do público, distanciando-se do estigma do cinema arte de salas vazias e lançamentos modestos, antes mesmo da crescente – e absurda – desvalorização da indústria audiovisual brasileira.

Seu melodrama ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, corroteirizado por Murilo Hauser e Inés Bortagaray, revolve em torno da relação de duas irmãs, Eurídice e Guida Gusmão, cada uma de espírito fortemente distinto da outra, separadas pelas circunstâncias da vida e desejando o reencontro. Tanto o roteiro quanto a direção de Aïnouz propõem um rumo diferente da tomada por Martha Batalha no romance que inspirou a obra – portanto, comparações se tornam ainda menos necessárias que de costume.

O título anterior da obra (quando venceu a mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes, em maio, o filme se chamava A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, assim como o livro) trazia, a princípio, um foco maior nesta, interpretada por Carol Duarte. O longa, porém, trata Guida e sua irmã como protagonistas, ambas seguindo suas histórias, enormemente distantes e distintas. Este, talvez, seja um forte trunfo da obra. Pois tanto Duarte quanto Julia Stockler têm seu respectivo espaço para construir suas personagens, cujos contrastes dão tom à trama, ao mesmo tempo que são muito aproveitados metaforicamente. Enquanto Guida é altiva e senhora de si, Eurídice é contida e, embora tão forte e sonhadora quanto sua irmã, acaba envolvida na opressora máquina da família tradicional, cujo vigor era ainda maior na época. Assim, a audiência é capaz de torcer para que ambas se reencontrem, ainda que torça para que suas tramas individuais deem certo.

A cumplicidade de A Vida Invisível com suas personagens é outro amplificador à imersão da obra. A câmera de Aïnouz e da diretora de fotografia Hélène Louvart as acompanha e, numa instância mais poética, torna-se parte delas. Sentimos o que elas sentem, desde as emoções transpassadas pela maravilhosa atuação até as emoções mais abstratas, como o constante desfoque que sequestra os quadros de Eurídice. Ampliada pela belíssima direção de arte e ambientação, a fotografia é capaz de evocar naturalismo fotográfico e, num plano subsequente, flertar com o imaginário e figurar os fortes vermelhos característicos da filmografia de seu diretor.

No entanto, o longa-metragem sofre de um problema, no mínimo impactante. Ao retratar algumas cenas com intensidade maior que a necessária, Aïnouz passa do ponto, o que pode causar fortes desconfortos a audiências com gatilhos envolvendo abusos sexuais. A sensibilidade que permeia os momentos introspectivos da obra se perde na noite de núpcias de Eurídice com Antenor, interpretado muito bem por Gregório Duvivier – que não perde seu jeito característico no humor e, mesmo assim, desenvolve um personagem distante de sua figura porta-dos-fundesca, por assim dizer. Fica aqui o alerta de gatilho, portanto.

Ainda assim, a obra é repleta de acertos, que se aglomeram e transformam A Vida Invisível numa história emocionante e envolvente. Quando imaginamos que tudo já poderia acabar, é claro que estamos enganados. Fernanda Montenegro tem a sensacional – ou terrível, caso precise escrever sobre sua atuação – mania de transcender, em seu ofício, quaisquer elogios, adjetivos ou análise que possa ser feita. Em poucas palavras e muitos olhares, a nonagenária atriz amplifica a já belíssima personagem de Carol Duarte. A Eurídice Gusmão de Fernanda, já calejada de uma vida inteira, emociona do primeiro ao último olhar. Aïnouz soube dirigi-la com maestria e, assim, amarrar com finesse a trama que constrói em seu filme.

Capaz de argumentar sobre a invisibilidade das mulheres na sociedade, o machismo estrutural e suas vítimas em ambos gêneros e a perda da esperança, o longa não se esforça em desenvolver quaisquer destes temas. Antes do tema, vêm as personagens. Essa é a história de Eurídice e Guida, mas poderia e deveria ser a história de muitas mulheres. Nossas bisavós, avós e mães. (LA)

 

A LUZ NO FIM DO TÚNEL

19.10.2019

Casey Affleck retorna à direção e protagoniza história que serve de metáfora para o instinto diário de sobrevivência

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

O fim do mundo é um tema bastante explorado pela sétima arte. Há os filmes em que aliens dominam o planeta, em que a humanidade precisa lutar contra zumbis para sobreviver e aqueles em que uma grande parcela da população é dizimada por vírus ou superbactérias. E se nosso cotidiano já é suficientemente catastrófico, imagine então sobreviver a uma praga que elimina quase todas as mulheres da face da Terra e ter que criar sozinho a filha no meio do mato, desconfiando de tudo e de todos? Embora essa seja a premissa de A Luz no Fim do Túnel (Light Of My Life, EUA, 2019 – Imagem Filmes) e suas claras referências a um mundo pós-apocalíptico de The Walking Dead e Filhos da Esperança, o longa-metragem estrelado, dirigido e escrito por Casey Affleck resume-se a uma metáfora sobre o instinto diário de sobrevivência.

A Luz no Fim do Túnel é primeiro trabalho de Affleck após ter recebido o Oscar de melhor ator por Manchester à Beira-Mar, período em que fora acusado de assédio sexual. E como no documentário-farsa Eu Ainda Estou Aqui, de 2010, estrelado pelo então cunhado Joaquin Phoenix, Affleck mostra mais uma vez sua faceta de faz-tudo aos moldes de Woody Allen. O resultado é uma atuação marcada pelo seu conhecido estilo introvertido, mas capaz de causar empatia e conexão imediatas com o espectador.

O assunto clichê é simplesmente um pano de fundo, um cenário, para um mergulho filosófico em questões sobre religião, ética, em como manter-se fiel às regras morais diante de uma sociedade que se desintegrou e precisa renascer. Aqui surge outro ponto central do drama: a importância do feminino para a perpetuidade da raça humana.

Quem desconhece que o filme seja uma criação de Affleck já passa a desconfiar de sua participação no roteiro logo na primeira cena, em que “Dad” (“Pai”, como é chamado durante todo o filme) conta uma parábola sobre a história bíblica da Arca de Noé para a filha Rag, interpretada com bravura e ternura por Anna Pniowsky. A história se arrasta por longos minutos, mas a doçura com que é encenada capta profundamente a atenção do espectador. Só depois que a cena termina e ocorre a mudança de plano, dá-se conta que pai e filha estão deitados no interior de uma barraca de acampamento e que esta é a residência deles pós fim do mundo. Pelas próximas duas horas (1h59, mais precisamente), a relação de afeto e confiança entre os dois será o mote de enredo nada original, que consegue abordar o medo do porvir nesta alegoria pós-apocalíptica de uma forma melancólica e terna ao mesmo tempo.

Affleck não revela logo na introdução porque os protagonistas estão vivendo nesse isolamento. Ele vai dando pistas sobre qual rumo a narrativa tomará, como na conversa em que pai explica ética e moral para a filha e como esses valores se invertem diante da necessidade de lutar pela própria sobrevivência e, sobretudo, para defender Rag, disfarçada o tempo todo de menino. O motivo pelo qual ela precisa esconder sua identidade também só é descoberto posteriormente pelo espectador: um vírus foi responsável por dizimar boa parte das mulheres do mundo. Por isso, a garota usa cabelos curtos e roupas nada femininas, segredo que, previsivelmente, será descoberto no decorrer da trama.

Durante todo o filme, Rag e seu pai encaram uma vida instável, montando e desmontando a barraca no meio do mato, entrando em casas abandonadas buscado um pouco de conforto e para fugir de desconhecidos, visitando cidades repletas de homens ameaçadores. O ritmo da narrativa é lento e durante a primeira hora prioriza os diálogos entre a figura paterna que busca dosar coragem e paciência diante de uma garota curiosa e ao mesmo tempo amorosa e cúmplice.

Depois que o espectador percebe a realidade enfrentada pelos protagonistas, o suspense vai se intensificando até a cena final com o semblante arrebatador de Rag. Este é o símbolo de uma passagem precoce para a fase adulta e o poder da mulher em dar continuidade à existência humana.

 

ZUMBILÂNDIA: ATIRE DUAS VEZES

18.10.2019

Retorno do universo protagonizado por Woody Harrelson e Jesse Eisenberg é um bom filme de comédia apesar da trama vazia

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony/Divulgação

Seguindo os passos de seu predecessor, Zumbilândia: Atire Duas Vezes (Zombieland: Double Tap, EUA, 2019 – Sony Pictures) começa com um monólogo expositivo de Columbus, um de seus protagonistas, seguido de uma montagem de violência gráfica em slow motion. Agora, no entanto, as vítimas são os zumbis e os agressores são o quarteto formado por Talahassee, Wichita, Little Rock e, é claro, Columbus.

Desta forma, o diretor Ruben Fleischer reintroduz seu universo com uma nota de bom humor, que permeia todo o longa de maneira imparável, mas que, para a sorte do espectador, também não cansa. Os roteiristas originais, Rhett Reese e Paul Wernick, dão as boas-vindas a um terceiro, Dave Callaham, com a trama focando majoritariamente a busca de Wichita, Talahassee e Columbus por Little Rock, que fugiu com um novo personagem, o hippie Berkeley. O filme não tarda a tornar evidente, no entanto, que pouco se preocupa com o desenvolvimento de sua trama, tampouco com seus personagens. Ainda que haja a introdução de novos elementos, que prometem comprometer a dinâmica do quarteto, suas características são tão caricatas que sua única função neste segundo Zumbilândia é o alívio cômico.

Assim, é necessário se perguntar: o que faz um bom filme de comédia? Se a resposta for a simples “capacidade de provocar o riso”, este aqui cumpre seu papel com bastante eficácia, com necessária exaltação da interpretação de Woody Harrelson, trazendo nuances leves e uma espirituosidade fiel ao personagem, a quem o roteiro dá a função de dinamizar o andamento da trama com suas piadas e anedotas. Na verdade, é fácil dizer que o principal ponto alto do filme é seu elenco, o que não é inteiramente mentira. A química entre o quarteto principal e as adicionadas Zoey Deutch e Rosario Dawson – que interpreta Nevada, a única das novas personagens que não é ridicularizada – é mais que evidente, fazendo com que a diversão que os atores e atrizes tiveram em set transpareça nas telas de cinema.

No entanto, o problema da torrente de piadas é o uso, com conforto extremo, de clichês. O hippie bobão e maconheiro (Berkeley, de Avan Jogia) e a loira burra (Madison, de Zoey Deutch) são os exemplos principais disso. Porém as recorrentes “piadas de machão”, por assim dizer, que Talahasse figura são tão lugar-comum quanto as feitas às custas dos supracitados. Sendo assim, piadas hilárias são justapostas a piadas quase ineficazes, salvas apenas pela bela atuação de Harrelson e por Jesse Eisenberg, que está como sua contraparte neste filme.

Caso sua resposta àquela pergunta tenha sido algo além do humor pelo humor, os problemas do longa-metragem de Fleischer são bem mais perceptíveis. Além dos já citados clichês, o roteiro toma diversos caminhos confortáveis, como se fosse um compilado de piadas conectado por viagens de um ponto A até um ponto B. Os arcos preguiçosos deste filme concretizam as dinâmicas já estabelecidas em Zumbilândia (o original, de dez anos atrás), fazendo com que esta continuação, que pressupõe-se buscar o avanço da história, finalize onde começou. Outro problema, no entanto, é que este novo filme não se basta em mostrar como, de fato, sua narrativa começa. O conflito se estabelece desde o primeiro ato, logo após o extenso monólogo que citei no início desse texto. Assim, não entendemos como as relações entre Wichita e Columbus ou Talahassee e Little Rock se deram. Apenas ouvimos os personagens comentá-las.

Independentemente da predileção de cada espectador por uma vertente da análise de comédias, Zumbilândia: Atire Duas Vezes destaca-se por aspectos mais técnicos, como os impressionantes efeitos especiais, produção de set e direção de arte, que operam complementarmente para implementar ao filme sua atmosfera própria, que é bastante imersiva. O bom uso da música e os efeitos visuais e letreiros também amplificam o mergulho no longa, tornando explícita desde o primeiro minuto a intenção em não se levar a sério.

Tal como o que já podia-se esperar, este segundo Zumbilândia é um filme de nicho, tanto por tratar-se de uma narrativa com zumbis quanto pelo teor de sua comédia, pouco apelativo para aqueles que não se familiarizam com ambas as dinâmicas. No entanto, em grande parte graças ao seu elenco, Atire Duas Vezes consegue entreter até aqueles mais céticos quanto à qualidade. No entanto, quem busca um “bom cinema”, por assim dizer, deverá se contentar com algumas gargalhadas e uma trama vazia.

 

O PINTASSILGO

10.10.2019

O amadurecimento de um menino que perdeu sua mãe em um atentado no museu e a sua paixão por uma pintura holandesa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

John Crowley propõe, baseado no livro homônimo por Donna Tartt, a derivar seu filme em torno de Theo, um rapaz cuja mãe faleceu num atentado terrorista a um museu e que, como forma de lidar com o luto, rouba a lendária pintura O Pintassilgo, do holandês Carel Fabritius. Acompanhando seu crescimento a partir do evento traumático, o roteiro almeja estabelecer a transição entre as personagens de Oakes Fegley e Ansel Elgort, respectivamente Theo criança e adulto.

Com uma narrativa alinear, o filme oscila seu foco entre a adaptação de seu protagonista quando criança a uma série de eventos, iniciando pelo acolhimento por uma abastada família e o impacto que esta parte de sua vida, que se desenrola com o passar do tempo, teve quando ele entra em sua maturidade. Neste sentido, tanto o roteiro de Peter Straughan quanto a direção de Crowley desenvolvem um paralelo interessante, iniciando o filme num bem-vindo suspense. No entanto, o enfoque de sua história muda drasticamente com a chegada do segundo ato, por assim dizer.

Assim, acompanhamos Theo, já adaptado à primeira grande dificuldade, vivendo sua vida, de forma que o filme abandona sua premissa inicial e, despindo-se de todo mistério, passa a abordar a relação do personagem, interpretado aqui por Fegley, com seus amigos e parentes. O infeliz resultado é uma narrativa empacada, um filme que parece esquecer-se da história que quer contar. As constantes cenas cotidianas de Theo esfriam gradualmente o ritmo de O Pintassilgo – problema que poderia facilmente ser resolvido com a supressão de algumas cenas que adicionam pouco (ou nada) à trama.

No fim, isso não é de todo mal, sobretudo para fãs da fotografia de Roger Deakins, que transforma cada plano do longa-metragem em uma obra de arte à parte. Peca-se um pouco, no entanto, na construção da identidade estética desta fotografia, afinal Crowley decide “reaproveitar” composições que imortalizaram o trabalho de seu diretor de fotografia – uma interessante e válida homenagem, porém, ao mesmo tempo, uma indicação de preguiça da produção, ou até de dedo podre da produtora.

É importante ressaltar a qualidade da atuação de grande parte do elenco, principalmente da dupla de protagonistas. Oakes Fegley tem uma sensibilidade muito bonita ao conduzir Theo por seu coming of age traumático, enquanto Ansel Elgort consegue, sem que o roteiro o obrigue a explicitar tudo, transmitir perfeitamente a ansiedade causada por seu passado. Nicole Kidman, Jeffrey Wright e Luke Wilson também interpretam extremamente bem as figuras paternais que seus personagens representam a Theo, para bem ou para mal. O elo fraco, no entanto, é a atuação de Finn Wolfhard como o melhor amigo de Fegley. Seu adolescente russo é caricato e (mais de uma vez) o ator esquece de seu sotaque e pronuncia uma ou outra palavra com sua fonética canadense. Sua contraparte adulta, Aneurin Barnard, também entrega uma atuação caricata – o que pode indicar que o problema jaz no roteiro ou na direção que Crowley decidiu levar os personagens.

Ainda que tenha pontos bons, principalmente técnicos, O Pintassilgo vence sua plateia por nocaute, cansando-a com seu desenvolvimento, despido do conflito que, a princípio, regeria a trama que constrói. Tecido por boas atuações e uma fotografia completamente dentro do que se espera de um diretor consagrado, o filme é um tropeço de John Crowley muito menor do que, levando em conta seu problema de ritmo, poderia ter sido.

 

PROJETO GEMINI

10.10.2019

Will Smith precisa assassinar seu clone em trama dirigida por Ang Lee e que aposta na inovação da tecnologia de captação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Tendo a me preocupar quando um filme faz de sua tecnologia de captação o carro-chefe de sua estratégia de propaganda (milionária, é claro). Não quero dizer com isso que pouco importa a forma com que a produção foi efetuada, muito menos que a inovação de métodos e meios para tal deva ser ignorada, ou até mesmo não continuada. Pelo contrário. Acho interessantíssimo como uma obra busca na alteração de quadros/segundo um determinado efeito em sua mise-en-scène– o que não significa que esta deva ser a maior qualidade deste filme.

É o que ocorre em Projeto Gemini (Gemini Man, EUA/China/Taiwan, 2019) novo filme de Ang Lee, rodado em 120fps (quadros/segundo) a fim de garantir a nitidez em uma projeção de 60fps. Além disso, o filme conta com um Will Smith completamente clonado pelo CGI, com uma aparência extremamente jovial. Tudo isso funcionando para a narrativa de David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, que gira em torno de um superassassino, Henry Brogan (Will Smith), que é clonado pelo governo americano em busca da replicação de suas habilidades. Este clone, então, recebe a missão de caçar e assassinar Brogan, sem saber que ambos são, na verdade, “a mesma pessoa”. Premissa esta que, a princípio, é capaz de desenrolar-se numa trama competente, ao mínimo.

No entanto, Lee propõe algo avesso à própria narrativa, interessado apenas em seu espetáculo mirabolante em alta definição e nitidez. O efeito disso, além de um inicial estranhamento visual por conta da maior intensidade de quadros/segundo (que é sentida até em uma projeção nos tradicionais 24fps), é um filme completamente esquecível, incapaz de desenvolver novidades em seu arco. Ignorando completamente as barreiras espaço-temporais, Projeto Gemini parece pinçar elementos funcionais de outros blockbusters para fundi-los numa gororoba convencional de história de ação.

Isto se amplifica por uma interpretação muito aquém do elenco principal do filme. Will Smith não parece ter se empolgado com as nuances propostas pelo roteiro, soando à vontade apenas nos momentos herói fodão de seu personagem, enquanto Mary Elizabeth Winstead recebe pouco material para desenvolver-se em tela – no fim, não ajuda nem atrapalha. Clive Owen tampouco tem chão para criar um forte personagem, mas parece tão desinteressado quanto Smith. Resta a Benedict Wong, que opera como alívio cômico no filme, a maior consistência de atuação. O personagem pouco faz além de levar Brogan do ponto A ao B, mas ao menos Wong salta de cabeça nele, por mais raso que seja.

Quanto à música e o desenho de som, estes são completamente operantes. O mesmo pode ser dito da montagem, competente durante os diálogos e refinadíssima nas cenas de ação. É difícil entender o ritmo de um filme cujo efeito nos olhos do espectador é completamente diferente dos demais, e Tim Squyres, habitual editor de Lee, parece ter compreendido a missão e a executado com esmero.

Projeto Gemini é mais um filme esquecível com atuações esquecíveis, mas que, para quem não liga tanto para a história, pode até ser divertido. A tecnologia de construção de Smith jovem, por mais que falhe em uma ou outra cena, é muito bem utilizada. Mais um lançamento incapaz de empolgar, no qual nem o próprio elenco parece investido nisso.

 

CORINGA

03.10.2019

Joaquin Phoenix encarna com maestria o clássico vilão de Gotham em contundente história que metaforiza a psicopatia da sociedade atual

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos: Warner/Divulgação

Sorria, mesmo que seu coração esteja dolorido. Sorria, mesmo que ele esteja partido. Charles Chaplin, que deu vida ao palhaço Carlitos, escreveu esses versos em “Smile”, música composta nos anos 1930 para o filme Tempos Modernos.

Mas como sorrir quando se é miserável de alma e conta bancária? Quando se é vítima de toda a sujeira mais imunda que o ser humano pode produzir? Quando o bullying e o abandono se arrastam pela vida adulta? Quando você perde emprego, vive sozinho, deprimido, e, pra piorar, sofre de transtorno psicótico? Esse é o dilema de Coringa (Joker, EUA, 2019 – Warner). No filme que leva o nome em português do personagem, o vilão se transforma em herói retratado de forma humanizada pelo diretor Todd Phillips (mais conhecido pela trilogia Se Beber Não Case). O aguardado e aclamado longa sobre um dos antagonistas de Batman, vencedor do último Leão de Ouro em Veneza, estreia nesta quinta-feira no Brasil cercado de polêmicas e protagonizado por Joaquin Phoenix, um ator com estrutura física e psicológica para viver o papel que já foi interpretado por Heath Ledger (morto por overdose acidental de medicamentos logo após terminar as filmagens de Batman: O Cavaleiro das Trevas), Jared Leto e Jack Nicholson.

O Coringa de Phoenix sorri por conta de sua psicose acompanhada de um distúrbio neurológico (ele ri incontrolavelmente a ponto de quase sufocar) e do seu trabalho como palhaço de rua. Arthur, na verdade, chora através de suas risadas histéricas. Ele é o freak, o weirdo, em busca de sentido de pertencimento no mundo cada vez mais apático e egocêntrico. Faz parte da escória da humanidade, que de tanto sofrer assume a personalidade de Joker e se transforma num monstro guiado pela violência nua e crua, similar à praticada por jovens armados em escolas e cujos massacres são exibidos e reexibidos pelos telejornais. Por isso a preocupação com a censura: no Brasil, o filme não é recomendado para menores de 16 anos.

A introdução mostra o drama de Arthur em seu ambiente hostil. Gotham City está infestada por ratos reais, numa analogia à Nova York do início dos anos 1980 quando o número de habitantes roedores quase ultrapassou a população. Arthur mora com a mãe num prédio decadente do Bronx e sonha em ser comediante de stand-up. O tempo todo ele é esculhambado, ridicularizado por colegas, agredido por gangue de adolescentes, refém de sua doença, dos remédios e da pilhéria da sociedade em que vive.

Phillips, que coescreveu o roteiro, conseguiu de forma soberba traduzir essa personagem dos quadrinhos capaz de causar tanto fascínio e terror. E humanizar o vilão, digno de pena. Todo o sofrimento serve como base de seu comportamento no decorrer da trama. Arthur não chega a ser um psicopata, pois consegue sentir compaixão: cuida da mãe tão perturbada quanto ele. E como todo psicótico, encontra fuga numa realidade paralela. Quando assiste, por exemplo, ao seu talk show preferido, chamado Live With Murray Franklin, imagina-se dentro do programa. Delira e encontra no apresentador  (interpretado por Robert De Niro) o pai que nunca teve. O mundo de Arthur está em vias de explodir quando perde o emprego, momento em que seu alterego passa a dominar.

O turning point acontece quando ele descobre a verdade sobre sua mãe, sobre o seu passado, sua doença, sobre o pai que nunca conheceu e que poderia ser o mesmo pai de Bruce Wayne, o Batman, super-herói nascido em berço de ouro. Thomas Wayne, bem ao estilo Donald Trump, é candidato a prefeito de Gotham e se refere aos pobres como sendo palhaços. O filme, aliás, faz um paralelo surpreendente com a história de Batman e confronta as duas personagens, dando uma suposta prévia do novo filme sobre o Homem-Morcego.

Na mente do Joker (o nome original do Coringa, em inglês), Arthur passa do homem ridicularizado, vítima de chacota e agressão, ao palhaço vingativo, terrorista. Sua satisfação vem através da violência. Em vez de estourar seus miolos, Arthur decide eliminar quem o ridicularizou. E poupa aqueles que o trataram bem, na maioria das vezes também minorias.

Cenas chocantes não faltam no filme, que alimentam a polêmica de fomentar atos de violência. Entretanto, o roteiro consegue a proeza de, em algumas delas, nos fazer rir com uma certa culpa por conta da atitude perturbada do protagonista. Phillips e Phoenix transformam em arte cenas de dança em que o Coringa comemora e parece emular Carlitos, incorporando gestos de tai chi. Aliás, o balé do Coringa foi feito de improviso. Joaquin e Todd não gostaram do primeiro resultado e o ator, gênio, começou a dançar, o que rendeu uma cena de beleza poética e transformou em marca registrada desse Joker.

A tensão é mantida do início ao fim, garantida pela riqueza da personagem e o brilhantismo do ator. Como é possível esperar qualquer coisa da mente de um psicótico, há tomadas tão carregadas de suspense que o espectador sente aquele frio na espinha. Somando a isso, a trilha sonora do filme é fundamental na manutenção dessa condição de ansiedade e expectativa. Muitas vezes, por si só, uma canção é capaz de dar sentido à determinada sequência. Como “Send In The Clows” (gravada originalmente por Frank Sinatra e interpelada por uma das vítimas do Coringa) e “Smile”, de Chaplin, sobre quem há faz várias referências durante esta história (o homem por trás de Carlitos era um gênio, filho de mãe doente mental e que acabou tendo fama de pedófilo).

Além de close-ups reveladores e movimentos de câmeras sempre em sintonia com o tom sombrio do filme, Phillips também faz uso de elementos não-verbais para mostrar o conflito de personalidade e a angústia de Arthur. Exemplos disto são as cenas em ele aparece numa escadaria, sinônimo de verticalidade, representando os planos do espírito, da mente, a ligação entre o céu e a Terra. A trama, aliás, é tão bem costurada que o espectador não consegue definir quais são momentos de delírio e sanidade da personagem até que, quase na metade do filme, um flashback desnecessário surge como uma explicação para os improváveis desatentos.

Muito mais que a história de um conflito pessoal, Coringa é a metáfora de uma sociedade que caminha para uma psicopatia, na qual seus cidadãos usam da violência, desprezo, abandono para resolver diferenças e exigir seus direitos, num mundo em que a raiva toma conta e os fins justificam os meios. Essa sociedade exclui, ignora, marginaliza e trata essas pessoas como meros clowns.

Quando o protagonista se transforma em vigilante, há referências claras a Guy Fawkes e críticas evidentemente políticas a injustiças sociais, como o fato da extinção do serviço social que garante os remédios de Arthur.

Coringa é um soco na cara. Pisa na ferida e escancara a violência de modo brutal, pura, ácida, nua e crua. É um papel tão forte, poderoso, trágico que só um Phoenix (irmão do ator River, morto por overdose em 1993, aos 23 anos de idade) para encará-lo de forma esplêndida. O ator emagreceu 23 quilos para encarnar o vilão e lembra Christian Bale em O Operário (Bale, aliás, foi Batman nas telas). Nessa nossa sociedade delirante, nem todos são psicóticos, mas pobres mortais são, sim, todos palhaços.

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Represálias

Por evocar a violência e transformar o vilão em herói, embora a Warner negue isso, o filme vem sofrendo represálias e chegou a ser proibido em Aurora, cidade norte-americana onde um rapaz supostamente inspirado no Coringa abriu fogo numa sala de cinema matando doze pessoas em 2012. O medo é que este novo filme inspire novas tragédias. O diretor Todd Phillips, porém, diz que não é justo fazer essa associação. “É um personagem de ficção num mundo fictício que existe há 80 anos”, justificou Phillips numa entrevista.

A Warner divulgou um comunicado respondendo a uma carta escrita por familiares do massacre de Aurora, enfatizando que violência por arma de fogo é um assunto crítico e que o estúdio tem uma longa história de doações a vítimas de violência, incluindo esta cidade do estado do Colorado. “Ao mesmo tempo, a Warner Bros acredita que uma das funções da arte de contar histórias é provocar diálogos difíceis sobre questões complexas. Não se engane: nem o personagem fictício Joker, nem o filme, é um endosso de qualquer tipo de violência no mundo real. Não é esta a intenção do filme, dos cineastas ou do estúdio manter esse personagem como um herói”, declarou a empresa.

 

CORGI: TOP DOG

20.09.2019

Obra assinada por estúdio belga traz humor não muito infantil e diversidade ao mundo dos longas-metragens em animação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Dominado por Pixar, Dreamworks e Illumination, o mercado dos longas-metragens animados ocidentais precisa de um respiro de seu monopólio, a fim de garantir novidade. Não que estas empresas façam trabalhos ruins apesar de nem sempre vemos bons resultados, mas toda diversidade é benéfica. Corgi: Top Dog (The Queen’s Corgi, Bélgica, 2019 – Imagem Filmes), produção do estúdio belga nWave Pictures, traz uma boa supresa para o cenário da animação neste ano.

A trama, dirigido por Vincent Kesteloot e Bem Stassen, revolve em torno da fuga do corgi Rex, que ocupa o posto de Top Dog da Rainha da Inglaterra, quando este sofre uma tentativa de assassinato de seu melhor amigo, que cobiça seu posto. Rex para num canil, conquista amigos por lá, enfrenta um bravo pitbull e volta para casa a tempo de salvar o dia. Estruturalmente, o roteiro de Rob Sprackling e Johnny Smith não inova o gênero, muito menos se destaca por seu humor. Ao longo do filme, cujo público-alvo é claramente o infantil, o espectador sente-se inclinado a não gostar do protagonista. Afinal, Rex beira a arrogância em seus confrontos iniciais, e, principalmente, sente falta do humor infantil. Embora as sutis indicações de humor adulto sejam mais que bastante para animar os adultos da sala, sua correspondência infantojuvenil é praticamente inexistente. Além disso, os personagens da trama são rasos demais para garantir a empatia do público. Não temos indicações suficientes de quem eles são, a não ser o que nos é contado pelos mesmos. Assim, a camada de apoio da trama fica diminuta perante um Rex responsável por todo o arco do filme.

Tecnicamente, porém, o trabalho é muito promissor. Com exceção de um único personagem, todo o traço de Corgi: Top Dog, bem como sua animação de fato, procuram criar uma estética e fluidez próprias de seu universo. Aqui, a nWave desenvolve um estilo próprio de Rex e seus amigos, sem fiar-se no visual já consolidado de outras empresas. Neste sentido, Kesteloot e Stassen operam com eficiência. As cenas de ação do longa também funcionam bem – este é um filme bem feito, afinal de contas.

A dublagem brasileira, como de costume, é competente. No entanto, acredito ser necessário assistir a quaisquer filmes em sua linguagem original, a fim de obter a visão intentada por seus criadores na totalidade. Sendo assim, não há muito a declarar a respeito da atuação aqui.

Esta é mais uma animação capaz de entreter os adultos (em especial durante a primeira metade, recheada de humor ininteligível pelas crianças da sala), mas que lutará pela atenção de seu público-alvo, ainda que com uma estética fofa o suficiente para instigá-los. Resta saber se Corgi: Top Dog venderá satisfatoriamente, alçando sua produtora ao rol das grandes da animação ocidental.

 

RAMBO: ATÉ O FIM

20.09.2019

Retorno de clássico personagem de Sylvester Stallone é um amontoado de convencionalidades regado a violência desenfreada

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Já não é novidade nas minhas resenhas citar o impulso mercadológico e preguiçoso de Hollywood em reviver franquias, tornando-as infindáveis por meio de continuações ou até reboots. Num ponto alto, Rambo não parece interessado somente no retorno financeiro que provém da franquia, soando como um verdadeiro interesse de Stallone em “desenvolver” seu icônico personagem. Dito isto, também não deve surpreender a impressão que desenvolverei aqui. Não sou fã dessa franquia, de maneira alguma, porém opto por encarar – ao menos num primeiro momento – o filme distante de seu contexto com demais obras. Ou seja, me atenho aqui apenas a Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood, EUA, 2019 – Imagem Filmes).

Sem mais ressalvas, a trama escrita por Matthew Cirulnick e o próprio Stallone (com a história desenvolvida pelo ator e por Dan Gordon) compila um amontoado de referências para discorrer a busca de John Rambo por sua “filha adotiva” – neta da antiga empregada de seu pai, que permanece morando no rancho do protagonista, por quem ele desenvolveu um forte afeto e auxiliou a criação. Logo de cara, Gabriella é raptada por um cartel de tráfico sexual mexicano e o que se segue é a busca por vingança da violência cometida contra ela. O roteiro mistura elementos de Busca Implacável, Você Nunca Esteve Realmente Aqui, a série John Wick e até de 007: Skyfall para construir uma narrativa que não preza pelo desenvolvimento. O filme não esconde o interesse em acelerar a história para chegarmos à violência desenfreada.

Sendo assim, não há muito o que discutir a respeito da direção de Adrian Grunberg, cujo único outro crédito de relevância é Plano de Fuga (trama com Mel Gibson encabeçando o elenco), visto que ela é operante porém também não passa disso. A convencionalidade dos planos só é rompida quando, numa tentativa de extrair contexto emocional com um mau uso de linguagem, Grunberg opta por close-ups claustrofóbicos durante diálogos com carga dramática. A ação, que inicia muito confusa, torna-se melhor dirigida e montada ao longo do filme – a sorte do espectador é que ela só se intensifica no final do longa.

Montagem essa que oscila entre operante, tal qual sua direção, e ruim. Quase oitenta anos após a abertura de Cidadão Kane, uma aula de dissolução, Rambo: Até o Fim opta pela cafonice em sua finalização e uma confusão de cortes em sua abertura, uma cena na qual o protagonista tenta salvar um grupo de pessoas de uma noite tempestuosa na montanha, e nos diálogos.

É verdade que este novo longa de Rambo nunca almejou ser mais que entretenimento barato para quem gosta de uma bela porrada, mas – agora, sim, teço uma comparação – é muito aquém de outras tentativas deste porte, como Creed ou até mesmo o primeiro John Wick, segundo a aclamação do público, que toma uma opinião contrária à minha. Não empolga, mas não entedia (muito), como faz John Wick 3. Não desenvolve, mas sempre deixou claro que não queria fazê-lo.

 

DIVALDO – O MENSAGEIRO DA PAZ

13.09.2019

Cinebiografia do médium baiano fica à altura de sua obra ao tratar de temas como a sua atividade filantrópica, o suicídio e o que há após a morte

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Fox/Divulgação

A ideia de que o ser humano é livre para optar pelo seu futuro e tomar decisões sobre seus atos sempre foi debatida pela filosofia e religião. Há quem diga, porém, que o livre-arbítrio é inverossímil, que nosso destino já está predefinido, escrito, seja por Deus, pelos astros ou pela entidade que for. Os budistas, pelo contrário, acreditam na lei da ação e reação, o “karma”, que diz que para toda decisão há uma consequência, boa ou ruim. A doutrina espírita também segue nesta linha, de que a evolução do ser humano depende de um constante aprendizado, o qual demanda esforço diário, pessoal e interpessoal. Nosso objetivo é alcançar a tal da perfeição, outro termo bastante complexo. Por isso, algumas almas precisam reencarnar tantas vezes quantas forem preciso até que essa transcendência moral e intelectual aconteça, por meio da caridade, da tolerância, do perdão, da fraternidade, do amor ao próximo como pregava os líderes espirituais Jesus Cristo ou Mahatma Gandhi.

Um desses seres que beiram a perfeição teve sua biografia transformada em longa-metragem. Divaldo – O Mensageiro da Paz (Brasil, 2019 – Fox) é um filme que retrata um ser humano exemplar que tem se dedicado de corpo e alma a acolher o próximo. Aos 92 anos, Divaldo Pereira Franco segue em atividade na Mansão do Caminho, a obra social do centro espírita Caminho da Redenção, erguido há 67 anos em Salvador e que presta diversos serviços além de ajuda espiritual a milhares de pessoas independentemente da religião. Hoje são 600 crianças acolhidas pela entidade filantrópica.

Ao contrário do popular Chico Xavier, o nome Divaldo é conhecido apenas entre os seguidores do espiritismo, mesmo tendo proferido dezenas de palestras ao redor do mundo e vendido mais de oito milhões de livros. Por isso, estava mais que na hora da cinebiografia sobre o médium entrar para o rol dos filmes espíritas.

O diretor Clovis Mello, que assina também o roteiro, conseguiu entregar uma obra correta e à altura do médium, tirando alguns tropeços perdoáveis. O longa foi baseado no livro Divaldo Franco: a Trajetória de um dos Maiores Médiuns de Todos os Tempos, de Ana Landi, e, assim como o filme Kardec (sobre o pai do espiritismo, lançado no primeiro semestre deste ano), também deveria ser visto por adeptos de qualquer doutrina ou religião. Primeiro por tratar de temas delicados, como o suicídio (lembrado neste mês pela campanha Setembro Amarelo), e pela visão que católicos e espíritas têm sobre a morte. Outro motivo está explícito no título do longa: a mensagem de Divaldo, que abdicou de uma vida tradicional para dedicar-se à filantropia, para levar um pouco de paz e amor àqueles que sofrem de carência, financeira ou afetiva.

O filme conta a trajetória do menino, nascido em Feira de Santana, Bahia, que desde os quatro anos de idade se comunica com os mortos e, por isso, precisa a aprender a conviver com o preconceito dos incrédulos. Pela mediunidade ter se manifestado cedo, conversar com a avó morta por exemplo era tão natural quanto bater um papo com um familiar de carne e osso.

Três atores interpretam o médium: João Bravo, na infância; na mocidade, Ghilherme Lobo; e pelo recifense Bruno Garcia, na fase adulta. A história é contada de forma linear e Mello mostra a evolução do caráter de Divaldo, com sua teimosia e orgulho presentes na juventude, até a aceitação da sua vocação e a posterior conquista da serenidade.

A escolha do elenco, aliás, foi decisiva para garantir coesão à trama e alcançar a empatia do espectador, principalmente em relação ao sotaque. Os pais de Divaldo, por exemplo, são interpretados por atores de teatro baianos. A mãe, dona Ana, é Laila Garin, que conduz sua personagem com uma doçura irresistível. Caco Monteiro é Seu Francisco, o pai severo, porém capaz de absorver ao longo do tempo as diferenças do filho.

Divaldo pertencia a uma família católica e, logo no início do filme, surgem várias críticas à igreja. Numa das cenas mais cômicas, o médium, na pele de Ghilherme, vê o espírito da mãe do padre com quem está se confessando. Curioso, o religioso pergunta como sua mãe está vestida e a resposta de Divaldo o faz se libertar de suas amarras.

O longa ainda mostra como o espírita recebeu apoio de pessoas queridas, verdadeiros “pontos de luz”: dona Ana é uma delas e representa a verdadeira mãe de sangue nordestino. Do início ao fim da sua vida, concede o apoio incondicional ao filho, quando, por exemplo, ele é convidado pela médium Laura (Ana Cecília Costa) ainda na adolescência a se mudar para Salvador para estudar a doutrina e trabalhar como datilógrafo. Outro que permaneceu ao lado do médium desde jovem foi o amigo Nilson.

Em sua jornada, Divaldo recebe orientações de sua guia espiritual, Joanna de Angelis, reencarnação de Santa Clara de Assis, a quem é atribuída a maior parte das mensagens psicografadas pelo baiano. A entidade é interpretada por Regiane Alves, que logo coloca os pingos nos is a Divaldo, alertando-o sobre as dificuldades, resistência e preconceito que enfrentaria. Por mais que a doutrina espírita evoque o livre-arbítrio, o filme nos leva a entender que Divaldo já estava predestinado e que ter filhos de sangue não estaria incluso na sua missão. Ele teria filhos de coração.

O contraponto de Joanna vem na forma do espírito obsessor incorporado pelo ator Marcos Veras, que soa um tanto caricato, vestido de preto, com maquiagem pesada e fantasmagórica. A alma assombra a mente de Divaldo, sempre atiçando-o para o lado negro. Outro ponto forçado é a trilha sonora, que parece ter sido escolhida a dedo para arrancar lágrimas dos olhos dos espectador mais sensível – como na cena em que Divaldo perde a sua mãe com “Ave Maria” ao fundo.

No geral, Mello preocupou-se em enfatizar a doutrina espírita em sua essência, de uma forma leve, graciosa e com diálogos bem-humorados. Porém, as falas de Regiane Alves, principalmente, fogem desse viés e soam um tanto cansativas, em tom de sermão. Em certas cenas, a atriz chega a perder o fôlego para dar conta do texto extenso.

Entre tantos ensinamentos transmitidos por Joanna a Divaldo, um deles é determinante para acolher em nosso cotidiano tão trivial, quando encarar alguns vivos chega a ser mais aterrorizante do que topar com uma alma penada. A melhor resposta para enfrentar a intolerância é o silêncio.

 

IT: CAPÍTULO DOIS

06.09.2019

Clássica trama de Stephen King ganha sequência na qual amigos de adolescência voltam a enfrentar o palhaço Pennywise 27 anos depois

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Enfrentar medos, lutar contra fobias e espantar traumas que muitas vezes nos impedem de arriscar e mudar o rumo da vida são os maiores desafios do ser humano. As cicatrizes deixadas por casos de bullying, desamparo ou frustração, sobretudo na infância, moldam nosso caráter e personalidade e assombram a mente, como se fôssemos perseguidos eternamente por monstros.

Em It – A Coisa, todos esses medos e sequelas do passado, conscientes e inconscientes, personificam-se numa figura ambígua e que de engraçada não tem nada: o terrível palhaço Pennywise, do clássico de mais de mil páginas escrito pelo mestre do terror Stephen King. O livro foi publicado em 1986 e ganhou a primeira adaptação no formato de telefilme em 1990. Três décadas depois, a história reapareceu desmembrada em dois capítulos a fim de cativar desde a geração X até os millennials que já nasceram na era dos efeitos especiais computadorizados.

A primeira parte do remake estreou em 2017, trazendo para as telas a história de sete amigos (Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly, que formaram o Clube dos Losers) e enfrentaram na virada para os anos 1990 o palhaço devorador de criancinhas. A continuação desta trama assustadora chegou nesta quinta aos cinemas brasileiros Em It: Capítulo Dois (It: Chapter Two, EUA/Canadá/Argentina, 2019 – Warner) os amigos da adolescência fazem jus ao pacto de sangue e revivem os traumas e medos do passado ao se reencontrarem, 27 anos depois, para lutar contra o mesmo fantasma – ou melhor, o mesmo palhaço dos balões vermelhos. A criatura é tão horripilante que talvez só outro palhaço seja capaz de desbancá-lo em bilheteria e terror: o Coringa encarnado por Joaquin Phoenix, que chega no mês que vem aos cinemas.

Em se tratando de Stephen King é desnecessário informar que o filme é longo, com quase três horas de duração. Mas nada que um roteiro e direção sintonizados garantam uma experiência agradável e prazerosa, apesar de aterrorizante, como uma sessão de psicanálise. Para adaptar um “catatau” do rei Stephen só mesmo um roteirista expert em filmes de terror (Gary Dauberman, de A Freira, A Maldição da Chorona Annabelle) e a parceria impecável com o diretor portenho Andy Muschietti. A dupla consegue manter uma sincronia especial para segurar o público na poltrona até o fim, mesmo quando aborda clichês como a cena de início do filme, ambientada num parque de diversões. Lá é onde o medo e a diversão se encontram. Em vez de um casal heterossexual, a história já coloca de cara dois namorados sofrendo o ataque homofóbico de uma gangue de valentões.  O roteiro também se preocupa em situar aqueles que não assistiram ao primeiro capítulo de It, através de uma série de flashbacks muito bem coordenados na trama e que por diversas vezes retomam a narrativa de forma até poética.

Nesta segunda parte, a aventura revivida pelos amigos, agora adultos, traz um ar nostálgico, um misto de Goonies com Indiana Jones e Stranger Things (um dos membros do grupo teen é vivido por Finn Wolfhard, que também está no elenco da série da Netflix) ao som de New Kids On The Block. A escolha dos atores e a construção das personagens, por si só, garantem a empatia do público. Difícil não se identificar com o perfil deles, que acumulam defeitos como todo loser. Ben (Jay Ryan), que sofria bullying pelos quilinhos a mais, virou atleta mas ainda tem o pensamento estereotipado de “gordinho”. A doce Beverly (que na fase adulta é interpretada pela ruivíssima Jessica Chastain) casou-se com um marido possessivo, bem aos moldes de seu pai, e precisa ser durona para enfrentar as agressões. Outro exemplo, Bill (James McAvoy), tornou-se escritor e roteirista de cinema mas é mestre em fazer finais ruins, porque assim é a realidade, repleta de finais infelizes.

Dos sete, apenas um componente do Clube dos Losers permaneceu em Derry, a cidade fictícia que fica no estado de Maine e onde se passa a trama. E quem é fã do “iluminado” Stephen King sabe que o cenário de suas histórias só pode ser onde o escritor de 71 anos mora até hoje. Maine é marca registrada da obra do rei do terror, estado que abriga suas cidades fictícias, com atmosfera nebulosa, como Chamberlain de Carrie, a Estranha, ou Ludlow, de Cemitério Maldito.

O Capítulo 2 de It tem início quando Mike (Isaiah Mustafa) monitora uma série de mortes atribuídas a Pennywise (Bill Skarsgård). A partir disso e por 2h49 para ser precisa (por isso, um conselho: vá ao banheiro antes da sessão começar), assistimos a um thriller psicológico que mistura humor negro e pitadas de melancolia que só a mente fértil de King é capaz de proporcionar.

A trama é recheada de cenas sangrentas, obviamente explícitas, nuas e cruas. Quando Pennywise ataca as criancinhas, babando de fome, ele abocanha sem dó nem piedade. E a direção não poupa esse choque e escancara a violência, nos levando a tomar sustos mas não ao ponto de pular da poltrona – mesmo porque já estamos habituados a ver coisas semelhantes nos telejornais diários.

Outras cenas um tanto trash trazem diálogos tão bem-humorados e criativos que, em vez de medo, instigam o riso. Resta saber quem vai rir por último dessa vez: Pennywise ou os amigos da adolescência?

 

YESTERDAY

31.08.2019

O consumo musical de hoje em dia é questionado com história costurada por canções dos Beatles em um mundo onde a banda não existiu

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Universal Pictures

Talvez um mundo sem Rolling Stones seja possível. Sem Beatles, porém, jamais. Pelo menos essa é a visão de Yesterday (Reino Unido, 2019 – Universal Pictures), filme dirigido pelo aclamado Danny Boyle, do cult Trainspotting e do oscarizado Quem Quer Ser um Milionário?, que estreia no Brasil com dois meses de delay.

Em resumo, o longa é uma bela homenagem aos Fab Four, com críticas sutis ao showbiz frente ao mundo volátil de hoje e carregando uma mensagem totalmente John Lennon no final. Quem assina o roteiro é Richard Curtis, o neozelandês naturalizado britânico especialista em comédias românticas água com açúcar como Quatro Casamentos e um Funeral Um Lugar Chamado Nothing Hill. Da dobradinha inglesa, quem se sobressai é o roteirista que imprime sua digital ao filme, abafando a direção de Boyle.

O longa conta a história de Jack Malik (interpretado pelo britânico filho de pais indianos Himesh Patel) que vive em Lowestoft, condado de Suffolk, Inglaterra, com sua vidinha de repositor num supermercado. Em paralelo, ele se apresenta em pubs e festivais, tocando as composições que compõe, às quais ninguém dá muita atenção. Pela decoração do quarto de Malik, dá pra perceber sua paixão por indie rock: há pôsteres da banda escocesa Fratellis; do álbum In Rainbows, dos ingleses do Radiohead; e dos americanos Killers. Além de cantar, Malik é multi-instrumentista (toca piano, violão e guitarra) e guarda uma supercoleção de discos de vinil dentro do armário.

Quem dá suporte à sua carreira são os amigos. Em especial Ellie Appleton (Lily James), parceira desde a infância e que se tornou uma espécie de manager de Malik. Lily é uma garota meiga e romântica, que dá aulas de matemática numa escola e, claro, nutre uma paixão platônica por Malik.  Quando, frustrado, o rapaz pensava seriamente em desistir do sonho de se tornar um cantor famoso, o inesperado acontece. Ao voltar para casa pedalando após um show praticamente às moscas, ele é atropelado por um ônibus durante um apagão planetário, como o bug que todos esperavam na virada do milênio. Jack vai parar no hospital e lá já percebe que há algo mais estranho do que ele ter ficado banguela. O rapaz cantarola trecho de uma canção dos Beatles e Ellie sequer reconhece. Ao receber alta, ganha um violão novo de presente e interpreta a canção que batiza o longa, “Yesterday”, que Paul McCartney compôs logo após lembrar-se de uma melodia vinda durante um sonho.

E então o mote do filme começa. Malik reage ao impacto de saber que é o único que se lembra de Beatles, num misto de indignação e nervosismo. Os amigos do protagonista chegam a comparar “Yesterday” com “Fix You”, do Coldplay – um dos momentos hilários do longa. O mundo, então, torna-se estranho, vazio e sem sentido para o rapaz que, por várias vezes, recorre ao Google para descobrir se algo mais desapareceu no fog. Será que o Oasis sequer existiu também?

Malik se vê na obrigação de mostrar ao mundo o que só ele lembra e, de quebra, consegue impulsionar sua carreira ao se apropriar da obra de Paul, John, George e Ringo, despertando, claro, curiosidade e desconfiança por conta de toda essa explosão criativa que surge da cabeça de quem compunha canções banais.

Conforme ele mergulha na memória para buscar cada palavra e cada acorde do repertório beatle, revela-se a trilha sonora do filme, repleta de “lados A” como “I Wanna Hold Your Hand”, “In My Life”, “Help!”, “Eleanor Rigby”, “I Saw Her Standing There”, “All You Need Is Love”, “Let It Be”, “Hey Jude”, “Here Comes The Sun” e “Ob-La Di Ob-La-Da”. Para relembrar a dificílima letra de “Eleanor Rigby”, precisa ir a Liverpool e visitar alguns lugares, por exemplo. E assim várias canções do quarteto vão dando um contorno ao filme, cada qual situada com um propósito definido.

Os “novos hits” passam a chamar atenção e Malik conhece Ed Sheeran, a grande surpresa do longa. O astro pop interpreta ele mesmo, como uma autocaricatura, um clown, e é responsável por arrancar boa parte das risadas do público (algo me diz que Sheeran teve aulas com Hugh Grant!). As obras-primas despertam também os olhares da manager de Sheeran, Debra Hammer (a comediante Kate McKinnon, que dá um show ao personificar a produtora sem escrúpulos).  De rapaz desconhecido, Malik vira ídolo pop. Alcança e conhece de perto a fama, primeiro abrindo shows do astro ruivo inglês que compôs “Shape Of You”, cujo refrão surge repetidamente no filme. Numa das cenas, os dois chegam a disputar quem faz a melhor música na hora (adivinhe quem ganha!).

A partir do momento que o protagonista começa a fazer sucesso com os hits dos Beatles – e obviamente desbanca Ed Sheeran – é possível perceber críticas implícitas sobre as mudanças sofridas na indústria do entretenimento nestas últimas décadas. Como a tecnologia transformou o processo de criação (quem é capaz de fazer uma letra como Eleanor Rigby hoje?) e facilitou o consumo de música pop requentada (porque a original Coca-Cola também desapareceu do mundo e só existe Pepsi?); e também como o marketing digital revolucionou a divulgação do trabalho dos artistas. A direção de Boyle, com seus efeitos visuais e ritmo dinâmico, nos faz mergulhar na era dos downloads, aplicativos e redes sociais e refletir sobre essas alterações tão impactantes na indústria cultural. Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band perde o colorido e “Help!” se transforma num hardcore meia boca.

O eixo principal do filme, porém, é o relacionamento entre Malik e Ellie, que fica conturbado depois que o rapaz atinge o estrelato. Mas a tensão entre o casal só vem à tona nos minutos finais. Aliás, Yesterday desanda da metade para o fim (se perde assim como a série Lost) e a expectativa de um desfecho criativo é atropelada por um ônibus biarticulado.

Mesmo assim vale assistir a Yesterday pelo tributo, pelos covers bem executados por Patel, para rir de Ed Sheeran e, sobretudo, refletir sobre o modo como consumimos cultura e amor hoje em dia. Como já diziam os Beatles, bem fresquinho na memória: “in the end the love you take is equal to the love you make”.

 

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD

15.08.2019

Quentin Tarantino faz seu devaneio sobre o star system americano de 1969 com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie em boas atuações

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Tarantino é um Midas do cinema contemporâneo. Um dos poucos cineastas cujo nome é capaz de encampar quaisquer projetos, seja uma homenagem aos quadrinhos pulp a um episódio da saga Star Trek (será?). Seu nono filme, Era Uma Vez Em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, EUA, 2019 – Sony Pictures) reúne tradicionais nomes de seu starcast com hits do mercado em um devaneio por Los Angeles de 1969.

Antes de laurear Tarantino, devo explicitar uma preferência pessoal: não sou um grande fã de seu cinema. Não o vejo como o brilhante artista que muitos veem. Longe disso. Ainda assim, não me indisponho com a possibilidade de um novo filme seu – é um diretor competente, isso é inegável. Dito isto, é possível agraciá-lo um tanto.

Desde sua estreia, em Cannes, pouco se pôde falar sobre este roteiro escrito por Quentin Tarantino. Em respeito ao filme, acredito que uma sinopse não é a melhor opção por aqui. Basta dizer que o aclamado diretor inova ao conduzir uma trama diferente daquelas que tradicionalmente faz – e o esforço é válido.

Tarantino conduz perfeitamente o filme que propõe desde o princípio (mas não o filme que queríamos ou sequer esperávamos), conduzindo o espectador por um retrato da Los Angeles do ano em que os EUA chegaram à lua e, aqui na Terra, brigavam com hippies em seu próprio solo. São diversas as cenas em que os personagens simplesmente passeiam em seus carros pelas principais ruas da metrópole. Ainda assim, não existe em Era Uma Vez…o diálogo tarantinesco que tanto embala sua filmografia, o que pode desapontar seus mais ávidos fãs. Para mim, foi uma perda irrisória, afinal o texto é muito bom.

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Pode ser desnecessário, mas vale lembrar que o filme segue o já decadente astro de cinema e TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt) em uma tentativa de retornar ao estrelato. Ao mesmo tempo, trabalha com os últimos dias da vida de Sharon Tate, atriz que fora brutalmente assassinada pela Família Manson. As três narrativas são exploradas e chegam a se entrelaçar volta e meia (por exemplo, Rick é vizinho de Sharon). Mais que estas leves interações, elas não se misturam.

Os personagens principais são intensamente trabalhados, tanto em direção, quanto na atuação. DiCaprio encarna um de seus melhores personagens, juntando o humor com momentos sinceramente tocantes. Um pouco abaixo vem Brad Pitt, que não é tão desenvolvido emocionalmente no roteiro, embora performe com excelência. Margot Robbie fala pouco, mas transmite bem o que Tarantino quis passar.

O que nos leva a um problema do filme: a minimização do papel das mulheres, embora muitas existam na trama. Em Era Uma Vez… em Hollywood, bem como há cinquenta anos atrás (mais especificamente, em 1969), as mulheres eram vistas como, em certo nicho, nada mais além de hippies dançantes, máquinas sexuais e material para closes abaixo dos quadris. Tarantino desenvolve uma mise-en-scène brutalmente misógina quando, além de atribuir mínima importância para as várias mulheres do longa, trata-as em grande maioria como apelo sexual para a câmera. Não é de hoje que Tarantino precisa se atualizar e, temo, esta atualização deve vir com urgência.

Tendo o adendo, vale ressaltar como a cinematografia de Robert Richardson, companheiro de longa data do diretor, evoca o clima da época sem perder a naturalidade com que conduz o estilo aclamado deste. Richardson mais uma vez cria composições belíssimas, desta vez mais urbanas que o normal – um ar bom à filmografia estancada de Tarantino. Eleva-a mais ainda a direção de produção, que insere o espectador em sua época sem quaisquer efeitos visuais, segundo o diretor.

Com meu desagrado pelo diretor, fui à sessão de Era Uma Vez.. em Hollywood com mais curiosidade que expectativas. Saí surpreso, agraciado e feliz de embarcar numa viagem de Tarantino à época que tanto lhe é saudosista. Talvez um ponto fora da curva de sua carreira, este longa não bebe tanto das saturadas referências de seu autor e, ao mesmo tempo, não deixa de ter sua marca registrada em uma cena sequer.

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THOM YORKE

13.08.2018

Novo álbum solo do vocalista do Radiohead ganha ainda mais beleza quando transformado em curta dirigido por Paul Thomas Anderson

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Textos por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Já se pode encarar Thom Yorke como uma figura marcante do cenário musical das últimas décadas. À frente do Radiohead, ele marcou o rock alternativo, sempre inovando em estilo, sonoridade e atitude. Com o Atoms For Peace, mesclou sua musicalidade melancólica com o caos eletrônico. Em seu projeto solo, intensificou o sentimento a um nível muito mais cru e denso. Depois de The Eraser (2006) e Tomorrow’s Modern Boxes (2014), Yorke lança Anima, com direito a um curta-metragem assinado por Paul Thomas Anderson.

Em todos seus projetos, há uma similaridade: o produtor Nigel Godrich. Com ele, Thom constrói o ambiente distópico de seu novo álbum com maestria, soando de maneira semelhante ao álbum AMOK (2013), do grupo Atoms For Peace, em que ambos trabalharam com o baixo de Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Envolventes batidas fortemente eletrônicas se iniciam desde “Traffic”, sua primeira faixa. No entanto, parece haver um intenso flerte com a estética da música pop permeando as primeiras faixas de Anima, mas dura pouco. Lentamente, o ambiente volta a soar como os últimos trabalhos de Yorke, seja com o AFP ou no Radiohead.

Num vai-e-volta entre fortes sintetizadores e sua mescla com instrumentação orgânica baseada em cordas, o estilo de Anima não se distingue muito da identidade já consagrada por seu autor. A quarta faixa, “Dawn Chorus”, prova, no entanto, que esta identidade esta longe de transmutar-se em repetição incessante da mesma ideia. Sua simples conjunção de um poema com uma base de sintetizadores em loop é parte vital do curta-metragem de Anderson – que, por si só, receberá atenção exclusiva mais abaixo.

A partir de “I Am A Very Rude Person” (que sucede “Dawn Chorus”), Yorke e Godrich parecem voltar-se ao ritmo de seus antigos discos com o Radiohead. O baixo assume um papel importante, enquanto os sintetizadores e desesperadores instrumentos de percussão se apequenam, tomando protagonismo aqui e ali. Assim, os artistas parecem mesclar aquilo que fariam em seu projeto solo com sons que se coadunam com a identidade musical de Radiohead.

“Impossible Knots”, a penúltima música, traz à tona um groove surpreendente, ainda que esperado, em paralelo à ambiência de fortes sintetizadores. A melhor trabalhada conjunção da vertente eletrônica do compositor com sua raiz no rock. O álbum se encerra com “Runwayaway”, faixa que, por sua vez, se destaca pelo protagonismo da guitarra de Thom, acompanhada das suprimidas batidas comuns à obra do artista.

A melancolia anteriormente ressaltada se mescla, em Anima, à vibração caótica da timbragem eletrônica característica de seu autor. Suas melhores faixas, “Dawn Chorus” e “Impossible Knots”, trabalham, dicotomicamente, a monotonia sintética e o groove incorporado ao eletrônico, produzindo um bom panorama da intensidade de experimentação à qual Yorke e Godrich se propõem. Se possível, Anima é um álbum que deve ser apreciado antes de sua contraparte fílmica.

***

Grandes artistas, quando em conjunto, superam as expectativas. Ao passo que a rotina de cabines de imprensa obriga a supressão de quaisquer sentimentos similares direcionados aos filmes, o anúncio relâmpago do curta-metragem de Paul Thomas Anderson, inspirado no novo álbum de Thom Yorke, acendeu um forte hype em minha rotina. Com apenas quinze minutos, o filme é um one-reeler sem diálogo algum (one-reeler foi um estilo recorrente de curta-metragens na época dos filmes silenciosos; o nome provém do fato destes, geralmente comédias ou cartuns, estarem contidos em um único rolo de filme e cada um destes suportava aproximadamente onze minutos de duração). Ainda assim, é muito mais emocionante que a maioria dos lançamentos deste ano nos cinemas brasileiros.

Em Anima, o vocalista do Radiohead assume o protagonismo de uma narrativa distópica e subjetiva. Nela, Yorke parece ser o único personagem a não agir conforme o esperado. Embalados por três músicas de seu álbum, os dançarinos figurantes mimetizam uma sociedade apagada e presa no piloto automático.

Com um roteiro nada convencional, Anima atiça seu espectador a buscar interpretações para sua trama, de forma a tornar injusta a exposição de minha leitura da semântica do filme, a fim de não viciar o olho do leitor. Esta não é uma obra difícil de se entender, mas é fortemente subjetiva e carregada de argumentação sociopolítica.

Em seus dois primeiros atos, cada um movimentado por uma música diferente, Anima introduz a ambientação e seu protagonista ao som de fortes faixas de glitch pop: “Not The News” e “Traffic”. Sua arte e direção homenageiam os primórdios do cinema, com tratamento a la Buster Keaton do protagonista e cenários inspirados naqueles consagrados pelo impressionismo alemão. Thom percorre longos corredores monótonos que parecem ter fugido das narrativas de Nosferatu ou de O Gabinete do Doutor Caligari.

Sua grande transição vem em sua conclusão ao som de “Dawn Chorus”. Tal como a faixa, é uma parte aterrada, focada no exterior e não tão distópica. Thom e sua acompanhante, interpretada pela italiana Dajana Roncione, dançam uma coreografia íntima assinada por Damien Jalet, belga que trabalhou com o cantor na mais recente versão do longa Suspiria.

A fotografia em filme do franco-iraniano Darius Khondji alia-se ao pensamento de Anderson, abusando do granulado para ressaltar Yorke numa estética que beira as escalas de cinza. Ainda é mérito do diretor a mescla incrivelmente bem sucedida de seu estilo com a música de Thom e, principalmente, a homenagem aos clássicos do cinema.

Anima é um filme incrivelmente poético, tanto em linguagem quanto em sua trilha sonora. Por seu tamanho e magnitude inversamente proporcionais, é um curta-metragem que deve ser estudado por amantes da sétima arte. Espero que surjam mais obras-primas como esta da união entre o músico e o cineasta.

 

RAINHAS DO CRIME

08.08.2018

Adaptação de série de HQs lançada pela Vertigo se perde na montagem ansiosa e roteiro pretensamente empoderador

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Desde Homem de Aço, a Warner/DC tenta emplacar sucessos filmográficos de público e crítica com adaptações de suas inúmeras histórias em quadrinhos. Ano após ano, falhas foram entremeadas por leves acertos, como seu último lançamento, Shazam. Agora, adaptando a série da Vertigo The Kitchen, a Warner lança uma história pé no chão com elenco de peso. Mas será que deu certo?

O primeiro impulso é dizer um sonoro “não”, embora sejam necessárias reflexões. A direção de Andrea Berloff, a princípio de conversa, é competente. Não é muito única e acaba na sombra dos problemas do filme. O roteiro, também assinado por ela, não cumpre seu papel tão fortemente. O primeiro problema de Rainhas do Crime é sua sucessão de cenas e o conteúdo textual: nada parece ter um sólido intuito para existir no filme, além de uma convenção rasa de intenção. Isso faz com que as cenas tenham diálogos desconexos e, causa de forte confusão, sejam desconexas das cenas anteriores e predecessoras. Aliado ao principal defeito do filme (entrarei em detalhes mais tarde neste texto), o roteiro cria uma história entediante – por sua falta de coesão e estrutura de atos – e de ritmo extremamente rápido.

O que nos leva à montagem de Christopher Tellefsen. A cada duas sessões de diálogo (afirmação/resposta/afirmação/resposta), a cena acaba. Ou seja, não se constrói um texto – ou espaço de respiro para a atuação – forte o suficiente para o desenvolvimento eficiente de um arco imersivo em qualquer uma das várias tramas que percorrem o filme. Assim, além de performances danificadas extremamente pela ansiedade da montagem, o filme perde sua coesão – mesmo ponto abordado no roteiro – pela sucessão sem sentido dessas cenas rápidas. Chega a ser comparável com a falha tremenda que permeia Bohemian Rhapsody. Enquanto o roteiro não tem um manejo consistente da passagem de tempo, a montagem faz com que qualquer tentativa de obtê-lo seja apagada. É difícil entender, pelo menos por enquanto, quão danoso foi o peso do estúdio na finalização do material. Mas isto não apaga a confusão que Rainhas do Crime estabelece.

Sendo assim, se nos dispusermos a ignorar tais problemas, algumas atuações são capazes de salvar o longa-metragem. Melissa McCarthy e Elizabeth Moss entregam certo nível de dimensão a suas personagens, em polos completamente opostos – enquanto uma é a “mãezona”, a outra é uma vítima de violência que nela se escora para obter poder. Domhnall Gleeson se ressalta pouco, numa atuação competente e emotiva, mas, infelizmente, que se distancia muito de seus melhores trabalhos. O elenco de apoio relacionado à gangue, incluindo os maridos das protagonistas, é completamente unidimensional e Common não traz sentido algum ao filme. Infelizmente, duas afirmações que se estendem à personagem de Tiffany Haddish, a protagonista Ruby. Sua interpretação soa desconfortável, reproduzindo estereótipos que não parecem a intenção da atriz, sim do texto que lhe foi entregue. Além disso, a constante indecisão referente à motivação e consequências desta na personagem e em sua relação às demais protagonistas gera uma compreensão afetada da semântica por trás de seu trabalho. Este problema se estende à infinidade de arcos mal resolvidos e consequências inexistentes para estas resoluções, fator que permeia todo o desenvolvimento do filme.

Por fim, a música de Bryce Dessner (ou escolhida pelo integrante do National para figurar o longa) é literal demais, anulando a capacidade imersiva que a banda sonora exerce sobre uma obra. Este é um erro comum às obras da produtora, que parece insistir na decisão óbvia com motivações que não tenho capacidade para compreender. Acredito que o efeito que se desenvolve de uma letra que exprime exatamente o sentido semântico que a cena tenta transmitir é justamente o oposto do esperado: ao invés de emoção amplificada, ocorre um achatamento desta na cena.

Rainhas do Crime parece um filme desesperado por um nicho, apostando de forma confusa em um roteiro pretensamente empoderador que cai por terra. Confuso em montagem, trama e subtramas, seu efeito é entediante, o que faz com que o público saia da sessão se perguntando se o material vindo da fonte era capaz de algo melhor.

 

BANQUETE COUTINHO

02.08.2018

Documentário inverte posições e desvenda o diretor que se confortava em extrair o imaginário de seus entrevistados

Banquete Coutinho 2019

Texto por Isabella Shiota

Foto: Divulgação

“Eu me vejo como um lugar onde alguma coisa está acontecendo, mas não existe um eu”, cita o diretor Josafá Veloso ao próprio autor da frase, Eduardo Coutinho, que responde com uma confirmação. Assim se inicia o documentário Banquete Coutinho (Brasil, 2019), filme exibido na abertura do 8º Olhar de Cinema de Curitiba, no qual o diretor Eduardo Coutinho está agora na posição de entrevistado, respondendo questões sobre seu fazer artístico e relembrando sua trajetória como jornalista e documentarista.

O filme resgata cenas do premiado Cabra Marcado pra Morrer(1984), além deSanto Forte(1999), Edifício Master(2002) e o póstumo Últimas Conversas(2015) intercalando com uma entrevista feita por Josafá em 2012, dois anos antes da morte de Coutinho. Há lembranças também da época em que ele fazia parte da equipe do Globo Repórter e um filme da década de 1950, de quando estudou direção e montagem em Paris.

Ao considerar que a presença da câmera transforma a reação do entrevistado, eram desses minutos de confissão que Coutinho conseguia o extraordinário, a essência. “O concentrado do filme é sempre superior. Aqueles 5 ou 7 minutos de fala individual, para mim, são a pessoa. Porque o real, é rotina”, afirmava. Por isso, o conceito de Eduardo sobre seus documentários serem “quase ficção”. Coutinho chamava seus entrevistados de personagens. Para ele, nos minutos de fala, as pessoas assumiam personagens para contar suas vidas.

Com o cigarro sempre entre os dedos, Coutinho fala de si e afirma que as pessoas são contraditórias, incluindo-se.  Em alguns momentos, ranzinza porque realista. Mas seu olhar é sempre de compreensão pela incompletude e respeito pela condição humana. Cita também algumas influências de seu trabalho: Pierre Bordieu, Walter Benjamin e Lacan.

Josafá também entrega momentos de descontração do entrevistado, quando retira uma confissão sobre o cigarro. “Peguei o vício há 54 anos, gosto do gesto e de ver a fumaça saindo. Não tem graça fumar no escuro. Tenho enfisema, faço exames todo ano. Mas deixar de fumar, não.”

E nem de filmar. Para Coutinho, os filmes eram o seu propósito de vida. Certa vez disse que não vivia a vida dos seus entrevistados, mas saber que suas histórias existiam o confortava. Em outro momento, ele sorri discretamente, quando Josafá o denomina materialista mágico. No livro, Eduardo Coutinho(Edições Sesc SP, 2013, organização de Milton Ohata), o diretor relatou não estar à procura da verdade, mas do imaginário das pessoas. Para ele, não existir um eu é se permitir ser preenchido pela fala do outro, estar aberto para compreender mundos, crenças e memórias, como já afirmara em uma entrevista a Eric Nepomuceno, feita em 2012.

Por entender que o maior desejo do ser humano é ser legitimado como destino e singularidade através da escuta, assim trabalhou na maior parte de sua trajetória. E se fazer arte é sobre o como se faz, seu maior legado foi o de fazer seu público se ver em seus personagens, tratando todas as memórias com lirismo.

 

O REI LEÃO

01.08.2019

Clássico desenho da Disney ganha nova versão de deslumbrante animação realista com cenários e animais construídos digitalmente

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Texto por Flavio St. Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Faz 25 anos que a Disney levou para as telas a sua versão da história de Hamlet, o príncipe atormentado pela morte do pai, exilado pelo tio e que, com a ajuda de dois fieis escudeiros e uma bela dama, tenta retomar seu rumo. Guardadas as devidas proporções, não dá pra negar as inspirações shakespeareanas de O Rei Leão, uma das melhores produções da história da animação.

Agora, com a nova tática do estúdio de transformar seus clássicos em versões em animação mais realistas, o que parecia impossível aconteceu: Simba, Nala, Timão e Pumba chegam às telas em versões “de carne e osso” digitais pra encantar uma nova geração de fãs em O Rei Leão (The Lion King, EUA, 2019 – Disney/Buena Vista). A história a gente já conhece: o leãozinho Simba é acusado da morte do pai, o rei Mufasa, e foge para um exílio autoimposto até voltar para retomar seu trono. Os personagens a gente também já conhece. Além dos já citados, reencontramos Scar, Rafiki, Sarabi, Shenzi e Zazu em um novo visual.

E chegamos no ponto principal desta nova versão de O Rei Leão: o visual. É absolutamente deslumbrante tudo o que vemos em cena. Se pensarmos que aqueles animais são todos digitais, o longa chega a ser inacreditável. Leões, hienas, antílopes, girafas, suricatos desfilam na tela em cenas incríveis de encher os olhos.

Se uma das reclamações dos trailers era a de que os animais eram menos “expressivos” que os da animação (afinal de contas, leões não sorriem enquanto cantam, né?), eles ainda conseguem ser mais expressivos que Kristen Stewart ou Keanu Reeves.

Nada, absolutamente nada no filme é ruim. Se em Mogli – O Menino Lobo o diretor Jon Favreau já tinha demonstrado o que poderia fazer com estes animais digitais, em O Rei Leão ele coroa o uso de sua tecnologia de forma espetacular.

Algumas mudanças, sim, são sentidas com relação à animação em 2D de 1994. A falta de uma ou outra cena (como Rafiki dando uma lição dolorida em Simba) ou modificações em outras (ah, meus amigos, a cena da hula ganhou um upgrade de aplaudir de pé), mas nada que afete a estrutura principal. Com um tom mais sério, o novo longa encanta crianças e os adultos saudosos do original. Chega para ser um novo clássico.

 

TED BUNDY: A IRRESISTÍVEL FACE DO MAL

26.07.2019

Docudrama tem ótimas atuações e aposta de forma ousada no lado bom moço de um dos mais famosos assassinos em série dos EUA

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Paris Filmes/Divulgação

O assassino em série Ted Bundy voltou ao imaginário público recentemente, com o advento do documentário da Netflix sobre sua história. Em agosto, a Netflix lança também um longa-metragem sobre seus crimes, desta vez para sua plataforma on demand. Mas antes ele chega aos cinemas, mais precisamente neste fim de semana em todo o país. Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shocklingly Evil And Vile, EUA, 2019 – Netflix/Paris Filmes) tem uma tarefa difícil em suas costas: trazer ar fresco aos docudramas criminais.

Nas mãos de Joe Berlinger, que também assina a direção da série documental exibida desde o começo do ano na plataforma de assinatura, a trama gira em torno da relação de Bundy com suas companheiras Liz (Lily Collins) e Carole Ann (Kaya Scoledario). Cada uma, em momentos diferentes, assume o coprotagonismo com o psicopata, interpretado brilhantemente por Zac Efron – fato que será discutido posteriormente. Grande parte de seu desenvolvimento se passa ao redor dos processos judiciais pelos quais Ted foi condenado, nos anos 1970. O roteiro de Michael Werwie, baseado no livro da mesma Liz (Elizabeth Kendall é seu nome), acaba operando como um apanhado de pontos espalhados pela trajetória do protagonista até, enfim, focar no processo que o condenou à pena de morte, no qual Bundy foi seu próprio advogado.

A Irresistível Face do Mal se desenvolve pelo ponto de vista de Liz, a principal companheira do serial killer. No entanto, a direção opta por deixar o espectador no limbo de incerteza que a envolve, investindo nas alegações de inocência de Ted. Por vezes a tentativa de foco no romance dos personagens soa confusa: se sabemos que o protagonista foi um dos maiores assassinos em série dos Estados Unidos, então por que o diretor tenta tanto enxergá-lo positivamente? O filme respeita muito as vítimas de Bundy, mas sua linguagem incerta não é, em alguma instância, desrespeitosa com a história perversa, vil e má que retrata?

Contudo, os elementos técnicos do filme garantem uma experiência intrigante. A fotografia de Brendan Trost alterna entre momentos estilizados – optando pela profundidade de campo extremamente rasa muitas vezes, porém sempre com intenção dramática – e reproduções da linguagem fotográfica setentista. Em seus momentos de reinterpretações fieis de momentos factuais, como a entrevista de Ted Bundy e seu julgamento televisionado, A Irresistível Face do Mal também opera de maneira restitutória, imergindo seu público nas camadas de sua trama.

Grande parte da imersão se deve, no entanto, ao competente elenco. Lily Collins emana as emoções de sua personagem convincentemente, tornando-a muito mais dimensionada do que o proposto pelo roteiro, que a parece encarar apenas como a “namorada de Ted Bundy que não consegue o superar”. Carole Ann, a segunda companheira do protagonista, é ainda mais plana, por vezes soando delirante. No entanto, é uma ótima interpretação de Kaya Scodelario, talvez o melhor papel de sua carreira. John Malkovich, que faz o juiz que condena Bundy, e Haley Joel Osment, um colega de Liz, parecem desconexos do resto da trama, mas não performam mal. Malkovich parece icônico demais para o papel. Maldito Quero Ser John Malkovich!

A cereja do bolo – e também sua base – é Zac Efron, que não somente é muito parecido com seu personagem, mas também o interpreta incrivelmente. O balanço entre o aparente bom moço e o frio olhar psicopata de seu Bundy nos fazem entender por que a mídia e a sociedade americana caíram em seu feitiço. Com mais atuações deste porte, Efron pode até apagar a mancha de sua terrível filmografia.

Não obstante, o elo fraco do filme é sua confusa montagem, que parece não entender seus momentos de respiro e, por consequência, acaba por suprimi-los. Não é uma coletânea de edições terríveis, mas com certeza reduz a capacidade de imersão do produto final.

Assim, Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal é um docudrama envolvente, que não inova muito, mas presenteia seu espectador com um ponto de vista diferenciado às histórias de serial killer. Por mais semanticamente confuso, vale a experiência e é capaz de atingir tanto os aficionados pelas histórias de assassinos em série quanto aqueles que não têm estômago suficiente para o nicho.

 

HOMEM ARANHA: LONGE DE CASA

05.07.2019

Tom Holland brilha novamente em história que deixa em aberto a participação do herói do futuro do universo Marvel nos cinemas

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Pictures/Divulgação

A terceira versão do amigo da vizinhança enunciou bons rendimentos com o primeiro longa, De Volta Pra Casa. Com grande participação nos eventos dos últimos filmes dos Vingadores, Tom Holland volta à história solo de seu personagem, enfrentando dramas adolescentes e vilões maléficos ao mesmo tempo.

Homem-Aranha: De Volta Para Casa (Spider-Man: Far From Home, EUA, 2019 – Sony Pictures) é dirigido por Jon Watts, que trabalhou no antecessor de 2017. Assim, parte da sinergia entre elenco e diretor se mantém. No entanto, a estrutura do roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers se faz aquém do debut de Holland como o aracnídeo. Mesmo que melhore significativamente ao longo da trama, Longe de Casa é marcado por um primeiro ato complicado, para dizer o mínimo. Nele, Peter tem de conciliar a viagem de escola à Europa com uma ameaça massiva capaz de destruir o mundo, além de lidar com a pressão de substituir a lacuna deixada pela morte do Homem de Ferro (esta informação não é mais spoiler, certo?).

Tentando diferenciar-se da fórmula do herói enquanto permanece atrativo para os jovens (o filme parece ter ambições de alcançar o público infantojuvenil acima de tudo), o ato introdutório busca sua linguagem nas comédias mais monótonas de “gênios do cinema” como Adam Sandler e Ben Stiller. A tentativa do riso é constante, não funciona e é fortemente motivada por alguma “trapalhada” do elenco de apoio ou do protagonista. Tal como Jar Jar Binks, quebra totalmente o tom estabelecido pelas cenas que a acompanham. Outro ponto significativo no incômodo visual de Longe de Casa é sua decisão constante de enquadrar seus personagens de maneiras pouco naturais, plastificadas e advindas da Sessão da Tarde. Diálogos têm sua intensidade, seja cômica ou dramática, obliterada pelo mau posicionamento de atores.

No entanto, com a chegada do ponto de virada (previsível, por sinal), tudo melhora. E muito. Watts parece mais confortável lidando com a história de Peter Parker quando mais próxima dos conflitos heroicos que daqueles adolescentes, trabalhando as sequências de ação com maestria. Maestria, de fato. Não arrisco muito ao dizer que este filme carrega consigo algumas das melhores cenas de todo o MCU – e incluo aqui os últimos Vingadores. No entanto, o roteiro não ajuda. Faltam mais camadas que o esperado para o desenvolvimento dos vilões.

Dessa forma, grandes atores são ofuscados pelo fraquíssimo diálogo que lhes é dado. Parker, no entanto, brilha – parte graças à atuação de Holland. A fragilidade e insegurança que adiciona ao personagem o transformam, efetivamente imergindo o espectador em seus arcos – o amoroso e o conflito com o legado de Tony Stark.

Contudo, a trilha sonora soa mais rasa que o convencional, pateticamente buscando densidade emocional – ou apoio cômico – sem efeito algum. Volto a dizer: o primeiro ato parece ter saído de uma produção de Adam Sandler, não da Marvel. Ainda assim, o design de som é muito competente, como de praxe. O mesmo pode-se dizer do design de produção e da equipe de efeitos visuais, que merece congratulações especiais, com o perdão do trocadilho. A cena de batalha na ponte é o melhor exemplo disso, sem mais.

Sendo assim, Homem Aranha: Longe de Casa trabalha o conflito interno de seu protagonista com esmero, ainda que desperdice importantes personagens em contrapartida. Seu final abre múltiplas vias para o personagem, estando inserido ou não no futuro da Marvel nas telas. Desviando de seu começo defeituoso, é um bom longa para trazer a Fase 3 do universo cinematográfico que o circunda para novos problemas e personagens. E, acima de tudo, é divertido. Afinal é um filme da Marvel e, por isso, sua intenção nunca deixará de ser mero entretenimento.

 

TOY STORY 4

25.06.2019

Woody, Buzz e outros brinquedos retornam em aventura com clima de nostalgia e que volta a trazer lágrimas aos olhos

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Se tem uma franquia do cinema que nunca nos decepcionou foi Toy Story. Desde que conhecemos Woody e Buzz 24 anos atrás sabemos que naqueles filmes encontraremos nosso conforto e aconchego. Suas histórias sempre consistentes foram nos apresentando novas camadas de profundidade àqueles brinquedos e novos personagens que fomos aprendendo a amar na mesma medida.

Muitos cresceram junto com Andy, acompanhando sua evolução e poucos foram os que não choraram quando ele se despediu do cowboy e do astronauta em definitivo no final do terceiro filme em 2010. Mas como o cinema atualmente vive de nostalgia, chegou a hora de, nove anos depois da despedida, nos reencontrarmos com Woody, Buzz, Jesse, Rex, Sr e Sra Cabeça de Batata e tantos outros em Toy Story 4 (EUA, 2019 – Disney/Buena Vista).

Logo de cara podemos perceber que o filme ainda vai investir na nostalgia e está ali para agradar mais aos adultos que às crianças. Ao fazer sua retrospectiva inicial, Toy Story 4 nos leva de volta a Andy e ao passado e, ao invés de resumir a história pras novas audiências, serve mais pra encher nossos olhos de lágrimas mais uma vez. Aos poucos vamos nos acostumando mas, assim como Woody, lutamos contra esta nova realidade.

Woody representa muito de nós que nos apegamos ao passado, ao confortável, e tememos arriscar o novo. Ainda somos assim e o cowboy vai nos mostrar como esta situação está longe de ser a ideal. Quando ele reencontra Bo, percebe que sua vida pode ser diferente, que pode não se resumir ao armário de uma criança. O novo personagem, Garfinho, acaba funcionando como um contraponto humorístico em um roteiro que, de outra forma, acabaria pesado demais.

E o filme não brinca em serviço quando nos leva, junto com Woody, a questionar se tudo o que vivemos e fazemos nos faz bem. Só que, assim como ele que sempre foi resistente às mudanças, nós também somos. Sentimos falta de Andy, demoramos para nos acostumar com Bonnie. E com Buzz e Jesse relegados à prateleira dos fundos.

Acima de qualquer coisa, Toy Story 4 é sobre Woody. É sobre relação com sua criança, com seu passado, com uma aventura não vivida e com o mundo exterior. Claro que como um filme infantil (que, afinal de contas, ele ainda é!), o longa tem muito humor e ação, cenas incríveis e cenários deslumbrantes. E novos personagens que acabam sendo mais irritantes que divertidos.

Garfinho, Duke Caboom, o Coelho e o Pato e Isa Risadinha não fazem mais do que ilustrar alguns momentos, enquanto quem brilha em muitas cenas é Bo, que deixa de ser uma frágil boneca de porcelana e em tempos de girl powerse torna quase uma heroína, com direito a capa e tudo.

No fim das contas, o filme consegue, mais uma vez, nos encher os olhos de lágrimas em sua despedida. Vinte e quatro anos atrás conhecemos este cowboy que, depois de muita resistência, virou melhor amigo de um astronauta. Esta dupla sempre esteve ali para nos confortar. Não é fácil se despedir dela assim.

Mais um sbin-off que uma sequência, mais um anexo que um filme propriamente necessário, Toy Story 4 faz jus à sua franquia e não nos decepciona, deixando um gosto de quero mais, de que este quarto capítulo pode muito bem ser o início de uma nova trilogia. Por que não?

 

DESLEMBRO

24.06.2019

Adolescente que volta ao Brasil no fim da ditadura militar vai, aos poucos, descobrindo seu passado e a cultura de seu país

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imovision/Divulgação

O prefixo “des” é usado para negar o sentido da palavra justaposta que vem a seguir: desaparecer, desorientar, deslembrar. Não é hábito empregar este último verbo em nossos diálogos cotidianos, mas seu sentido – deixar de lembrar – está presente em nossos discursos como “esquecer o passado”. O verbo está no título de um poema de Fernando Pessoa e dá nome ao primeiro longa da diretora Flávia Castro. Selecionado para o Festival de Veneza, Deslembro (Brasil/França/Qatar, 2019 – Imovision) traz à tona um tema delicado, que mexe profundamente com a memória dos brasileiros: os desaparecidos políticos durante a ditadura militar.

Flávia, aliás, resgatou suas memórias pessoais para escrever o roteiro do filme – sua experiência no exílio quando criança. Entretanto, consegue costurar a história com sutileza e poesia – como a escolha da trilha sonora – para abordar um passado que manchou a história do Brasil, nossa pátria-mãe que novamente parece andar tão distraída.

A personagem principal do filme é Joana, uma adolescente prestes a fazer 15 anos, interpretada pela atriz franco-brasileira Jeanne Boudier, cuja estreia nas telonas se dá de forma excepcional. A história começa em Paris, na época em que a anistia é promulgada no Brasil. O argentino Ernesto (Antonio Carrara), padrasto de Joana, e a mulher Ana (Sara Antunes) decidem voltar para a América do Sul com Joana e os irmãos Leon (Hugo Abranches) – chamado carinhosamente de Trotskinho – e Paco (Arthur Raynaud). O casal procura apartamento para alugar no Rio de Janeiro, onde Joana nasceu e o pai biológico Eduardo (Jesuíta Barbosa) “caiu” nos porões do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) com o codinome Tiago.

A garota, que é fã de Doors e devoradora de livros, acaba se revoltando. Não quer vir para o “país de merda” que matou seu pai. O filme é multilíngue (francês-português-espanhol) e todos se entendem nessa confusão linguística. Mas quando a família começa a brigar, o idioma de origem prevalece. Joana engana um português, mas é no francês que ela discute. E não adianta chorar: ela arruma as malas e vem com a família para o Rio. O desembarque no aeroporto é como “a chegada do irmão do Henfil”.

E à medida que a trama se desenrola fica difícil encontrar algum defeito. Desde a direção de arte, montagem, tudo parece ser perfeito (só não é por um errinho de continuidade nas alças do biquíni usado por Joana!). O longa traz uma riqueza de detalhes e objetos que remetem à transição dos anos 1970-1980, como a lei da Anistia foi assinada em 1979 pelo então presidente Figueiredo ou, então, a televisão em preto e branco que exibe a cena em que Lucélia Santos contracena com Fábio Jr.

Aos poucos, a garota vai descobrindo seu passado, principalmente no contato com a avó paterna Lucia (Eliane Giardini), que gosta de Pink Floyd e oferece cigarro à neta. E vive novas experiências, como a belíssima cena da primeira vez da jovem ao som de “Cajuína” (que Caetano Veloso escreveu após o suicídio de Torquato Neto) e o primeiro baseado fumado junto com o namorado. As canções, aliás, funcionam como guias que nos conduzem pelo tempo. Tem Noel Rosa, Velvet Underground, Caetano, Doors… A adolescente começa, então, a mergulhar na cultura brasileira e em suas memórias. Ou nos lapsos delas, nos cortes de lembranças de quando era criança e participava dos atos subversivos dos pais, ao estilo Bonnie e Clyde.

Como criar um filho no meio de tudo isso sem deixar traumas? Crianças podem se adaptar, mas como conviver com as lembranças? Esquecer é impossível. E fazer de conta que a ditadura não existiu em nosso país é apenas se iludir.

 

FESTIVAL OLHAR DE CINEMA 2019

16.06.2019

Documentário Diz a Ela que me Viu Chorar ganha o prêmio principal do evento internacional realizado em Curitiba

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Olhar de Cinema/Divulgação

Realizado entre os últimos dias 5 e 13 de junho com sessões no Espaço Itaú (Shopping Crystal), Cineplex Batel (Shopping Novo Batel) e Cine Passeio, o Festival Olhar de Cinema (Curitiba Int’l Film Festival), realizado pela primeira vez em 2012, de novo movimentou os amantes da sétima arte por vários dias nesta primeira quinzena do mês, entre exibições, oficinas, laboratórios e seminários.

O Mondo Bacana analisa abaixo alguns títulos incluídos na programação deste ano, que se dividiu em várias mostras: a infantil Pequenos Olhares; a experimental Outros Olhares; Olhares Clássicos, cujo nome é autoexplicativo; Olhar Retrospectivo, dedicada à primeira fase da carreira do diretor chileno Raúl Ruiz; Novos Olhares, com enfoque dado a cineastas contemporâneos em curta e longa-metragem; e a Competitiva, considerada a principal das seções do festival.

Diz a Ela que me Viu Chorar – Maíra Buhler

Um filme desoladoramente lindo. Esta é uma experiência calcada completamente na dura realidade social de um (extinto) programa habitacional de redução de danos, no qual usuários abusivos de drogas pesadas eram assistidos com um lar, comida, geração de trabalho e renda, segurança e saúde. Acompanhando múltiplos personagens, todos moradores deste “Hotel Social”, o longa abole as lentes grande-angulares, criando uma atmosfera fortemente documental e claustrofóbica. No entanto, a intensa rotina de gravação resulta numa cumplicidade tão grande com seus personagens, cujas histórias e conflitos pavimentam e contam toda a história do filme. Dessa forma, temos um vislumbre do universo assolador do vício em crack, em 85 minutos que nos fazem rir e chorar na mesma intensidade.

A montagem fluida do documentário faz com que este não perca seu dinamismo, mesmo sem ação ou quaisquer narrações – a diretora afirma não ter cogitado incluir-se como personagem nessa crua narrativa. Momentos se contrastam e complementam com tal naturalidade que, por diversas vezes, sente-se a arquitetura de um longa ficcional, ainda que a veracidade de seu gênero nunca se perca. Um grande aspecto, frequentemente rebaixado na história do cinema e sua crítica, é a edição de som e a gravação do som direto. Por exemplo, uma das sequências mais impactantes de todo o filme depende inteiramente de suas camadas e subcamadas sonoras. Funciona maravilhosamente.

Com um inerente discurso político de valorização do indivíduo, Diz A Ela Que Me Viu Chorar age como catalisador de críticas ao atual rumo dos governos brasileiros (Estado e seus estados) frente ao tráfico e abuso de drogas, provando o que a classe política nunca poderia ter esquecido: são pessoas, com seus desejos, conflitos, risos, amores e dores. Como bem ilustra um dos personagens, esse universo só precisa de amor. Só precisa de atenção.

No encerramento do evento, ganhou o prêmio oficial de melhor filme da mostra Competitiva deste ano.

MS Slavic 7 – Sofia Bohdanowicz e Deragh Campbell

Uma obra extremamente pessoal, MS Slavic 7 é um média-metragem focado na troca de cartas entre Zofia Bohdanowiczowa (bisavó de uma das diretoras) e Jósef Mittlin, dois poetas poloneses refugiados na América durante a segunda guerra mundial. Infelizmente, não há muito a adicionar. O grande problema do filme, além do aparente amadorismo na direção, é a falta de uma narrativa intrigante. Em outras palavras, faltam eventos para instigar conflito em seus 57 minutos. Além disso, a vagarosidade da obra é amplificada pela má montagem, confusa e estática, cujo ritmo picotado interrompe a naturalidade dos (poucos) diálogos do filme.

Outro ponto de ruptura da imersão do filme é uma das sequências que mais é salientada em tela: quando não está lendo as cartas, a protagonista explica sua interpretação em monólogos longuíssimos, cuja mise-en-scène imita o plano-contraplano comum de diálogos. Assim, o espectador fica à espera da resposta de um personagem, seja sonora ou um simples plano de sua reação, e frustra-se, é claro. A título de breve contextualização, toda a densidade laureada no filme anterior contrasta fortemente com a rasa progressão de MS Slavic 7.

A Vocação Suspensa – Raúl Ruiz

A linguagem do consagrado autor chileno se faz elemento principal de sua primeira parceria com o Instituto Nacional do Audiovisual Francês (INAM), que coproduziu filmes da Nouvelle Vague. Exilado, Ruiz conta aqui uma história bem política, que se passa num conflito eclesiástico sob dois pontos de vista. Mais especificamente, o diretor monta dois filmes em um. Dois lados opostos da disputa são pano de fundo para dois longas com os mesmos personagens – gravados em momentos diferentes, com estéticas conflitantes. Um deleite de semântica fílmica.

Ainda mais, os diálogos do filme são extremamente densos, repletos de camadas filosóficas. Agostinho de Hipona, Leibniz e demais metafísicos podem ser interpretados desde seu início. Como a própria projeção anuncia, A Vocação Suspensa depende de uma reflexão do ditado do santo católico, replicado por Stalin, “em uma cidade sitiada, qualquer dissidência é traição”.

Casa – Letícia Simões

Em uma narrativa extremamente intimista, a diretora carrega o espectador por entre os calos de sua família. Terno, o filme não tem interesse algum em mascarar estas dificuldades de convivências, escancarando-as. Assim, as discussões e diálogos subsequentes transformam-se em personagens de Casa. Em sua estreia mundial, ainda em corte duro (rough cut é o primeiro corte de um filme, do qual surgem as versões mais “refinadas”), o longa apresenta alguns problemas de montagem, cujo efeito arrasta um pouco a trama – completamente baseada em seus personagens. Ainda assim, momentos lindos são configurados pelo poder da mesma montagem. É confuso, mas os melhores momentos sobressaem muito aos piores, que não chegam a ser ruins.

Casa é um documentário poético, íntimo e voraz feito por Letícia. Com calma, vai abrindo camadas e feridas da história de suas protagonistas e, logo, de si mesma. As mágoas e conflitos das três mulheres ecoam as mágoas e conflitos de nós, o público.

No encerramento do evento, levou o prêmio da crítica de melhor longa-metragem da mostra Competitiva deste ano.

Naomi Campbel – Camila José Donoso e Nicolás Videla

Este misto de ficção e documentário desenvolve a narrativa de Yermén, uma mulher trans em busca de uma cirurgia de troca de sexo. Intercalando entre uma gravação profissional (em aspecto 21:9) e brutas filmagens feitas pela protagonista – que interpreta a si mesma – numa câmera amadora (essas em 16:9), Donoso, junto com Videla, consegue estabelecer uma linda intimidade entre a leitora de tarô e seu espectador. Em uma completa transgressão do que lhe fora ensinado (subvertendo regras clássicas de enquadramento ou roteiro, por exemplo), a diretora inicia a desenvolver seu particular estilo, que trafega nas transficções com delicadeza e, ao mesmo tempo, apresenta linguagem crua e natural.

O mais importante para entender a mensagem transmitida pelo filme, creio eu, é a frase que a própria autora me disse (em tradução livre): “Cinema é descobrimento. Não somente pela certeza, já que tudo é muito certo no cinema, mas também pela dúvida. A dúvida é o importante”. Naomi Campbel é um filme construído a várias mãos, ecoando seu processo em sua linguagem.

Tel Aviv em Chamas  – Sameh Zoabi

Num movimento inesperado da curadoria do festival, Tel Aviv em Chamas é uma comédia palestina, imensamente diferente dos já comentados documentários político-sociais. Ainda assim, não se abstrai da dimensão de comentário social na qual se instaura. Permeado de modo sutil por conflitos entre Israel e Palestina, o roteiro segue Salam, um desempregado que rapidamente se torna escritor de um grande seriado e, ao mesmo tempo, precisa lidar com um general que, enquanto o ajuda a escrever o roteiro, quer se intrometer demais nele. Simples, comum, mas eficaz. O grande mérito da obra é seu timing cômico, capaz de arrancar gargalhadas da plateia diversas vezes. Parte disso vem do texto, mas parte é realizada pela capacidade de seu elenco.

Descontraído e leve, o filme é uma opção melhor que a média de comédias para um domingo à tarde. Ainda assim, não chegou à altura dos melhores filmes da mostra Competitiva.

Nona – Se me Molham Eu os Queimo – Camila José Donoso

A cineasta chilena trouxe a Curitiba todos seus filmes a esta edição do festival. Assisti a seu debut, Naomi Campbel e ao mais recente lançamento. Radicalmente diferentes mas, ainda assim, ambos detentores do forte estilo de Donoso. Aqui, Camila acompanha sua avó num estranho misto de fantasia com um drama intimista. Josefina, a protagonista, muda-se para uma casa no interior após atear fogo num carro e, lá, não se contenta com a vida monótona enquanto, curiosamente, casas se incendeiam sem causa na região. Assim, ao contrário de seu primeiro filme, a diretora se atira no universo fílmico, trabalhando enquadramentos, eventos narrativos e poesia de maneira muito similar à empregada em ficções. No entanto, volta a trabalhar com múltiplas razões de aspecto e qualidades de imagem – o tradicional 21:9 em suas sequências explicitamente ficcionais e 4:3 em suas frações intimistas, nas quais a própria realizadora se expressa, atuando como personagem da trama.

Yermén, protagonista de Naomi Campbel, volta a interpretar uma grande amiga de Nona, que atuou em seu filme também. O longa conta, inclusive, com o brasileiro Eduardo Moscovis, que aparece rasamente. O grande problema, infelizmente, é a forma com a qual Camila Donoso constrói seu roteiro. Com pouca conexão entre as sequências e inúmeras pontas soltas, Nona – Se me Molham, Eu os Queimo se torna um filme que busca densidade sem mergulhar nela. “Pretensioso” é um adjetivo muito mal utilizado, mas chega próximo de se encaixar nessa projeção. Por mais que instigante visualmente, Nonanão desenvolve suas personagens suficientemente, a ponto de retratar um mero conjunto de eventos desconexos em tela. Por isso, torna-se entediante.

 

OBSESSÃO

16.06.2019

Oito motivos para ir ao cinema ver a obra que marca a volta do diretor Neil Jordan ao formato de longa-metragem

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

O mês de junho, normalmente, é dominado pelos blockbuster snos cinemas. Pudera. Os grandes estúdios de Hollywood, de olho no início do período de férias escolares do Hemisfério Norte (quando a primavera passa o bastão para o verão no ciclo das quatro estações), bombardeiam o espectador com opções de histórias fáceis ou com apelo popular, que podem preencher o tempo vago de crianças, adolescentes, jovens e adultos e significar bom alcance nas bilheterias. Somente nas últimas semanas já estrearam o live action de Aladdin, Rocketman, X-Men: Fênix Negra e o novo Homens de Preto. Para o início de julho está sendo aguardado o retorno do Homem-Aranha às salas de projeção. Portanto, é justamente nesse período que ficam mais reduzidas as opções para quem gosta de um cinema mais alternativo, que ofereça algo além da possibilidade de entreter o espectador.

Meio sem chamar muita atenção, Obsessão (Greta, Irlanda/EUA, 2018 – Galeria Distribuidora) acaba de estrear no circuito comercial brasileiro. Não deve durar muito tempo em cartaz por questões de bilheteria. Então, a gente dá uma ajudinha e lista oito motivos para você ir correndo assistir ao filme se ele estiver programado em algum cinema de sua cidade.

Neil Jordan

Diretor, roteirista e produtor irlandês de prestígio nos anos 1980 e 1990, assinou clássicos como A Companhia dos Lobos, Traídos Pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro. Sabe envolver o espectador num suspense como ninguém, criando reviravoltas que trabalham como uma montanha-russa nas emoções de quem assiste suas obras. Andava afastado dos longas-metragens nesta última década, reservando suas atividades quase somente a séries.

Nova York

A história de Obsessão se passa em Nova York. Para quem gosta da megalópole como cenário, é um prato cheio ver as cenas todas rodadas fora de estúdios, em ruas, locações e apartamentos da cidade. Aliás, isso faz relembrar a época áurea do cinema alternativo, quando uma turma de diretores criativos – como Scorsese e Coppola – souberam como ninguém se utilizar do cotidiano nova-iorquino para fazer grandes filmes nos anos 1970 e salvar a indústria cinematográfica americana.

St Vincent

Um dos turning points mais significativos do filme é regido ao som de uma grande faixa lançada pela cantora e compositora dez anos atrás. Incluída no álbum Actor, de 2009, a música “The Strangers” soa um tanto psicodélica se comparada com o repertório mais recente e, talvez, por isso mesmo, soa tão impactante junto com a cena escolhida para ilustrar no filme de Jordan. Enquanto Annie Clark entoa uma frase que fica martelando na cabeça do espectador (“pinte o buraco negro ainda mais preto”), a sequência de imagens surge distorcida na tela, fazendo todo mundo pensar se seria verdade o que está acontecendo ali ou então simples alucinação ou projeção de expectativa ou um mero sonho.

Stalker tecnológica

Filmes de stalker sempre rendem ótimos subterfúgios para que se faça a perseguição. Nos dias atuais, há um elemento bem poderoso que pode ser incluído no rol das possibilidades: o celular. E a solitária sexagenária Greta sabe usá-lo muito bem para levar terror e pânico à jovem Frances. Tira proveito da instantaneidade de mensagens e fotografias, sem falar no cruzamento de informações após ter acesso a rastros e particularidades do passado no telefone de sua vítima. Em tempos de big brotherhackers e espionagem militar internacional, isso cai como uma luva para apimentar a aflição da trama.

Isabelle Huppert

Bastante famosa na Europa, a francesa só passou a ser badalada nos EUA após concorrer ao Oscar de melhor atriz pela atuação em Elle há dois anos. Obsessão é seu primeiro filme com coprodução norte-americana após o feito. Lógico que Huppert volta a dar show de interpretação. Na pele da imigrante europeia e enfermeira aposentada Greta, ela é uma das responsáveis pela constante alteração de adrenalina de quem está vendo o longa na poltrona do cinema. A princípio, mostra ser uma amável e solitária professora de piano, que parece encontrar na sempre disposta e moralmente correta Frances a substituta ideal para sua jovem filha. Aos poucos vai se transformando na tela, fazendo a doçura virar maldade mas ainda colocando dúvidas a respeito de tudo isso na cabeça do espectador.

Chloë Grace Moretz

Ela só tem 22 anos de idade mas vem se revelando uma das mais poderosas jovens atrizes reveladas por Hollywood, por conta da extrema versatilidade e da aposta em papeis não muito comuns para uma então adolescente. Chloë tem em seu currículo participações elogiadíssimas em filmes como Suspíria: A Dança do Medo (2018), O Mau Exemplo de Cameron Post (2018), Lugares Escuros (2015), Acima das Nuvens (2014), A Invenção de Hugo Cabret (2011) e Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010). Obsessão entra nesta lista por causa de sua crédula Frances, que cai na armadilha de Greta e, quando se dá conta, percebe que é tarde demais para escapar. Contar mais do que isso sobre a garçonete vira spoiler.

Maika Monroe

Aos 26 anos, sua atividade principal não é a de atriz, mas sim de atleta – Maika é uma competidora profissional de kiteboard. Mas, nos últimos anos, vem conciliando seu tempo com papéis coadjuvantes em filmes, especialmente de horror. Por ser fã assumida do gênero e ter como filmes de cabeceira clássicos como Halloween: A Noite do Terror (1978), O Iluminado (1980) e A Hora do Pesadelo (1984), tem propriedade e feelingsuficientes para entregar atuações convincentes a ponto de, depois de trabalhar em O Hóspede e Corrente do Mal (ambos de 2014), despertar a atenção como potencial nova scream queendo cinema adolescente. Em Obsessão, mostra química na tela com Moretz como a melhor amiga Erica, com quem divide um descolado apartamento. Ambas já trabalharam juntas antes, na distopia teen A 5ª Onda (2016).

Stephen Rea

Também irlandês, Stephen Rea é parceiro constante dos filmes de Neil Jordan. Volta e meia atua em seus filmes. Em Obsessão, ele só aparece em cena na parte final, mas nem por isso sua pequena participação deixa de ser notável. Aqui ele faz o investigador Brian Cody, contratado pelo pai de Frances quando este percebe que a filha pode estar em apuros. Só que o detetive, apesar de perspicaz, acaba se atrapalhando quando justamente vai checar a possibilidade de Greta ter a ver com o sumiço da garçonete.

 

MIB: HOMENS DE PRETO – INTERNACIONAL

13.06.2019

Retomada da franquia aposta em empoderamento feminino mas não passa de um amontoado de piadas sem graça e de cunho sexista

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Você já deve ter visto este filme: agentes de preto tentando proteger o planeta de ameaças alienígenas. O primeiro longa da franquia Men In Black, com a dupla carismática Will Smith (Agente J) e Tommy Lee Jones (Agente K) nos papéis de salvadores da pátria (ou melhor, do planeta) estreou em 1997 e foi um sucesso de bilheteria. Depois vieram mais duas sequências que fecharam então a trilogia baseada nos quadrinhos de Lowell Cunningham, lançados em 1990, sobre agentes do serviço secreto que usam o neutralizador para apagar a presença alienígena da memória dos humanos

E como no mundo cinematográfico parece que a criatividade anda em falta, eis que surge MIB: Homens de Preto – Internacional (Men In Black: Internacional, EUA/Reino Unido, 2019 – Sony Pictures), com estreia hoje em todo o Brasil. A culpa talvez seja de Steven Spielberg, que mantém sua fissura por ETs e aqui é responsável pela produção executiva. Já a direção dessa vez fica por conta do americano F. Gary Gray (que recentemente fez Velozes e Furiosos 8 e Straight Outta Compton – A História do N.W.A.).

A fórmula só tem uma diferença: no papel de um dos agentes tem uma mulher, a Agent M (Tessa Thompson). Em tempos de empoderamento feminino, esse talvez tenha sido o argumento principal para a continuação da franquia. Oops, perdão: “Men and Women in Black”, como frisa Agent H, interpretado por Chris Hemsworth, num personagem paspalhão e abobado. É bom frisar que o casal de agentes repete a parceria de Thor: Ragnarok.

O longa é marcado por clichês intermináveis, mas algumas boas referências a ícones do cinema, como Matrix, o diretor Quentin Tarantino (existem os ETs “tarantianos”!) e, obviamente, 007. Aliás, o filme parece uma homenagem à franquia 007. Há alusões a James Bond do início ao fim. Começa no carro usado pelos agentes de preto, que esconde toda a sorte de armas para aniquilar alienígenas em vez de russos. Outra referência óbvia é que a personagem de M é transferida da agência de Nova York para Londres, onde os agentes atuam numa espécie de MI-6.

A chefe dos agentes de preto também é uma mulher: Agent O, vivida por Emma Thompson. De cabelos brancos e curtos, ela lembra quem? M. Ou Judi Dench, que assumiu o posto de chefona do agente britânico em sete filmes (entre Goldeneye, de 1995, e Skyfall, de 2012) até a personagem morrer. Emma faz a dobradinha com Liam Neeson, que é o superior direto dos agentes M e H. E as indiretas a James Bond não param por aí. Como a cena em que o casal chega de lancha até uma ilha italiana para se encontrar com uma das vilãs, uma espécie de Cleópatra com três braços.

Ah… Matrix é lembrado aqui com a alusão às pílulas vermelha e azul. Neste MIB elas são as cores do botão de uma motocicleta voadora.

A história é totalmente previsível e os extraterrestres já não chocam nem divertem mais. A trama começa recapitulando uma batalha que será lembrada mais para o final. No meio de tudo isso, existe, claro, a certeza de que há um agente traidor (não é difícil de descobrir quem é a pessoa). Esse seria o grande argumento do filme. O roteiro é fraco, cheio de piadinhas ao estilo britânico e totalmente sem graça. Algumas falas são primárias. “O que ela está fazendo?”, pergunta H para M, sobre uma peça misteriosa entregue a ela por um extraterrestre assassinado por supostos aliens inimigos. “Está se movendo”, responde M.

Há ainda sequências que pretendem mostrar que as mulheres estão no comando. Contudo, em uma forma sexista. Como na cena em que uma ET que parece um anfíbio está prestes a matar H e ele diz “eu faço o que você quiser”. Adivinhe o que a ET pediu?

Uma pena que existam tantos astros no filme e nenhum deles seja capaz de segurar a trama. Este MIB Internacional não vale o preço do ingresso. Nem em dólar, libra, euro ou real. É um filme autoneuralizador.

 

GAME OF THRONES

11.06.2019

Por que o fim da série que se tornou objeto de culto pelo mundo todo decepcionou bastante os seus ardorosos fãs?

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Texto por Andrizy Bento

Foto: HBO/Divulgação

Após oito temporadas, 73 episódios e 47 Emmys (que a tornaram a série recordista de estatuetas na premiação), Game of Thrones teve seu último episódio exibido em 19 de maio pela HBO. No entanto, o que prometia ser épico, conseguiu ser apenas frustrante. Em meio à fúria despejada pelos fãs nas redes sociais – ainda mais cáustica que o fogo expelido pelos dragões de Daenerys Targaryen em seus inimigos – até havia um ou outro espectador argumentando que a finale teve, sim, suas qualidades e que o saldo final não foi tão ruim – de um ponto de vista analítico, houve até quem defendesse e justificasse as decisões tomadas pelo roteiro. Contudo, não há quem considere o último episódio da série realmente satisfatório.

Satisfatório é diferente de “atender às expectativas dos fãs e entregar exatamente o que eles querem ver na tela”. Em suma, está longe de significar fanservice. Assim como decepcionante não quer, necessariamente, dizer ruim. No caso de GoT, no entanto, a finale conseguiu ser os dois. Ao invés de proporcionar aos espectadores as devidas resoluções de conflitos e encerramentos de arcos narrativos, o desfecho deixou ainda mais pontas soltas e perguntas sem respostas – resultado sistêmico de toda uma temporada deficiente. Aliás, convém salientar que, desde a quinta, a qualidade da produção vinha caindo drasticamente.

Baseada na saga de livros best-seller As Crônicas de Gelo e Fogo, de autoria do escritor norte-americano George R. R. Martin, a série estreou em 17 de abril de 2011 na HBO. Ambiciosa, a produção idealizada por David Benioff e D. B. Weiss investia em cenas gráficas de nudez, sexo e violência e, por apresentar uma narrativa envolvendo a disputa por um trono e permeada por alguma magia, foi até mesmo apelidada de “O Senhor dos Anéis para adultos”. Claro que esses se tratavam apenas de alguns dos aspectos que tornavam o produto mais atraente. Porém, o estrondoso sucesso da qual a série desfrutou nos anos em que se manteve no ar, vai muito além das comparações com o livro de J. R. R. Tolkien ou do teor sexual e violento de suas cenas.

Sua consagração por especialistas e a assombrosa audiência que conquistou se devem a vários outros fatores: a força da narrativa, a entrega do elenco, o carisma de uma galeria numerosa de personagens, o acuro na composição dos planos, os enquadramentos soberbos, o requinte de cenários e figurinos, as batalhas magistralmente executadas e que em nada ficavam devendo a blockbusters cinematográficos, toda uma atraente rede de intrigas e um jogo de poder que nos instigava a acompanhar semanalmente os episódios. Não surpreende que a HBO, em estratégia para evitar a pirataria, tenha optado pela transmissão simultânea em mais de 170 países – o interesse do público era tamanho que GoT se tornou a série com o maior número de downloads ilegais no mundo. Afinal, quem não via Game of Thrones e não debatia acerca das teorias que constituíam um dos grandes atrativos da produção era imediatamente excluído das rodas de conversa nas segundas-feiras.

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A história é situada no continente fictício de Westeros, lar dos Sete Reinos e das terras inexploradas além da grande Muralha. Em linhas gerais, a série se propõe a narrar a luta de famílias nobres pelo Trono de Ferro ou por sua independência, recorrendo a violentos confrontos e alianças forjadas a partir de interesses políticos, em sua maioria, sórdidos. Esse é o fio condutor da trama.

A primeira temporada da produção tem início com a visita de Robert Baratheon – Rei e Senhor dos Sete Reinos – ao castelo de Winterfell, onde reside Ned Stark, o Protetor do Norte, junto de sua família. O objetivo da visita é fazer um convite formal a Ned para que ele seja a Mão do Rei – uma espécie de primeiro conselheiro. Este, no entanto, acaba tomando conhecimento acerca de uma conspiração que levou ao assassinato da Mão do Rei anterior e as suspeitas recaem sobre os Lannister, incluindo a Rainha Cersei e seu irmão Jaime, com quem ela vive um caso secreto e incestuoso.

Distante dali, no Mar Estreito, Viserys Targaryen, conhecido como o Príncipe Exilado, planeja o casamento de sua irmã, Daenerys, a Princesa de Pedra do Dragão, com Khal Drogo, líder do povo Dothraki – uma tribo de guerreiros que percorre o continente de Essos. Com o casamento, o príncipe exilado visa a conseguir um exército a fim de retomar o Trono de Ferro que é seu por direito. No passado, Baratheon conquistou a coroa assassinando Aerys II Targaryen (o Rei Louco) e Rhaegar – respectivamente, o pai e o irmão de Viserys. Após esse acontecimento, ele e a irmã foram exilados nas Cidades Livres do Continente de Essos. Desde então, o príncipe é movido pelo intenso desejo de vingar sua família e retomar o poder e a coroa a qualquer custo.

Assim, fomos arremessados aos bastidores cruéis e sangrentos da guerra dos tronos. A primeira temporada representou não apenas o ponto de partida, como o esboço a partir do qual se desenhou toda a série. Traçou cenários que, mais adiante, viriam a impactar as vidas e jornadas de dezenas de personagens. Inseriu simbologias e easter eggs que, no decorrer dos anos de exibição, vieram a fazer a diferença no todo. No entanto, da maneira superficial como foi colocado até aqui, não é possível compreender exatamente a razão que levou Game of Thrones a ser esse fenômeno de audiência. É realmente necessário assistir à série e acompanhar as reviravoltas da trama intrincada para entender os motivos de tanto estardalhaço em torno de GoT. O fato é que testemunhar a evolução dos personagens, a construção dos elos entre eles, a ganância e a sede de poder que ditavam os rumos do jogo, bem como todos os meandros que culminaram em batalhas colossais, é que tornou a jornada tão divertida de se assistir durante oito temporadas. Daí toda a ansiedade com que os espectadores aguardavam pelos domingos em que os episódios eram veiculados pela HBO.

Aprendemos a exercitar o desapego (afinal, um protagonista morre já na finale da primeira temporada!), nos acostumamos a prender o fôlego devido à aflição causada pelos épicos confrontos e ao temor de perder um personagem fan favorite. A produção nos presenteou com momentos gloriosos em termos televisivos como, por exemplo, o nono episódio da sexta temporada, o já clássico e plasticamente impecável A Batalha dos Bastardos, que dificilmente encontrará rival à altura em outro produto do gênero. Game of Thrones nos ensinou que, na guerra dos tronos, ou você ganha ou você morre – literalmente. Alimentou teorias, não teve pudores em abusar do fator surpresa, apresentou audaciosos e chocantes plot twists, jamais entregou somente o que o público queria ver, não se limitou a agradar à audiência. Seu legado é incontestável. Uma pena o fim dessa história ter deixado um gosto tão amargo na boca de seus fiéis espectadores.

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Desde que a série começou a ser exibida, no já longínquo ano de 2011, o mundo passou por transformações significativas no tocante ao cenário político, econômico e social. Esse tipo de mudança, não raramente, acaba por impactar e se refletir também na cultura pop. Normal, afinal a produção cultural e artística de qualquer época é sempre um retrato de sua geração, para o bem ou para o mal, em maior ou menor escala, intencional ou inconscientemente. No caso do recorte de tempo que compreende a exibição de Game of Thrones, por exemplo, as pautas feministas ganharam ainda mais força dentro e fora das redes sociais e ativistas vocais se dedicaram a apontar o sexismo enraizado em diversos livros, histórias em quadrinhos, roteiros de cinema e televisão. Muitas das cenas de estupro protagonizadas por personagens femininas relevantes passaram a ser questionadas e duramente criticadas – uma vez que algumas delas tratavam-se de cenas de sexo consensual nos livros e outras sequer existiam em sua mídia de origem. Ao longo das temporadas, a nudez (majoritariamente feminina) e o sexo (por vezes gratuito) diminuíram exponencialmente, bem como a violência tornou-se mais contida e menos sangrenta. Contudo, a despeito do desenvolvimento das personagens femininas, que passaram a ter mais do que seus corpos expostos e a violência sexual tida como o rito de passagem que as fortaleceu, foram elas as mais injustiçadas no último ano da série.

É simplesmente lamentável ver como as mulheres de GoT foram diluídas no decorrer de toda essa temporada final. O roteiro se concentrou na rivalidade entre elas; em expor fraquezas, fragilidades e vaidades das mesmas; em mostrar como elas não sabiam lidar com o poder. Cersei Lannister, uma vilã inteligente e uma das maiores estrategistas da trama, ganhou desfecho abrupto e totalmente insípido. Apesar de ter sido Arya Stark a derrotar o grande vilão, Rei da Noite, sua tão almejada vingança contra Cersei não foi concretizada e a personagem limitou-se a ver Porto Real se transformar em destroços e cinzas, enquanto Daenerys Targaryen sobrevoava a cidade em seu Dragão que, impiedosamente, cuspia fogo em mulheres e crianças inocentes. Sansa Stark, que havia crescido tanto como personagem, foi reduzida ao papel de uma garota caprichosa que não queria ter seu reinado, no Norte, ameaçado. E Daenerys… A figura forte, imponente, majestosa, intrépida e destemida – um exemplo de heroína que apresentou uma das evoluções mais notáveis ao longo da série – simplesmente enlouqueceu. Tornou-se a Rainha Louca, facilmente corruptível pelo poder, herdando o temperamento de seu pai e, ao invés de quebrar a roda (como proclamava) corroborou o discurso simplista de que a descrição da Casa à qual o indivíduo pertence dita todo o rumo de seu destino. Pior: terminou a série morta pelo punhal do homem a quem amava e que também tinha seu sangue – seu sobrinho, Aegon Targaryen, mais conhecido como o bastardo Jon Snow.

E a coerência desapareceu à medida que o inverno chegou.

Eis um problema flagrante de toda produção seriada. Existe uma ânsia incompreensível dos showrunners por querer encerrar todos os arcos narrativos apenas no último capítulo, ao invés de responder às perguntas gradativamente, fechar os ciclos aos poucos, de modo orgânico. Creio que o mais adequado seria dedicar uma ou duas temporadas para resolução de todos os conflitos e, assim, oferecer desfechos satisfatórios para cada personagem. Game of Thrones foi um exemplo e, infelizmente, não o único de uma trama que acumulou muitas questões a serem resolvidas somente na finale e, óbvio, não conseguiu contemplar todas elas.

Outra possível explicação para o resultado ter ficado tão aquém do esperado está no fato de a história ainda não ter sido finalizada nos livros. Porém, esses argumentos não são suficientes para justificar uma finale tão ruim, uma vez que a série possuía força o bastante para se sustentar de maneira independente, como qualquer bom produto transmídia deve fazer. Existe um sem número de erros crassos de continuidade e cenas que, simplesmente, não fizeram sentido para o espectador atento que, assim como o Norte, se lembra disso depois. E, diferentemente dos Lannister, os roteiristas não pagaram todas as suas dívidas.

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A última temporada trai toda a mitologia da saga tão cuidadosamente arquitetada até ali, joga para escanteio a construção e o desenvolvimento de personagens, traz diálogos que contradizem o cânone e a essência da trama. Sim, Game of Thrones sempre trabalhou com reviravoltas, traições, choque, morte de personagens importantes. O problema não são estes mecanismos – que, aliás, movimentaram a trama desde seu primeiro episódio e com os quais estávamos plenamente habituados, convém dizer. O problema é como eles foram utilizados, escancarando a falta de planejamento de produtores e roteiristas. Esses artifícios foram despejados na tela de maneira simplesmente desleixada.

As falhas, no entanto, não são apenas de ordem narrativa, mas também estética. Um nítido exemplo é a batalha contra os White Walkers, que prometia ser o ápice da trama desde o primeiro episódio, e é extremamente inferior ao acuro visual da Batalha dos Bastardos. Entre copos da Starbucks esquecidos nas mesas de jantar de Winterfell e um confronto nonsense contra a Frota de Ferro, liderada por Euron Greyjoy – que resultou na morte anticlimática de um dragão – tudo foi absurdamente descuidado. Porém, nada foi mais incoerente, insatisfatório e insosso do que o conselho formado para deliberar sobre o novo rei após a morte da Rainha Daenerys Targaryen. Nas palavras de Tyrion Lannister:

“O que une as pessoas? O ouro? Os exércitos? As bandeiras? As histórias. Não há nada mais poderoso no mundo que uma boa história. Ninguém pode detê-la, nenhum inimigo pode vencê-la. E quem possui histórias melhores que Bran, o Quebrado? O menino que como não podia andar aprendeu a voar…”

O menino que passou a série inteira sem fazer absolutamente nada e se tornou, primeiramente, o Corvo de Três Olhos para então virar rei…

O discurso de Tyrion é interessante e bem escrito, mas um desperdício de palavras bonitas expressas pelo personagem que, durante oito temporadas, destacou-se como o mais profícuo emissor de quotas contundentes e memoráveis.  As palavras do outrora sábio anão estão lá unicamente para disfarçar a negligência dos roteiristas. O grande conselho é uma das piadas mais mal contadas da finale, pois é formado por nada menos do que três membros da Casa Stark, um tio dos Stark, um primo dos Stark, amigos dos Stark, uma cavaleira juramentada a proteger a Casa Stark, um Dorne, uma Greyjoy, mais alguns figurantes e um prisioneiro! Não sei dizer exatamente o que dói mais, se é o fato de que está óbvio quem seria favorecido por um conselho formado por estes membros ou Tyrion, prisioneiro por ter traído Daenerys, ter indicado o nome de Bran e, praticamente decidido o novo governante de Westeros – e ainda com o bônus de ser a Mão do Rei.

E isso não é tudo: por que Tyrion, prisioneiro, pôde participar da votação e Jon, igualmente encarcerado e com sangue Targaryen, não? Onde estão os membros representantes de outras Casas? Aqueles presentes na reunião do conselho não compreendem nem metade das famílias nobres de Westeros. Aliás, toda essa sequência serviu, especialmente, para embasar um futuro cenário de instabilidade política; afinal, as outras Casas podem, e com razão, questionar o favorecimento aos Stark considerando os componentes desse conselho fajuto. Sem falar do fato de Bran ter concedido a independência ao Norte. Quanto tempo mais até os demais Reinos reivindicarem a independência utilizando o Norte como argumento e isso resultar em uma nova guerra? Ademais, a figura de Bran como rei simplesmente não convence, pois não foi bem construída. Bran, o Quebrado, nunca teve aspirações ao trono e não fez nada de realmente útil durante toda a série que justificasse sua coroação. Ele nem mesmo queria ser rei. E esse papo de que é exatamente não desejar a coroa que o torna merecedor, simplesmente não funciona dentro daquele universo proposto.

Oito anos após o primeiro suspiro de Westeros na telinha, finalmente chegamos ao final da saga – uma finale que nos ofertou apenas um trono queimado (metáfora política sobre a destruição da iconografia; dos símbolos de poder capazes de corromper e que precisam ser derrubados); Porto Real transformada em cinzas; Tyrion Lannister, um fan favorite outrora inteligente e brilhante orador, reduzido ao papel de um fraco, traidor, guiado pelas emoções, capaz de atos estúpidos e autor de algumas das frases mais problemáticas da temporada; Daenerys, uma personagem feminina forte convertida em uma tirana genocida e, posteriormente, morta pelo seu amado; Jon Snow, o bastardo que continuou bastardo e se uniu aos selvagens do Povo Livre nos derradeiros momentos do show; Bran, o Quebrado, como um rei inexpressivo e inexperiente em relação aos assuntos da coroa; e, enfim, um final feliz para os Stark como recompensa por ter sido a família que mais sofreu desde o primeiro ano de série e que, talvez, tenha sido um dos únicos pontos gratificantes para uma relativa quantidade de espectadores. Eis o saldo final de Game of Thrones. Um fim melancólico, insuficiente e decepcionante.

 

X-MEN: FÊNIX NEGRA

10.06.2019

Longa-metragem que encerra o universo cinematográfico de duas décadas da franquia traz falhas e decepção

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Divulgação

Que o universo cinematográfico dos X-Men é confuso isso não é novidade para ninguém. Filme após filme, mais e mais discrepâncias temporais recheiam a narrativa do supergrupo. É conveniente ignorá-las, para melhor apreciar os filmes. Dito isso, X-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix, EUA, 2019 – Fox) é o último longa situado nesse universo, já que a Fox e a Marvel estão agora sob o mesmo teto, o da Disney. Como encerrar, então, uma saga, mesmo que não das melhores, de dezenove anos?

Fênix Negra não se preocupa com isso. Seus primeiros atos são extremamente similares aos de X-Men: Confronto Final (a história em quadrinhos que origina ambos os filmes é a mesma), o que torna sua narrativa um pouco cansativa. Resta ao final do segundo ato e, por consequência, ao terceiro a difícil tarefa de trazer inovação às telas. Mas, infelizmente, o sentimento de “mais do mesmo” permanece – referente ao gênero, não ao longa-metragem de 2006.

Este não é, ainda, o principal problema do roteiro. Toda fala é artificial, parte pela entrega do elenco mas principalmente por repetir jargões do cinema comercial. Além disso, diversos diálogos e monólogos poderiam ser substituídos com uma direção atenciosa e engajada – o que não parece ocorrer. Simon Kinberg parece mais cansado dos mutantes que o público, realizando uma direção que não foge do convencional. Nivelando a compreensão de seu público por baixo, o roteirista e produtor, agora elevado à categoria de diretor, insiste em repetir a estética (que falhara muitas vezes) da nova geração de filmes, transformando uma das mais aclamadas sagas de quadrinhos da Marvel em um dispensável filme da franquia, fortemente dependente de seu elenco.

Isso representa mais uma baixa significativa no filme. Jennifer Lawrence performa uma boa Raven, consistente com sua construção anterior da personagem, mas diminuída pelo roteiro. Jessica Chastain faz uma das vilãs, porém caricata e completamente unidimensional. Talvez algumas aulas com Isaac Hempstead, o Bran de Game of Thrones, possam ensiná-la uma convincente cara de pôquer. O trio inglês Michael Fassbender, Nicholas Hoult e James McAvoy (com ênfase nos dois primeiros) desenvolve novamente seus calejados personagens, mesmo que o roteiro pouco contribua para seus arcos. Já Sophie Turner, que interpreta Jean Grey, a protagonista do longa, deixa a desejar. Mal dirigida, Turner (que também atuou em Game Of Thrones) faz a maioria dos diálogos com pouca mudança em seu tom, sempre com a mesma expressão. O maior erro, no entanto, foi o desenvolvimento falho de sua personagem – algo inerente ao filme, pelo visto.

Ainda assim, com a consciência de que X-Men: Fênix Negra não se propõe a ser nada além de um costumeiro filme de herói, não se pode esperar muito de seu desenvolvimento de personagens e trama. Dos efeitos especiais, no entanto, não podemos falar a mesma coisa. Este é um incômodo grande no filme – a qualidade do CGI, sua estética e verossimilhança, oscila demais. Em algumas cenas, os efeitos são state of the art, embora algumas sequências apresentem planos dignos do início do século. Ainda pior, talvez, é a insensibilidade da direção de elenco, já que muitas “poses” dos mutantes (em especial Magneto e Jean) são absurdamente falsas. Além disso, a criação do universo beira a excelência. Uniformes, objetos de cena e locações harmonizam a referência ao passado da saga com a inovação do próprio lançamento.

Por fim, é preciso mencionar que a montagem também oscila – inclusive dentro de uma mesma cena. A mais memorável cena de ação do filme, um embate cuja trama é spoiler puro, inicia de maneira bagunçada, mas termina primorosamente. Esta característica da montagem coaduna com a edição de som, embora a trilha sonora seja completamente dispensável.

Desta forma, X-Men: Fênix Negra não mantém a decrescente estipulada por X-Men: Apocalipse, mas não subverte quaisquer possíveis expectativas baseadas em seu predecessor. Com o elenco aquém do esperado, o filme oferece um encerramento modesto para a saga. Com seu atestado de óbito assinado antes mesmo de seu lançamento, o último filme dos X-Men fora do MCU decepciona.

 

ROCKETMAN

30.05.2019

Musical surrealista aborda os intensos conflitos por trás da persona que tornou-se astro do rock sob o nome de Elton John

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

O nicho das cinebiografias sofreu um baque recentemente, pro bem ou pro mal, com Bohemian Rhapsody. Dexter Fletcher, o diretor chamado para apagar o incêndio de Bryan Singer no “filme do Queen”, também é responsável pela realização de Rocketman (Reino Unido/EUA, 2019 – Paramount), a ficção em torno da história do cantor e compositor Elton John. Talvez por isso os filmes compartilhem muitas similaridades.

A estrutura narrativa é, de certa forma, muito parecida. Elton conta sua história para um grupo de reabilitação, rememorando situações boas e ruins de sua trajetória. A infância difícil, o estrelato meteórico e o abuso de drogas e sexo são grandes temas da trama, todos tratados com maior densidade do que em Bohemian Rhapsody. Ainda assim, as comparações desta resenha não passam daqui – Rocketman é uma obra completamente independente de Bohemian Rhapsody e deve ser tratada como tal.

O surrealismo com o qual Fletcher trata a construção de camadas do filme é uma surpresa ótima. Artista e plateia flutuando; extensas e bem coreografadas cenas musicais; devaneios em tela, quase como alucinações. Estes são meros exemplos, dos quais o mais divertido é, por sua metalinguagem, Elton John transformando-se num foguete. Desta forma, o longa se propõe a adentrar a história do astro tornando clara sua capacidade ficcional – a inspiração na vida dele não faz deste um filme puramente factual. Assim, o roteiro de Lee Hall tem maior abertura para seu dinamismo. Hall trafega por diversos momentos da história de Elton, explorando principalmente a relação entre astro e mero humano (Reginald Dwight, seu eu anterior à fama), com fluidez. Ainda assim, o filme parece por vezes ter pressa em alcançar seu ponto de maior conflito, o fundo do poço do artista, ainda que funcione.

O principal vetor, no entanto, que conecta os episódios temporais do longa com eficiência é seu elenco, com atuações de tirar o chapéu. Matthew Illesley e Kit Connor interpretam Reggie em sua infância e pré-adolescência, ambos satisfazendo o personagem, mesmo com pouco tempo em tela. Resta a Taron Egerton transmitir os traços mais desafiadores de Reginald/Elton. E ele o faz com maestria. Sua ótima atuação torna-se ainda melhor quando contracena com Jamie Bell (que interpreta brilhantemente o parceiro letrista Bernie Taupin injetando camadas de maneira muito verossímil) ou com Richard Madden (que performa o subaproveitado empresário/namorado John Reid, extraindo do personagem um vilão satisfatório). Bryce Dallas Howard e Gemma Jones, o núcleo familiar do filme (fazem a mãe e avó de Reggie, respectivamente), também entregam majestosamente suas personagens.

Porém, por conta da já mencionada inquietação do roteiro, o longa-metragem é musical demais e, evitando comparações, torna-se cansativo ao apresentar montagens “inventivas” somente para avançar a trama temporalmente. Ou seja, existem poucos momentos de diálogos entre uma peça musical e outra – todas as montagens citadas são mescladas nelas. Claro, a música é de Elton John, o que torna o ritmo repetitivo menos entediante.

Rocketman insiste em apresentar o lado humano de Elton John (ou o Reginald Dwight por trás da persona criada pelo astro), transparecendo todas as facetas do personagem em suas duas horas de duração. Seu protagonista borra a linha cinza entre o certo e o errado, fato que o filme entrega sem moralismo algum. Dessa forma, a excelente trilha sonora embala a apressada história, que por sua vez se sustenta pela majestosa atuação de todo seu elenco, acompanhada de uma boa dose de surrealismo, para desprender o filme de seu inspirador. Ficção é ficção. A “história como de fato aconteceu” não protagoniza nem documentários, quem dirá este Rocketman.

 

MONGA

30.05.2019

Diretora viaja por várias cidades do Brasil e dos EUA para contar a história do show que transforma uma mulher em gorila

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Divulgação

A mulher gorila, Monga, é um grande sucesso nos parques de diversão em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, os shows  girl-to-gorilha tiveram seu auge em solo estadunidense, tendo sobrado apenas um, itinerante, em funcionamento. É sobre isso que se propõe a dialogar a diretora Cris Siqueira, que assina Monga (Brasil, 2019), um documentário com dupla cidadania em suas imagens, tanto quanto sua protagonista.

Nele, Siqueira monta um conjunto de relatos de circenses e proprietários da atração, intercalados com demais figuras da área, para construir uma narrativa explicativa em torno do fenômeno Monga. A rotina de trabalho, os vários motivos para o sucesso da atração e seu futuro são temas pincelados nos cinquenta e cinco minutos do longa-metragem. Um tema curioso, de fato, que se sustenta na maioria da duração do filme, mas problematicamente.

Dois são os malefícios de ritmo de Monga. O filme estende-se desnecessariamente em histórias indiferentes ao seu tema enquanto minimiza o tempo de reflexão de pontos que poderiam ser abordados com maior afinco. Ele também é repetitivo em seu formato, sendo formado inteiramente por entrevistas – grande parte não passa de cabeças falantes. Não suficiente, a montagem quebra o ritmo interno destas ao repetir muitas informações e cortar o quadro constantemente com letreiros, quando estes poderiam ser adicionados em meio à fotografia existente.

Desta forma, o documentário não estimula a reflexão do espectador quando retrata Nancy, que trabalha como mulher-gorila nos Estados Unidos, se questionando se seu emprego não seria um exemplo de perpetuação de estereótipos e, de modo geral, de uma cultura racista. Pelo contrário, ele reafirma o fenômeno da atração nos parques de diversão América afora.

Sua estética é, no entanto, um bom exemplo de cinema point-and-shoot, soando simples na maioria das vezes, mas cujo conjunto ordenado é conciso, unitário. Ou seja, enquanto o ritmo de montagem oscila, a coesão estética se mantém ao longo de toda a projeção. Sendo assim, Monga se faz interessante. Embora construa-se em torno de um tema de nicho, não mergulha em uma ótica narrativa particular e, portanto, acaba moroso. Deixa o sentimento de que, se montado com uma perspectiva temática diferente, acabaria se tornando um filme muito mais instigante do que aquele que vemos.

No entanto, isso não faz de Monga uma obra ruim. A obra merece as premiações que recebeu em sua passagem pelo circuito e deveria, por princípio e qualidade, receber maior holofote na mídia brasileira. Não sou um grande fã da história circense e de parques de diversão, mas aposto que um entusiasta desse universo gostaria mais da narrativa, por mais repetitiva que seja, do que eu.

 

KARDEC

19.05.2019

Cinebiografia do “pai do espiritismo” promove reflexões a respeito do retrocesso da humanidade em tempos sombrios

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Filmes sobre o espiritismo costumam ser fenômenos de bilheteria nacional. Vide Nosso Lar, dirigido por Wagner de Assis, e a história do médium brasileiro Chico Xavier, de Daniel Filho, produções de 2010 baseadas em livros que arrastaram multidões ao cinema. Isso se explica pelo fato de que o Brasil possui a maior comunidade espírita do mundo. A doutrina de Allan Kardec surgiu na França, na metade do Século 19, e ganhou status de religião no Brasil, onde 3,8 milhões de pessoas se declararam seguidores, de acordo com o censo de 2010.

Nesta semana, mais uma produção do gênero entrou em cartaz nos cinemas brasileiros. Desta vez, é a história do pai do Espiritismo que é levada às telas numa produção ousada e detalhista ao recriar a época em que o pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, um homem cético, deparou-se com as tais “mesas girantes” e mudou a história da humanidade, unindo ciência, filosofia e religião.

Kardec (Brasil, 2019 – Sony Pictureslembra os 150 anos da morte do pai do espiritismo. Para muitos espectadores pode ser uma simples panfletagem, mas na essência é mais que uma cinebiografia. A produção que estreou na última quinta-feira nos faz refletir sobre como a humanidade caminha a passos curtos em sua incredulidade, ódio e intolerância; como somos capazes de atravessar séculos e ainda cometer retrocessos.

Wagner de Assis (que também foi roteirista de novelas Além do Tempo e Espelho da Vida) volta à temática espírita assinando a direção do longa baseado no livro Kardec: O homem que Desvendou os Espíritos, do jornalista Marcel Souto Maior. Quem incorpora o pai da doutrina é o ator Leonardo Medeiros (com vasta experiência em teatro e na televisão), cuja interpretação impecável carrega o filme do início ao fim ao lado da atriz Sandra Corvelone (Amélie-Gabi, mulher do professor).

A história começa em 1852, quase meio século depois da Revolução Francesa influenciada pelo Iluminismo e um ano após o golpe bem-sucedido do imperador Napoleão III na sequência da Revolução de 1848, também conhecida como Primavera dos Povos. O sobrinho de Napoleão I promoveu a modernização de Paris. Foi na segunda metade do Século 19 que a catedral de Notre Dame (recentemente atingida por um incêndio de grandes proporções) passou por uma grande restauração. O ensino nas escolas, porém, sofria forte intervenção da igreja.

O professor Rivail era um intelectual de quase meia idade e sem filhos, que decide abandonar o emprego de professor numa escola ao ser contrário aos dogmas da igreja católica. “A fé não deve ser imposta a ninguém”, dizia. Rivail tinha um conhecimento eclético – gramática, física, química, contabilidade, astronomia – e passou a sobreviver dando aulas particulares em casa.

Até que certo dia um conhecido lhe chamou a atenção para o fenômeno das “mesas girantes”, que flutuavam comandadas supostamente por espíritos de pessoas mortas. A moda tomou conta de Paris entre nobres e burgueses e virou até chacota no teatro.  Rivail, no início, resistia e não acreditava no que via. Para ele, tudo era magnetismo, truque. Até que participou de uma sessão restrita onde médiuns – mulheres no filme – passaram a incorporar os espíritos. Então, viveu experiências inexplicáveis como presenciar mensagens e textos inteiros psicografados e assinados por quem já havia falecido. O professor tomou a iniciativa de levar uma dessas assinaturas (de um escritor francês) para ser autenticada e quando percebeu que não se tratava de fraude, começou a desconfiar que “havia mais coisas entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”, como disse Shakespeare.

Numa dessas sessões, um espírito amigo de vidas passadas se comunicou e revelou que Rivail era a reencarnação de um druida celta chamado Allan Kardec. E conferiu ao professor a missão de “abalar e transformar o mundo”. Mas, para isso, era preciso estar preparado para enfrentar ódio e a descrença dos homens e a força contrária dos “espíritos maus”. Rivail, sempre com apoio de sua mulher, encarou o sacrifício e adotou a metodologia científica para provar os fenômenos sobrenaturais.

Sob o pseudônimo de Allan Kardec, ele publicou O Livro dos Espíritos em 1857, que marcou a fundação da doutrina. A partir daí, começou sua luta contra a igreja católica e sua “caça às bruxas”. Livros foram queimados e os médiuns, perseguidos.

O longa de Assis teve cenas rodadas em Paris e no Rio de Janeiro. A presença do catolicismo no filme é marcada pelas frequentes cenas em que a catedral de Notre Dame surge como elemento central. Aliás, nas tomadas mais amplas feitas em Paris, como em umas das pontes que atravessam o Rio Sena, são perceptíveis os efeitos de computação gráfica (a cidade está vazia!), provavelmente por conta do orçamento reduzido. A maioria das cenas são internas e valorizam os diálogos trocados entre Rivail e Gabi, como o momento de romantismo entre o casal (“é preciso olhar os céus para se inspirar em tempos sombrios”). Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência, aliás.

No Brasil

Até sua morte, em 1869, Rivail publicou outros quatro títulos sob o mesmo pseudônimo: O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. O pentateuco é a base da doutrina espírita, que não vingou na França. No Brasil, ao contrário, o número de interessados em conhecer essa filosofia de vida só cresce. Segundo o último censo, realizado em 2010, houve um aumento de 65% no número de espíritas no país. A maioria dos adeptos tem nível superior completo (31,5%). O escritor Marcel Souto Maior, autor das biografias de Allan Kardec e Chico Xavier, contou em entrevista à Folha de S. Paulo que após a morte de Kardec houve o chamado Processo dos Espíritas (1875), que ridicularizou suas obras, consideradas fraudulentas. Mas se lá os inimigos e “espíritos do mal” aparentemente ganharam a guerra, aqui os espíritas não sucumbiram e a doutrina renasceu com os médiuns Bezerra de Menezes e Chico Xavier, que psicografou mais de 400 livros.

Divaldo

Além de Bezerra de Menezes e Chico Xavier, outro nome que popularizou o espiritismo além das fronteiras brasileiras é o baiano Divaldo Franco. Em setembro deste ano, será lançado nos cinemas o filme Divaldo – O Mensageiro da Paz, com Bruno Garcia no papel do médium. Divaldo publicou 270 livros, realizou mais de 13 mil palestras em duas mil cidades e foi nomeado “Embaixador da Paz no Mundo” pela Embassade Universalle Pour la Paix, em Genebra, na Suíça. Com seus 92 anos, segue firme na divulgação da doutrina e na dedicação à caridade com os trabalhos da Mansão do Caminho, obra social do Centro Espírita Caminho da Redenção, fundada em 15 de agosto de 1952 em Salvador. Ao longo de sete décadas, retirou mais de 160 mil pessoas da miséria. Atende cerca de cinco mil pessoas por dia, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos.

 

HELLBOY

16.05.2019

Reboot do herói levado inicialmente aos cinemas pelo diretor Guillermo Del Toro derrapa em diversos tons

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

O diretor mexicano Guillermo Del Toro, há 15 anos atrás, iniciou uma obra que desencadearia numa ruptura com o estúdio que o contratou e, após a frustrada expectativa de um novo filme, um reboot. Ron Pearlman é substituído por David Harbour no papel que dá nome à saga, John Hurt por Ian McShane e o icônico Abe Sapien de Doug Jones foi esquecido. Surge, então, o mais recente Hellboy (EUA/Reio Unido/Bulgária, 2019 – Imagem Filmes).

Não seria terrível um novo Hellboy sem seu idealizador original. Poderia, até, trocar Ron Pearlman por um ator mais jovem. Numa era pós-Stranger Things e de MCU, nasce um Frankenstein demoníaco de comédia, horror e jornada do velho herói. Dirigido por Neil Marshall, este Hellboy de 2019 tenta tudo e consegue, de fato, muito pouco. O diretor parece pouco investido em desenvolver uma linguagem concisa para o filme e acaba derrapando em diversos tons, incapaz de manter coesão narrativa ao longo da trama. Cada flashback tem sua estética e ritmo, enquanto o tempo presente é fortemente inconstante e muitas vezes caricato. É impossível não se lembrar de Jar Jar Binks e sua comédia corporal em cena segundos depois de uma grande tragédia.

A trama se inicia com um flashback extenso, narrado com obviedade. Repete-se a preguiçosa tentativa de contar-nos que Rei Arthur empunhou a Excalibur enquanto vemos… Rei Arthur empunhando a Excalibur! Adiante, acompanhamos Hellboy em sua missão na Inglaterra, indo ao auxílio do tradicional Clube Osiris. No entanto, o convite se torna uma enrascada – o protagonista é o causador premonitório do fim do mundo, motivo pelo qual o grupo britânico quer matá-lo. Somente com essa ameaça obliterada entramos de fato na trama principal do filme, desenvolvida desde o flashback. Hellboy deve impedir o retorno da maléfica bruxa Nimue, a Rainha de Sangue, que deseja instaurar o caos no mundo com sua praga. Ainda assim, o roteiro de Andrew Cosby insiste em atirar seu espectador para um conflito rasamente desenvolvido entre o protagonista e seu pai, o Professor Broom de Ian McShane, e uma sequência morosa e desnecessária com mais uma vilã, Baba Yaga, interpretada por Emma Tate e Troy James (voz e corpo, respectivamente).

Os personagens são, graças ao roteiro, unidimensionais ou puramente entregas de informações para o desenvolvimento da história, como é o caso de Baba Yaga. David Harbour interpreta, de modo eficiente, uma versão diferente do demônio, focando em sua imaturidade adolescente ainda que esta não seja explicitada no universo do filme, mas lhe falta carisma. Ian McShane cria um tutor desinteressante e desinteressado, cuja função é expositiva. Alice Monaghan (Sasha Lane) é uma estranha amiga/par romântico de Hellboy, por mais que ele a tenha resgatado de fadas quando bebê e a visto crescer.

Além de arrastado, o longa é inconstante em seus efeitos visuais, apresentando ora boas animações e texturas, ora figuras escabrosas e mal finalizadas. Há uma memorável cena de luta, inventiva e dinâmica, entre Hellboy e gigantes, porém ela é a única de todo o filme. A trilha sonora é extremamente ineficaz, utilizando ostensivamente hinos do rock do século 20 mesclados com aleatórios fortes riffs distorcidos.

Hellboy derrapa em todos seus aspectos, incapaz de desenvolver seus personagens, universo e cativar seu público – seja por ação, horror (no terceiro ato) ou por comédia, onde falha em completude. Uma tentativa desesperada de bilheteria fácil, aposto na completa frustração da produtora em alavancar uma sequência, desejo explícito em toda a história. É preciso um ótimo filme para o prenúncio de uma boa continuação. Estamos longe disso neste “primeiro” e, espero, mais ainda do segundo.

 

JOHN WICK 3: PARABELLUM

16.05.2018

Terceiro capítulo da saga quadrinesca protagonizada por Keanu Reeves entedia mesmo com as ótimas cenas de ação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Um Duro de Matar com cenas de ação melhores. Foi assim que descreveram a série John Wick para mim, semanas antes de assistir a Parabellum, a terceira narrativa do universo quadrinesco estrelado por Keanu Reeves. A saga chega com fôlego em seu novo capítulo, mantendo-se firme na bilheteria dos dois predecessores.

Desta vez, a trama de Derek Kolstad, roteirizada com mais três colaboradores, revolve em torno da tentativa de fuga de Wick, excomunicado e com uma recompensa multimilionária em sua cabeça, requisitando a ajuda de Winston (Ian McShane) e seu hotel – que entra em choque com a Alta Cúpula. A princípio, uma preguiçosa desculpa para cenas de ação ininterruptas. E é, de fato. Por mais que quatro pessoas tenham trabalhado no roteiro, ele soa incompleto ao longo do filme, sem coesão entre suas sequências, simples e confuso (por mais paradoxal isso soe!) demais.

O ponto alto de John Wick 3: Parabellum (John Wick: Chapter 3 – Parabellum, EUA, 2019 – Paris Filmes), no entanto, funciona bem. As sequências de ação são muito bem gravadas – um ótimo trabalho do diretor Chad Stahelski, que trabalhou como dublê antes de assumir o controle de John Wick (2014). A inventividade da ação é seu estrelato, capaz de manter o espectador focado. Até certo ponto, pois Stahelski ainda deixa sua inexperiência latente, oscilando muito quando não dirige tiros, socos, pontapés e cachorros (que estrelam uma das melhores cenas de Parabellum). Ainda mais, o longa força tantas cenas de ação sem progressão narrativa entre si que se torna fortemente maçante. Além de muitas, todas são longas, sem verossimilhança. Afinal, é comum um dublê lutar, estocado com facas, como se estivesse 100%.

Desta forma, sem amparo do roteiro, o elenco não trabalha bem. Por mais denso o universo, seus personagens são rasos e unidimensionais. McShane não empolga, tal como a vilã de Parabellum, a Adjudicadora, interpretada por Asia Kate Dillon. Laurence Fishburne e Lance Reddick reprisam seus papeis com eficiência, enquanto Mark Dacascos interpreta o vilão físico (aquele que o protagonista deve derrotar em uma longa cena de ação, clímax do filme), Zeros, tão raso quanto os demais. Reeves, estrela do filme, apresenta carisma e entrega similares às que mostrou em Cópias – De Volta a Vida. Isto é, nada.

O design de som é ineficiente, cuja trilha sonora parece uma coletânea de temp score. Um grande problema é a plasticidade repetitiva do foley (camada de som digital que compreende interações, passos e roupas), em especial de seus socos e chutes. A fotografia, no entanto, é brilhante. Além de harmonizar muito bem com a direção nas cenas de ação, o trabalho de Dan Lautsten, que fez A Colina Escarlate e A Forma da Água, ambos dirigidos por Guillermo Del Toro, é incrivelmente inventiva, brincando com reflexos, paletas fortes e muita mobilidade de câmera.

Mais um filme puramente escapista, John Wick – Capítulo 3: Parabellum é entediante e escancara seus diversos problemas. Ainda assim, suas dinâmicas lutas são um prato cheio para fãs do gênero, consolidando-se no nicho que ocupa com maestria cinematográfica. Mérito maior de Lautsten que de Stahelski.

 

POKÉMON: DETETIVE PIKACHU

09.05.2019

Longa-metragem renova franquia fantástica e abre as portas para expansões do universo criado nos anos 1990

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Pokémon se iniciou em 1995, com o anime original lançado em 1997. De lá pra cá, vinte e quatro anos depois, a franquia ainda move milhões de fãs ao redor do mundo, obstinados por card games ou pela mais nova saga eletrônica. Aparentemente, com o prenúncio do sucesso de Pokémon: Detetive Pikachu (Pokémon Detective Pikachu, EUA/Japão/Reino Unido, 2019 – Warner), a horda de fãs Pokémon será transferida, também, para as salas de cinema.

A trama deste longa-metragem gira em torno de Tim Goodman (Justice Smith), um jovem adulto incapaz de conectar-se com um parceiro Pokémon. Quando seu pai morre misteriosamente, vítima de um acidente de carro, Tim deve ir para Ryme City, uma encantadora cidade onde Pokémon e humanos vivem em comunhão, para lidar com a burocracia do falecimento. Ao entrar em seu apartamento, no entanto, o protagonista se depara com um Pikachu falante (Ryan Reynolds), inteligível apenas para ele e focado em resolver a morte de seu ora parceiro Harry (pai de Tim).

A química entre a dupla é instantânea, rendendo uma dinâmica estrutural interessante. Se, por um lado, Pikachu é desenvolto e altivo, Tim é retraído e não encaixa no mundo em que pulou de cabeça. Tal é a razão para que a construção de mundo lembre muito a empregada nos primeiros filmes de Harry Potter, quando, assim como o protagonista, víamos o universo mágico de Hogwarts (aqui, Ryme City) pela primeira vez. Assim, somos imersos num universo que, à primeira vista, lembra estética e fotograficamente um Blade Runner com mais constraste e menos sujeira, homenageando o neonoir com inovadores esquemas de cores, marca registrada da era dos super-heróis. Ainda assim, a direção e a fotografia logo se anuviam, sem deixar a parcela infantil de seu público de lado. Este, inclusive, é o público-alvo da maioria das piadas e cenas de ação, mas o público adulto, embriagado na nostalgia do universo Pokémon, tem seus momentos reservados ao longo do filme.

Rob Letterman, que já havia dirigido Monstros Vs Alienígenas e O Espanta Tubarões, parece ter encontrado uma estética competente a si, imprimindo a marca Pokémon sem um esmero pelo hiper-realismo ou comicidade escrachada, orbitando entre a verossimilhança e a característica fantástica de seu universo. Parte deste crédito, no entanto, vai ao incrível departamento de CGI, que presenteia o filme com sua principal peça, e a direção de arte, que constrói e conceitua toda Ryme City e cada um das centenas de Pokémon que figuram o filme.

É uma tristeza, no entanto, que não possamos analisar este longa em sua língua original. Aqui, 90% das cópias são dubladas – o que incapacita um detalhado balanceamento de atuações e longas frases sobre o timing cômico da obra – que, em sua versão brasileira, tem momentos fracos. Ainda assim, o elenco conta com nomes de peso, como Bill Nighy no papel do visionário elo entre Pokémon e humanos, Howard Clifford.

Seu roteiro, escrito a quatro mãos, não deixa a desejar, trazendo referências aos clássicos arcos do anime sem plasticidade. A reviravolta no final do segundo ato, no entanto, surpreende massivamente a plateia. Claro, não no nível de Vingadores: Ultimato, mas esta não é uma comparação justa.

Pokémon: Detetive Pikachu é um presente aos fãs adultos da saga que, levando seus filhos ao cinema, poderão dividir a nostalgia com as novas gerações com sólidos motivos para ter amado o filme. Da música à narrativa, é uma ótima surpresa para quem não esperava muito e, ainda mais importante na indústria dos últimos anos, torna-se prato cheio para expansões deste universo. Isto sem perder, nem por um segundo, sua independência fílmica.

 

CEMITÉRIO MALDITO

08.05.2019

Trinta anos depois, obra do cultuado escritor Stephen King volta a ganhar adaptação para as telas do cinema

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

A obra literária de Stephen King, para o bem ou para o mal, rende diversas adaptações na indústria do cinema. Tradicionais como À Espera de Um Milagre e Um Sonho de Liberdade se unem a eternos ícones do cinema de horror, como O Iluminado; Carrie, A Estranha e Pet Sematary. Este, no entanto, é o mais novo filme a figurar a lista de adaptações relançadas nos últimos anos – fenômeno crescente, em especial, nesta década. Utilizando o mesmo método com o qual resenhei para o Mondo Bacana a versão de Suspiria feita pelo diretor Luca Guadagnino, não tecerei comparações entre o filme de Kevin Kölsch e Dennis Widmeyer e o original de Mary Lambert, lançado 30 anos atrás.

Em Cemitério Maldito (Pat Sematary, EUA, 2019 – Paramount), Louis (Jason Clarke), Rachel (Amy Siemetz) e seus filhos se mudam para uma pacata cidade, buscando sossego da correria metropolitana em uma casa de campo com terreno gigante. É claro que o plano não sai como esperado, com o advento da morte do gato da família, Church, trazido de volta dos mortos com o auxílio do misterioso vizinho da família, Jud, interpretado por John Lithgow. Embora uma história promissora, o roteiro de Matt Greenberg e Jeff Buhler, que assinou Maligno (2019), empaca o desenvolvimento com seu ritmo moroso. Demoramos a sentir que o filme se desenvolve, gastando tempo demais com a adaptação da família à casa.

Além disso, grande parte dos primeiros atos fica na criação de subtramas sem conclusão, como a intrigante relação entre Louis e o seu falecido paciente Pascow (Obssa Ahmed), alertando o perigo que ronda o protagonista e sua família ao longo do filme. O pior gasto de tempo, no entanto, é a relação de Rachel com sua irmã, Zelda (Alyssa Brooke Levine). Ainda que o trauma resulte em uma forte característica da personagem, não merece todo o furor alucinógeno com o qual a dupla de diretores trata a história – uma desculpa para gore jumpscares.

Os jumpscares do filme, inclusive, são completamente ineficientes.  Sua previsibilidade os torna artificiais demais, além de serem estragados pelo exagero na intensidade do som. O sound design de Cemitério Maldito é convencional, mas deixa muito a desejar. Da mesma forma, a música não adiciona quaisquer camadas.

Ainda sobre a convencionalidade do longa, a dupla de diretores opera de forma eficiente, entendendo bem o gênero no qual se inserem sem mergulhar nos clichês. Eles existem, em escala maior que o esperado, mas não tomam conta da trama. No entanto, a direção não cria quaisquer marcas de estilo.

Além disso, a atuação dos protagonistas é funcional. O maior problema, no entanto, é Jeté Laurence, que interpreta Ellie de maneira extremamente superficial em seus dois “estados de espírito” ao longo da trama. No fim, o terceiro ato de Cemitério Maldito contrasta os predecessores vagarosos e é extremamente apressado, sem amarrar quaisquer nós que não sua história principal.

Desta forma, a nova adaptação desta obra literária de Stephen King não foge do convencional. Sem muitos grandes aspectos, amarga uma falta de empolgação consigo mesma. É bem produzida, com cenas bem fotografadas, porém mal dirigida e perde o potencial. Aliás, com exceção de It – A Coisa, os últimos filmes que bebem da fonte de King estão deixando a desejar.

 

VINGADORES: ULTIMATO

05.05.2019

Universo Cinematográfico Marvel encerra ciclo de 11 anos e 21 filmes com emocionante tributo aos super-heróis e seus fãs

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Texto por Andrizy Bento

Foto: Marvel/Disney/Divulgação

“Avengers Assemble!” – Steve Rogers

Após o estalar de dedos de Thanos (Josh Brolin) que dizimou metade da vida no universo e conferiu um final trágico e melancólico para Vingadores: Guerra Infinita (2018), muito se especulou acerca de como a catástrofe seria abordada em Vingadores: Ultimato(Avengers: Endgame, EUA, 2019 – Marvel/Disney) e, o mais importante, se seria possível revertê-la. O filme vinha cercado de inúmeras expectativas desde antes mesmo de possuir um trailer. E o burburinho aumentava conforme o material promocional era divulgado. Comum quando se trata de qualquer fenômeno pop.

Portanto, é interessante notar como todas as teorias que circularam pela internet e foram temas de vídeos intermináveis no YouTube e posts eloquentes no Reddit e outras mídias sociais não chegaram nem próximas de se concretizar. O fato de o filme da Capitã Marvel (2019) ser situado na década de 1990, dando a ideia de que seria ela a alterar o passado de modo a consertar o futuro, foi uma das primeiras conjecturas derrubadas assim que o filme solo da heroína entrou em cartaz. Presença de Adam Warlock, figura emblemática dos quadrinhos? Existência de universos paralelos que separavam o grupo de sobreviventes dos dizimados? Nem pensar. Ainda que viagem no tempo e o Reino Quântico introduzido em Homem-Formiga (2015) sejam realmente de vital importância para a história – bem como os fãs haviam teorizado – a maneira como estes elementos são empregados, nós nem havíamos chegado a cogitar.

Deveríamos ter confiado apenas em Robert Downey Jr, intérprete de Tony Stark/Homem de Ferro, que garantiu em entrevistas que o filme era totalmente imprevisível. Os teares e trailers pouco revelavam acerca do que vimos na tela. Os fãs até chegaram a criticar uma das prévias finais que mostrava Tony Stark retornando ao Planeta Terra ao lado de Nebula (Karen Gillan), contrariando a sugestão de que ele morreria no espaço, como um teaser anterior pareceu apontar. Bobagem chamar de spoiler. Ninguém esperava que uma suposta morte de um dos personagens principais fosse alardeada em um vídeo promocional, não é mesmo? Era óbvio que o herói retornaria à Terra e isso ocorre já nos primeiros minutos de projeção. No mais, Vingadores: Ultimatotraz uma surpresa a cada novo frame.

“A única coisa permanente na vida é a impermanência” – Thor

Em seus minutos iniciais, o longa se concentra em mostrar como os Vingadores remanescentes estão lidando com o trauma resultante de seu fracasso no épico embate contra Thanos e a concretização de seu abominável plano de restaurar o equilíbrio do universo, aniquilando metade da população universal. Thor (Chris Hemsworth) é, de longe, um dos que mais sofre com a culpa que carrega por não ter conseguido deter o Titã Louco, tendo sido o último dos heróis a confrontá-lo. Após o retorno de Carol Danvers/Capitã Marvel (Brie Larson) à Terra, o grupo parece se sentir mais confiante para encarar o vilão outra vez em busca de reverter o mal que ele causou. No entanto, o reencontro com o déspota não sai bem como eles esperavam, afinal Thanos não possui mais as Joias do Infinito. Frente às novas frustrações e desesperanças, boa parte do time se dispersa – resolvendo cuidar de suas próprias vidas, aprender a superar a tragédia e tentar cicatrizar as feridas.

Há um salto de cinco anos e vemos Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans) participando de um grupo de apoio aos sobreviventes à dizimação e lamentando a perda de entes queridos, Tony Stark constituindo família e Thor no fundo do poço, como um completo desistente. Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson) ainda mantém contato com alguns dos heróis, como Rocket Raccoon (Bradley Cooper), Carol Danvers e James Rhodes/Máquina de Combate (Don Cheadle). Este último, inclusive, é quem a atualiza acerca do paradeiro de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), que se revoltou completamente após sua família ser vitimada por Thanos. Com o ressurgimento de Scott Lang/Homem-Formiga (Paul Rudd) e um elemento chave que pode ser a porta de saída para o pesadelo em que os Vingadores mergulharam após o fracasso, é hora de pedir auxílio a Stark, ir atrás de Barton, convencer Thor a regressar e contar com as habilidades de Dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo), agora que ele finalmente conseguiu fazer as pazes com seu monstro pessoal, o Hulk.

Viagens temporais para mudar eventos do passado em ordem de restaurar o futuro não representam novidade. Pelo contrário, têm sido usadas à exaustão no cinema de entretenimento. Tanto é que vários títulos hollywoodianos do gênero são mencionados em linhas de diálogo certeiras de Ultimato. No entanto, o recurso que é apontado como manjado e simplista por muitos espectadores aqui é executado de maneira funcional e passando longe de qualquer clichê que os fãs pudessem ter imaginado. A missão dos Vingadores é voltar no tempo de modo a resgatar as Joias do Infinito – respeitando a cronologia estabelecida pelo MCU – para inseri-las na Manopla e desfazer o que Thanos ocasionou.

O resultado é um passeio nostálgico pelos filmes que integram a megaestrutura que é o Universo Cinematográfico Marvel, atribuindo a devida importância a todos os títulos que vieram anteriormente, mesmo filmes considerados mais fracos como Thor: O Mundo Sombrio (2013) ou outros menos alardeados como os longas dos Guardiões da Galáxia (2014 e 2017).

“Algumas pessoas superam, mas nós não. Nós não” – Steve Rogers

Em um digno tributo aos seis membros originais dos Vingadores, aqueles que deram início a esse grande evento, a viagem no tempo serve explicitamente para revisitar a mitologia construída até aqui, com propósitos que vão muito além de apenas satisfazer aos fãs. É quando temos a constatação de que nenhum elemento foi utilizado gratuitamente nos filmes que precederam Ultimato. E estamos falando dos 21 longas que compõem o MCU! Sim, tem uma quantidade razoável de fanservice na produção, mas é fanservice aliado a um roteiro engenhoso e brilhantemente escrito. O texto é inteligente, divertido e emocionante, equilibrando muito bem a intensa carga dramática com a comédia, a tensão e a ação. Tudo na medida certa.

Novamente, os irmãos Joe e Anthony Russo mostram sua destreza ao trabalhar com um numeroso elenco. Por mais que grande parte dos heróis só reapareça mesmo no clímax do filme e alguns personagens praticamente nem possuam muitas falas, todos possuem seu momento. Os embates, eximiamente coreografados e amparados por um desenho de produção primoroso, dão a oportunidade, nem que seja mínima, para cada herói brilhar, exibindo suas habilidades e mostrando do que são capazes. Diferentes núcleos colidem e o longa reserva um tempo de tela adequado para a conclusão de cada arco; resolvendo tudo a seu tempo, com o devido tratamento de respeito pelos personagens (pela maioria deles, pelo menos… Mas já retomamos esse tópico) e sem tornar o longa arrastado ou apressado demais. São três horas que passam voando e deixam os espectadores ansiando por mais. Você simplesmente não quer que o filme acabe.

E, por se tratar de uma homenagem aos membros fundadores da superequipe – merecida, afinal o elenco não fez uma tatuagem com o símbolo dos Vingadores à tôa; os atores realmente se importam com seus personagens – é a liderança do Capitão América, a cumplicidade entre Natasha e Clint, a devastação emocional de Thor, o pragmatismo de Bruce Banner e o coração de Tony Stark que representam o foco de Ultimato. Por mais que as cenas de ação – especialmente a épica batalha final – sejam espetaculares, é a humanidade dos heróis que vem em primeiro lugar.

O longa também presta um tributo aos próprios fãs. Várias passagens irão ficar gravadas na cabeça dos marvetes ao final da projeção: [atenção: spoilers] o glorioso momento em que os heróis, abatidos no longa anterior, retornam triunfantes para o confronto final contra Thanos e seu exército; Carol Danvers garantindo a Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland) que conta com um time de peso para ajudá-la a derrotar o Titã Louco e, enfim, reunindo o clã feminino do MCU, enfatizando a força das heroínas da casa; a emocionante sequência que envolve o Capitão América e o Mjölnir de Thor, que confere até um momento de humildade ao asgardiano quando este expressa sua alegria e fascínio ao ver que há outro digno de invocar o artefato; a breve aparição de Loki (Tom Hiddleston); a participação especial de Edwin Jarvis (James D’Arcy), mordomo de Howard Stark, e da Agente Peggy Carter (Hayley Atwell), fundadora da S.H.I.E.L.D. e grande amor da vida do Capitão América; a cena final entre Peter Parker e Tony Stark. Outra vez, é este o duo que arranca lágrimas dos olhos dos fãs.

Se há algum demérito, este é o arco de Thor. Um desserviço para o personagem e que apenas ajuda a reforçar um estereótipo que não deve, nem nunca deveria ser motivo de comédia. Mas, ainda assim, o texto acerta pontualmente com relação ao herói, especialmente ao humanizá-lo, mostrando que o todo poderoso e antes ególatra Deus do Trovão é um homem falho e capaz de admitir e se responsabilizar pelos seus próprios erros.

Talvez seja este um dos poucos descuidos realmente notórios da produção, visto que até mesmo o novo uniforme dos Vingadores, tão criticado quando do lançamento do trailer e que soava duvidoso na ocasião, passa a ser aceitável quando finalmente compreendemos a razão e o contexto de terem sido adotados pelo grupo.

“Parte da jornada é o fim” – Tony Stark

Foi com Homem de Ferro, em 2008, que o MCU teve início. Dirigido por Jon Favreau, o longa tinha a complexa missão de dar um pontapé inicial aos filmes produzidos pela Marvel Studios. Até então, a empresa licenciava seus personagens para outras companhias, como é o caso dos X-Men, Demolidor e Quarteto Fantástico para a 20th Century Fox e o Homem-Aranha para Sony Pictures Entertainment. Tratava-se de um negócio deveras arriscado, pois o Homem de Ferro era um veterano das HQs, mas relativamente desconhecido do grande público. Stark estava bem distante da popularidade de um Peter Parker da vida, mas acabou se tornando o principal rosto da Marvel, roubando o trono do Homem-Aranha com facilidade, graças ao carisma e talento interpretativo de Robert Downey Jr e a competência e carinho com que Favreau adaptou o personagem para as telas. E, talvez por isso mesmo, a participação do cineasta em Ultimato, ainda que pequena, seja tão significativa. Bem como todo o clima de despedida do Homem de Ferro.

É visível em cada fotograma como a jornada de Tony Stark, nesta fase do MCU, está prestes a se encerrar. Durante sua volta no tempo, o herói tem um momento com Howard Stark e uma oportunidade de tratar de assuntos mal resolvidos com seu pai. A família que forma, sua participação na missão, o resgate ao garoto por quem ele se afeiçoou… Tudo deixa nítido que ele está cumprindo sua jornada e que, parte dela, é o fim. E valeu a pena.

Algo que o cinema blockbuster e a cultura pop em geral têm nos ensinado desde o início é que não existem batalhas do bem contra o mal que não resultem em baixas de ambos os lados. Desde Star Wars, passando por Senhor dos Anéis, Harry Potter, X-Men até o fenômeno televisivo Game Of Thrones, entendemos que, assim como na vida real, também na ficção a morte faz parte da vida e não existem vitórias sem sacrifícios. O que importa é que nenhum destes sacrifícios seja em vão. Perdemos vilões emblemáticos, mas também gloriosos heróis. Afinal, não é possível que apenas o lado do mal perca seus combatentes. Aqueles que lutam por justiça também pagam um preço alto por essa escolha. Algo atestado, inclusive, pela cena final de Natasha Romanoff, de uma nobreza incomparável.

Assim como Guerra Infinita, Ultimato é um filme bem resolvido, que se fecha em si mesmo, apara arestas, proporciona um encerramento digno para alguns personagens, enquanto aponta futuros promissores para outros e representa nada menos do que um dos mais grandiosos blockbusters de todos os tempos. A produção assume riscos e os defende com dignidade e sabedoria. Entrega um final feliz, mas melancólico. Contraditório, eu sei. Todavia, depende do ângulo pelo qual você o analisa. É agridoce, pois tem sabor de missão cumprida, mas também de despedida. Leva às lágrimas, embora também renove as esperanças. Surpreende, mas não se poderia imaginar outro encerramento que não aquele que vemos na tela. Não deixa pontas soltas, porém, o futuro ainda nos reserva algumas surpresas e respostas.

Seja o que for que o Universo Cinematográfico da Marvel esteja preparando para nos oferecer futuramente, a sua principal missão, ele já cumpriu com louvor. Muito mais do que simplesmente realizar filmes-eventos, o MCU transportou para a tela toda a energia, a dinâmica, a ação e o carisma de personagens lendários das HQs, concretizando o sonho de todo leitor de quadrinhos e fãs de longa data desses magníficos e nobres heróis que sempre desejaram vê-los no cinema.

E que venha a fase 4 da Marvel!

>> A jornalista assistu ao filme a convite da sala TSX Laser Cineplus Shopping Jardim das Américas

 

ATENTADO AO HOTEL TAJ MAHAL

04.05.2019

Ataque terrorista ocorrido em 2008 em hotel de luxo na Índia chega aos cinemas brasileiros logo após eventos semelhantes em Sri Lanka

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Quase 62 horas ou pouco mais de 2.350 quilômetros de distância separam o Hotel Shangri-La, em Colombo, no Sri Lanka, do Taj Mahal Palace Hotel, em Mumbai, na Índia. Os dois hotéis de luxo cinco estrelas em dois países de extrema desigualdade social foram alvo de ataques terroristas. No último domingo de Páscoa, data que simboliza a ressurreição de Jesus Cristo, foram 253 mortos no Sri Lanka. Os terroristas islâmicos explodiram igrejas – templos do catolicismo – e hotéis – templos de turistas endinheirados em várias cidades do país.

Onze anos separam este domingo de Páscoa daquele 26 de novembro, um dia qualquer na capital econômica da Índia, terra do hinduísmo (que divide a sociedade em castas), do jainismo, do budismo, do sikhismo e onde a população muçulmana cresce a cada ano. País onde a vaca é sagrada e a mulher ainda é inferiorizada e constantemente vítima de violência sexual.

Em 2008, assim como no Sri Lanka (que tem o budismo como religião predominante), uma série de ataques terroristas matou mais de 160 pessoas. Esses quatro dias de pânico são recontados no primeiro longa do diretor Anthony Maras, Ataque ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, Austrália/Índia/EUA, 2018 – Imagem Filmes). A produção tem o ator britânico Dev Patel (estrela de Quem Quer Ser um Milionário, longa rodado em Mumbai e que estreou no cinema no ano do atentado) como protagonista e produtor executivo. Retrata o “11 de setembro da Índia” e entrou em cartaz no Brasil na última quinta-feira, um ano após o lançamento de outro filme sobre o tema, One Less God, também australiano.

O longa de Maras (premiado diretor dos curtas Azadi, de 2005, e The Palace, 2011, sobre o conflito Chipre-Turquia) foi lançado no festival de cinema de Adelaide, no final de março, em uma sessão emocionante que reuniu sobreviventes do atentado, entre eles o chef do Taj Mahal, Hermant Oberoi (interpretado pelo veterano ator indiano Anupam Kher), que ajudou a salvar centenas de hóspedes. Em entrevista à NBC News, Oberoi disse que a experiência de reviver o ataque foi visceral, sobretudo nas primeiras cenas de tiroteio.

E essa era a intenção de Maras: trazer a maior carga de verossimilhança possível e retratar o heroísmo de pessoas comuns diante do terror. Pessoas que, sem poderes sobrenaturais, escolheram arriscar a vida para salvar desconhecidos diante do abismo. Foram humanas, demasiadamente humanas.

É nítida a intenção do diretor australiano em chocar, expor a realidade, seja com o estampido dos tiros – nada artístico, sem uso de qualquer música clássica como em Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola – ou em cenas em que as personagens precisam escolher entre permanecer no hotel para salvar outras vidas ou tentar escapar para reencontrar a família.

As cenas de tiroteio, aliás, parecem intermináveis. São tantos tiros de AK-47 que o espectador corre o risco de deixar o cinema com náusea e dores de cabeça. A sensação, porém, não chega aos pés de quem sofreu na pele uma situação limite de estar em meio a um massacre ao vivo.

O apocalipse de Atentado ao Hotel Taj Mahal já fica evidente no início com os contrastes de um país onde milhões de pessoas são indigentes; onde agricultores cometem suicídio todos os anos, e 40% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crônica.

Os dez terroristas paquistaneses chegam à cidade de barco, com suas mochilas nas costas e sempre seguindo instruções do líder que faz uma massiva lavagem cerebral. “You feel strong. There is no fear in your heart. You are like sons to me. I am with you. God is with you. Paradise awaits” (Você se sente forte. Não há medo em seu coração. Vocês são como filhos para mim. Estou com vocês. Deus está com vocês. O Paraíso espera). É como o líder terrorista profetizou: o mundo inteiro está vendo. E com as mídias sociais, o alcance das mensagens de intolerância religiosa fica cada vez mais potente.

O grupo se separa a fim de concretizar a sequência de ataques. Corta para a personagem de Patel: Arjun está num banheiro público e se arruma na frente do espelho. Sua filha, ainda bebê, está no chão sujo, chorando. Ele a pega no colo e segue para o trabalho da mulher porque não tem com quem deixar a criança. A esposa está grávida. Com o turbante sikh (que fortalece nosso deus interior), apressa-se para não chegar atrasado ao imponente hotel – uma construção de arquitetura gótica vitoriana que homenageia a umas das sete maravilhas do mundo. Lá ele trabalha como garçom. No caminho, perde um dos sapatos e, por pouco, não perde o emprego. Oberoi, seu chefe, empresta-lhe um par e Arjun precisa atender os clientes mancando.

O Taj Mahal é um paraíso. Ali o hóspede – estrangeiro, rico, fino, vip, famoso – é tratado como um deus. Toma banho na temperatura perfeita. Enquanto isso, em nome de Alá ou Allah (a palavra árabe que designa Deus), os terroristas dão cabo ao primeiro ataque, na estação de metrô, onde calcula-se que cem pessoas tenham morrido. O tiroteio é noticiado pela televisão mas os hóspedes que chegam ao Taj ainda permanecem alheios ao terror, jantando nos restaurantes de luxo do hotel. Como o casal formado pela indiana Zahra (Nazanin Boniadi) e o americano David (Armie Hammer), que viaja com o filho recém-nascido e a babá dele (Tilda Cobham-Hervey).

Depois do ataque a um restaurante na cidade, as vítimas sobreviventes correm desesperadas para buscar refúgio no hotel e os terroristas se infiltram entre elas. O luxo se transforma em inferno. O sangue, o suspense e o pânico se instalam.

Forças militares de Nova Delhi demoram horas para chegar e o staff do hotel e uma equipe de policiais locais tentam salvar os hóspedes como heróis. Os dedos massacrados pelo sapato apertado de Arjun não importam mais. A dor desaparece diante do caos, de um pesadelo real, da luta pela sobrevivência.  Aos tiros somam-se o choro do recém-nascido e a experiência de assistir ao filme torna-se torturante.

Maras tenta ainda humanizar os terroristas, como na comovente cena em que um dos atiradores telefona para a família perguntando se o dinheiro já havia sido enviado aos pais. O vilão é o herói da família. O terrorista, capaz de amar e matar o próximo em nome de Alá, chora diante de suas vítimas amordaçadas.

Como toda história baseada em fatos reais, o desfecho desse filme já é esperado, é conhecido. E, se depender da escalada do terror que só cresce no mundo, muitos outros finais como esse serão retratados no cinema. Quem sabe o próximo título do filme de Maras será Atentado ao Hotel Shangri-La.

Saiba mais

Documentário

Este atentado na Índia já rendeu algumas produções cinematográficas. Em 2009, foi lançado um documentário sobre a infiltrada dos jihadistas. “A maioria dos ataques terroristas duram segundos. Mas o ataque em Mumbai foi diferente”, assim começa a narração do documentário Surviving Mumbai, sobre o ataque. O país é o vice-campeão mundial de taxa de extrema pobreza (perdeu para a Nigéria em 2018, segundo o relatório da Brookings Institution) e está entre aqueles com maior número de ataques e vítimas de terrorismo em todo o mundo, depois de Iraque e Paquistão. O documentário foi lançado em 2009 e traz relatos de sobreviventes, como Oberoi.

Reconstrução

Vidas não podem ser “reconstruídas”. Espaços físicos, sim. Dois anos após o atentado, o jornal New York Times publicou matéria sobre a restauração de preciosas obras de arte indiana que o Taj Mahal abrigava em suas dependências, como no imenso lobby. O trabalho durou 21 meses. Quase 300 peças, entre elas quadros de importantes pintores indianos como Vasudeo S. Gaitonde e Jehangir Sabala, ficaram cobertas por fuligem e fungo. Para ler mais sobre isso clique aqui.

Conflito sem fim

Índia e Paquistão são hoje duas potências nucleares e disputam a região da Caxemira antes mesmo de se tornarem independentes do Reino Unido, em 1947. Na época, foi traçado um plano territorial apresentado pelo parlamento britânico e o governante local (isto é, o marajá) da Caxemira decidiu se anexar à Índia, dando início ao conflito interminável. A rivalidade é intensificada por conta da religião. Na Índia, o hinduísmo ainda predomina. Já os paquistaneses são muçulmanos.

 

HOMECOMING: A FILM BY BEYONCÉ

20.04.2019

Concerto grandiloquente apresentado no ano passado no Coachella vira filme recheado por comentários e cenas de bastidores

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Vinte e oito anos atrás Madonna abriu as portas do cinema para as divas da música pop. Seu documentário Na Cama Com Madonna arrastou uma legião de fãs às salas de projeção para assistir aos bastidores de sua então bem sucedida megaturnê mundial Blond Ambition. Isso consolidou em definitivo o nome dela no panteão das maiores artistas femininas do Século 20. Tanto que nas décadas seguintes o mercado fonográfico viu se enfileirarem uma série de discípulas que trilharam, cada qual com seu carisma, talento, competência e peculiaridade, o mesmo nicho de mercado. Vieram então Britney Spears, Christina Aguilera, Pink, Lady Gaga, Katy Perry, Amy Winehouse, Rihanna, Adele, Ariana Grande, Beyoncé. Sem falar na própria Madonna, que continuou na ativa, sempre gravando, lançando discos e fazendo shows.

Com o passar do tempo a lista tornou-se grande e a concorrência também. Com as evoluções e consequentes mudanças no mercado musical. Com a velocidade da comunicação e do cotidiano, está cada vez mais difícil fazer um trabalho não só que se sobressaia perante o resto mas também que fique gravado para sempre na memória dos fãs, tal qual o documentário lançado em 1991 por Madonna permanece até hoje. E é exatamente isso o que Beyoncé quis fazer com o projeto Homecoming, elaborado para ser o show de encerramento de um dos três dias do festival Coachella na edição do ano passado. Além de ter sido exibida ao vivo pelo YouTube foi apresentação foi registrada na íntegra, em áudio e vídeo, para virar um filme e um disco ao vivo. Na verdade, um misto de musical com documentário, já que todo o processo de elaboração do show, que levou quatro meses de intensos ensaios, também foi filmado.

Homecoming: A Film By Beyoncé (EUA, 2019 – Netflix) não foi parar nos cinemas, mas está disponível para o mundo inteiro através de streaming desde poucos dias atrás. O que significa que será visto por milhões de pessoas, tal qual Na Cama Com Madonna foi – mesmo que a Netflix tenha como conduta o fato de nunca divulgar o número de acessos a seu conteúdo, isso é óbvio que vai acontecer já nas primeiras semanas. Entretanto, o que separa a Blond Ambition Tour de Homecoming é exatamente a grandiloquência da concepção do espetáculo apresentado ao vivo para o público in loco. A plateia do Coachella era de 125 mil pessoas. Estavam no palco durante o show de Beyoncé mais de duzentas pessoas. Sim, mais de duzentas pessoas. Talvez o mais alto número de artistas já reunidos durante um concerto de música pop. Com certeza, a jogada mais arriscada de toda a carreira da cantora. Por isso, o tempo extenso de preparação do espetáculo para poder coordenar músicos, dançarinos, cantores e convidados especiais (o marido Jay-Z, a irmã Solange, as ex-companheiras de Destiny’s Child, Kelly Rowland e Michelle Williams).

Junto à sua equipe de criadores, Beyoncé concebeu um espetáculo conceitual para se apresentar no Coachella, sobretudo porque tivera de desmarcar a apresentação do ano anterior em virtude de uma gravidez inesperada. Então quis fazer uma homenagem à sua origem negra e à cultura da celebração de música e dança instituída nas universidades norte-americanas através das bandas de fanfarra e suas coreografia através das balizas e dos instrumentistas. Para caber tudo em um palco, verticalizou tudo e fez, a laPaulo barros no Sambódromo do Rio de Janeiro, os próprios músicos e bailarinos transformarem-se em um cenário vivo, vibrante e contagiante. Através de uma pirâmide com vários degraus, todos interagem milimetricamente ensaiados, provocando um efeito visual que dispensa cenografia artística e principalmente o já confortável telão de ledali no fundão de tudo.

O filme vai intercalando pedaços do set list de 33 músicas (todas mostradas na íntegra) com imagens granuladas captadas no imenso galpão onde toda a equipe se reunia diariamente para ensaiar e compor o espetáculo. Enquanto os bastidores são mostrados, uma voz em off, um tanto abafada intencionalmente (talvez para combinar com a sujeira visual), mostra Beyoncé fazendo observações aleatórias sobre sentimentos, sensações e intenções diante de toda esta pirotecnia visual e musical. Ela fala sobre suas certezas, suas inseguranças, sua família (sobretudo os filhos gêmeos recém-nascidos e a filha mais velha), sua posição feminista e opiniões a respeito do valor às tradições da cultura universitária que formam o conceito da empreitada. Já no microfone em cima do palco, ela provoca a audiência falando sobre empoderamento feminino e o sentimento de pertencimento e identificação com o que está sendo mostrado ali no palco. De vez em quando, frases filosóficas ou motivacionais também são mostradas, dividindo a narrativa entre ensaios e concerto.

A única coisa sobre a qual Beyoncé não fala durante os 137 minutos de duração de Homecoming é sobre o que estaria, de fato, por trás de toda a grandiloquência do projeto, do qual também assina a direção, o roteiro e a produção executiva do filme. E também já se sabe que este é apenas o primeiro de três lançamentos que ela irá fazer pela Netflix nos próximos anos. De fato, para ser diva da música pop neste final de segunda década do Século 21 não é preciso só cantar e ficar divando nos palcos e bastidores. É necessário ser mega, giga, tera. Passar feito um rolo compressor por cima das emoções descontroladas da horda mundial de fãs e seguidores na internet. E, sobretudo, deixar a concorrência comendo poeira lá atrás.

 

CÓPIAS – DE VOLTA A VIDA

18.04.2019

Keanu Reeves fabrica clones humanos em longa-metragem que peca no roteiro, nas interpretações e na ação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O limiar entre o humano e o sintético é pano de fundo para diversas produções nos últimos anos. Eu, RobôTranscendence e a série Altered Carbon são exemplos disso. Cópias – De Volta à Vida (Replicas, EUA/Reino Unido/China/Porto Rico, 2018), estrelando Keanu Reeves, se coloca confortavelmente neste nicho.

A história de Stephen Hamel, que escreveu Passageiros, gira em torno de Bill (Reeves), um cientista cujo projeto é o transplante de consciências humanas em corpos sintéticos. A caminho de suas férias num barco, ele e sua família envolvem-se num acidente. Sua esposa, Mona (Alice Eve), e seus três filhos morrem. Desesperado, o cientista pede a ajuda de seu colega, Ed (Thomas Middleditch), para cloná-los e implantar suas memórias nos novos corpos.

Esta é, de fato, uma história sem rodeios, confortável em seu subgênero. Ao tentar pincelar profundidade em temas morais, como o sofrimento das cobaias e a existência da alma (tema de debates desde o início da Filosofia), torna-se superficial e rapidamente esquece este esforço. O mesmo ocorre com as reações emotivas de Reeves, que duram, em média, pouco mais de uma cena. É frustrante assistir a inconsistência da atuação de Cópias, vista tanto no protagonista quanto nos coadjuvantes, por mais unidimensionais que sejam. O vilão, Sr. Jones, oscila entre uma tentativa falha de tom ameaçador e um homem de negócios irritado com seu empregado – responsabilidade não só do elenco, mas principalmente do roteiro de Chad St John em cima da história de Stephen Hamel.

Talvez o maior problema do filme, o roteiro soa desestruturado, resolvendo e criando mal suas tensões e dependendo de diálogos fracos e expositivos. Por isso, Cópias soa confuso e tem dificuldades em imergir seu espectador. Em momento algum, tanto nas sequências de suspense quanto no terceiro ato, repleto de ação, a obra produz inquietude ou quaisquer angústias. Este, inclusive, é o ato onde tudo que fora construído se desmantela. Se antes o ritmo era vagaroso e entediante, torna-se energético e entediante, com sequências bem montadas e eventual violência.

Os efeitos visuais, especialmente o desenvolvimento do Robô, caem por terra. Este personagem, que toma desproporcional importância na conclusão da narrativa, é tosco – por falta de palavra melhor. Sua animação parece anos atrasada, principalmente na velocidade e na ergonomia de seu movimento.

Desta forma, Cópias – De Volta a Vida tenta ser muitas coisas, mas não atinge qualquer objetivo satisfatoriamente. A atuação de Reeves e o sofrível roteiro estragam qualquer emoção que o filme tenta passar, enquanto a ação soa completamente deslocada e não empolga.

 

O GÊNIO E O LOUCO

12.04.2019

Mel Gibson e Sean Penn estrelam a história de obstinação que resultou na criação o dicionário que cataloga todas as palavras da língua inglesa

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Texto por Janaína Monteiro

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

A língua é viva, já dizia o teórico russo Mikhail Bakthin. Criada por nós, e assim como nós, a língua se modifica com o decorrer do tempo. As palavras e seus significados evoluem através dos séculos: nascem e morrem num piscar de olhos. E quantas palavras falamos diariamente sem pensar em seus diferentes significados? Como definir o que é arte, por exemplo? Esse é o complexo trabalho do filólogo – palavra do grego philólogos e latim philologus, que designa o conhecedor da filologia, ciência que estuda o desenvolvimento de uma língua. Este é o papel de Mel Gibson no drama baseado em uma história real O Gênio e o Louco (The Professor And The Madman, Irlanda/EUA/Irã, 2017 – Imagem Filmes).

Gibson é o professor escocês James Murray, filólogo autodidata, estudioso de dezenas de línguas que assume a improvável missão de fazer o inventário de todas as palavras da língua inglesa durante os séculos 17 e 18 – isso se transformaria posteriomente no Oxford English Dictionary (OED), o mais importante do mundo no vernáculo. Murray devotou 50 anos de sua vida ao projeto que catalogou mais de 400 mil palavras. O louco é o americano William Chester Minor, interpretado por Sean Penn, com mais uma atuação brilhante. Minor é um médico veterano da Guerra Civil dos EUA expatriado para a Inglaterra e que sofre de síndrome pós-traumática (que evoluiu para uma esquizofrenia).

O filme, dirigido pelo iraniano Farhad Safinia, é baseado no livro de Simon Winchester lançado em 1998 (The Surgeon of Crowthorne: A Tale Of Murder, Madness And The Love Of Words, título da edição britânica; O Professor e o Louco, em português). Nesse mesmo ano, Mel Gibson conseguiu os direitos para levar a história do primeiro editor do OED ao cinema, mas só conseguiu finalizar o longa quase duas décadas depois por conta de uma série de imbróglios e problemas judiciais (basicamente sobre custos de locação e direitos autorais), uma história semelhante ao nosso Chatô, de Guilherme Fontes. Segundo reportagem do jornal The Telegraph, o longa começou a ser rodado em 2016 em Dublin, Irlanda, o que gerou muita controvérsia e descrédito. Afinal, como rodar um filme sobre Oxford sem cenas na cidade? “You can’t fake that!” (você não pode simular isso!), disse o autor do livro ao jornal britânico.

Os roteiristas (entre eles Safinia) ficaram incumbidos de adaptar a história que se passa na segunda metade do século 19, na Inglaterra. A primeira cena é o do assassinato cometido por Minor. Assombrado pelo seu passado, ele se sente perseguido pelo fantasma de um desertor de guerra que foi marcado a ferro quente por ele. Confunde um pai de família pobre com o desertor e corre pelas ruas de Londres atrás dele até que George Merrett é morto na frente da esposa Eliza (Natalie Dormer), que fica à deriva com seus seis filhos após perder o marido. A insanidade de Minor o leva para a prisão, mesmo afirmando a todos que não é louco.

Em paralelo, o filme mostra a história de Murray, o gênio erudito pai de família e estudioso autodidata (em algumas cenas, Gibson mostra sotaque escocês exagerado). Uma das melhores cenas já surge logo no início, quando o professor precisa convencer os doutores da Universidade de Oxford a ser contratado para editar o dicionário, mesmo não tendo um diploma sequer. Murray, então, cita dezenas de línguas e dialetos que domina ou tem conhecimento e deixa os letrados de boca aberta. Depois de explicar a etimologia de clever (esperto, em inglês), ele ganha o emprego e a árdua missão de descrever todas – absolutamente todas – as palavras anglo-saxônicas e seus múltiplos significados.

Murray e sua equipe constroem um scriptorium (gabinete de estudos) que servirá de escritório para a catalogação de milhares de termos que compõem o léxico. A certa altura, todos percebem que a missão é absurda se feita por meia dúzia de pessoas e, então, surge a ideia de convocar voluntários na tentativa de finalizar o projeto. Um comunicado é colocado dentro de cada livro e assim as histórias do professor e do louco se cruzam.

Minor continua preso num hospital psiquiátrico e passa a receber um tratamento mais humano para sua esquizofrenia – ele começa a pintar e ler. Ao ganhar um livro de um carcereiro, ele encontra um propósito para sua vida insana e reclusa: consegue transformar, mesmo que por pouco tempo, sua loucura em obstinação. O médico se debruça loucamente no livro O Paraíso Perdido – poema épico da literatura inglesa escrito por John Milton – e passa a ordenar o mundo das palavras, escrevendo centenas de bilhetes que são enviados pelo correio ao professor. Sua vida se divide entre esse trabalho profícuo e a vontade de ajudar a viúva do homem que assassinou. O esquizofrênico, com peso na consciência, passa a enviar dinheiro à mulher.

Minor se torna o maior colaborador do dicionário e Murray o chama de salvador.  E quando Minor surge como o verdadeiro “milagre divino”, a fotografia do filme se altera: se antes as cenas eram marcadas pelo frio do inverno, ambientes sombrios e personagens carregadas de tensão, agora a primavera desponta e a luz começa a surgir.

A cena em que o gênio encontra o louco mostra as semelhanças físicas entre eles, apesar de tantas diferenças. Ambos com suas barbas brancas e olhos azuis. Porém, um brilhante e outro louco. Um escocês, outro americano. Um de Oxford, outro de Yale. Um solto, outro preso.

O dicionário passa a ser objeto secundário e dá lugar a uma outra história também bastante improvável: o amor entre a viúva e o assassino de seu marido. Em uma das cenas, Eliza presenteia Minor com o livro Grandes Esperanças, uma das obras-primas de Charles Dickens, que discute culpa, redenção, perdão, desejo e, claro, esperança. E são essas palavras que darão o tom do filme até o final.

PS 1: Para mostrar que a língua é constante como a vida, o OED emitiu, em fevereiro último, um novo comunicado em busca de palavras novas, segundo publicou o jornal The Guardian. “O Oxford English Dictionary (OED) já inclui muitos termos de todos os tipos de negócios e profissões, mas sempre há muitos outros que não chegaram ao nosso conhecimento – e é por isso pedimos a ajuda de vocês”. Ou seja, eles pedem que médicos, bombeiros, professores, marqueteiros e todo tipo de profissional enviem palavras e expressões com novos significados – como budget ou branding – semelhante ao que ocorreu três séculos atrás.

PS 2: O OED também elege a palavra de cada ano. E “tóxico” foi a escolhida em 2018, entre 150 milhões de palavras coletadas em 10 mil sites. A instituição explicou que houve um aumento de 45% no número de vezes que os usuários pesquisaram o termo, que vem na maioria das vezes associado a outra palavra como “masculinidade tóxica” (“toxic masculinity”). O termo se refere ao movimento #MeToo e a luta contra o assédio sexual. Resta agora saber qual será a palavra de 2019! E quem quiser conferir as escolhas de cada temporada deve clicar aqui.

 

DUAS RAINHAS

04.04.2019

Filme exalta a força da Rainha da Escócia (e, por direito, da Inglaterra) Mary Stuart, um dos maiores ícones da realeza britânica em todos os tempos

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Texto por iaskara (História) e Abonico Smith (resenha)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

História

Rainha desde o berço. Mary Stuart mal nascera (8 de dezembro de 1542) e já perdera o pai, o rei James V, seis dias depois, o que a fez herdar a coroa do reino da Escócia. Uma herança sombria ser uma Stuart e herdar a coroa da Escócia, pois sempre tiveram de lutar contra inimigos de fora, inimigos do país e contra si próprios.

Logo após a morte do pai, sua mão fora pedida pelo tio avô Henrique VIII, rei da Inglaterra e tio de James V, para o filho e herdeiro Eduardo. O objetivo era unir as duas coroas em uma só e governar a Grã-Bretanha com o desejo de supremacia mundial naquele momento.

Uma cláusula secreta do contrato feito por Henrique VIII dizia que, caso a criança morresse prematuramente, todos os domínios e propriedades do reino escocês passariam a ele. Logo ele, que já havia mandado cortar a cabeça de duas esposas e rompido com a Igreja Católica para fundar a sua própria igreja e mudando oficialmente a religião de seu reino para o protestantismo, inclusive se autodeclarando o líder religioso maior desta reforma. A mãe de Mary, católica fervorosa, recusou-se a enviar a filha a Londres para que fosse educada por “hereges protestantes”. Como vingança, Henrique VIII iniciou uma guerra interna, mandando tropas em busca da menina e com a ordem de destruir Edimburgo e outras cidades, saqueando e queimando tudo o que fosse encontrado pelo caminho.

Mãe e filha foram postas em segurança em um castelo e um novo acordo se estabeleceu com o rei inglês para que Mary Stuart  fosse entregue a Londres com 10 anos de idade. Porém Henrique VIII morreu quando Mary estava com apenas 5. Apesar da exigência da entrega da pequena noiva, à força, diretamente para Eduardo, os escoceses não tinham mais interesse nesse acordo, sendo esmagados novamente em uma batalha com mãos de 10 mil mortos.

Mary foi escondida no convento de Inchmahome, na pequena ilha de Meinteth, até que a França entrou no cenário para impedir a Inglaterra de submeter a Escócia ao seu jugo. Henrique II, filho de Francisco I, rei da França, enviou uma armada forte e em seu nome pediu a mão de Mary Stuart para o filho do rei, o herdeiro do trono, Francisco II. Assim, ao invés de se tornar rainha da Inglaterra, de repente Mary foi destinada a se tornar rainha da França e, ainda aos 5 anos de idade foi enviada para Paris. Junto com ela embarcaram outras quatro meninas de nomes Mary como forma de proteção.

Mary foi recebida com pompa e como rainhazinha da Escócia (“reinette”) e assim deveria ser saudada por todas as cidades e aldeias, com as mesma honrarias de um delfim. A corte francesa era uma das mais brilhantes e grandiosas do mundo, voltada tanto para cultura como para as artes e a ciência. Mary foi educada para dominar com perfeição línguas clássicas como o grego e o latim bem como o italiano, o espanhol e o francês. Deveria dominar também a poesia, a literatura, a música e as artes. Seu desenvolvimento intelectual, além de precoce, tornou-se notável. Seu casamento foi apressado quando o delfim tinha somente 14 anos, por ele ter saúde frágil e também pelo interesse da França em assegurar o direito à coroa da Escócia e da Inglaterra, por Mary ser herdeira presuntiva deste trono. O casamento se deu em 1558, quando Francisco II recebeu, então, a coroa da Escócia e Mary, com quase 16 anos de idade, tornou-se herdeira da coroa da França.

No mesmo ano morreu Mary Tudor, primogênita de Henrique VIII e então rainha da Inglaterra. Como Eduardo já havia morrido, sua meio-irmã Elizabeth subiu ao trono, sendo que sua legitimidade era questionada, já que sua mãe Ana Bolena teve seu casamento com Henrique VIII anulado um pouco antes da decapitação desta. Isto tornava Elizabeth bastarda, restando o trono, por direito, à católica Mary Stuart. Restavam duas possibilidades: aos 16 anos de idade, Mary poderia ceder e reconhecer sua prima como legalmente rainha da Inglaterra e abdicar de seu próprio direito ou declarar que Elizabeth usurpou a coroa e determinar que exércitos da França e da Escócia derrubassem-na à força. Mas seus conselheiros escolheram um terceiro caminho e o pior deles: em vez de um golpe decidido contra Elizabeth, apenas reclamam publicamente o trono mas não o defendem. O casal real francês incluiu em seu brasão a coroa real inglesa e Mary se fez chamar publicamente de Regina Franciae, Scotiae, Angliae e Hibernae. Isso virou uma provocação. Nesse momento, Mary transforma a mulher mais poderosa do mundo em sua inimiga irreconciliável. Elizabeth passou a considerá-la sua rival e maior ameaça.

Em 1559, o rei da França se feriu mortalmente com uma lança em um torneio em Paris. Nesse momento, aos 16 anos, Mary foi coroada rainha da França. O destino foi implacável, pois Francisco II, o novo rei, estava doente e os médicos vigiavam-no dia e noite. Em dezembro de 1560, sua saúde se agravou e um infecção no ouvido levou-o à morte. Mary não perdia somente o companheiro generoso e bondoso, mas o seu grande amigo, a sua proteção na França e também a sua posição na Europa.

Catarina de Medici, sua sogra, revelou-se bastante hostil, arrogante e traiçoeira. Mary, por sua vez, com seu orgulho indomável, não quis ficar em nenhum lugar onde fosse apenas a segunda na hierarquia. Outras coroas (Espanha, Áustria, Dinamarca, Suécia) se anteciparam e enviados pediam a mão de Mary. Mas ela decidiu voltar à Escócia. Sua despedida da França foi difícil, pois esse lugar havia se tornado sua pátria nos últimos doze anos, com parentes de laços maternos e proteção. Enquanto na Escócia a esperavam duras provações.

Desde a morte de sua mãe, que como regente administrava sua herança, os lordes protestantes, seus piores inimigos, predominavam na corte e não escondiam a resistência de chamar de volta para o país uma católica seguidora de Roma. Ainda havia Elizabeth com um acordo entre escoceses e ingleses de reconhecê-la como herdeira legítima do trono. Este documento, quando levado à França, não foi assinado nem por Francisco II e nem por Mary, que colocou seu direito em segundo plano por questões políticas mas jamais renunciou ao direito à herança de seus antepassados.

Para voltar à Escócia, Mary precisava de um salvo-conduto para atravessar a Inglaterra, que fora negado por Elizabeth. Mary decidiu voltar pelo canal sem tocar na costa inglesa. Elizabeth se apressou e assinou um documento que chegou com dois dias de atraso. Mary já havia partido rumo à Escócia, chegando em Leith no dia 19 de agosto de 1561. É quando começa o filme lançado originalmente em 2018.

Para o biógrafo Stefan Zweig, o que é claro e evidente se explica por si próprio embora o mistério aja de maneira criativa. Por mais de quatro séculos, os mistérios que envolvem o drama ou a tragédia de Mary Stuart seduziu escritores e vem ocupando muitos pesquisadores, pois tudo que está difuso anseia por clareza e tudo que está escuro deseja a luz. Mistérios são descritos e interpretados de forma tão frequente quanto contraditória, não por falta de material mas pela sua abundância. Milhares de documentos, atas, protocolos, cartas e relatórios preservados. Com descreve Zweig, contra cada sim documentado existe um não igualmente documentado e contra cada acusação, uma absolvição. Até o século passado, os autores protestantes atribuíam toda a culpa a Mary Stuart; os escritores católicos, a Elizabeth. Nas narrativas inglesas, Mary quase sempre apareceu como culpada enquanto as escocesas colocavam-na como vítima. Não se pode esquecer que a História quase sempre é narrada pelos vencedores

Resenha

Toda essa explicação serve bem para contextualizar o “cenário de guerra” entre as primas que é retratado no filme Duas Rainhas (Mary Queen Of Scots, Reino Unido/Estados Unidos, 2018 – Universal Pictures). Na verdade, a história comandada pela veterana diretora teatral britânica Josie Rourke, estreando no cinema, é centrada nas lutas diárias da recém-chegada à Escócia Mary – e por isso o estapafúrdio título dado pela distribuidora no Brasil só serve para chamar a atenção do espectador para o fato de existirem duas jovens atrizes, ambas ascendentes em Hollywood, interpretando as rivais da monarquia. Este filme vai do dia 19 de agosto de 1561, quando Mary desembarca na Escócia, até a sua morte, aos 44 anos de idade, em 8 de fevereiro de 1587.

Saoirse Ronan acerta mais uma vez em cheio em papel e atuação. A jovem norte-americana descendente de irlandeses encanta com sua Mary indolente e atrevida, que chega com suas ideias e pensamentos revolucionários de uma França mais voltada às artes, à cultura e ciências. Aos poucos, contudo, vai esbarrando em vários obstáculos, entre eles a consequente insubordinação masculina diante da nova regência de uma mulher e, talvez o mais forte empecilho, a objeção do pastor protestante John Knox, ministro escocês. Assim, Mary passa a ser alvo de uma série de intrigas, mentiras e conspirações por parte de todos os lados. Da invejosa Elizabeth (aqui bem interpretada por uma coadjuvante Margot Robbie, australiana, ajudada por uma maquiagem tão belamente degradante ao longo da projeção que rendeu ao longa uma das três indicações ao Oscar da categoria neste ano) a Knox (David Tennant), passando por pretendentes a maridos e comandados da corte. O fim da história é sabido e contar aqui não vira spoiler: Mary é presa sob a acusação de conspiração ao trono e decapitada por ordem de Elizabeth.

O que importa neste longa-metragem, porém, é como Rourke e o roteirista Beau Willimon contam essa batalha íntima de Mary contra todos a seu redor. Willimon consegue encaixar momentos de ironia (como nos casos do relacionamento íntimo de Mary com o músico gay italiano David Rizzio ou na hora em que a rainha escocesa manda seu novo marido a fazer sexo oral nela) e outros de violência – a cruel execução de Rizzio pode provocar náuseas em espectadores mais sensíveis. Já Rourke brinda os olhos com belas imagens em paisagens e castelos escoceses sem se furtar a se arriscar em movimentos de câmera que possam, de vez em quando, sair do convencional.

Sem muitas pirotecnias na narrativa ou na montagem, Duas Rainhas retrata a força feminina de quase meio milênio atrás através de sua bela e ousada protagonista. Uma mulher que não teve medo de enfrentar quem estivesse pela frente justamente para reivindicar o que era seu de direito. Uma mulher cuja maior afronta era ser ela mesma diante daquilo que não lhe representava em sentimentos e ideias. Uma mulher com alma e cérebro em pleno Século 16. E, o mais importante, uma mulher preparadíssima para exercer o comando de um dos maiores reinos do mundo se tivesse a oportunidade.

 

VOX LUX: O PREÇO DA FAMA

04.04.2019

Natalie Portman interpreta uma estrela da música pop que sofre por ter a vida marcada por atos violentos

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O universo das estrelas da música é alvo de especulações e intromissões constantes. É partindo desta premissa que Brady Corbet escreve Vox Lux: O Preço da Fama (Vox Lux, EUA, 2018 – Paris Filmes), mas não é em sua volta que o longa se estrutura. Corbet cria um filme sobre a violência. Com narração de Willem Dafoe, a trama enfoca a história de Celeste (Raffey Cassidy), vítima de um atentado em seu colégio que acaba por fazê-la tornar-se cantora de sucesso. É com este evento que Vox Lux se inicia, numa fortíssima sequência que serve de epílogo aos três atos do filme, divididos como Genesis, Regenesis  eFinale.

Em Genesis, entendemos o início da jornada de Celeste, sua relação íntima com a irmã Eleanor (Stacy Martin) e seu produtor executivo (Jude Law). O ato finaliza com o segundo atentado marcante na vida da cantora, o Onze de Setembro. Com o terceiro atentado terrorista na vida de Celeste, referência ao massacre ocorrido em uma praia da Tunísia em 2015, inicia-se Regenesis. Aqui é quando Natalie Portman assume Celeste e Cassidy passa a interpretar sua filha. Na trama, o massacre ocorre na Turquia, em 2017, com os quatro atiradores utilizando máscaras desenhadas para um clipe da protagonista. Este ato encerra-se com o início do show da estrela em sua cidade natal, objeto de Finale.

A direção de Corbet e a fotografia de Lol Crawley criam uma atmosfera videoclipesca e, ao mesmo tempo, imersa em realidade para Vox Lux. O grafismo cru com que Corbet retrata os atentados que iniciam a obra e seu segundo ato opera como um soco na barriga, indicando que, no fundo, a trama pouco tem a ver com a guinada de uma cantora ao sucesso. A dicotomia com que Cassidy e Portman interpretam Celeste indica a transição entre o puritanismo e o descontrole que ocorreu com o advento do Século 21, além de servir – por elipse – como uma belíssima construção de personagem.

É, de certo modo, graças à sutil recorrência da temática – tão recorrente na rotina contemporânea – que a estética funciona tão bem, alçada pela eficaz montagem de Matthew Hannam. O trunfo, no entanto, reside na ótima coadunação entre a imagem de Corbet e a trilha sonora incidental de Scott Walker – que faleceu recentemente, no último dia 25 de março. As poderosas músicas ecoam, seja pelas abertas paisagens ou pelos ambientes mais fechados, amplificando o sentimento trabalhado pela direção e pela atuação estelar dos nomes principais do elenco.

Jude Law opera bem, mas o verdadeiro brilho do filme é a relação de Eleanor e Celeste, com Natalie Portman e Stacy Martin contracenando com a química de irmãs de fato. Portman, por sinal, entrega uma envolvente personagem que, quando comparada à sua versão de Raffey Cassidy, ganha camadas – pela transição de personalidades – fortíssimas.

Ainda assim, o ato final de Vox Lux é entediante e repetitivo, tentando alcançar reflexões que não o cabem. A resolução do roteiro, ainda por cima, substitui a crueza da trama pelo misticismo do cinema. Dessa forma, incapaz de entregar sua crítica social inteiramente, o filme de Brady Corbet corre, corre, mas atinge seu final mancando.

 

SHAZAM!

04.04.2019

DC se aproxima da Marvel ao apostar no humor no longa do mitológico super-herói com poderes dos heróis do Olimpo

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

A DC tem mostrado que, embora tenha sido tortuoso seu começo na construção de seu universo cinematográfico, ela vem aprendendo com seus erros. Aquaman é um bom exemplo da nova onda de frutíferos produtos nos cinemas. Com Shazam! (EUA, 2019 – Warner), a produtora atira-se na comicidade tanto atribuída à Marvel. Derrota para os ortodoxos fãs da seriedade do universo que se iniciou com Homem de Aço (2013).

Com a direção de David F. Sandberg, o mitológico Shazam, cujos poderes provêm das virtudes dos heróis do Olimpo, apresenta-se agora o mais jocoso dos super-heróis da produtora. Mas, antes de conhecê-lo, na forma de Billy Batson (Asher Angel), somos introduzidos a Thad, uma criança passando por um difícil momento com seus pais. Ao ser convocado pelo mago Shazam (Djimon Hounsou), que não é o herói em si, mas o responsável por seus poderes, o garoto é posto à prova: deve resistir às tentações dos Sete Pecados Capitais. Revoltado por sua falha, Thaddeus (agora interpretado por Mark Strong) passa a vida em busca dos Pecados, para obter o Olho (uma estrutura mágica que lhe concede poderes) que fora tentado. Ao consegui-lo, o vilão serve como “casa” para os Sete Pecados, que obedecem a seus comandos.

De volta a Billy Batson, o roteiro de Henry Gayden constrói um adolescente de catorze anos cuja vida se resume a fugas de lares de adoção desde que fora perdido por sua mãe, aos três anos, e sua busca interminável por ela. Assim, quando Billy é adotado por uma nova família, composta inteiramente de crianças adotadas, apresenta resistência ao novo universo. É nele que conhece Freddy (Jack Dylan Grazer), cujo conhecimento sobre o mundo dos heróis é parte importante do crescimento do protagonista. É importante ressaltar a existência de dois Billies: o interpretado por Angel, adolescente, e o de Zachary Levi, que assume o corpo de Batson quando este se transforma. Este é fortemente infantil, preenchendo os quadros com suas faces caricaturais, enquanto aquele representa toda a amargura da difícil vida de Billy.

O problema de roteiro não está, no entanto, tão fortemente na construção divergente do mesmo personagem em dois momentos, mas em sua estrutura. Shazam! falha em oferecer sensação de perigo ao espectador, alongando-se em sequências puramente cômicas e diminuindo as consequências dos atos de seus personagens. É justamente na transição do cômico ao dramático que o filme se embola. Thaddeus é, até certo ponto, bem interpretado, porém falta-lhe uma motivação consistentemente explanada. O espírito palhaço de Billy interrompe insistentemente os momentos de ação – que na maior parte das vezes, consiste na fuga do “herói” do filme. A inteligente intenção de demonstrar a resolução do conflito interno de Billy como causa da resolução do conflito externo é apressada, tornando-se indigesta.

O design dos Sete Pecados Capitais, principais vilões do filme, é estranho, reduzindo-os a monstrões malignos, cuja extensão dos poderes não é abordada na trama. Assim, a sensação obtida no ato final é tão vazia de expectativa quanto as centenas de sequências de heróis combatendo exércitos de “caras maus”.

A atuação dos personagens principais é bastante competente – embora a infantilidade de Levi seja difícil de aceitar. Esta é amplificada, porém, pelo elenco infantil que compõe a família de Billy. Embora narrativamente simples e unidimensionais, Darla (Faithe Herman), Eugene (Ian Chen) e Mary (Grace Fulton) são bem trabalhados, enquanto Pedro (Jovan Armand) parece existir para completar o bando. Deste núcleo, é a atuação de Jack Dylan Grazer que mais se ressalta, ainda que presa demais no humor facial.

A direção de Sandberg é bastante competente, embora não passe disso. A impressão constante é de que o filme poderia ser feito por qualquer diretor de estúdio que trabalha atualmente em Hollywood. A feliz exceção, porém, é quando o diretor imerge sua influência do terror na mise-en-scène de Shazam. A música, no entanto, é plenamente esquecível, copiando melodias já ouvidas nos demais filmes de heróis. A montagem é astuta, mas também não foge do padrão do nicho de mercado.

Dessa forma, Shazam! almeja colocar-se como o filme mais marvelesco da DC, mas sofre de problemas de roteiro que o reduzem a uma tentativa de comédia mal formulada. É competente e arranca boas risadas em diversos pontos, mas contém uma estrutura fraca demais, tanto em construção narrativa como em desenvolvimento de personagens, para ser lembrada futuramente.

 

UM FUNERAL EM FAMÍLIA

04.04.2019

Tyler Perry volta a encarnar o personagem Madea em comédia repleta de obviedades e estereótipos

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Há uma corrente argumentativa que nega a necessidade de obras enaltecendo a representação da população negra nos cinemas e sustentam que filmes como Pantera NegraMoonlight e Infiltrado na Klan não fazem serviço algum ao povo que representam. Pois bem: Um Funeral em Família (A Madea Family Funeral, EUA, 2018 – Paris Filmes) se coloca como prova cabal de que tais filmes se fazem necessários.

Mais uma história de Tyler Perry protagonizando o personagem Madea, Um Funeral Em Família parece revolver em torno da morte de Anthony (Derek Morgan), o patriarca da família da “icônica” idosa, mas sua estrutura é desenvolvida de forma a introduzir o funeral apenas na segunda metade do filme. Não vale muito construir esta resenha em torno da trama. Afinal, é claro, ela é ignorada completamente pelo roteirista, diretor, produtor e protagonista.

Perry interpreta assombrosos quatro personagens, sendo três desenvolvidos em cima das próteses de rosto. Seus alter-egos masculinos, Joe e Tio Heathrow, são monótonos e resumem-se a piadas de cunho extremamente machista ou racista. Madea também replica este humor lastimável, com maior ênfase em sua história criminal. Claro, todos têm sua própria ficha policial quilométrica, como bons negros (o diretor afirma isso durante o filme quase explicitamente). Para completar o núcleo de idosos, Bam (Cassi Davis) e Hattie (Patrice Lovely) são a ridicularização da mulher negra levada ao próximo nível. A título de comparação, a linguagem corporal de Hattie recorda Jim Crow, clássica figura do humor racista americano, revisitada recentemente por Childish Gambino no clipe da faixa “This Is America”.

Os demais personagens não escapam uma cena sequer do estereótipo que representam. Claro, todos os homens são musculosos enquanto as mulheres têm cabelos lisos, corpos definidos e são vítimas de assédio pelo menos uma vez no filme.

A direção de Perry é óbvia em toda chance possível e, com uma montagem peculiarmente diferente, causa estranheza desde sua primeira cena. Ângulos de câmera, posicionamento dos personagens na mise-en-scène e até a razão de aspecto do filme dão a impressão de que este nada mais é que uma sitcom que, por acidente, foi parar nos cinemas.

Gostaria, sinceramente, de ser capaz de apontar bons traços de Um Funeral em Família. Contudo, seu mérito é ser tão indigesto que causou a todos os presentes na sessão em que presenciei a inexplicável vontade de retirar-se do cinema. Por sorte, Tyler Perry já anunciou que largará Madea de vez. O que significa mais espaço para diretores como Barry Jenkins, Jordan Peele e Ryan Coogler no mercado.

 

SUSPIRIA – A DANÇA DO MEDO

31.03.2019

Clássico filme do diretor Dario Argentino é recriado com simbolismo macabro e sangrento do universo místico das bruxas

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: PlayArte/Divulgação

Dario Argento é um cineasta do horror italiano. Sua obra foi eternizada pelo clássico Suspiria, de 1977. Em 2018, o também italiano Luca Guadagnino (que disputou no mesmo ano o Oscar por Me Chame Pelo Seu Nome) lançou sua versão de Suspiria. Mas que insiste não ser remake. Estrelado por Dakota Johnson e Tilda Swinton, Suspiria – A Dança do Medo (Suspiria, Itália/EUA, 2019 – PlayArte), a nova “versão”, é mais extensa e esteticamente divergente do original. Sendo assim, faço meus esforços pra analisar Suspiria (daqui em frente, como chamarei apenas a produção do ano passado, que entrará em cartaz nos cinemas brasileiros no próximo dia 11 de abril) sem quaisquer comparações com o filme original – como irei me referir ao clássico de Argento.

A trama, dividida em seis atos e um epílogo, gira em torno de Susie Bannion (Johnson), aspirante que acaba de ingressar na companhia de dança de Helena Markos, e de Patricia (Chloë Grace Moretz), uma ex-dançarina dessa companhia, convencida de que as mulheres que a comandam – um grupo de senhoras das mais variadas idades – são bruxas. Se existe alguma incerteza a respeito da veracidade da afirmação de Patricia, ela é esmagada pelo trailer e pelo horroroso subtítulo brasileiro, que omito com muito prazer. Ainda assim, se você escapou destes, pode enxergar uma personagem delirante, tal como seu psicólogo, Dr. Klemperer (Lutz Ebersdorf), acredita. O misticismo bruxo da companhia gira em torno de sua principal figura, Madame Markos, e de sua contraposição, Madame Blanc (Swinton).

Enquanto certos diálogos, roteirizados por David Kajganich, são superficiais, buscando a sensação de uma obra profunda e autorreferencial, outros acertam seu simbolismo da melhor maneira possível. As melhores passagens do filme, quando não visuais, são as falas de Susie com Madame Blanc. Não obstante, é inegável que certos fragmentos do roteiro são obscuros até demais. Pouco acrescenta à trama o subtexto político – o filme se passa em 1977, durante o sequestro do avião Lufthansa 181, que culminou no chamado Outubro Alemão –, que Guadagnino tanto insistiu em retratar. Desta forma, todo o ato dedicado a Patricia – ponto fundamental da trama por sua relação com Sara (Mia Goth), amiga de Susie – é nada mais que mera exposição sobre as nefastas bruxas.

Ainda assim, é inegável que Moretz entregue uma boa atuação. O ponto alto, porém, é a dupla Swinton e Johnson. Pouco há para acrescentar a Tilda, cujo nome já é sinônimo de boas atuações, mas Dakota vem como uma ótima surpresa. A protagonista é capaz de atuar não só com o rosto, mas com todo seu corpo, em belíssimas cenas de dança. Todas as demais retratam suas personagens competentemente, em especial Mia Goth, cuja importância aumenta na parte final do filme.

O mais debatido aspecto de Suspiria é, no entanto, sua direção. Alguns afirmam que Guadagnino nada acrescentou, estética ou semanticamente, ao filme original. Como afirmei antes, não entrarei nesse mérito. A referência à obra de Argento se apresenta, como esperado. A direção do italiano imerge seu filme nos anos 1970, tanto em história quanto em estilo. A impressão de que o filme é, de fato, setentista é recorrente. Ainda assim, é contemporâneo em seus efeitos visuais e especiais – que configuram uma das mais fortes cenas –, bem como em sua fotografia – comandada por Sayombhu Mukdeeprom (que trabalhou como diretor em Me Chame Pelo Seu Nome). Esta é preenchida por seus tons pasteis, criando um filme constantemente bege. Desta forma, é surpreendente quando, em seu sexto ato, o quadro é completamente banhado de vermelho. No entanto, a mais surpreendente adição é a sequência em longa exposição (mais detalhes não podem ser dados a seu respeito). Por sua fotografia escura e desenho de som vital, Suspiria é um longa obrigatoriamente de telas de cinema.

A montagem funciona organicamente, sem deixar que as duas horas e trinta e dois minutos do filme tornem-se vagarosas. O ponto mais confuso dos aspectos técnicos é, infelizmente, a música de Thom Yorke. Nos momentos em que o vocalista do Radiohead canta, o aspecto setentista de Suspiria e perde completamente, chutando seu espectador para o presente. Por outro lado, é na música que se formam os momentos mais emblemáticos da obra – os quais apelidei de cenas Volk e Unmade. É ótimo, porém, ouvir a voz de Yorke em caixas de som de qualidade.

Sendo assim, aquém de seu original, Suspiria funciona como um pós-horror, imerso no simbolismo macabro e sangrento do universo místico das bruxas, alçado pela dança. Porém, ao tentar traçar suas obscuridades com maestria, cai por terra em superficialidade indigesta. Sem expectativas de um novo clássico, o filme de Guadagnino pode resultar em uma boa experiência a seu espectador. É difícil que chegue a encher salas, já que estará disputando a atenção com blockbusters como Capitã Marvel, Shazam!e Nós, de Jordan Peele – outro grande lançamento do horror.

OBS: O primeiro nome a quem a produção agradece, nos créditos finais, é Paul Thomas Anderson. Me intriga o porquê.

 

FREE SOLO

30.03.2019

Documentário mostra o lado humano de Alex Honnold no desafio de escalar sem cordas uma altura de 900 metros

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: National Geographic Films/Divulgação

Esta é, para mim, uma resenha difícil de ser feita. Free Solo (EUA, 2018 – National Geographic Films) requer um nível de afastamento do objeto de crítica maior que os demais filmes. Veja, a emocionante história de Alex Honnold completando uma escalada – sem cordas – de pouco mais de 900 metros já me é íntima. Falta muito para considerar-me um escalador, mas não há como negar que eu escalo.

O documentário, dirigido pelo casal de escaladores Jimmy Chin e Elisabeth Chai Vasarhelyi, narra o percurso de Honnold em seu projeto mais ambicioso: escalar, em free solo, o mitológico El Capitán. Alternando entre depoimentos de amigos e familiares do profissional e suas sessões de treinamento, a produção permite que o espectador não só sinta a magnitude de seu desafio, mas também conheça seu protagonista intimamente. Alex é metódico, frio e não teme a morte, mas isso tudo não o faz menos humano.

Dito isso, partimos a algumas considerações técnicas. A estrutura narrativa é simples, mas funcional. A definição dos atos beira a obviedade, mas não perde seu impacto. Aqui reside o grande acerto da direção de Vasarhelyi e Chin, que apostam em estruturar o filme a partir do conflito interno de seu protagonista ao invés do externo. O caminho mais óbvio é apresentar as infindáveis sessões de treinos de Alex, suas quedas e o risco de escalar sem quaisquer proteções, porém a trama explora o que se passa na mente do escalador e todos seus amigos, incluindo a equipe de filmagem, cientes de todo o risco externo sem deixar que ele inunde Free Solo.

Trechos em que amigos próximos de Alex questionam sua própria participação na produção são frequentes. Alguns depoimentos impactam mais que outros, como um arrasador momento em que Tommy Caldwell (que protagoniza outro grande lançamento do cinema de escalada, Dawn Wall) descreve o sonho que tivera na madrugada em que Honnold decide escalar o El Capitán e os diversos momentos de conflito da namorada/esposa de Alex, que teme pela vida de seu companheiro.

A edição, por outro lado, oscila entre momentos satisfatórios e uma NatGeo-zação da edição. Ora documentário de Oscar, ora vídeo que poderia estar no Canal Off enquanto você come um açaí na esquina de casa, o longa arrisca perder o peso de seu clímax com o estilo televisivo de sua montagem.

Dessa forma, Free Solo é uma interessante experiência fílmica para os não-escaladores, que têm acesso a um bom tanto da dura rotina dos profissionais do esporte, bem como seus medos e desafios. O filme é ainda mais recomendável, porém, para aqueles íntimos da escalada, meio no qual a história de Alex Honnold é mitológica – e vai muito além do encadenamento do El Cap. Imergir no mundo de grandes escaladores e entender suas motivações – e a compreensão do risco que tomam – é uma vivência inspiradora. Minhas mãos suaram e tremi muito mais do que esperava.

 

HAPPY HOUR – VERDADES E CONSEQUÊNCIAS

29.10.2019

Coprodução entre Brasil e Argentina aborda a superficialidade da vida quando passamos a dar vazão aos nossos desejos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imovision/Divulgação

Horácio é o nome do poeta romano autor da ode 1.11, com a célebre fase em latim carpe diem quam minimum crédula postero (aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã). E é esse conselho que Horácio, protagonista da comédia dramática Happy Hour – Verdades e Consequências (Happy Hour – Dale Espacio a Tu Desejo, Argentina/Brasil, 2017 – Imovision) decide adotar: desfrutar a vida, sem se preocupar com o destino e suas consequências. A coprodução estreou nesta quinta-feira (28) e foi o primeiro longa rodado na sala que homenageia o Cine Luz, do recém-inaugurado Cine Passeio, da Fundação Cultural de Curitiba.

O ator argentino Pablo Echarri interpreta um escritor frustrado que ganha a vida como professor universitário no Rio de Janeiro. Casado há 15 anos com Vera (Leticia Sabatella), uma mulher belíssima, deputada estadual e candidata à prefeita, Horácio se vê diante de uma crise existencial e procura dar sentido à sua vida. O casal, então, “despacha” o filho para a casa dos avós em Buenos Aires, numa clara tentativa de esquentar o relacionamento.

Mas sua persona de sotaque castellano, cabelo grisalho e experiência de vida, suas aulas com citações a Borges e Shakespeare (como aparece no quadro negro em uma das cenas na sala da universidade), transformam-no num tipo sedutor que atrai as alunas. E a insistência de uma delas faz Horácio repensar seu sentido de liberdade. Depois de tanto martelar durante a aula que é preciso dar vazão ao desejo (dale espacio a tu deseo), o professor decide aproveitar o momento e propõe à mulher um relacionamento aberto, assim como viviam o pai do existencialismo, o filósofo Jean Paul Sartre e da mãe do feminismo, a escritora Simone de Beauvoir. E Happy Hour segue nessa linha existencialista: pretende discutir o fim do romantismo diante do desejo de experimentar amores contingentes, mas se perde com subtramas que acabam por deixar a história confusa.

Crises representam momentos de transformação, como a busca pelo autoconhecimento. E no longa, a reviravolta na vida de Horácio acontece quando o bandido conhecido como Homem-Aranha (que escala prédios e residências para assaltar) despenca de um dos andares e cai em cheio no capô de seu carro. E é como se o escritor se visse preso na teia do bandido. Horácio se torna o herói da Zona Sul e passa a ser perseguido pela mídia sensacionalista e assediado na rua, quase pondo em xeque a carreira política da esposa. Vera precisa manter as aparências – a imagem da família estruturada – durante sua campanha à prefeitura.

A vida do casal, então, mergulha na melancolia de um tango de Piazzolla (“Balada Para um Louco” está na trilha sonora) e num mundo absurdo tipo samba do crioulo doido. O que é ficção e o que é realidade? Horácio já não sabe mais se quer trair a mulher. Depois de ser surpreendida pela sinceridade do marido, Vera, por sua vez, tem dúvidas se quer continuar casada com ele.

O longa prende a atenção do espectador mas peca pelo excesso de elementos narrativos e os saltos radicais entre comédia e drama. Percebe-se também a tentativa dos roteiristas Eduardo Albergaria (que dirige a trama), Fernando Velasco e Carlos Artur Thiré em abordar temas filosóficos profundos (Horácio faz uma rasa referência ao eterno retorno de Nietzsche e a Albert Camus, quando fala em sentir-se estrangeiro) e que soam superficiais. Esse viés dramático muitas vezes não faz sentido e contrasta com cenas que satirizam programas policialescos (dos quais Horácio se torna personagem principal) e referências ao cenário político brasileiro, por exemplo. Em determinada cena, Vera diz “a luta continua”, como se fosse uma interferência da própria atriz petista no roteiro. Aliás, a beleza de Letícia Sabatella impressiona mais (aparece em close quase sem maquiagem) do que sua própria atuação.

Os roteiristas também se atropelam ao simplesmente esquecer o filho do casal no desenrolar da trama. Aparentemente passam-se semanas e o garoto continua na casa dos avós. Seria muito mais trabalhoso se o casal discutisse a relação com o filho presente no dia a dia. E só perto do final é que Horácio e Vera conversam com o menino via chamada de vídeo. Ou tentam conversar, porque o garoto mal abre a boca e a cena não emociona.

Personagens secundários poderiam ter sido melhor exploradas, como o de Chico Diaz e de Marcos Winter (ambos interpretam políticos). Mas quem rouba o filme é Ricardo, interpretado por Luciano Cáceres. Ele surpreende quando interpreta parte da canção “Fala”, do grupo Secos e Molhados (“Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto”) durante um “momento fossa” de Vera.

Se a personagem de Horácio busca encontrar um sentido para a vida, a dificuldade é a mesma para quem assiste a Happy Hour. É difícil costurar os significados com tantas subtramas, com tantas teias de aranha. Mas talvez a intenção seja justamente esta: a superficialidade da vida quando damos vazão aos nossos desejos, assim como num happy hour com duração de 105 minutos.

NÓS

23.03.2019

Oito motivos para você não deixar de assistir nos cinemas ao novo longa com a assinatura do celebrado diretor e roteirista Jordan Peele

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Nós (Us, EUA, 2019 – Universal Pictures) acaba de estrear nas salas de projeção de todo país. Este é o segundo filme escrito e dirigido por Jordan Peele, sensação do cinema norte-americano, e tão surpreendente e criativo quanto o anterior, Corra!. Eis oito motivos para você não deixar de sair de casa para assistir a esta novidade.

Jordan Peele

Já faz umas boas décadas que novos diretores – muitos deles acumulando também a função de roteiristas de suas obas – têm trazido a Hollywood um frescor não só de ideias como também de assinaturas bem peculiares. E Peele, antes apenas um comediante de sucesso na TV a cabo, tornou-se também um dos cineastas mais festejados pela imprensa desde que Corra! chegou às grandes telas dois anos atrás. Agora, em seu tão esperado segundo filme, Jordan mostra que não só soube manter o elevado nível da estreia como também mostra ter fôlego para muito mais. Com uma cara autoral que pouco se vê em produções com orçamento de indústria mainstream, Nós é atrevidamente delicioso, misturando cultura pop com filmes B sem subjugar o espectador em momento algum e, ainda pelo contrário, oferecer a ele saídas da obviedade de costume dos cinemas de shopping centers. Tudo isso mantendo uma linha autoral claramente destacada, tangenciando autorreferências a detalhes do longa anterior e ainda oferecendo um caminho de evolução. Não à tôa ele foi o nome escolhido para comandar a futura nova temporada da série Além da Imaginação, um dos maiores nomes do audiovisual de ficção científica do Século XX.

Críticas mordazes

Jordan Peele vem do território do humor, mais precisamente do stand up. No cinema, enveredou pela trilha prioritária do terror, mas até agora não abriu mão de soltar críticas contundentes no decorrer de suas histórias. Foi assim em Corra! e é assim novamente em Nós. Seus protagonistas são negros, com problemas referentes aos negros e tendo os brancos como coadjuvantes perversos ou abobalhados da trama. Neste segundo filme, chega ao requinte de colocar toda uma família negra (dois adultos, duas crianças) em uma casa de veraneio de uma abastada praia californiana. Também dá destaque de sobra ao gênero feminino, fazendo sempre a mãe e a primogênita parecerem mil vezes mais inteligentes, perspicazes e interessantes que o pai e o caçula. As alfinetadas não ficam por aí em Nós e, do começo ao fim (literalmente!), alguns detalhes que preenchem a narrativa promovem o deleite do espectador mais atento a este tipo de observação sociocultural, que, desta vez, não poupa nem a tradição hippie criada pela contracultura norte-americana lá nos já longínquos anos 1960. Tudo isso sem falar na sutileza do título original, já que Us quer dizer “nós” português mas serve também como uma ligeira metáfora para a sigla de uns Estados Unidos (isto é, United States) nem tão unidos assim em seus objetivos sobretudo humanitários. É o “nós” do “eu” em primeiro lugar.

Duplo

Um motes de Nós é a existência do famigerado duplo. E mais do que isso: como ser humano é bem despreparado para agir quando se depara com ele. O que acontece na região da praia de Santa Cruz ilustra bem a situação. Primeiro é com a família Wilson, surpreendida por quatro modelos idênticos fisicamente, mas com atitudes, comportamentos e necessidades completamente diferentes. É a aparição deles que dá início a uma espécie de segundo ato, quando o terror sai da zona psicológica e parte para o deleite slasher. Só que a coisa fica melhor ainda quando mais duplos aparecem para começar a amarrar todas as pontas aparentemente soltas no filme. Contar mais sobre isso estragará o prazer da descoberta de quem não assistiu a Nós.

Prólogo

Mal o filme começa e o espectador já é bombardeado com dados aleatórios escritos na tela preta. Depois entra a primeira cena, também cheia de outras informações sendo exibidas por um canal de televisão lá no ano de 1986. Depois, a menina que assiste a tudo sai de casa e aparece com o pai no parque de diversões à beira da praia em Santa Cruz. Lá ela vai viver uma experiência da qual nunca mais vai se esquecer. Este é o prólogo de Nós, que tem conexão com todo o resto do filme, claro. O interessante é que, assim como fizera em Corra! ele vai marcando uma assinatura em seus filmes: a de antecipar dados importantes para o que virá em seguida sem, contudo, deixar claro o que é.

Lupita Nyong’o

Se existe um nome no elenco que, sozinha, já faz valer o ingresso do cinema esta é Lupita. Na pele de Adelaide, a esposa do fanfarrão Gabe (Winston Duke, astro de Pantera Negra), sempre zelosa com os filhos e aterrorizada pelos fantasmas do passado, ela já dá um show de interpretação. Quando aparece em cena na pele do duplo Red, então, arrebenta de vez mostrando toda a sua força tanto em expressões faciais quanto nos limites do uso de sua voz em timbres e ruídos indecifráveis.

Elizabeth Moss

OK que Lupita Nyong’o rouba o filme pra ela, mas há no elenco coadjuvante outra grande força da natureza dramática chamada Elizabeth Moss. Revelada ao estrelato pela série The Handmaid’s Tale, aqui ela é a esposa completamente sem noção da família nouveau riche branquela e amiga dos Wilson. Faz com maestria papel da típica lôraburra, que só enche seu tempo com coisas fúteis e se preocupando em mostrar o resultado de suas operações plásticas ou mostrar como já cresceram e estão belas as filhas adolescentes (interpretadas pelas mesmas gêmeas que, quando pequenas, dividiam o tempo em cena como a filhinha pequena dos personagens Rachel e Ross na série Friends).

Trilha sonora incidental

Produzida em conjunto por Jordan Peele e o compositor Micahel Abels, a trilha incidental de Nósfoi criada tendo como base o trabalho sonoro feito para o icônico filme de terror A Hora do Pesadelo. Algumas faixas são muito percussivas, para acentuar a dramaticidade de certas cenas e deixa-las ainda mais assustadoras. Vale lembrar que esta não é a primeira experiência conjunta deles. Abels fez também a trilha de Corra!, contribuindo da mesma forma para deixar a história ainda mais tensa. Por ter background erudito, Abels é capaz de fazer obras-primas como “Anthem”, a “música de abertura” do longa, com direito a vocais operísticos femininos em stacatto e melodia que gruda na hora na cabeça e nunca mais sai dela, mesmo quando você já se libertou de todos os duplos vistos na tela do cinema.

Trilha sonora pop

Imagine você ver um belo massacre de uma família, feito por assassinos cruéis e com sangue espirrando para tudo quanto é lado, ao som de “Good Vibrations”, dos Beach Boys. Pois é, só Jordan Peele para ter criatividade e ousadia suficiente para bancar isso em um filme feito para a grande indústria do cinema. E agora imagine esta cena tendo o hit supremo dos Beach Boys emendado, com extremo bom humor e maestria, com a sempre contundente “Fuck The Police”, do grupo de rap NWA. Esta é apenas uma das cenas que nunca mais vão sair da sua memória depois de ver Nós. A parte pop apresenta ainda mais duas cantoras bastante representativas da black music do presente e do passado (Janelle Monáe e Minnie Riperton, respectivamente). E também refaz o rap “I Got 5 On It!”, música cuja discussão no carro a respeito de sua letra também é outro pico de bom humor no roteiro.

 

A CINCO PASSOS DE VOCÊ

22.03.2019

Novo romance adolescente a chegar às grandes telas traz o amor impossível provocado pelo tênue limite entre a vida e a morte

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Amor proibido é um tema bastante explorado pela sétima arte. A tragédia de Romeu e Julieta, personagens de Shakespeare que pertenciam a famílias rivais, sem dúvida é a história de amor impossível mais adaptada para a telona. Tem também o musical Amor, Sublime, Amor (West Side Story, 1961). Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980), com o saudoso e eterno superman Christopher Reeve, é outro exemplo de relação amorosa utópica e que ultrapassa a noção de tempo.

Apesar de todas as barreiras, os amantes, nesse caso, conseguem externar o desejo, a paixão por meio do contato físico, do toque, da carícia, do carinho. Antes de seu destino trágico, Romeu passa uma noite de amor com Julieta. Estar perto e não poder tocar a pessoa amada, aí sim vira uma das sensações mais devastadoras e angustiantes que alguém pode sentir. É como quase parar de respirar. E é assim que vivem os protagonistas de A cinco passos de você (Five Feet Apart, EUA, 2019 – Paris Filmes), que estreou nesta quinta-feira nos cinemas de todo o Brasil.

O casal de adolescentes Stella Grant (interpretada por Haley Lu Richardson, de Fragmentado) e Will Newman (Cole Sprouse, da série de TV Riverdale), tem fibrose cística, doença genética crônica (também conhecida como Doença do Beijo Salgado ou Mucoviscidose). Ela afeta principalmente os pulmões, pâncreas e o sistema digestivo e atinge 70 mil pessoas em todo o mundo (segundo dados do Instituto Unidos Pela Vida, de Curitiba). Os dois se apaixonam à primeira vista e, por conta do risco de um contaminar o outro com bactérias, precisam necessariamente ficar a seis passos de distância (no decorrer do filme, o espectador entenderá porque o título diz cinco passos).

Haley e Cole (que emagreceu dez quilos para viver Will) se doam ao papel como se tivessem nascido para interpretar as personagens e conseguem transmitir a sensação paradoxal de angústia e leveza ao encarar cada dia como se fosse o último. Na primeira cena do filme, em que Stella aparece cercada de amigas, o enquadramento do diretor Justin Baldoni (conhecido por seu papel na série Jane, a Virgem) é tão perspicaz que o espectador não percebe, num primeiro momento, que a garota está num quarto de hospital. Esse é, na verdade, a casa de Stella, Will e os demais pacientes prisioneiros da fibrose.

A garota tem quase 17 anos e está na lista de espera de um transplante de pulmão. Para passar o tempo no hospital, alimenta um canal no YouTube, onde relata sua rotina com a doença: “nós produzimos muco em excesso” e “respiramos ar emprestado”, explica ela sempre de modo positivo. Stella conhece o hospital como a palma da mão e lá fez amizade com todos. Até que se depara com um paciente novo: Will (“vontade”, em inglês) Newman (“novo homem”). Os dois se conectam instantaneamente.  Stella, toda metódica e organizada, começa a ajudar Will que se rebela contra o tratamento (ela mistura comprimidos ao iogurte, como se fossem flocos de milho).

É nítido como ambos enxergam a vida de maneira distinta. Stella tem como passatempo preencher uma to do list (como estudar a obra de Shakespeare ou aprender francês). Will só queria poder viajar o mundo e se entretém fazendo caricaturas. E quanto mais tempo os dois passam juntos, mais a química aumenta junto com o desejo de violar as restrições. Para diminuir essa distância de seis passos, que se transformam em cinco, Stella e Will se comunicam frequentemente pelo celular e laptop, fazendo vídeos fofos. Tão perto e tão longe.

Ao contrário de A Culpa é das Estrelas, baseado no best-seller de John Green, A cinco passos de Você fez o caminho inverso e originou o livro homônimo. Mesmo sendo um tema triste, pesado, que emociona e arranca lágrimas, o roteiro do casal Mikki Daughtry e Tobias Iocanis é leve e divertido – afinal são adolescentes descobrindo o mundo – assim como a trilha sonora repleta de canções indie – como “Medicine” (Daughter) e a música que embala o trailer, “Remind Me To Forget”, do produtor musical DJ Kygo e na voz do cantor Miguel. Uma das cenas mais poéticas e delicadas ocorre quando Stella e Will têm um encontro amoroso na beira da piscina e discutem sobre morte. Ele é cético: morrer é dormir um sono profundo. Stella acredita em vida após a morte.

A angústia, porém, aumenta à medida que o filme se aproxima do final. Os clichês também começam a surgir. Mas a vida e a morte são assim, como clichês. O que não deveria ser lugar comum é o uso da tecnologia para substituir o contato físico entre pessoas saudáveis e que estão a poucos metros de distância. A vida é frágil, curta demais, e ninguém tem controle sobre a morte, estando ou não doente.

 

CHORAR DE RIR

20.03.2019

Fugindo das triviais comédias que dominam o cinema nacional, Leandro Hassum aborda a difícil arte de fazer rir em tempos sombrios

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

É preciso muito esforço para chorar de rir depois de uma série de eventos trágicos, como o massacre em Christchurch (Nova Zelândia) e o atentado em Suzano (grande São Paulo). Na mídia, as notícias ruins estavam lá, nos sugando para um mundo onde o drama parece despontar como gênero dominante. Mas eis que surge o contraponto da comédia e o poder do cinema em nos transportar para uma realidade paralela a esse sofrimento todo.

Chorar de Rir (Brasil, 2019 – Warner), filme estrelado pelo humorista Leandro Hassum e que estreia nesta quinta-feira em todo o país, é mais que uma simples comédia com intuito puramente comercial. A história nos convida a refletir sobre vários aspectos: a difícil arte de fazer rir em tempos sombrios, como o gênero da comédia é tratado com inferioridade (“levar a comédia a sério”) e a dicotomia entre televisão-teatro.

As comédias vêm dominando produções cinematográficas nacionais com grandes bilheterias e Hassum se beneficia disso emendando um trabalho após o outro. Recentemente, estrelou as continuações O Candidato Honesto 2 e Até Que a Morte Nos Separe 3 e, numa entrevista, disse que “faz comédia para o povo poder rir”.

E a proposta de Chorar de Rir vai além de mandar um punhado de boas piadas para estimular a endorfina em nosso cérebro. O diretor Toniko Melo (o mesmo de VIPs, com Wagner Moura) pretende fazer uma homenagem ao gênero e, para isso, conta com a ajuda de um roteiro cheio de indiretas assinado por nada mais nada menos que José Roberto Torero (roteirista de Pelé Eterno e Pequeno Dicionário Amoroso, jornalista, colunista esportivo e escritor premiado com o Jabuti).

A narrativa faz uso de metalinguagem (ator que interpreta ator) e o papel de Hassum é explicitamente autobiográfico, como na piada citada pelo personagem dele. “Todo gordinho é mais engraçado. Como eu, magro, fui ser comediante?”. Aliás, o ator parece ter ficado mais simpático e cômico após ter feito a cirurgia bariátrica.

Hassum desencarna o candidato honesto João Ernesto e se transforma em Nilo Perequê (palavra que significa barulho, discussão). Nilo é o humorista mais famoso do país que estrela um programa de televisão de grande audiência e acumula uma legião de fãs nas redes sociais. Ele parece ter tudo: dinheiro, fama, sucesso. Mas aparentemente não está feliz. Ao ouvir um comentário negativo nos bastidores de uma premiação, menosprezando o ator de comédia, ele se vê diante de um dilema existencial: ser ou não ser um comediante?

O protagonista embarca num momento a la Cartola (“preciso me encontrar”) e decide, então, se reinventar. Muda radicalmente a carreira, buscando um sentido na vida. Lembra-se do tempo em que encenou Hamlet, a grande tragédia de Shakespeare, durante a escola de formação de atores com seu primeiro amor, Bárbara (Monique Alfradique, numa atuação mediana e que deixa explícito em algumas cenas que se segura para não rir diante de Hassum). Perequê, então, abre caminho para seu rival Jotapê Santana (Rafael Portugal) e procura Tulio Ferro (Felipe Rocha) para montar a peça. Tulio é um diretor de teatro que não dirige carros.

Chorar de Rir ainda conta com participações de Otávio Muller (cunhado e empresário de Nilo), Natália Lage (irmã de Nilo), Fulvio Stefanini, Caíto Mainier (Choque de Cultura), Sérgio Mallandro e até mesmo Sidney Magal, que volta a trabalhar como ator de cinema agora fazendo um mago cujo bordão é “Quero vê-la sorrir” (a frase inicial que alavanca o famoso e irresistível refrão do hit “Sandra Rosa Madalena”).

A narrativa se mantém dinâmica e atinge o ápice quando Nilo encena Hamlet. Até que a história atinge seu turning point e passa a ficar um tanto monótona rumo ao desfecho. A trilha sonora também é usada para marcar esse momento de virada: se antes a “Despacito” instrumental é animada, depois ela fica melancólica.

No final, Chorar de Rir consegue transmitir a ideia contida no trocadilho do título e na música de Cartola (“rir pra não chorar”) – que, por sinal, não aparece na trilha sonora – e transmite mensagens positivas: nós, como senhores do nosso destino, podemos escolher entre rir e chorar; e como a comédia (em seu sentido aristotélico) se faz importantíssima ao usar a sátira no combate à hipocrisia.

 

CAPITÃ MARVEL

20.03.2019

Filme estrelado por Brie Larson mistura anos 1990 com os dias de hoje em um processo de início de tentativa de filão do gênero de super-heróis

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Texto por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop)

Foto: Marvel/Disney/Divulgação

Houve um mundo sem esta febre de filmes de super-herói. Era legal, eu lembro. Havia filmes de ação bacanas, sem que fosse preciso invocar personagens de quadrinhos para viverem situações fantásticas, beirando o absurdo. O novo longa da Marvel é a prova de que este filão está bem próximo do esgotamento. Os próprios executivos já notaram isso e farão uma renovação a partir do próximo capítulo da saga dos Vingadores, com a exibição de Vingadores – Ultimato no mês que vem. Muito por conta desta trama central, o longa da Capitã Marvel veio para tentar juntar peças e pontas nos roteiros. Fosse realizado há uns dez anos, Capitã Marvel (Captain Marvel, EUA, 2019 – Marvel/Disney) seria um longa melhor do que hoje. A história da piloto Carol Danvers, cheia de reviravoltas, questões, lapsos de memória e resoluções bombásticas, soa como uma realização feita às pressas, ainda que o roteiro e a ideia de levar a personagem para as telas seja antiga.

O filme tem acertos, mas também tem problemas. Brie Larson, por exemplo, é ótima atriz, a gente sabe. Ela pena para se encontrar na pele da Capitã ao longo do filme, mas oferece algumas boas cenas no meio do caminho, que acabam jogando a favor da situação da própria personagem, perdida entre memórias e realidade. Nicky Fury, um dos heróis mais legais da Marvel, participa ativamente da trama, fazendo de Capitã Marvel o filme em que ele mais aparece. Pena que seja como uma espécie de alívio cômico terráqueo, diante da profusão de seres espaciais que surgem na telona. Mesmo assim, Samuel L Jackson pode ser visto atuando e não recitando frases com clima tenso aqui e ali.

Os coadjuvantes de luxo surgem como … coadjuvantes. Jude Law e Annette Bening têm papéis importantes para a história, mas suas presenças parecem mais como aquele movimento manjado de trazer atores dramáticos para o universo de quadrinhos e cultura pop. Funciona no passado, causa espécie hoje. Pelo menos em mim.

O fato é que os personagens dos quadrinhos já não são os mesmos, claro. Seu surgimento nas telas do planeta significa – como não poderia deixar de ser – uma readaptação de suas características visando trazê-los para os dias de hoje. Não adianta reclamar e exigir fidelidade dos roteiros feitos por trintões nerdificados. Em certos casos, isso pode até ser legal. A Capitã Marvel, por conta do roteiro e desta repaginação perigosa, surge numa década de 1990 cheia de signos. Tem pôster de Mellon Collie And The Infinite Sadness, o terceiro disco dos Smashing Pumpkins colado num muro. Tem a locadora de vídeo Blockbuster. Tem momento reflexivo ao som de “Only Happy When It Rains”, do Garbage. Tem pancadaria ao som de “Just A Girl”, do No Doubt. Tem Brie Larson usando uma camiseta do Nine Inch Nails na maior parte do filme. E tudo isso não chega a ser ruim.

Como produto típico de 2019, Capitã Marvel tem empoderamento feminino, seja nas cenas, seja no próprio roteiro. Tem questão política de refugiados feios que parecem maus e mocinhos bonitos que parecem bons. Tem aceno leve a filmes do passado, como Top Gun. E tem piadas – talvez em excesso – para amarrar tudo com certa leveza.

A gente sai do cinema com a sensação de ter comigo num fast food e isso é o máximo que estes filmes podem fazer pelo espectador, salvo poucas exceções.

 

PARQUE DOS SONHOS

14.03.2019

Animação sem a assinatura de um diretor se vale de narrativa surreal para conquistar crianças e adultos

parque dos sonhos

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount Pictures/Divulgação

Animações têm a possibilidade de argumentar a respeito dos mais variados temas se valendo de narrativas surreais. É desta forma que O Parque dos Sonhos (Wonder Park, EUA/Espanha, 2019 – Paramount Pictures) constrói sua trama em volta de June, uma inventiva criança cujo sonho é construir o parque imaginário que inventara com sua mãe. Quando esta deve viajar para cuidar da saúde, a protagonista se entristece, apresentando sintomas típicos de um episódio depressivo, e deixa o projeto do Parque de lado. Porém, ela descobre que o parque é real e corre sério risco.

O filme não tem um “diretor”, mas um conjunto de head(s) of, que assumem a fotografia, a iluminação e a história. Ainda assim, os três são capazes de trabalhar com tamanha sinergia que a animação é uma das mais fluidas dos últimos anos do cinema comercial. A movimentação de câmera é tal que produz transições ao estilo de Damien Chazelle. A fotografia sabe evocar, com seu trabalho de contrastes e colorização, diferentes sensações para os mais variados ambientes da trama. A referência junguiana do roteiro se faz presente nos quadros por meio da cor.

Outro ponto que funciona bem é a utilização do 3D, criando camadas de profundidade em diversos momentos e sempre em favor da narrativa. Há tempos que não encontro um filme cuja experiência tridimensional valha tanto a pena quanto este.

Infelizmente, não foi possível, para escrever este texto, analisar a dublagem original do filme, que conta com nomes como Jennifer Garner e John Oliver no elenco. Todavia, o elenco e a direção de dublagem da versão brasileira não deixam a desejar. Pequenos desvios técnicos e uma escolha duvidosa para a personagem principal são os únicos defeitos da dublagem, que entrega personagens divertidos e bons diálogos adaptados.

É claro que, como (quase) toda obra, esta tem seus defeitos estruturais. A história de June, escrita por Josh Appelbaum (que assina a produção do filme), André Nemec e Robert Gordon, é obviamente inspirada em sucessos anteriores do nicho das animações Pixar-Disney-Dreamworks. Há, inclusive, uma cena cuja referência é tão incontestável que poderia ser batizado de “momento Up!”. Mesmo assim, é inegável que a trama funcione. Só poderia funcionar um pouquinho mais.

O Parque dos Sonhos é daqueles filmes planejados para tornar-se um sucesso de vendas. É muito provável que isso não ocorra – ainda que o carisma dos personagens (em especial os animais) pudesse fazer com que conseguisse o objetivo – mas também pode passar perto sem se tornar uma animação esquecível. É divertido o suficiente tanto para seu público infantil quanto para os pais. Por sinal, para estes é uma ótima opção para passar o tempo.

 

ALBATROZ

06.03.2019

Trama marcada por um misterioso crime e protagonizada por Alexandre Nero mira alto demais e soa pretensioso

Albatroz

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Downtown Filmes/Divulgação

Bráulio Mantovani é, atualmente, um dos roteiristas mais prestigiados do país. Daniel Augusto dirige seu primeiro longa, enquanto Fernando Garrido estreia coassinando o roteiro. Estes são os nomes que realizaram Albatroz (Brasil, 2019 – Downtown Filmes), protagonizado por Alexandre Nero e Andréa Beltrão e que chega às salas de todo o país nesta quinta-feira.

A trama é tecida em volta do sinestésico Simão Alcóbar (Nero), cujo estranhamento em relação aos eventos do filme lembra Mr Nobody, de Jaco Van Dormael. Simão, ex-fotógrafo com premiações no currículo, é obrigado por Alicia (Beltrão) a viajar para Albatroz, cidade onde seu antigo relacionamento se iniciou, para salvar sua esposa, Catarina (Maria Flor). A partir daí, flashbacks e pulos temporais se intercalam com um interrogatório policial – há um homem morto no escritório de Alicia e seu livro se torna objeto de investigação. Conveniente razão para que haja narrações em voice over, aliás. Sem entregar muitos spoilers, a história de Albatroz ainda conta com uma neurocientista, Dra. Weber (Andréia Horta).

Enquanto trabalha com realidades confusas, a trama disserta sobre sonhos e conflitos morais envolvendo a morte e religião. Talvez pela constante dualidade Israel-Palestina ou nazi-israelita que permeia a obra que Albatroz contém uma maioria assombrosa de nomes e sobrenomes gringos – fator que distancia o longa do ideário brasileiro. Sobrenomes como Henricksehn e Weber são antagonistas, enquanto uma desnecessária cena explicando a origem judia do sobrenome de Simão se faz presente para anunciar a dicotomia.

Por mais que exprima tais diálogos morais, Albatroz não se excede nos mesmos. Pode-se dizer, porém, que não mergulha neles. A plasticidade de certos fragmentos do roteiro produz certa plasticidade em todo o subtexto da trama. E é por tal artificialidade que o filme é repleto de meias-atuações. Andréia Horta e Marcelo Serrado, que faz uma ponta, não induzem quaisquer sensações, enquanto a constante face assustada de Andrea Beltrão cansa na metade final. Maria Flor, por sua vez, tem pouco espaço para brilhar, embora traga maior peso à personagem que as atrizes citadas anteriormente. Nero cambaleia, mas performa de forma sólida, entregando um bom protagonista, cujas cenas mais naturais são diálogos com Renée, interpretada pela ótima Camila Morgado.

O grande mérito do filme fica a cargo da direção, em seus aspectos mais conceituais, e da montagem de Fernando Stutz. O ótimo uso narrativo de elipses e da sinestesia de Simão fazem Albatroz fluir em seus primeiros momentos, recheando a trama de mistério. A constante sobreposição de imagens – fotografias do protagonista – bebe da fonte do laureado Cinema Novo (como bem apontou um colega crítico), tornando-se ostensiva após o segundo ato. A utilização de flashes brancos e coloridos em momentos de tensão traz dinâmica à montagem, que tem suficiente espaço para brincar com a compreensão fílmica do espectador.

Assim, Albatroz até empolga em certos momentos, mas a pretensão de Mantovani em buscar a criação de uma obra transcendental não se paga, criando uma trama “espertinha” e pouco orgânica. Por sorte, a direção e a montagem criam dinamismo e induzem o espectador, com certo mistério, a acompanhar o filme sem se cansar.

>> Atenção: este filme pode causar em incômodo em pessoas com epilepsia e fotossensibilidade

 

A CAMINHO DE CASA

27.02.2019

Novo longa-metragem com protagonista canino é repetitivo e acaba cansando com seus monólogos óbvios e desnecessários

a caminho de casa

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Pictures/Divulgação

W. Bruce Cameron e Cathryn Michon têm certa experiência ao escrever histórias “emocionantes” de cachorro. Ambos roteirizaram o polêmico – não por seu conteúdo – Quatro Vidas de um Cachorro. Agora repetem a parceria com a estreia deste ano, A Caminho de Casa (A Dog’s Way Home, EUA, 2019 – Sony Pictures).

Neste filme, a pitbull de rua Bella (dublada por Bryce Dallas Howard) é resgatada por Lucas (Jonah Hauer King) e Olivia (Alexandra Shipp). Tudo é ótimo até que a cadela é ameaçada de morte, tendo que se mudar para a casa dos tios de Olivia, de onde foge para tentar ir para casa. Como se não bastasse o ato ser o pivô de toda a trama, o público é constantemente lembrado pela dublagem que este é o intuito da protagonista.

Alternando entre momentos com humanos, que têm seus altos e baixos, e os monólogos de Bella, rodeada por animais não-falantes, A Caminho de Casaé fruto de uma fórmula ostensivamente utilizada e constrói uma fórmula em si mesmo, tornando-se um filme repetitivo. Desta forma, a obviedade do monólogo da cadela se torna duplamente enjoativa. O filme não para de bombardear frases desnecessárias, como “estava muito feliz com [x]” ou “eu estava com tanta sede!”. Ainda assim, o ritmo acompanha o cansaço do espectador. Quando a voz de Bella começa a cansar, somos introduzidos a novos seres humanos, que compartilham a tela com a pitbull por cerca de 10 a 20 minutos.

O mediano Charles Martin Smith assina a direção monótona e convencional, enquanto dá espaço para os fracos diálogos construírem seus personagens. Das atuações igualmente medianas, destacam-se Ashley Judd, que interpreta a mãe de Lucas, e Shipp. A subtrama envolvendo os veteranos de guerra traz alguns momentos divertidos, mas não passa disso.

A boa tirada, entretanto, é a fuga do lugar comum de “filme para chorar”. Veja bem, A Caminho de Casa não inova, mas parte para uma vertente infantilizada das histórias de cachorro. Assim, atira para um público mais comercial, visto que apenas os adultos que entrarem na sessão estarão à procura de um novo Marley e Eu. Se não fosse o fraco CGI sobre o qual a trama se constrói (uma das principais companheiras de Bella é inteira criada em computação gráfica), ela seria mais palatável, ainda que morosa.

 

CINDERELA POP

21.02.2019

Aula de como não fazer cinema, filme estrelado por Maísa contribui para o estigma comercial de que “o Brasil não faz filme bom”

cinderelapop2019

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

Todos já conhecemos Cinderela. Além da animação clássica de Walt Disney, diversos filmes recontam a história da princesa, como O Sapatinho e a Rosa, A Nova Cinderela, Sapatinho de Cristal, Para Sempre Cinderela e até o infame Cinderela Baiana. Ainda assim, o cinema comercial é como coração de mãe – nunca falta espaço para mais uma ou duas adaptações desnecessárias. Nasce, então, Cinderela Pop (Brasil, 2019 – Galeria Distribuidora).

Adaptado do livro de Paula Pimenta, o filme conta a história de Cintia Dorella (Maísa), uma adolescente que não acredita no amor por conta da traição de seu pai e sonha em ser DJ. Paralelamente, a trama acompanha o sucesso da internet Freddy Prince (Filipe Bragança) e suas “músicas melosas”. Na festa de aniversário das filhas da terrível madrasta (Fernanda Paes Leme), os dois se encontram enquanto Cintia (como DJ Cinderela, sua identidade secreta) remixa uma música de Freddy. Amor à primeira vista, é claro. O resto da história é Cinderela no Século 21, sem qualquer alteração – com exceção da tia de Cintia, Helena (Elisa Pinheiro), que faz as vezes de fada madrinha.

O infame roteiro de Bruno Garotti (também diretor do filme), Flávia Lins e Silva e Marcelo Saback não contém um diálogo convincente. Construção de personagens? Não há. Garotti, que já trabalhou com Maísa em Tudo Por Um Popstar, parece ter faltado às aulas de enquadramento na faculdade de cinema. Elementos fílmicos, como plongées e contras, contraste entre closes e planos gerais, não existem em Cinderela Pop.

Mais um ponto baixo são as desleixadas edição e mixagem de som. A absurdidade chega ao ponto de ouvirmos a música aumentar drasticamente entre planos de Maísa fingindo ser DJ e retornar à intensidade original quanso o plano retorna àquele primeiro. As aparentes dublagens do filme, presentes em mais cenas do que se espera, também estragam a experiência.

Com a terrível atuação de todo o elenco, em especial de Maísa, é duvidável que até sua fanbase contribua para o sucesso da obra. Ainda assim, se o ingresso fosse um tanto mais barato, Cinderela Pop seria extremamente útil para roteiristas e diretores de primeira viagem. Neste filme, aprende-se como não fazer um filme. Infelizmente, este não é tão absurdo quanto o clássico trash brasileiro Cinderela Baiana, com dançarina e apresentadora Carla Perez como a protagonista e a trilha sonora do É o Tchan. Este aqui, no caso, é só ruim mesmo.

 

A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2

21.02.2019

Sequência parte do horror slasher para apostar no cômico e acaba se desgarrando da dependência do filme original

happydethday2

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Sucesso de bilheteria de 2017, A Morte Te Dá Parabéns teve boa aceitação do público, ao retratar a jornada de Tree Gilbman (Jessica Rothe) para descobrir seu assassino, que, ao matá-la, fazia com que a protagonista retornasse para o início do dia de seu aniversário. Os personagens de Scott Lobdell voltam ao cinema esse ano, sob direção e roteiro de Christopher Landon .

Desta vez, em A Morte Te Dá Parabéns 2 (Happy Death Day 2, EUA, 2019 – Universal Pictures) somos apresentados à causa do loop temporal: uma máquina construída por Ryan (Phil Vu), Samar (Suraj Sharmai) e Dre (Sarah Yarkin). Ao ser reintroduzida nessa estrutura, Tree é lançada num universo alternativo, onde sua mãe ainda está viva e Lori (Ruby Modine) não tenta assassiná-la. Ainda assim, alguém entra em conluio com o serial killer John Tombs (Rob Mello), causando a morte de diversos personagens – até que Tree solucione o caso, morrendo e recomeçando o tal loop no meio do caminho.

Para quem não assistiu o antecessor, A Morte Te Dá Parabéns 2 demora para engrenar. A trama se repete em relação ao longa de dois anos atrás, mas a forma com que é tratada pela direção dá respiro ao slasher. Seu primeiro ato é problemático, com seus personagens construídos de forma caricata e plastificada, mas o humor passa a funcionar no segundo ato, paralelamente ao arco emocional da protagonista. Sendo assim, o espectador chega ao terceiro ato envolvido com os personagens – ainda que unidimensionais.

Carter, interpretado por Israel Broussard (que não é namorado de Tree neste universo), representa uma subtrama bem aproveitada, além de contribuir para o arco principal da protagonista. Ambos entregam as melhores atuações do filme, marcado pela caricaturização de seus personagens secundários.

O desenho de som é satisfatório, situando bem o espectador e dando espaço para a trilha sonora de Bear McReary. Suas composições beiram o convencional, mas apresentam refino competente.

Desta forma, A Morte Te Dá Parabéns 2 tem certa dependência de seu predecessor, mas a utilização da comédia é bem-vinda e, junto das explicações e óbvias referências ao filme original, traz independência ao longa. Parte de um horror slasher para não se levar a sério e ganha sérios pontos com isso.

 

TODOS JÁ SABEM

18.02.2018

Thriller espanhol com Javier Bardem e Penelope Cruz encabeçando o elenco supera muitos blockbusters desta temporada

todos já sabem

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulagação

O casal Javier Bardem e Penelope Cruz estrelou Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, em 2008. Onze anos depois, sob o comando do iraniano Asghar Farhadi, premiado duas vezes no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (O Apartamento, 2017, e A Separação, 2012), Bardem e Cruz estrelam Todos Já Sabem (Todos Lo Saben, Espanha/França/Itália/Irã, 2018 – Paris Filmes), candidato à Palma de Ouro deste ano.

A premissa é envolvente, clássica dos thrillers: uma corrida contra o tempo e um sequestrador desconhecido, que raptou a filha de Laura (Cruz). O auspicioso roteiro de Farhadi, porém, não deixa por isso, adicionando uma das mais cinematográficas camadas possíveis, o falatório familiar no qual se imerge o pequeno vilarejo onde a trama se passa. A quantidade de pontas soltas no passado da família de Laura, principalmente em torno de seu envolvimento romântico com Paco (Bardem), permeia inteligentemente os eventos principais do filme.

Além disso, adiciona-se ao imbroglio a religiosidade, bem como o passado sombrio e o presente misterioso de Alejandro, brilhantemente interpretado pelo argentino Ricardo Darín. Num cenário no qual todos são apontados como possíveis culpados, as atuações dos coadjuvantes Eduard Fernández e Bárbara Lennie, respectivamente cunhado de Laura e esposa de Paco, engrandecem a trama e a adicionam bons momentos de tensão, cada qual a seu modo. Lennie, por sinal, desponta como uma bela surpresa e potencial estouro no cinema internacional, munida de talento tanto em seus momentos mais sutis quanto nos explosivos.

Sem abusar das convenções, Todos Já Sabem dispensa o retorno do romance entre o casal principal, trabalhando muito bem as consequências deste passado. A direção de Farhadi explora muito bem os belos enquadramentos do vilarejo espanhol enquanto desenvolve espaço para que seus atores brilhem, em especial Bardem e Cruz. É triste, porém, que a conclusão da história murche a obra, partindo para uma triste conclusão Deus ex Machina. Desta forma, o thriller envolvente que fora tecido cuidadosamente pela produção cai por terra em seu final infiel ao público, incapaz de descobri-lo por si só.

Ainda que com esta decepcionante nota derradeira, Todos Já Sabem acaba se revelando muito melhor construído que diversos filmes blockbusters que estreiam nesta temporada.

 

GREEN BOOK: O GUIA

17.02.2018

Comédia dramática baseada em história verídica expõe o preconceito racial no sul dos Estados Unidos no começo dos anos 1960

greenbook2018

Texto por Leandro Saueia

Foto: Diamond Films/Divulgação

Uma comédia dramática sobre tensão racial passada no início dos anos 1960 não é bem o tipo de filme que seria de se esperar de Peter Farrelly em sua primeira incursão cinematográfica longe de seu irmão Bobby – com quem realizou longas mais afeitos ao besteirol como Quem Quer Ficar Com Mary ou Debi e Lóide. Mas foi nesse terreno que o diretor resolveu apostar agora, e, de maneira no geral, a experiência se mostrou bem sucedida.

Green Book: O Guia (Green Book, EUA, 2018 – Diamond Films) é um road movie baseado em fatos reais – ênfase no baseado, já que as reclamações sobre as liberdades tomadas pelo roteiro não foram poucas. O filme conta a história de Tony Vallelonga, um italiano bronco e racista, mas, claro, de bom coração, vivido por Viggo Mortensen. Ao se ver temporariamente sem o seu emprego de segurança na boate Copacabana, em Nova York, ele acaba aceitando o trabalho de ser o motorista de um músico negro, o excêntrico pianista Don Shirley (Mahershala Ali), em uma excursão pelo sul dos EUA em uma época de segregacionismo institucionalizado. O roteiro é baseado nas memórias de Vallelonga, que nos anos seguintes faria pequenos papéis em filmes como O Poderoso Chefão, Um Dia de Cão, Os Bons Companheiros e também na série The Sopranos.

O longa não escapa dos clichês típicos desse tipo de história em que dois opostos são forçados a conviver juntos e assim descobrindo que têm mais em comum do que imaginavam. Ainda assim, garante duas horas divertidas que também podem gerar alguma reflexão, mesmo que em escala bem menor do que a observada em Infiltrado na Klan, de longe o melhor filme dessa safra do Oscar.

Green Book (assim chamado em alusão a um guia com endereços para motoristas negros em viagem pelo sul não se meterem em enrascada com os brancos racistas)  é daqueles trabalhos que crescem quando visto como parte de uma plateia. O mérito maior do sucesso cabe ao par central de atores, ambos excelentes. Viggo se revela um inspirado comediante – esta é a grande razão para recomendar que ele seja assistido na tela grande.

A alma da história, entretanto, pertence a Ali, que lida com um personagem bem mais complexo. O Don Shirley que ele precisa encarnar é um homem em perpétuo estado de inadequação: um negro educado na mais alta cultura e que, por isso não tem nada em comum com a visão típica que os brancos têm dos afro-americanos (ele sequer sabe quem é Little Richard!). Ao mesmo tempo, Don jamais será aceito nas altas rodas, que só querem fazer algum uso de seu talento mas sequer estão dispostos a deixá-lo usar o mesmo banheiro ou comer em seus restaurantes. O fato dele também revelar tendências homossexuais, obviamente não facilitam em nada a sua vida.

Green Book resvala um pouco na pieguice, tem algumas saídas fáceis e não deixa de manipular as emoções do espectador, mas tudo de forma aceitável. Sabe aquela sensação de se pegar gostando de uma canção que você sabe que é brega? É um pouco por aí. Não tem mal nenhum nisso.

 

CAFARNAUM

14.02.2019

Premiada em Cannes, obra da diretora Nadine Labaki é profunda, tocante e uma belíssima experiência cinematográfica

cafarnaum

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Nadine Labaki, diretora deste filme, é um dos grandes nomes do cinema árabe. Seu último longa metragem, E Agora Para Onde Vamos, foi igualmente agraciado em Cannes e em festivais mundo afora. Desta vez, Labaki conta a história de Zain, uma criança que, depois de preso, processa seus pais por “terem o colocado no mundo”.

Muito além disso, Cafarnaum (Capharnaüm, Líbano/França, 2018 – Sony Pictures) é um filme que disserta sobre uma gama diversa de temas, todos tratados com a devida sutileza. Não existem obviedades no roteiro, também escrito pela atriz-diretora, em conjunto com seu parceiro Jihad Hojeily e a estreante Michelle Keserwany. Este, em destaque, conta com uma belíssima construção de personagens, alçada pelas atuações de Zain Al Rafeea e de Yordanos Shiferaw, que interpreta Rahil, uma dedicada mãe em busca de um visto.

Em uma mescla de cenas sutis e tensas, a cinematografia constrói uma visão suja, feroz, das cidades pelas quais Zain passa. O equilíbrio da direção traz planos estáticos e, ao mesmo tempo, uma das utilizações mais poéticas de câmera na mão (o popular handheld) que o cinema nos proporcionou nos últimos anos. A montagem e o desenho de som adicionam camadas à representação tumultuosa de grande parte dos eventos da história.

Ao tratar do desafio da infância na classe baixa dos países do Oriente Médio, dialogar com o espectador a respeito de maternidade, bem como da relação pais e filhos e da dificuldade em entender o mundo quando crianças, Cafarnaum monta uma trama tocante, que nunca deixa o espectador descansar de seus baques, mantendo o bom tom na direção e no roteiro para que, ao final do filme, todos saiam devidamente impactados. Roma, favorito ao Oscar, encontra uma fortíssima concorrência na categoria de Melhor Filme Estrangeiro deste ano.

 

A MULA

14.02.2019

Clint Eastwood cria mais uma peça de entretenimento machista e racista numa época em que estas não são mais prestigiadas

a mula

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

A eterna face do spaghetti western construiu uma sólida carreira como diretor ao longo das décadas. Premiado pelo Oscar, como em Menina de Ouro, Eastwood é inconstante, ora dirigindo ótimos trabalhos, ora dirigindo obras como A Mula (The Mule, EUA, 2018 – Warner).

O filme retrata a história (baseada na história de Leo Sharp) de Earl Stone, um floricultor cuja empresa faliu e que, para ajudar a pagar pelo casamento da neta, começa a transportar carregamentos de drogas para um cartel mexicano. Paralelamente, um promissor detetive, Bradley Cooper (o mesmo de Nasce Uma Estrela), investiga o cartel e caça Stone, batizado de Tata pelo cartel. O roteiro, de Sam Dolnick (estreante) e Nick Schenk (que fez Gran Torino, também dirigido por Eastwood), busca envolver o espectador em uma narrativa na qual o veterano de guerra é um homem bondoso, mas falha repetidas vezes.

A trama envolvendo sua família, interpretada pelas limitadas Taissa Farmiga, Alison Eastwood (filha de Clint) e Dianne West é rasa e extremamente mal escrita, repetindo-se de maneira desleixada. As incursões óbvias retratando Earl parar seu trajeto para ajudar uma família negra e um grupo de motociclistas lésbicas não adicionam nada além de camadas de racismo e uma pitada de LGBTfobia à trama. Paralelamente, existem cenas de Earl deliberadamente enganando policiais, sem o menor pesar.

Desta forma, a direção convencional de Eastwood, que não comanda o filme com fortes decisões estilísticas, apenas evidencia a fraqueza existente nos diálogos. É difícil avaliar a atuação de certos atores cujo tempo de tela é minúsculo, como Laurence Fishburne e Andy Garcia. Por outro lado, A Mula prova que Bradley Cooper, uma das estrelas em ascensão de Hollywood, ainda precisa maturar. O texto pobre e a direção desleixada transformam Cooper, nome com potencial, em um ator qualquer. O mesmo ocorre com Michael Peña, que interpreta seu assistente.

As piores atuações, sem sombra de dúvidas, vêm da fração do elenco de origem chicana. Alçados por um texto caricato, mesclando o inglês com o espanhol de forma irreal, nenhum dos atores (não existem atrizes mexicanas no filme) apresenta um personagem verossímil, não passando de “mexicanos maus”.

Já trilha sonora de Arturo Sandoval não adiciona camadas ao filme, mas a utilização de músicas consagradas de décadas atrás constrói alguns poucos momentos de humor.

Desta forma, argumento e direção ressaltam a crença política de Eastwood, ferrenho republicano que até já se elegeu prefeito pelo partido, desenvolvendo um filme racista, homofóbico e machista (vide uma assombrosa cena em que a câmera foca repetidas vezes nas bundas das mulheres de biquíni na festa do cartel, mais caricata impossível), cujo desenvolvimento de personagens e trama é raso demais para entreter o espectador.

ALITA: ANJO DE COMBATE

12.02.2019

União de James Cameron e Robert Rodriguez é bagunçada e desinteressante embora tenha futuro nas bilheterias para uma franquia

Alita

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Divulgação

James Cameron (Avatar) se une a Robert Rodriguez (Sin City). Christoph Waltz (Bastardos Inglórios) faz o mentor de Alita, Rosa Salazar (Maze Runner) e o premiadíssimo Mahershala Ali (Green Book e Moonlight) é o vilão. Um filme desses parece digno do ingresso, não é?

Na história, adaptada do mangá homônimo por Cameron, Rodriguez e Laeta Kalogridis (que tem experiência em roteiros cibernéticos, como Exterminador do Futuro: Gênesis), Dyson Ido (Waltz) é um cirurgião que encontra a cabeça e o torso de Alita jogados num ferro-velho, descartes da cidade aérea Zalem, à qual os habitantes de Cidade de Ferro jamais poderão subir. Mais tarde, ambos descobrem que a garota é, na verdade, uma lutadora nata – que deve salvar o mundo do verdadeiro vilão, Nova (Edward Norton). Todo o roteiro do filme é pura convenção de gênero: a heroína com coração de ouro deve derrotar os “malvadões”, sempre descobrindo que o vilão da vez é controlado por outro “malvadão”, ainda mais forte! No meio dessas facilitações narrativas, diálogos óbvios e planos intercalam o espaço em tela com um esporte brutal e em alta velocidade, desenvolvido para cenas de ação.

Além da trama plana e desinteressante, nenhum dos atores está perto de seus melhores momentos em Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel, EUA/Argentina/Canadá, 2019 – Fox). Norton faz uma brevíssima ponta, enquanto os diálogos e a direção de atores transformam Christoph e Mahershala em profissionais medianos. Este, infelizmente, ainda oscila entre boas atuações e entregas medíocres como a do vilão Cottonmouth de Luke Cage, série da Netflix. Rosa fica ofuscada pela quantidade de efeitos especiais em sua face, além de soar artificial ao demonstrar emoções básicas, como indignação. Jennifer Connely (Réquiem Para um Sonho) faz uma personagem pouco aproveitada, cujo arco é atirado ao espectador sem mais nem menos. Keean Johnson (Nashville) faz Hugo, o interesse romântico de Alita, sem muita profundidade. O elenco ainda conta com Jackie Earle Haley (o icônico Freddy Krueger e o Rorschach, de Watchmen), que interpreta o vilão número um, Grewishka, que não poderia ser mais artificial.

A obra tem pontos satisfatórios, como o design de produção e os efeitos especiais, que materializam um riquíssimo universo juntos, ainda que este não escape do tradicional “mundo futurista com separação de classes”. As cenas de ação, mesmo com clichês sem tamanho (quem nunca se frustrou com closes longuíssimos na protagonista, que encara o vazio enquanto a sanguinária batalha parece pausar para ela?), não são mal dirigidas.

Ainda assim, o filme é constantemente ofuscado por sua mixagem de som desleixada, bombardeando o espectador com socos e chutes artificiais e altíssimos enquanto abusa na trilha sonora do holandês Junkie XL (o DJ produtor de música eletrônica que também fez a de Liga da Justiça), que insiste em convenções, clichês e uma mescla estranha de elementos, incapaz de alçar as cenas ao estrelato.

Alita: Anjo de Combate é um filme morno, com poucos pontos altos e também poucos pontos baixíssimos. Não é capaz de empolgar por si só, ainda que traga às telas um forte elenco. Revela apenas que a construção de mundo baseada no mangá de Yukito Kushiro tem fôlego para, em melhores mãos, tornar-se uma franquia frutífera.

 

QUERIDO MENINO

07.02.2019

Obra baseada em um caso real proporciona momentos emotivos e sinceros porém acaba cansando ao se perder na morosidade

queridomenino

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Diamond Films/Divulgação

Em Querido Menino (Beautiful Boy, EUA/Bélgica, 2018 – Diamond Films), Timothée Chalamet e Steve Carell encarnam pai e filho na batalha deste com seu próprio vício. O filme de Felix Van Groeningen (mais conhecido pelo trabalho em Alabama Monroe) é adaptado a partir dos livros de David Sheff, interpretado por Carell, e Nic Sheff, papel que rendeu a Chalamet diversas indicações em premiações.

Com sutileza, a direção de Van Groeningen costura a jornada de pai e filho por meio de uma câmera respeitosa, dando espaço a seus protagonistas. Infelizmente, diversos flashback se montagens musicais tomam o filme de assalto, utilizados ostensivamente e tornando a obra um tanto vagarosa. Quando não ouvimos uma das fortes músicas da trilha sonora, com nomes como Aphex Twin, o clássico David Bowie e o grupo escocês Mogwai, assistimos a diálogos expositivos intercalados por brigas entre Nic e David.

Ambos atores interpretam fortemente, mas cada um apresenta sua barreira. O Nic de Chalamet é monótono em grande parte da trama, enquanto Carell não convence em suas demonstrações de raiva e indignação. São deles, porém, os melhores momentos do filme, quando a sutileza da direção dá as margens para longos e crus planos sentimentais de pai e filho, separadamente. As atuações de Maura Tierney (Karen, madrasta de Nic) e Andre Royo (Spencer, seu padrinho de reabilitação) não têm espaço para grandes demonstrações de talento, mas ambos cumprem o papel narrativo.

A atualidade do tema, visto que a overdose é a principal causa de mortes de estadunidenses abaixo dos 50 anos, é aproveitada pela dupla de roteiristas, Van Groeningen e Luke Davies, que constroem a história do rapaz com verossimilhança, bem como a luta de David para ajudar o filho. Porém, a exposição barata rompe as tentativas de imersividade do filme, que é incapaz de conectar-se por completo com o espectador.

As idas e vindas de Nic são sempre previsíveis, mas Chalamet acerta ao interpretar o garoto com a instabilidade causada pelas drogas (quando não está monótono, como citado acima). Ainda assim, por mais arrastado que o filme seja, vale dar uma chance aos seus melhores momentos e, de quebra, ouvir a uma ótima declamação de “Let It Enfold You”, de Charles Bukowski, na voz de Timothée.

 

UMA AVENTURA LEGO 2

07.02.2019

Sequência do sucesso de 2014 diverte todas as faixas etárias com humor apurado e muitas referências à cultura pop

umaaventuralego2

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Uma Aventura Lego, lançado em 2014, emplacou sonoros 95% de aprovação segundo o site Rotten Tomatoes, tornando as expectativas para a continuação, que estreia nesta semana no Brasil, altíssimas. Esta animação, dirigida por Mike Mitchell, acompanha novamente Emmet (interpretado por Chris Pratt), e Lucy (Elizabeth Banks), desta vez tendo que resgatar seus amigos em um sistema espacial desconhecido.

Enquanto sua história é convencionalmente próxima de seu predecessor, Uma Aventura Lego 2 (The Lego Movie 2: The Second Part, EUA, 2018 – Warner) repete traços que solidificaram o sucesso do longa de 2014, como as impressionantes animações em stop-motionmontadas em Lego. As divertidas participações de personagens como Batman, membros da franquia Harry Potter e até figuras pop tipo o Bruce Willis, mantém o filme fluido, prendendo a atenção do espectador com senso de humor apurado. Não é raro se pegar rindo de tiradas que miram o público adulto, sobrando para Christian Bale, o protagonista de Duro de Matar e até a banda britânica Radiohead.

Uma Aventura Lego 2 é repleto de cenas musicais, arriscando perder parte do público, mas até nelas consegue encaixar boas risadas. O roteiro de Phil Lord e Christopher Miller, que também assinam o longa anterior, não foge da caixa embora também não erre, mantendo o ritmo saudável do filme com auxílio da montagem. A convencional “metáfora de amadurecimento” – que existe em grande parte dos filmes infantis – é eficiente mas passa longe de ser uma metáfora. Mesmo assim, a obviedade do tema não cansa nem subtrai o filme. As atuações da equipe de dublagem brasileira ainda são muito competentes, com uma ótima adaptação dos nomes, tanto de personagens quanto de locais e piadas.

Se você, assim como eu, quer levar seus filhos, sobrinhos, netos ou irmãos mais novos ao cinema sem arriscar perder cem minutos assistindo a um filme infantil lastimável, Uma Aventura Lego 2 é a melhor solução no momento. A quantidade de piadas pensadas ao público adulto é, talvez, até maior que o número de piadas infantis. Isso garante a diversão das crianças e de seus familiares encarregados de levá-las ao cinema.

 

GUERRA FRIA

03.02.2019

Premiado filme polonês é denso e entrega tudo que promete em uma experiência que homenageia os clássicos do cinema

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Califórnia Filmes/Divulgação

Guerra Fria (Zimna Wojna, Polônia/Reino Unido/França, 2018 – Califórnia Filmes), do polonês Pawel Pawlikowski (Ida, vencedor do Oscar), vem angariando premiações desde sua estreia, no ano passado. Em Cannes, a história de Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig) levou o Prêmio Especial do Júri por sua fotografia e premiou Pawlikowski como diretor.

A imersão à trama inicia antes mesmo da história ser contada. Filmado em película em preto e branco em razão de aspecto 4:3, tal como os filmes da época que retrata (de 1949 a meados da década de 1960), Guerra Fria apresenta um estilo cinematográfico fortemente autoral, abusando de planos com espaço negativo e homenagens a cineastas da época, como quadros que lembram Tarkovski.

A narrativa revolve em torno do problemático casal interpretado por Kulig e Kot. Ela, uma cantora camponesa com um passado sombrio. Ele, um compositor viajando pelo interior polonês para montar uma companhia de música e dança folclóricas. Em suas idas e vindas pela fronteira Ocidente-Oriente (ou seja, capitalismo-comunismo), a trama orbita entre a rigidez da cultura eslava aliada ao advento do stalinismo na região e a boemia francesa por meio de inteligentes narrativas musicais, atrelando as letras e ritmos aos sentimentos dos personagens. Um bom exemplo é a utilização da tradicional “Dwa Serduszka”, cantiga sobre uma garota proibida de amar um rapaz. Outro método utilizado por Pawlikowski é seus quadros impecáveis e inerentemente narrativos, que nos contam subjetivamente tudo que é suprimido do diálogo da trama. Assim, o diretor constrói momentos de paixão e tensão no relacionamento com naturalidade.

Ainda que nomeado a partir de um dos eventos políticos definidores do Século 20, Guerra Fria não escancara um viés ideológico em sua trama, valendo-se da polarização europeia para transmitir a separação entre o casal, mas retrata secamente o contraste entre boemia e rigidez. Grande parte das separações do casal é forçada pelo momento político e, em especial, pelos agentes soviéticos. Mesmo assim, seu tema central é o amor (e suas consequências) entre os personagens principais.

A montagem inteligente – e tão homenageadora quanto a direção – de Jarosław Kamiński eleva o tom do filme. Separa muito bem seus atos, separados naturalmente pela passagem dos anos, alternando o ritmo sem perder o tom de reverência às obras pré-Nouvelle Vague. Vale lembrar aqui que a Nouvelle Vague foi um dos mais importantes movimentos cinematográficos, do qual participaram nomes como Jean-Luc Godard, Agnes Varda e François Trouffaut. Antes do movimento, o tempo cinematográfico era tratado de forma diferente a que vemos atualmente, bem como a montagem das obras

Como é possível perceber, a densidade do filme e suas características clássicas, por assim dizer, acabam por torná-lo uma obra de nicho, intragável para certo público, que o acusaria de ser “pretensioso”. Devo discordar de antemão, pois vejo com bons olhos a reverência à História do cinema de Pawlikowski, que não perde sua autonomia narrativa e entrega uma rica e densa história de amor, permeada pela Guerra Fria e, por que não, uma Guerra Fria em si mesma.

 

ESCAPE ROOM

03.02.2019

Aventura de escape de salas fechadas através de pistas escondidas chega às telas em história que não empolga

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Picutres

A premissa de Escape Room (EUA/África do Sul, 2018 – Sony Pictures) é simples convenção de gênero: desconhecidos entre si são postos à prova, lutando contra a morte. Seus personagens são ainda mais convencionais, mantendo-se em seus estereótipos durante todo o longa. Quase dois anos após o último episódio de Jogos Mortais (que obteve críticas decepcionantes), parece conveniente repetir a fórmula bilionária, mesmo que ela já tenha saturado o suficiente. Uma ideia que, mercadologicamente, teria tudo para dar certo.

Mas não dá. A direção de Adam Robitel, que fez Sobrenatural: A Última Chavee escreveu Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma, leva o filme a caminhos já trilhados à exaustão, abusando de convenções de gênero para construir algo previsível. Aqui, os seis protagonistas (apenas dois homens brancos, demonstrando uma feliz inclusão) devem sobreviver a desafiadoras Escape Rooms, jogos imersivos onde você precisa encontrar pistas para escapar de salas. Neste caso, porém, cada local brinca com os traumas de cada personagem, uma escolha clichê que poderia abrir portas para a construção de personagens. O mistério por trás da corporação apontada como a grande vilã do filme quase funciona, mas se desmantela num terceiro ato decepcionante, que desconstrói todos os pontos altos do longa-metragem.

São poucos os destaques, na verdade. O design de produção é bom, criando salas repletas de detalhes, porém é pouco aproveitado pelo roteiro, que busca soluções óbvias para seus puzzles e não se esforça em imergir o espectador neles; O elenco tem nomes competentes, como Deborah Ann Woll e Jay Ellis, porém ofuscados pela falta de construção de personagens da trama.

Sem empolgar nas cenas de ação, apostando em montagem confusa e em uma trilha sonora maçante trabalhada por um desenho de som igualmente confuso, Escape Roomé deaques filmes com nada a dizer. O único objetivo é o escapismo, mas nem isso diverte o espectador, já que cai para uma experiência monótona e forçada.

 

A ESPOSA

27.01.2019

Glenn Close comanda um time com brilhantes atuações em densa história com fragilidades no roteiro e na direção

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Pandora Filmes/Divulgação

Escrito por Jane Anderson, o novo filme do desconhecido (por aqui) diretor sueco Björn Runge retrata o casal de longa data Joe (Jonathan Pryce) e Joan Castleman (Glenn Close). Ele é um influente escritor, que acaba de ganhar o Nobel de Literatura. Ela, a subestimada esposa.

Desde o início de A Esposa (The Wife, Reino Unido/Suécia/Estados Unidos, 2018 – Pandora Filmes), quando Joe recebe a notícia de que ganhará o prêmio Nobel, é possível perceber a rica dinâmica do casal. Close representa uma forte mulher, oscilando entre seu amor pela família e seu reprimido desejo de reconhecimento, enquanto Pryce encarna um detestável escritor, evidenciando suas diferentes formas de tratamento das pessoas: o bom esposo, aos olhos externos, e o controlador e prepotente gênio da família. Num personagem difícil de conectar-se com a audiência, o aclamado ator se supera, numa clara demonstração de seu talento. O foco em Joan durante os eventos narrativos, sutil marca do diretor, possibilita que Glenn Close desenvolva as camadas de sua personagem sem a necessidade de longos e profundos diálogos. Os monólogos da também aclamada atriz se dão em seus olhos, não no discurso.

Outros personagens, porém, como o biógrafo Nathaniel Bone (interpretado pelo ótimo Christian Slater) e o filho do casal, Daniel (Max Irons), servem como facilitações narrativas. O ressentimento contido deste, porém, é trabalhada na trama de forma a adicionar elementos para a relação do casal protagonista.

A fotografia lavada produz belos planos no filme, sem escapar do realismo proposto na obra. A câmera fluida e inteligente, mesmo em zooms e dollies, sabe muito bem onde focar em que momento da trama, amplificando a imersão naturalmente entregue por Close. Infelizmente, a brilhante sutileza de Runge parece se perder completamente quando este embarca em flashbacks, com fotografia quente e diálogos óbvios e mal desenvolvidos. Toda a riqueza dos personagens idosos é reduzida em suas versões das décadas de 1950 e 1960, efeito de um roteiro simplista e expositivo e de atuações rasas.

Em uma demonstração do que Claire Foy brilhantemente citou em seu discurso no Critic’s Choice Awards deste ano, The Wife mostra ao seu público que o papel da esposa na cinematografia não é ser “a esposa”. Demonstrando muito bem a dinâmica de reconhecimento versus esforço da sociedade machista, a obra apresenta ricos personagens em oscilações de eventos bem e mal trabalhados. Sem escapar de certos clichês, o filme não explora todo seu potencial, ainda que suas atuações ricas salvem os cem minutos, entregando uma densa história ao espectador.

 

CREED II

21.01.2019

Continuação do sucesso de 2015 consegue empolgar mas ainda permanece à sombra dos clássicos do boxeador Rocky Balboa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Em Creed II (EUA, 2018 – Warner), continuação do universo Rocky, Adonis Creed (Michael B. Jordan) revive fantasmas do passado ao enfrentar Viktor Drago, o filho do homem que matou seu pai (Ivan Drago, interpretado por Dolph Lundgren). Assim como em seu predecessor, os eventos do ringue são a parte mais importante da trama . E o filme não almeja esconder isso.

O reencontro multigeracional das famílias Creed e Drago é um dos pontos mais explorados da narrativa deste longa, que tem seus problemas. Desta forma, o arco de Adonis é construído em cima da imagem do pai, seja via roteiro ou pela narrativa visual, que ostensivamente enquadra o protagonista abaixo de uma figura de Apollo. Por outro lado, o mesmo arco pelo qual o personagem de Jordan passa satisfaz o espectador, em uma atuação vibrante deste. Ainda que não supere Killmonger, seu vilão em Pantera Negra (principal filme da Marvel no ano passado), o ator consegue viver as enxutas nuances escritas para seu personagem.

A rasa construção em tela de Ivan e seu filho os torna vilões de motivação fraca. Viktor (Florean “Big Nasty” Munteanu), por exemplo, apresenta poucas falas durante o longa. A falta de carisma e talento de Sylvester Stallone (que volta a viver Rocky Balboa) anula momentos arquitetados visando o impacto emocional, motivo de seu conflito interno parecer pouco aproveitado. Por fim, temos Tessa Thompson reprisando seu papel como Bianca. Sua interação com Jordan é satisfatória, criando uma das melhores químicas do filme. Porém a personagem faz parte de mais uma subtrama pouco aproveitada na história.

Ainda assim, o roteiro de Stallone e Juel Taylor é bem dirigido por Steven Caple Jr, que não diferencia em muito o estilo de Creed II e seu antecessor de 2015. As cenas de luta criam um aguçado senso de urgência. Por outro lado, quando longe da ação dentro do ringue, o filme tende a ficar maçante. Escolhas estilísticas óbvias – como o contraste entre tons quentes e frios para diferenciar Adonis dos Drago e a ostensiva câmera na mão ao retratar os russos – e o uso de montagens musicais, marca dos clássicos filmes de Rocky, são escolhas razoáveis do diretor apesar de utilizadas repetitivamente. Desta forma, ao tentar inovar, Caple Jr cai em conhecidos clichês e, ao repetir as convenções que consagraram a série de Stallone, mergulha na fonte da nostalgia sem resultados arrebatadores.

Mantendo-se à sombra dos longas de Rocky, Creed II consegue empolgar mesmo que seus conflitos e subtramas não sejam desenvolvidos a ponto de torná-lo um filme de camadas. Se você busca por escapismo, cenas de ação tensas e uma trilha sonora repleta de boas faixas de hip hop, com certeza não vai se decepcionar.

 

VICE

19.01.2018

Atuação de Christian Bale é o ponto alto desta cinebiografia do vice-presidente de George W. Bush com muito humor e crítica política

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Um dos filmes mais comentados nesta temporada de premiações, acumulando indicações e desenvolvendo um hype de Oscar, é Vice (EUA, 2018 – Imagem Filmes). O filme de Adam McKay (que em 2015 já mexera em outra grande ferida recente de seu país em A Grande Aposta) conta a trajetória de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Bush Filho (2001- 2009), desde sua origem em Wyoming até os dias atuais. E será que toda a repercussão da obra vale o ingresso?

A trama retrata as nuances do poder adquirido por Cheney, brilhantemente interpretado por Christian Bale, que repete a parceria com McKay. Aqui, Bale também passa por transformações físicas para seu protagonista, sendo que o ponto alto de sua atuação é o detalhe. Cada trejeito do político americano é cuidadosamente arquitetado por seu ator. O elenco de apoio também não deixa a desejar mas poderia ser melhor aproveitado. Como Amy Adams, que interpreta sua esposa, Lynne Cheney, demonstrando seu inegável talento com seus momentos de brilhantismo; e Steve Carell, que orbita entre o drama sádico e a inconveniência humorística como o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

McKay constrói o filme de maneira equivalente a seu laureado antecessor, repetindo seu estilo de narração com traços de documentário investigativo com o acréscimo da maturidade no tom. A seriedade da trama privilegia o humor fortemente visual da obra, que se aproveita da estética cinematográfica para preencher suas duas horas com momentos genuinamente engraçados. Grande mérito de Viceé  a utilização de metalinguagem, que presenteia o espectador com as melhores piadas do filme.

Numa outra camada de metalinguagem, o filme alterna suas razões de aspecto e cria uma formidável confusão, na qual não entendemos se as imagens mostradas são mesmo reais ou gravadas para esta produção. Essa estranha sensação amplifica as consequências das decisões de Cheney e sua equipe, o que torna o filme particularmente denso, sem abandonar a leveza com que McKay trata suas cenas.

A fotografia é simples, ressaltando a narrativa visual do roteiro e criando a tênue margem entre realidade e ficção que dança ao longo do filme. Os planos abertos e posicionamentos simples da obra são bem montados, numa alternância de ritmo entre os momentos mais tensos e calmos, sem que deixemos de enxergar o poder nas mãos de Cheney. Ainda assim, quando a trama embarca em seus episódios sérios, não poupa esforços. Cenas fortes preenchem a tela, além de críticas (sutis e óbvias) à política da direita estadunidense. Trump e seus eleitores têm uma especial participação porque Vice mescla humor à crueza da vida política de uma das nações mais poderosas do mundo.

McKay consegue demonstrar seu lado “humano” presente em relações pessoais. Com uma iconografia que traça paralelos entre o personagem de Bale e o icônico Winston Churchill, a obra quase faz o espectador sentir empatia pelo vice-presidente de George W. Bush. Ainda assim, o roteiro e a camada de realidade que permeia o filme o vilanizam sem a necessidade de iluminação nefasta e revelação de planos malignos do político. Escancarando seus erros e as consequências deles, Vice nunca te deixa esquecer que seu protagonista é Dick Cheney.

[Nota do editor: Na noite de 7 de janeiro, ao receber o Globo de Ouro da categoria de melhor ator em comédia ou musical, Christian Bale agradeceu a satanás pela inspiração ao papel de uma pessoa sem qualquer carisma.]

 

A FAVORITA

17.01.2018

Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone revivem a realeza britânica do Século 18 em outra obra perversa do cultuado diretor Yorgos Lanthimos

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Fox/Divulgação

Yorgos Lanthimos está longe de fazer cinema com o objetivo de entreter. Muito mais do que confundir, ele quer mesmo é perturbar. É difícil que o espectador escape ileso de uma sessão de algum filme seu. Desfilando elementos como cortes bruscos, trilha sonora angustiante (baseada em pequenos trechos de música erudita), muitas cenas externas com iluminação natural, interpretações intencionalmente gélidas (porém que não deixam a contundência de lado) e roteiros que transbordam niilismo, suas últimas obras vêm angariando muitos elogios entre os cinéfilos que não se prendem apenas a blockbusters. O Lagosta (2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) tiveram bastante hype mas acabaram batendo na trave nas indicações para grandes premiações do cinema mundial. Agora, A Favorita (The Favourite, Irlanda/Reino Unido/Estados Unidos/Grécia, 2018 – Fox) vem para quebrar esta última barreira e consolidar o diretor e roteirista no panteão dos maiores nomes da atualidade em Hollywood.

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A Favorita desloca o cenário de absurdos, intrigas e perversidades para a Inglaterra do Século 18. Contudo, não se engane ao achar que realeza e nobreza aqui apresentadas se diferem muito dos governantes e elites contemporâneas. Encastelados em sua própria bolha movida a luxúria, ganância, desperdícios, frivolidades e aquela crença que o poder será sempre eterno. O centro das atenções é a rainha de temperamento bipolar Anne (Olivia Colman), que, entre problemas de saúde e desejos carnais lésbicos, não parece se importar com sua posição no topo de pirâmide e se deixa influenciar por decisões importantes, como guerras e aumento de impostos, tomadas por caprichos ou vontades de quem a cerca diariamente na camada imediatamente inferior.

É aqui que entra a importância das primas Sarah (Rachel Weisz) e Abigail (Emma Stone), a primeira transformada em uma espécie malvada de assistente pessoal de Anne para todas as ocasiões e a outra uma “intrusa” que acaba de chegar ao reino e arruma uma vaga na criadagem para não tardar a começar o alpinismo social. Utilizando astúcia, malícia, ironia, dissimulação e atributos físicos elas passam a duelar de modo ferrenho para ver quem chama mais a atenção de Anne e, simultaneamente provocar a dependência dela de sua companhia. Articulam, cada qual a seu jeito, doce ou amargo, maneiras de manipular também as demais pessoas ao redor (lordes, políticos, vassalagem). Ganham pequenas batalhas, sofrem com a derrota em outras. Até que chegam ao momento extremo de se confrontam diretamente no intuito de tirar de vez a rival de seu caminho.

Esta rede de intrigas, artimanhas e ardis cai como uma luva no cinema autoral de Lanthimos. O cineasta grego (desta vez não assinando o roteiro da obra, que ficou sob o comando de Tony McNamara, nome experiente das séries da TV britânica, e com a estrutura dividida em sete pequenos capítulos) se deleita durante duas horas nas quais nem a extrema beleza de cenários, figurinos e direção de arte conseguem livrar o espectador da tensão total. E, caso você não tenha visto outro filme de Yorgos, é bom ressaltar: aqui não há a menor chance de haver um final feliz.

 

WI-FI RALPH: QUEBRANDO A INTERNET

17.01.2019

Sequência de Detona Ralph leva às telas tudo aquilo que as pessoas imaginam existir no universo on-line dentro dos computadores

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Você é daquelas pessoas que fica imaginando como são as coisas “dentro da internet”? Imagina pequenos robôs fazendo suas buscas, a Amazon parecendo um grande supermercado, que os anúncios são iguais àquelas pessoas que nos param na rua e o Instagram como uma imensa galeria de arte?

Então você vai adorar WiFi Ralph: Quebrando a Internet (Ralph Breaks The Internet, EUA, 2018 – Disney/Buena Vista). A sequência de Detona Ralph, lançado em 2012, é esperta, ágil e traz pra tela todo esse mundo que a gente imagina. Amazon, eBay, Instagram, Google, Pinterest mais jogos e quiz on-line são o plano de fundo para a aventura de Ralph e Vanellope. Entediada com a vida dentro de seu jogo de fliperama, a princesa do jogo Corrida Doce acaba indo com seu melhor amigo para o desconhecido “mundo da internet”. Lá eles vão conhecer Shank, uma piloto de carros em um jogo de corridas mortal e Yesss, a responsável por um site de compartilhamento de vídeos.

Entre mensagens implícitas, como “nem sempre os anúncios da internet são verdadeiros” e “o que vale nos vídeos não é ser original mas uma ideia copiada que renda curtidas”, Ralph e Vanellope irão se aventurar num universo totalmente novo para poder voltar ao mundo confiável dos fliperamas. E mais uma vez a produção da Disney foca na amizade. A principal mensagem de WiFi Ralph é esta: valorize seus amigos, mesmo que eles pensem diferente de você.

Não muito diferente de quando entramos em um site, ao chegar “na internet”, os dois são bombardeados por anúncios, informações, cores, luzes e sons de forma avassaladora. E vão ter que aprender a viver naquele mundo.

Para os pais, os easter eggs são um prato cheio. Desde pontas de stormtroopers e princesas (todos pertencentes ao conglomerado Disney) até as representações visuais de sitese vírus de computador, o filme agrada desde os maiores até os menores, seja pela história, pelo visual incrível ou pelas sacadas espertas.

Vale ressaltar também que as grandes personagens do filme são femininas. Vanellope e Shank (que no original tem a voz de Gal “Mulher Maravilha” Gadot) dão um show nas cenas de corrida e deixam os marmanjos de filmes de ação no chinelo.

No fim, tudo se resolve um pouco rápido demais, é verdade, mas ainda assim WiFi Ralph fica acima da média. Muito melhor que Os Incríveis 2, por exemplo, lançado pela Disney/Pixar no ano passado e que não acrescenta em nada à franquia, com uma história fraca toda calcada nas gags visuais de Jack Jack.

 

ASSUNTO DE FAMÍLIA

08.01.2019

Longa japonês vencedor de Cannes no ano passado emociona ao questionar limites e necessidades para a formação familiar

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

Família é aquela que é imposta a você por causa de laços sanguíneos ou a que o livre-arbítrio permite que, qualquer que seja o motivo, a escolha de ambos os lados? Este é o ponto central de um dos filmes de língua não inglesa mais badalados do ano passado, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, indicado ao Globo de Ouro e um dos nove finalistas que concorrem à indicação ao Oscar, no fim da atual temporada de prêmios do cinema norte-americano.

Assunto de Família (Manbiki Kazoku, Japão, 2018 – Imovision) chega aos cinemas brasileiros neste começo de ano trazendo esta discussão. Aparentemente os Shibata são uma família unida, apesar das grandes dificuldades do dia a dia. Moram em um bairro pobre da grande cidade, ganham pouco em subempregos sem muita perspectiva de melhoria de salários e cargos, sobrevivem basicamente da uma misteriosa pensão recebida pela matriarca da família. Avó, duas irmãs, o genro e um menino dividem o mesmo cubículo, entulhado de quinquilharias de casa. No dia a dia, pai e filho praticam pequenos furtos de comida para os jantares em casa e alguns objetos que possam ser vendidos para garantir um trocado a mais no orçamento já apertado (daí o título dado em inglês, Shoplifters, para o lançamento no mercado internacional). A mãe, por sua vez, colabora trazendo mais coisas do seu trabalho. Já a irmã dela assume um novo nome para fazer strip tese ao vivo para os homens do outro lado de uma tela de vidro. O pequeno garoto não vai à escola e apenas lê os livros disponíveis que estão jogados em algum canto de casa.

No trato cotidiano os Shibata são a família mais afável e unida que o espectador poderia acompanhar. Aos poucos, porém, vão surgindo na história novos elementos que podem vir a fazer ruir todo o castelo de cartas construído pelo núcleo e trazer desavenças aos seus integrantes. Tudo começa quando, no caminho de volta para o cubículo, após um passeio noturno, Osamu (Lily Frankie) se depara com uma garotinha de quatro aonde idade abandonada em uma casa vizinha. A pequena Yuri é largada ao léu pelos pais, sofrendo diariamente abuso psicológico e violência física. Levada na surdina para os Shibata, ela acaba sendo adotada informalmente e nunca mais devolvida ao seu lar de origem, para a alegria de qualquer espectador mais sentimental aliás. Esta decisão, apesar de inicialmente parecer acertada para este mesmo espectador com o coração de manteiga, acaba por desenrolar todo um novelo de complicações até o fim da projeção.

Enquanto isso, o diretor Hirokazu Koze-eda – que aqui assina também o roteiro – faz de seu novo filme mais uma bela experiência sobre as pequenas coisas cotidianas. Seu um apurado olhar contemplativo explora ângulos de impacto em espaços diminutos e embarca naquele ritmo lento característico do cinema nipônico – a ponto de explorar com extrema sutileza a sucessão das quatro estações durante as cenas externas, por exemplo. O que torna ainda mais lírica a sua visão de como diferentes pessoas e personalidades podem muito bem formar e se sentir uma família, mesmo com suas divergências. Morais, ideais ou até mesmo de sangue.

 

BLACK MIRROR: BANDERSNATCH

01.01.2019

A possibilidade do espectador comandar os rumos da trama é justamente o que enfraquece o longa da cultuada série britânica

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Você pagaria ingresso para entrar no Louvre e pintar o famoso e enigmático sorriso de Mona Lisa em um quadrado branco colocado no rosto dela especialmente para conectar você a Leonardo da Vinci? Ou, então, imagine que, ao inscrever a sua música “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” no Festival Internacional da Canção de 1968, o cantor e compositor Geraldo Vandré apresentasse somente o refrão completo e a melodia das estrofes, deixando para que completassem a letra as pessoas que estavam na plateia daquele superlotado ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.

São apenas dois exemplos, bem tosos aliás. Mas podem representar muitas reflexões acerca da “grande novidade” que o recém-lançado longa-metragem Black Mirror: Bandersnatch (EUA/Reino Unido, 2018 – Netflix) propõe. Com duração que pode variar até noventa minutos, o filme permite que você seja o roteirista principal da produção e decida os rumos que o protagonista Stefan Butler (Fionn Whitehead, uma das revelações do jovem elenco de Dunkirk) vai tomando no decorrer da história, que mostra o que acontece a ele durante as semanas em que precisa desenvolver um novo jogo, baseado em um livro interativo, para a empresa mais hypada do mundo dos consoles.

A premissa é feita sob encomenda para a massa que embarca na onda do rótulo geek que assola a cultura pop da década. A trama se passa no ano de 1984, em pleno auge dos games 8-bits. A trilha sonora traz pérolas da época como Thompson Twins e Frankie Goes To Hollywood. A nostalgia da década que insiste em nunca terminar impera na ambiência é proposital. Serve como trunfo para pescar os guardiães do manto sagrado das séries e filmes desses tempos de streaming, a grande maioria formada por aqueles que nunca ou muito pouco viveram daquele tempo do qual sentem eternas saudades. E se você pode justamente escolher assistir a todos os capítulos seguidamente, maratonando uma série durante horas, por que não, justamente, interferir naquilo que você está vendo e ter a sensação de ter o controle do jogo nas mãos?

Este é o grande atrativo de Bandersnatch, o primeiro longa-metragem lançado sob a bandeira da série britânica Black Mirror. Projeto encampado pela Netflix – que há duas temporadas é a distribuidora mundial da série – e desenvolvido secretamente durante dois longos anos, o filme oferece cinco finais diferentes e, para se chegar até eles, um trilhão de combinações possíveis para a escolha dos percursos. Uau! Que máximo! O futuro finalmente chegou ao cinema que está ao alcance de suas mãos! A chance de nunca mais ver o mesmo filme repetidamente.

#SQN… Quem realmente achar tudo isso só vai estar assinando o atestado de bobo manipulado por mais uma gigantesca indústria corporativa do ramo do entretenimento. O que a Netflix quer é justamente dar esta falsa impressão de que você se sente conectado à história apresentada e realmente manipula o destino do pobre Stefan, que entra nesta paranoia de não ser mais capaz de controlar suas ações e seu destino para nunca mais sair dela. E mais: chega-se ao ponto de serem feitas piadas que transformam a própria Netflix em um personagem da história ou estarem espalhados easter eggs que remetem a todos os episódios das quatro temporadas anteriores do seriado. “Mas isso é muito Black Mirror!”, muitos certamente pensarão do outro lado – o da realidade – da tela do computador, do celular ou da TV.

Aí perde-se justamente o maior prazer de uma obra de arte. É justamente a passividade do consumidor que permite o encanto, a admiração, a reflexão. Com a existência da interatividade, o autor pode não deixar de ser por completo o autor, mas com certeza o espectador passa a não mais sê-lo para assinar a coautoria. Neste traslado perde-se todo o poder de deixar-se surpreender pela recepção integral do que o autor teria desejado dizer com tudo aquilo.  O seu livre-arbítrio de escolher que caminhos tomar, sejas por quais razões forem,  destroem todo o fascínio provocativo pela narrativa. O cinema deixa de ser cinema e transforma-se numa mera brincadeira de videogame.

Talvez seja mesmo este um caminho irreversível que resulta da cultura de convergência das mídias, tão venerado pelas novas gerações pouquíssimo afeitas a manter as tradições mais velhas. Mas enquanto o mundo não muda de forma tão radical assim é bom não ir se enganando: não é a vida que está virando Black Mirror, mas, sim, é a velha matrix que continua no poder, desta vez  querendo fazer com que, agora, você acredite deter o controle do jogo.

 

ROMA

01.01.2019

Oito motivos para cair de amores pelo novo longa-metragem escrito e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Desde o último dia 14 de dezembro já está disponível na Netflix, o mis novo filme do diretor e roteirista mexicano Alfonso Cuarón. Primeira obra do artista após o badalado Gravidade, o novo longa-metragem também vem a reboque de um grande hype. Festejado pelos críticos de todo o mundo com as mais altas cotações de suas resenhas, Roma traz motivos de sobra para não apenas para o oba-oba em torno de si, mas também para as polêmicas a respeito de apontar para novos caminhos para o cinema, nem que, para isso, paradigmas sejam quebrados em todos os sentidos. Inclusive no de dar um toque mais artístico ao que é extremamente popular, propondo a saída do quadrado e uma luz que aponta para bem longe do que é simplesmente comercial. E o Mondo Bacana apresenta abaixo oito motivos para você cair de amors pelo filme.

Tom autobiográfico

Muito do que costura a história da babá Cleo e da família de classe média de quatro filhos e pais professores universitários veio das próprias vivencias e memórias do roteirista e diretor Alfonso Cuarón – tanto que ele não apenas se autorretrata em um dos meninos mais novos que habitam a casa número 21 da Rua Tapeji do bairro Roma, na Cidade do México como também dedica, antes dos créditos finais, a obra a Libo, a Cleo da vida real. Isso explica toda a ternura com que ele trata a personagem central. E nada mais atraente do que toda a sinceridade autobiagráfica imposta por Cuarón ao seu filme.

Yalitza Aparicio

Cleo é uma jovem analfabeta que mora nos fundos da casa de seus patrões e passa todos os dias em função dos afazeres em torno das quatro crianças da casa. Veio para a cidade grande ainda na adolescência para trabalhar na metrópole. Não perdeu a ingenuidade tampouco as referências de sua origem, a região pobre de Oaxaca, situada ao sul do país. Entretanto, impõe-se com simplicidade no dia a dia, mantendo a ordem de toda uma engrenagem sem nunca revelar a sua real importância para toda a estrutura, Para interpretar a personagem, Cuarón escalou Yalitza Aparicio, professora infantil também oriunda de Oaxaca e sem qualquer experiência anterior como atriz, tampouco havia visto ou sabia o nome de algum dos filmes anteriores do diretor. A sua Cleo pouco diz palavras durante as duas horas do filme. O silêncio pode imperar em boa parte do tempo, mas é inegável que olhares, postura e gestos falam muito. Yalitza acabou não sendo indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática e se ficar de fora das outras premiações da temporada (inclusive do Oscar) isso será uma grande injustiça. Outro detalhe: Yalitza fala várias vezes no dialeto mixtec, característico de sua região.

Roteiro oculto

Cuarón era a única pessoa no set a saber todo o roteiro e a direção que cada personagem tomaria. Os atores só recebiam as suas falas no próprio dia das filmagens, apenas um pouco antes da câmera começar a rodar.  O objetivo era garantir a maior espontaneidade possível de seu elenco, sobretudo quanto às reações ao que se passava em cena. O que se reflete de modo positivo durante todo o longa, sobretudo em alguns dos momentos decisivos da trama. Se você quiser conhecer mais a fundo o roteiro, ele foi disponibilizado por Cuarón, tanto em inglês quanto em espanhol, e pode ser lido aqui.

Nostalgia do cinema

Entre as reminiscências da infância de Cuarón o cinema aparece de maneira clara e cristalina dentro da história. Como válvula de escape para os problemas da vida, alguns de seus personagens vão duas vezes a um dos principais cinemas da Cidade do México. Yalitza é abandonada pelo namorado no meio de uma sessão de A Grande Escapada  (1966). Outra hora, fica bem claro o quanto o filme Sem Rumo no Espaço (1969) fascinou o futuro diretor de Gravidade. O mais legal é perceber o quanto uma ida ao cinema mexia com as pessoas. As instalações monumentais, a entrada glorificante, sempre cheia de pessoas e ambulantes ao redor (vendendo de pipocas a balões), e a ligação direta com a calçada e a grande avenida talvez não passem de meras elocubrações inverossímeis para uma geração que já nasceu mecanizada com a ida a um multiplex insípido incrustado em um shopping center ou mesmo o conforto total do streaming no sofá da sala ou na cama do quarto. Este último detalhe ainda se mostra um completo contrassenso quando vem a reflexão de que Roma é um filme que glorifica a experiência do cinema de rua que quase todo mundo verá sem precisar sair de casa.

Autorreferências

A citação a Gravidade (2013) pode aparecer de modo bem explícito lá pela metade final, mas não é a única autorreferência feita nele por Cuarón. A cena do parto de Cleo é similar à de Filhos da Esperança (2006). Outra coisa comum a Filhos da Esperança e Romaé o uso do mantra “Shantih Shantih Shantih” (“paz, paz, paz”). Além de marcar o retorno do diretor ao idioma e o cinema mexicano após dezoito anos, Roma também tem a ver com E Sua Mãe Também (2001) na hora em que a mãe reúne os filhos em um bar ao ar livre perto da praia para contar a eles que seu pai os abandonou.

Subtrama politizada

Halconazo é um dos mais tristes episódios sociopolíticos mexicanos no Século 20. Ocorreu no dia 10 de junho de 1971, durante as celebrações do feriado de Corpus Christi. Estudantes protagonizaram uma grande manifestação pública pelas ruas da Cidade do México, em protesto contra recentes medidas tomadas pelo presidente Luis Echeverría Álvarez e seus comparsas nos governos nacional e regionais. Cento e vinte manifestantes (número divulgado oficialmente, embora as suspeitas sejam de uma contagem ainda maior) foram cruelmente assassinados neste dia por membros de um exército paramilitar formado por civis exaustivamente treinados com artes marciais e armas de fogo para reprimir os opositores. Aos poucos, o Halconazo vai se desenhando na história de Cuarón. Primeiro quando Cleo retorna a Oaxaca e acaba assistindo um grande treinamento coletivo realizado em um campo de futebol de várzea e que, de certa forma, acaba se esgueirando rumo ao ridículo. Depois, no clímax desta subtrama, envolve-se como testemunha em um chocante caso de disparos à queima-roupa em um líder estudantil que tenta, em vão, salvaguardar sua vida escondendo-se na mesma loja de móveis em que a mãe de sua patroa a leva para escolher um berço para o bebê que carrega na barriga. O nome Halconazo vem de Los Halcones (Os Falcões, em espanhol), o grupo clandestino secretamente treinado secretamente – inclusive com a ajuda do governo dos Estados Unidos – para combater os frequentes protestos civis e estudantil realizados por todo o México naquela época. O uso do Halconazo em Roma serve como o clímax de uma série de denúncias de desigualdades sociais realizada no decorrer da trama.

Cinematografia de primeira

O convite fora feito inicialmente para o compatriota Emmanuel Lubezki, com quem já trabalhara antes em Gravidade e Filhos da Esperança. Diante da impossibilidade do amigo assumir o compromisso em Roma, Cuarón decidiu ele mesmo assinar pela primeira a fotografia de um filme. Não poderia ter feito a estreia em melhor estilo. Rodado em 70mm, Roma é um delírio para os olhos dos cinéfilos. Todo em preto-e-branco e com seu drama familiar espalhado por cenas cotidianas em casa ou nas ruas, começa sugerindo uma bela homenagem ao neorrealismo italiano e seus ícones (Visconti, Pasolini, Rosselini, De Sica). Não por acaso, o título faz uma ligação sináptica com o nome da capital desse país. Mas a fotografia de Roma vai além. Através de lentos e frequentes travellings, a câmera nunca para de os ambientes da história e transformando as locações em personagens tão importantes quanto os de carne e osso. Tanto quanto fixar-se nas ações e nos diálogos vale muito a pena deixar os olhos percorrerem tudo o que está ao redor e é dito apurada e silenciosamente por objetos, móveis, paredes, carros, aviões e figurantes.

Leão de Ouro

Impedido de ser inscrito em Cannes, que só permite filmes concorrentes que possam vir a ser lançados no cinema em um determinado intervalo de tempo posterior ao evento, Roma acabou abocanhando o Leão de Ouro, o prêmio máximo de outro importante festival europeu de cinema. Ao comentar a vitória em Veneza, ocorrida no mesmo dia de aniversário de Libo, Alfonso Cuarón disparou, em tom de brincadeira: “é seu presente e eu te cantaria ‘Parabéns Pra Você’, mas não vou ofender os ouvidos de toda esta gente”. No ano passado, o vencedor de Roma foi A Forma da Água, do também mexicano Guillermo Del Toro e que meses depois levou o Oscar de melhor filme. Aliás, a indicação de Roma aos Academy Awards já está sendo bastante esperada e é considerada a mais alta aposta já feita pelo serviço mundial de streaming, nos últimos anos “banido” da categoria principal pela rixa com os principais estúdios que ainda apostam nas bilheterias tradicionais.

 

AQUAMAN

26.12.2018

Filme-solo tira de fundador da Liga Justiça o estigma de super-herói inútil e lhe devolve o crédito perdido após frequentes zombarias na internet

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Texto por Andrizy Bento

Foto: Warner/Divulgação

Membro-fundador da Liga da Justiça, durante anos o Aquaman foi subestimado pela cultura pop e tornou-se alvo de zombaria de produtores de memes pela internet afora. Talvez sua representação na famigerada animação Superamigos, exibida na TV aberta entre as décadas de 1970 e 1980, tenha contribuído para que o personagem fosse relegado à condição de super-herói inútil, com os poderes mais “estúpidos”, e apontado constantemente como a grande piada do universo dos super-heróis. Uma grande injustiça, convém dizer. Quem realmente teve contato com o personagem em sua mídia original sabe que ele protagonizou arcos de qualidade nas HQs e que, neles, o Aquaman representava muito mais do que um mero objeto de sátira de South Park. Eis que, agora, o cineasta James Wan lhe devolve a dignidade perdida com uma adaptação cinematográfica empolgante e que resgata o clima épico das aventuras protagonizadas pelo herói nos quadrinhos.

Primeiramente, é necessário esclarecer que Aquaman (EUA, 2018 – Warner) não se trata de uma obra-prima das telas. O fato é que depois de pesar a mão em filmes pretensamente grandiosos, sombrios, carregados de seriedade, de frases de efeito e sequências em slow motion – procurando desesperadamente fugir com da condição de “filme para toda a família”, em uma resposta aos longas coloridos, bem humorados, dinâmicos e mais calcados na ação, produzidos pela Marvel Studios – como foi o caso de O Homem de Aço (2013) e Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (2016), a DC/Warner resolveu mudar de tática. Uma vez que os filmes não pareciam encontrar seu tom e nem satisfazer qualquer tipo de público – fosse o infanto-juvenil ou o mais adulto – os longas da marca investiram em mais ação, fantasia, leveza e bom humor, sem abandonar a aura de épico. Um exemplo bem-sucedido é Mulher Maravilha (2017); outro não tão bem recebido foi Liga da Justiça, lançado no mesmo ano. Felizmente, Aquaman se aproxima mais do primeiro e acerta no equilíbrio entre os elementos narrativos, conferindo grandeza à origem e mitologia do herói, ao mesmo tempo em que proporciona uma trama ágil (a despeito das mais de duas horas de duração), agradável, divertida e até romântica, encontrando seu tom e cumprindo exatamente o que promete. E o melhor: tornando atraente e até mesmo instigante tudo aquilo que já foi considerado ridículo pelos haters do personagem – seja o visual, repleto de escamas pelo corpo, ou a habilidade de se comunicar com peixes e outros animais aquáticos, dentre outras de suas clássicas características.

Nascido Arthur Curry, um híbrido de atlante com humano, o Aquaman é filho de Atlanna, uma poderosa rainha do reino submerso de Atlântida, com Tom Curry, um faroleiro. Ambos se conhecem ao acaso, durante uma terrível tempestade noturna que leva Atlanna para o farol em que Tom trabalha. Obviamente, um desperta no outro sentimentos que superam as diferenças entre suas raças e eles dão à luz um filho, fruto dessa união. Algo bem clichê, mas que funciona nas HQs – onde o herói teve sua história recontada diversas vezes, sendo essa a versão mais atual – e, para surpresa dos mais céticos em relação ao personagem, funciona na tela também. Sob as ameaças de seu reino que a reivindica e orquestra até mesmo um ataque ao homem que ama e seu filho, Atlanna se vê forçada a abandonar a família que acabara de construir na Terra, retornar à Atlântida e tomar parte em um casamento arranjado com o rei Orvax por questões exclusivamente políticas. Sua origem é contada de maneira rápida, sem muita embromação, o que torna o início do longa um tanto quanto acelerado; no entanto, favorece o polo principal, que é a disputa entre o mestiço Aquaman e Orm, o filho legítimo concebido por Atlanna e Orvax, ao trono de Atlântida. A jornada de um relutante Arthur Curry que, a princípio, nem mesmo se acha digno do trono, atravessa céu, terra e mar, incluindo o deserto do Saara, Sicília (na Itália) e outros reinos distantes no fundo do mar, onde o mestiço coleta pistas, conhecimento, inimigos e diversas lutas corporais em busca do tridente de Atlantis.

Trata-se de uma narrativa simples e bem fundamentada, que jamais perde o senso de diversão e fantasia. De exuberante temos os cenários e o excelente emprego do CGI aliado à fotografia e à paleta cromática assertiva em seus tons vibrantes. As sequências que se passam no fundo do mar são primorosas, além de criativas. O grande destaque de Aquaman é justamente o design de produção acurado, que garante cenas visualmente impressionantes mesmo carregadas de reverência. No entanto, até isso é funcional, pois dá uma ideia mais precisa da imensidão daquele universo subaquático, repleto de criaturas fabulosas e composto de diferentes reinos e raças que corroboram a construção da mitologia do personagem no cinema, ofertando inúmeras possibilidades para futuras continuações.

A ação é turbinada com tiros, explosões, perseguições e sequências de lutas intermináveis que agradam em cheio aos fãs do gênero, enchendo os olhos daqueles que curtem um bom espetáculo pirotécnico. O elenco, além de afinado, mostra competência, levando a sério seus papéis mas, ao mesmo tempo, mostrando o quão divertido é estar na pele dos personagens. Jason Momoa, intérprete do protagonista, esbanja carisma e presença de cena. O ator divide a tela, durante a maior parte do tempo, com a destemida Mera, vivida por Amber Heard. A química entre o duo principal é certeira. Completam o elenco o sempre ótimo Willem Dafoe, como Vulko; Nicole Kidman, como Atlanna; e Patrick Wilson, interpretando Orm.

Dentre os deméritos estão o excesso de flashbacks acompanhados de voice-oversexpositivos de modo a elucidar a história (um recurso infalível porém enfadonho e para o qual o cinema, infelizmente, ainda não encontrou substituto); além da música incidental e a trilha sonora como um todo que, apesar de temas marcantes e algumas excelentes canções, é mal pontuada, excessiva e até mesmo artificial em determinadas sequências.

Ainda que fique aquém de Mulher-Maravilha, a melhor produção da DC/Warner até agora, o longa que leva o nome do herói fez muito mais por Aquaman do que apenas lhe devolver seu crédito perdido. O filme dirigido por James Wan é uma perfeita combinação de ação e fantasia, com um estilo até old fashion, envolvente e divertido. Com certeza, vale o ingresso.

 

HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO

20.12.2018

Animação com retrospectiva da trajetória do teioso e seis versões reunidas é uma das melhores adaptações de um herói das HQs

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Texto por Andrizy Bento

Foto: Sony Pictures/Divulgação

O Homem-Aranha é um dos personagens que mais ganhou reboots no cinema em um intervalo relativamente curto de tempo. O primeiro blockbuster do aracnídeo, estrelado por Tobey Maguire e dirigido por Sam Raimi, estreou em 2002 e, juntamente com X-Men, de 2000, contribuiu para o renascimento de um filão hoje altamente explorado por Hollywood e que ainda não apresenta sinais de exaustão: as adaptações cinematográficas de quadrinhos – que vinham, até então, amargando fracassos artísticos e comerciais com exemplares duvidosos e de mau gosto como Batman & Robin e Spawn – O Soldado do Inferno (ambos de 1997). Homem-Aranha 2 (2004) caiu nas graças do público e da crítica e foi considerado por muitos, na época, a melhor adaptação de HQs de todos os tempos. Infelizmente, o teioso conheceu a fúria dos fãs e o bombardeio dos especialistas com o truncado Homem-Aranha 3 (2007).

Poucos anos depois, em 2012, o herói foi revisitado pelo cineasta Marc Webb e ganhou um novo intérprete: Andrew Garfield, que teve a oportunidade de vestir apenas por duas vezes o traje de Aranha e sofreu rejeição de quase todos os lados com longas bem pouco expressivos e memoráveis. O personagem retornou em Capitão América: Guerra Civil (2016), ao lado dos Vingadores, após uma festejada parceria entre a Marvel Studios e a Sony Pictures – que detém os direitos cinematográficos do cabeça-de-teia desde 1999. Felizmente, em seu mais recente filme solo, Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), não precisamos ver novamente a origem dos poderes de Peter Parker sendo recontada e nem a morte de Tio Ben. Tom Holland passou a usar a indumentária característica do personagem com dignidade e compromisso, em uma adaptação agradável e bastante eficiente das HQs, mesmo com as tradicionais liberdades criativas e licenças poéticas.

Porém, é com a animação Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into The Spider-Verse, EUA, 2018 – Sony Pictures) que o teioso conseguiu atingir todo o potencial que os fãs dos quadrinhos sempre desejaram ver no grande ecrã. Portanto, não estranhe se você ler por aí que esta é não somente a melhor animação do ano, como uma das melhores adaptações de HQs de todos os tempos e um seríssimo candidato a integrar um Top 10 de melhores do ano de muito cinéfilo por aí. Não é exagero. Homem-Aranha no Aranhaverso é exatamente isso que estão alardeando.

Após uma introdução que sintetiza de maneira eficiente, divertida e dinâmica a origem do personagem, fazendo constantes alusões e referências a toda a trajetória do Aranha nos quadrinhos e nos cinemas, sempre respeitosamente – mesmo a reprodução da famigerada dancinha do Peter Parker emo de Homem-Aranha 3 não insulta o material original, mesmo que este até merecesse – a trama passa a acompanhar Miles Morales, um adolescente cool egresso do Brooklyn, que curte grafite e a cultura das ruas. O jovem se sente deslocado em um colégio elitista, no qual foi matriculado por seu pai, um policial que quer o apenas o melhor para o seu filho mas não hesita em constrangê-lo em frente aos seus colegas. Após ser picado por uma aranha aprimorada e ser testemunha de um acontecimento brutal envolvendo Peter Parker e executado pelo Rei do Crime, Miles torna-se o herdeiro do legado e do uniforme do Aracnídeo. O plano megalômano – algo bem típico das HQs – do vilão Wilson Fisk, o Rei do Crime, consiste em roubar recursos tecnológicos de outras dimensões. Ainda que um pouco overe hiperbólico, esta é a grande sacada do longa e que faz com que as inúmeras realidades paralelas colidam e, consequentemente, os diferentes Homens-Aranhas existentes no universo – a saber: Peter Parker, Spider-Gwen, Homem-Aranha Noir, Peni Parker e Peter Porker – se reúnam a Morales e passem a trabalhar em equipe de modo a deter o poderoso Rei do Crime. Atentem para o Aranha Noir, melhor interpretação de Nicolas Cage em muito tempo.

A animação é esteticamente primorosa, especialmente ao combinar diferentes estilos. Equilibra o traço mais realista da animação em computação gráfica com a vibe dinâmica de videogame, a atmosfera noir, a estética dos animes e o cartoonmais clássico. Isso tudo sem jamais abandonar a estética dos comics, dividindo a tela em quadros e apostando na inserção de balões de fala e onomatopeias que indicam efeitos sonoros em diversas sequências. Também está repleto de cenas que aludem às splash pages – um termo quadrinístico que designa aqueles momentos impactantes, reveladores e bombásticos em uma HQ e que costumam tomar uma página inteira, de modo a obter o devido destaque.

Além de um deleite em termos artísticos, Homem-Aranha no Aranhaversosurpreende pela qualidade do texto; por quão bem amarrada e intrincada é a trama e o modo eficiente como seus subplotssão alinhados. Não bastassem os diálogos inteligentes e bem humorados que permeiam a narrativa, bem como o respeito ao cânone e essência do Aranha nas HQs, os momentos mais emocionais são bem dosados e impactam o espectador pela honestidade e o caráter genuíno com que se apresentam, sem induzir ao sentimentalismo barato. O que mais se destaca na animação é o fato de que ela é uma declaração de amor ao Homem-Aranha, a tudo o que ele representa para a cultura pop, às diferentes releituras que ganhou em todas as mídias nas quais ele imprimiu sua marca e lançou sua teia. Não importa quão pouco significativa foi sua passagem por algum desses níveis de entretenimento: é parte do glorioso universo e da mitologia do aracnídeo e merece ser relembrada.

O Homem-Aranha é um símbolo. Um símbolo de que os atos de heroísmo nem precisam sem grandiosos, basta que façam a diferença para alguém. Ele é conhecido como o “amigão da vizinhança” e seu trabalho é proteger quem faz parte dela, não importando os riscos. Está expressa em uma fala de Mary Jane, a eterna namorada do personagem, e na frase de Stan Lee que toma a tela ao final da animação – como um carinhoso tributo ao mestre que faleceu há poucas semanas – “Aquela pessoa que ajuda os outros simplesmente porque é o que deve ser feito, e porque é a coisa certa a fazer, é sem dúvidas um super-herói”. O que significa que todos podem ser heróis. Era isso que Stan queria transmitir ao público quando elaborou o personagem ao lado do também saudoso Steve Ditko. O Homem-Aranha pode ser qualquer um. Não precisa ser um magnata ou alienígena. Pode ser aquele garoto franzino, ignorado na escola, com nenhum dinheiro no bolso e criado por uma tia que sempre o amou como filho. O conceito de família sempre foi o mais importante para ele. Afinal, estamos falando de um personagem cujo um dos momentos mais memoráveis dos quadrinhos é justamente seu casamento com Mary Jane, que deu início a uma nova fase em sua vida. Obviamente, foi a morte do Tio Ben que o estimulou a ser o Homem-Aranha e lutar por justiça. E os Aranhas existentes nas mais diferentes dimensões possuem algo essencial em comum: todos eles decidiram lutar por um mundo melhor e ajudar aos seus semelhantes após uma perda irreparável na família. E tudo isso é traduzido para as telas de maneira competente por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, que assinam a direção da animação.

Para completar, o longa-metragem traz uma das mais divertidas cenas pós-créditos de um filme estrelado por um personagem da Marvel. A tradição, iniciada com a inusitada cena entre Charles Xavier e Moira MacTaggert em X-Men: O Confronto Final, ora escorregou com momentos dispensáveis que sequer valiam nossa permanência no cinema após minutos intermináveis de créditos finais, ora nos deixou com água na boca, ansiando pelos próximos filmes da Marvel. Aqui, ela vale a espera. Afinal, Homem-Aranha é uma estrela de diversas sagas nos quadrinhos, uma presença proeminente nos cinemas, nas animações, nos jogos de videogame e em produtos licenciados. E também é um meme. Outra prova de que o personagem sobrevive ao teste do tempo, sempre se reinventando de modo a dialogar com diferentes gerações.

Homem Aranha no Aranhaverso é indicado não apenas a um público mais moderno e conectado, que gasta muito de seu tempo em redes sociais, mas também para todos os fãs de quadrinhos e, especialmente, da mitologia do amigão da vizinhança. Pescar os easter-eggsespalhados pelo longa é um bônus. E é por essas e outras que esta é, sem dúvida, uma das melhores adaptações de um herói de quadrinhos para as telas.

 

INFILTRADO NA KLAN

18.12.2018

Novo longa de Spike Lee é tão atual que parece ter sido feito sob encomenda para estes tempos de retrocesso ideológico

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Texto por Fábio Soares

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Sabe o atirador que mira um objeto mas, sem querer, atinge o alvo com maestria mesmo com “trocentos” graus de dissonância? Pois bem: assim é Spike Lee com seu novo longa. Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, EUA, 2018 – Universal Pictures) não é um instrumento de indiretas do diretor, atualmente com 61 anos, contra Donald Trump. É um grito de revolta contrário à eleição do republicano em 2016. Em suas entrevistas, Lee refere-se ao mandatário como “agente laranja” ou, pura e simplesmente, “filho da p***”, baseado em declarações racistas, homofóbicas e misóginas proferidas pelo então candidato ao pleito de dois anos atrás, aliado à sua intransigente posição contra imigrantes.

Neste momento, seu cérebro deve estar traçando um paralelo com ao recém-eleito presidente do Brasil mas esta etapa mais uma coincidência que cai por terra pelo fato de o diretor nominalmente citar Jair Bolsonaro como personificação de uma ameaça ideológica na América Latina. “É necessário abrirmos o olho contra o retorno do fascismo. Veja o que recentemente ocorreu no Brasil e, paralelamente, na Europa com a eleição de partidos conservadores”, afirmou o cineasta, em recente entrevista no México. Spike Lee sabe o quanto é importante sua verve ativista neste momento e, sabiamente, usa de sua arte a seu favor.

Mas vamos à película. Não seria inexato afirmar que Infiltrado na Klan caminha entre a linha tênue entre a comédia e o drama. Conta a história verídica de Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) um jovem negro, morador do Colorado no final dos anos 1970, que consegue entrar nos quadros da polícia local. Ao iniciar seus trabalhos, sente o preconceito desde o início: é escalado para trabalhar no inexpressivo arquivo de dados de infratores do estado. E Ron queria mais. Com personalidade, peita seus superiores e consegue o improvável: uma investigação para chamar de “sua”.

O que era para ser um simples monitoramento sobre a classe negra oprimida da região, transforma-se numa inimaginável imersão ao núcleo de Ku Klux Klan com um ingrediente quase inverossímil se não tivesse sido registrado na História: Ron comunicava-se com os líderes da organização através de telefonemas mas, a certa altura, a presença de sua figura era mais que necessária às reuniões da organização. Foi então que imaginou uma “sacada” improvável mas certeira. Com a ajuda de Flip Zimmermann (um colega policial branco interpretado por Adam Driver) Ron é a “voz” de um novo integrante da Klan, enquanto Flip é seu “dublê de corpo”, comparecendo pessoalmente às reuniões e encontros da seita racista. Assim, os dois “Rons” (original e “dublê”) conseguem exercer papel de liderança dentro da organização e assim, literalmente frustrar diversos ataques contra negros previamente arquitetados. Até David Duke (eterno líder da KKK, aqui vivido por Tolher Grace) é personificado e ludibriado pela dupla.

Em se tratando de Spike Lee, deve-se deixar de lado a busca pelo primor cinematográfico. O diretor aposta todas as suas fichas do ativismo na estética de seus personagens, assim como numa pesadíssima trilha sonora. Em Infiltrado na Klan ouve-se de Temptations (“Ball Of Confusion”) a James Brown (“Say It Loud, I’m Black And I’m Proud”). De Dan Whitener (com a belíssima “We Are Gonna Be Okay”) até “Lucky Man”, o clássico de Emerson, Lake & Palmer. Somado à fotografia do longa, com seus tons pastéis, isso leva o espectador à imersão do Colorado do final dos 1970.

Se os diálogos, em diversos momentos, apresentam irregularidade, Infiltrado na Klancumpre bem o papel a que se propõe: um manifesto contra o racismo e a intolerância que já deveriam estar (há muito tempo) erradicados. Um retrato do retrocesso ideológico iniciado nos EUA dois anos atrás e que, desde então, expandiu seus reflexos sobretudo na América Latina.

 

AS VIÚVAS

29.11.2018

Diretor Steve McQueen justapõe contornos dramáticos a empolgantes cenas de ação e perturba o espectador em seu novo filme

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

História de um grupo de assaltantes iniciantes que se reúne para executar aquele roubo à mão armada que vai salvar suas vidas de pendengas financeiras não é novidade no cinema. As Viúvas (Widows, Reino Unido/EUA, 2018 – Fox) , porém, traz uma diferença a esta premissa: junta nesta quadrilha sem experiência alguma no submundo do crime mulheres entre os trinta e cinquenta anos que acabaram de perder seus maridos, criminosos “assumidos” ou ainda “no armário” para a família, e receberam de “herança” dívidas que serão cobradas em breve por um cruel contraventor de uma região mais pobre da cidade de Chicago. Enquanto elas se decidem por botar a mão na massa para salvar as suas peles, duas raposas do cenário político local passam a se digladiar nos bastidores de uma eleição que em breve poderá lhes dar mais ainda mais poder em seu próprio território.

Adaptado para o cinema pela afiada dupla Steve McQueen (também assinando a direção deste longa) e Gillian Flynn (autora de Garota Exemplar e Lugares Escuros, ambos thrillers assustadores tanto nas páginas literárias quanto na grande tela) de uma série de TV escrita pela atriz, roteirista e escritora britânica Lynda La Plante, este longa-metragem prende o espectador com seus muitos contornos dramáticos permeando as cenas de ação. Se estas são de tirar o fôlego, aquelas são de levar as pessoas do compadecimento à revolta.

Ninguém é inteiramente vítima ou vilão na história. Nem os maridos assassinados pela polícia em uma ação onde tudo deu errado, nem as viúvas que decidem também se aventurar pelo crime. Nem o candidato representante da elite branca e rica, nem o rival negro e pastor de uma igreja evangélica frequentada pelos moradores pobres da área que domina. Nem o filho mimado e seu pai corrupto, nem o capanga sangue frio e seu irmão gângster. Chantagens, balas disparadas à queima-roupa, lobbies, trapaças, mentiras, intrigas, cinismo e ameaças à integridade física convivem com ações de sororidade, desesperos de mãe, a humilhação de passar por seguidos atos de abuso, o sentimento de solidão após o luto e o sofrimento de passar anos a fio pela manipulação da própria família. Discussões sobre gênero sexual, racismo, religião e abuso de poder e autoridade acabam ganhando quase o mesmo peso conforme a trama vai se desenvolvendo, fazendo com o que o tal assalto preparado pelas viúvas venha a ser apenas mais elemento dela, não o mote principal. Claro que reviravoltas acontecem durante este tempo, o que torna o filme ainda mais delicioso.

A hábil mão do diretor McQueen – que não ganhou o Oscar de sua categoria em 2014 mas viu seu 12 Anos de Escravidão levar o prêmio principal da noite – acrescenta sutis detalhes à história de La Plante. Recorre a linguagens distintas no tratamento da perspectiva pela qual o espectador vê homens e mulheres na tela. Abusa de bela fotografia, capaz também de apostar em planos-sequência matadores, e ainda brinca com a montagem desde o início da sessão, intercalando momentos de passado e presente, reflexão e ação. E, o principal de tudo, não leva seu filme a tomar partido de qualquer lado: deixa para que quem estiver vendo faça seus próprios julgamentos baseados em suas crenças, convicções e experiências de vida.

Não bastasse tudo isso, o elenco é de primeira. Viola Davis, mais uma vez, brilha nas telas na pele da protagonista Veronica, a chefe da nova quadrilha. Aos poucos, seja como personagens coadjuvantes ou ainda participações menores mas com importância em algum ponto da trama, surgem Liam Neeson, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Carrie Coon, Cynthia Erivo, Robert DuVall, Colin Farrell, Bryan Tyree Henry e Daniel Kaluuya.

As Viúvas provoca impacto do começo ao fim, não deixa quem o vê sair levantar impassível da poltrona e, sobretudo, mostra que é possível, sim, fazer bom cinema baseado em uma sinopse que pede ação, muita ação. Chega aos cinemas já com cheirinho de várias indicações ao Oscar 2019 e outras importantes premiações da temporada.

 

OPERAÇÃO OVERLORD

18.11.2018

Longa produzido por JJ Abrams une terror e Segunda Guerra Mundial e leva o gore com estilo e CGI em grande escala aos cinemas

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Texto por Andrizy Bento

Foto: Paramount/Divulgação

O cinema de horror é um gênero que se reinventa constantemente, para a felicidade dos amantes do gênero. Tem sua origem vinculada ao visionário George Méliès – um dos pioneiros do cinema e considerado o inventor dos efeitos especiais – com O Castelo do Demônio (1896). Chegou às décadas de 1930 e 1940 relegado à categoria de filme B. Durante a crise econômica provocada pela queda da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, os cinemas, que vinham perdendo público, arranjaram um novo meio de faturar, exibindo dois filmes pelo preço de um. Desse modo, os grandes estúdios ofereciam um filme classe A – produções de elevado destaque, com elencos estrelares – e um filme B – uma fita estrelada por nomes pouco conhecidos e com um orçamento mais modesto. Muitos destes se tornaram verdadeiras obras cult. Da safra merecem menção os Monstros da Universal, como o Drácula estrelado por Bela Lugosi e Frankenstein com Boris Karloff, ambos de 1931.

Nos anos 1970, ainda remanescentes dos filmes B, surgiram os slasher movies, popularizando produções como O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Halloween (1978). O gênero alcançou o statusde cinema de arte com os clássicos O Exorcista (1973) e O Iluminado (1980). Atravessou a década de 1990 com uma onda adolescente apelidada de teen slasher, cujos exemplares mais famosos são os pastiches Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e a série Pânico. Enfim, chegou à atualidade com propostas mais ousadas e cerebrais, como é o caso de Corra!, uma afiada crítica sobre o racismo mascarada de horror moviee indicada ao Oscar de melhor filme; e Um Lugar Silencioso, experiência extremamente sensorial que abusa da tensão psicológica. No entanto, faltava um exemplar mais tradicional do gênero, que evocasse aquela deliciosa atmosfera de filmes B e o gore com estilo. E é exatamente isso que Operação Overlord (Overlord, EUA, 2018 – Paramount) representa.

O petardo do diretor Julius Avery, produzido pelo hiperativo JJ Abrams, se aproxima dos bons e velhos splatter – sanguinolento e repleto de representações gráficas de violência. Contudo, é mais sofisticado em sua forma e até no conteúdo. A trama, bem sacada, tem início em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, com a Operação Overlord do título, cujo objetivo era a invasão da Europa Ocidental, então ocupada pela Alemanha nazista. Sendo assim, é na Normandia, pouco antes do Dia D, que a ação se desenrola.

A cena de abertura apresenta um grupo de jovens e, em sua maioria, inexperientes soldados americanos, recém-saídos dos campos de treinamento, a bordo de um avião militar. Sua missão é aterrissar na França e destruir uma torre de comunicação instalada pelos nazistas em um afastado vilarejo. Assustados devido ao bombardeio das tropas inimigas, os soldados são obrigados a saltarem do aeroplano em meio ao ataque. Toda a sequência é extremamente bem executada e de um requinte visual impressionante. Ela conduz os espectadores a uma experiência imersiva, abusando de closes e de uma sensação ora claustrofóbica – no intervalo que se passa dentro do avião – ora vertiginosa – durante o salto de paraquedas – além de apresentar um emprego notável dos efeitos sonoros. Acertadamente, aposta na supressão do som em dois momentos bem pontuados, conferindo um estado de aflição absoluta.

Ao penetrarem em território hostil, tomam conhecimento de experimentos realizados na citada torre de comunicação, que vão muito além de simples estratégias de guerra coordenadas pelos nazistas. Lá são conduzidos testes bárbaros em humanos – uma espécie de soro é injetada neles, com o objetivo de se produzir supersoldados (Capitão América manda lembranças!). Contudo, os efeitos são devastadores, transformando as cobaias em verdadeiros monstros e instaurando o terror pelo local. A essência é de filme trash, porém, esteticamente, a produção é moderna e estilosa ao combinar o gore mais clássico com o uso do CGI em grande escala. A abordagem visual é um dos maiores atrativos do filme, mas não é o único.

O elenco afinado é composto de rostos pouco conhecidos, mas que imprimem carisma suficiente aos seus personagens, a ponto de os espectadores se importarem com eles, temerem pelas suas vidas e lamentarem a má sorte de alguns. Talvez, o castmais sagaz tenha sido de Wyatt Russell. Além de ator competente, na pele de Ford, ele traz aquela sensação de familiaridade, especialmente pelo fato de ser filho de Kurt Russell, rosto emblemático de filmes que marcaram a geração oitentista como Fuga de Nova York, O Enigma do Outro Mundo e Os Aventureiros do Bairro Proibido. A sua figura de anti-herói, do homem prático que está ali para realizar um serviço e não se deixa desviar por distrações ou se guiar pelas emoções, oferece um ótimo contraponto ao protagonista Boyce (Jovan Adepo), que compõe um herói mais tradicional, humano e compassivo, apresentando uma gradativa evolução ao longo da trama ao se ver confrontado por questões de sobrevivência mas sem nunca abandonar seus princípios e essência.

Completam o elenco, John Magaro como o malandro boa praça Tibbet, que alcança um meio-termo entre os outros dois citados; o ótimo Iain De Caestecker (o Fitz da série de TVAgentes da SHIELD), interpretando o fotógrafo Chase, que surge como alívio cômico, um soldado constantemente assustado e que acaba por protagonizar uma das cenas mais surpreendentes do longa – o legítimo ponto de virada no filme; o ator-mirim Gianny Taufer, convincente na pele de Paul e que sabe gritar como ninguém; Pilou Asbæk como o oficial do exército nazista que é o grande antagonista da história e cuja representação se aproxima muito de um vilão de quadrinhos, megalomaníaco e sociopata; e Mathilde Ollivier, a francesa blasé, Chloe, que remete imediatamente à Shosanna Dreyfus de Bastardos Inglórios, cheia de fúria e iniciativa, mas mantendo o semblante impassível. Há um maniqueísmo evidente na apresentação dos personagens. Naturalmente, os nazistas são os vilões mais óbvios. Mas nem esse clichê – justificado, convém dizer – nem a profundidade quase nula dos heróis, todos compostos de poucas nuanças, são capazes de comprometer a narrativa ou tirar o brilho do longa. Operação Overlord funciona muito bem como entretenimento.

A última coisa que se pode esperar da produção é um drama de guerra e um compromisso solene com a história. Avery e Abrams estavam pouco preocupados com fidelidade aos fatos, inserindo um sem-número de licenças poéticas que podem vir a ser questionadas pelo espectador mais cínico e cético, com dificuldades em suspender a crença e curtir um conto de zumbis que tem o Nazismo como plano de fundo. Para quem não tem problemas com isso, basta se deixar entreter por uma mescla bem-sucedida e insana de guerra com terror (palavras que se aproximam, mas gêneros cinematográficos que se distanciam). No mais, ele é bem ágil, gore e divertido, com uma das melhores fotografias do ano. E ainda se permite experimentações inusitadas ao combinar diferentes estilos, gêneros e referências visuais e narrativas.

 

ANIMAIS FANTÁSTICOS: OS CRIMES DE GRINDELWALD

15.11.2018

Embate com o rival começa a tomar proporções épicas em segundo filme da série protagonizada por Newt Scamander

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Texto por Flávio St. Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Warner/Divulgação

Capítulos do meio são sempre complicados. A história não tem começo ou fim. Vem de algo que já começou e prepara para algo que ainda vai acontecer. Frequentemente vem sem o frescor de uma primeira parte (como já vimos em tantos outros filmes) e anabolizam roteiro e efeitos montando o palco para algo maior.

Com Animais Fantásticos – Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes Of Grindelwald, Reino Unido/EUA, 2018 – Warner) não é diferente. Novos animais, novo ambiente e uma história que tem gosto de requentada. Mas JK Rowling sabe o que faz e repete a fórmula que funcionou com oito fimes de Harry Potter e um da série Animais Fantásticos: protagonista enfrenta inimigos enquanto se une a amigos para enfrentar um mal maior. Vimos isso diversas vezes. Se ainda funciona? Bom…

A fórmula repetida e o gosto de requentado não são suficientes para tirar o prazer do segundo longa de Newt Scamander. Ritmo intenso, boas piadas e uma história um tantinho embolada demais são o bastante para prender a atenção do público. Novos personagens interagem com os que conhecemos antes e as ligações com o universo Potter se tornam mais intensas.

Conhecemos um Dumbledore mais jovem (aqui com o charme adicional de Jude Law), um pouco de seu passado e elementos que levaram aos acontecimentos que já lemos e vimos antes. Vemos Scamander enfrentando novos desafios. Nada muito profundo, afinal ainda falamos de uma história infanto-juvenil, mas sombria o bastante para amedrontar.

O visual ainda encanta, os novos amimais ainda enchem a tela (num 3D impressionante, aliás) e o roteiro entrega o que se propõe: um capítulo do meio preparando para um fim que ainda não temos.

Os Crimes de Grindelwald começa e termina sem início ou fim, mas funciona justamente como entreato. Um filme que, sozinho, tem pouco a dizer. Mas que dentro de um universo maior possui acontecimentos importantes o suficiente para ser relevante. Claro que poderia ser mais curto ou suprimido em um prólogo, mas estamos falando de uma indústria e de uma franquia que move fãs apaixonados no mundo todo. Sabemos que se trata de uma preparação, assim como assistimos a seis longas de Harry Potter sabendo que tratavam-se de ensaios para a batalha final dividida em outros dois.

O embate entre Newt e Grindelwald vai se formando épico e, enquanto isso, vamos nos encantando com viagens, fantasia e romance. Afinal, disso que é feito o bom cinema, não é mesmo?

 

VERÃO

14.11.2018

A história de dois ícones do rock da extinta União Soviética e seu amor incondicional por cantores e grupos anglo-americanos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

O rock nasceu com o DNA libertário e sempre será assim. Pode vir a indústria do entretenimento (isto é, a economia) tentar cooptar seus principais expoentes recém-surgidos de tempos em tempos. Podem vir governos austeros e com ímpetos totalitários (isto é, a política) tentar calar de alguma forma estas mesmas figuras de tempos em tempos. Contudo, uma coisa ninguém pode tirar dele: a vontade – e, consequentemente, a necessidade devido ao descontentamento contínuo – de questionar e transgredir o que está estabelecido. Pelo sistema. Pela família. Pela força. Pode ser nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Brasil. Pode ser em qualquer lugar, qualquer país. Foi assim inclusive na União Soviética cerrada pela cortina de ferro imposta pelo regime comunista até os anos 1980.

Verão (Leto, Rússia/França, 2018 – Imovision) surge como uma possibilidade de jogar luz nos olhos ocidentais a respeito de duas figuras fundamentais no rock soviético do começo dos anos 1980. Ambos vinham de Leningrado, cidade hoje rebatizada São Petersburgo, longe geograficamente da linha dura de Moscou o suficiente para que suas carreiras pudessem prosperar sem muitos incômodos governamentais. Ali Mike Naumenko era o rei de uma juventude ligada em guitarras e violões a tiracolo, cabelos compridos e um excelente casamento entre letras poéticas e doces melodias. À frente da banda Zoopark, realizava frequentes shows em pequenos auditórios de clubes da região. Suas fãs não podiam se levantar das cadeiras ou mesmo ostentar cartazes para se comunicar com os músicos, entretanto as autoridades locais estavam convencidas de que as mensagens transmitidas em seus versos eram dignas de glorificar uma identidade cultural soviética.

E era isso mesmo. Naumenko (Romam Bilyk, músico e ator russo que às vezes atende pela alcunha de Roma Zver) e sua turma não queriam derrubar a cúpula do Kremlin, não exaltavam o way of life dos “inimigos” ocidentais, não incitavam ninguém a iniciar qualquer revolução. Afinal, eles mesmos eram a própria revolução. Cantavam sobre a vida e tudo mais que estava ao redor. Celebravam uma tarde de verão na praia com os amigos. Falavam sobre medos, incertezas, frustrações e inseguranças típicas do início da juventude. Sobre as responsabilidades trazidas pelo mundo adulto em cuja entrada tanto tentavam adiar. Só que o combustível para isso tudo eram discos de vinil importados (mercado negro?) de heróis do rock anglo-americano. Velvet Underground, Lou Reed, Iggy Pop, David Bowie, T-Rex, Blondie, Talking Heads, Ramones, Sex Pistols, Who, Beach Boys, John Lennon e Mott The Hoople eram alguns dos nomes venerados por Naumenko, sua esposa Natasha (Irina Starshenbaum) e o círculo formado ao redor deles.

Um dos integrantes do círculo era Viktor Tsoi (Teo Yoo, ator de origem germânica  e descendência coreana), sete anos mais novo e discípulo confesso e disciplinado do ídolo. Com ele aprendeu as manhas de composição e técnicas de gravação em estúdio. Com ele até chegou a dividir, por alguns momentos românticos, a própria Natasha. Até se desgarrar de vez na identidade e partir para a liderança de sua própria banda, denominada Kino.

O filme, dirigido pelo “controverso” Kirill Serebrennikhov (há um ano mantido em prisão domiciliar pelo governo de Putin, a quem sempre se opôs ferrenhamente) é centrado toda essa ingenuidade sonhadora de Mike, Viktor e Natalya. Sua opção pelas imagens em preto e branco e câmera móvel entre as pessoas da cena reforçam a estética publicitária dos videoclipes. Não por acaso ele inclui na narrativa pequenos interlúdios musicais (“The Passenger”, “Psycho Killer”, “All The Young Dudes” e uma canção de Naumento chamada “Leto”, palavra que significa “verão” em russo) nada diegéticos para tentar revelar ao espectador o que estaria se passando na cabeça e coração dos personagens naquele momento. Aí entra uma linguagem mais fragmentada, com direito a cortes mais velozes, animações sobrepostas e várias referencias aos versos destas canções dividindo a tela com imagens coloridas. Inclusive, a versão feita pela banda russa Shortparis (em atividade desde 2012) para “All The Young Dudes” é tão arrebatadora que fica difícil não se lembrar dela constantemente após o fim da sessão.

Mike e Viktor não tiveram muito tempo para curtir a fama. Morreram jovens, entre 1990 e 1991, ainda no auge criativo – o primeiro de complicações provocadas por excessos alcoólicos e o segundo em um acidente de carro. Não puderam ver também o que viria depois: o fim da União das Repúblicas Socialistas soviéticas, a sombra de novos regimes autoritários de Yeltsin e Putin na Rússia, o crescimento da economia do país, a abertura à cultura ocidental ou ainda a inauguração da MTV russa. Ainda bem que as memórias escritas por Natasha serviram de base para que um tocante e belo filme como este pudesse ser feito em homenagem a eles dois.

 

MILLENIUM: A GAROTA NA TEIA DE ARANHA

08.11.2018

Claire Fox assume o papel da mítica Lisbeth Salander em adaptação de nova história da franquia literária sueca

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Hollywood é uma indústria cinematográfica que, como não poderia deixar de ser, visa a lucros ao invés de arte. O mais importante aqui é se produzam, constantemente, filmes com grande apelo de público para que se obtenha o máximo retorno financeiro possível. Por isso, também, a regra é procurar não gastar muito. Se inovação, ousadia e boas ideias em roteiros não seduzem muito os grandes estúdios, salários altos também são item a ser evitado. Por isso, melhor contratar jovens nomes em ascensão no mercado mundial para que o lucro seja ainda maior.

Isto pode resumir a decisão de bancar mais um livro da série Milleniumtransformado em filme. Depois da trilogia sueca e de uma não tão bem sucedida adaptação norte-americana (2011), a clássica personagem Lisbeth Salander está de volta às telas em uma nova aventura. Millenium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl In The Spider’s Web: A New Dragon Tattoo Story, Reino Unido/Alemanha/Suécia/Canadá/EUA, 2018 – Sony Pictures) é baseado no mais recente livro da série, escrito após a morte de seu autor original, Steig Larsson, em 2004.

Contratado para escrever mais dois volumes do universo de Salander, o jornalista e biógrafo – também sueco – David Lagercrantz fez do primeiro, publicado em 2015, um mergulho profundo de Lisbeth em relação ao seu passado ainda misterioso. Por isso, Hollywood viu uma ótima alternativa para zerar a franquia e iniciar uma nova tentativa de emplacar a carreira cinematográfica da agora transformada em uma versão feminina (e feminista) de James Bond.

A hacker Salander agora é conhecida popularmente como uma justiceira underground. Caça os homens que agridem e oprimem as mulheres de todas as formas para devolver a eles todo o mal feito às suas vítimas. O que não a impede de continuar ganhando dinheiro fazendo seus trabalhinhos informais invadindo computadores alheios e aprontando coisas ilegais por trás de uma tela. Para viver a protagonista foi convocada uma nova atriz, a britânica Claire Foy, alçada ao estrelado pela série televisiva The Crown.  O corpo franzino e o olhar tão frio quanto o sangue da personagem fazem Claire se distanciar das duas intérpretes anteriores (Noomi Rapace e Rooney Mara). Sua Lisbeth é mais quieta e muito mais enigmática. Na expressão facial, na sexualidade, nas atitudes. No passado de sua família, principalmente.

O diretor uruguaio Fede Alvarez – também um dos roteiristas – tenta dar saídas interessantes à mera proposta oficial de um filme de estética sombria com cenas de ação. Traça metáforas nervosas com a câmera para dar um pouco mais de sensorialidade ao espectador. Aposta ainda em algumas perspectivas que fogem da cartilha tradicional dos filmes de ação.

Embora as presenças de Foy e Alvarez enriqueçam este novo Millennium (o nome brasileiro da franquia vem da revista editada pelo jornalista Mikael Blomkvist, cujas reportagens sobre Lisbeth servem de alicerce a uma subtrama de tensão sexual, o longa esbarra em uma história fraca e previsível. Nela, tudo se encaminha para algo que já pode ser antevisto com olhares mais perspicazes durante a sequência inicial. E também por humanizar demais uma protagonista em detrimento do fraco desenvolvimento dos personagens secundários. Inclusive do próprio Blomqvist, bem relegado desta vez. Basta notar que o papel, outrora do atual James Bond Daniel Craig, agora voltou a ser de um ator sueco, ainda bem desconhecido em Hollywood.

Como o principal objetivo era mesmo reiniciar a franquia cinematográfica com novos nomes, o resultado final do filme é o que menos importa. Com isso, Milleniumabre todas as portas em seu caminho para se consolidar ao posto de mais nova série de longa-metragens centrados em fortes personagens de grande respaldo literário. Em breve, a segunda trama bolada por Lagercrantz deverá estar nas telas. E com Claire Foy – agora com a carreira consolidada também nos cinemas – à frente do elenco.

 

O PRIMEIRO HOMEM

07.11.2018

Menino-prodígio de Hollywood, Damien Chazelle volta a assombrar na cinebiografia do primeiro homem a pisar na lua

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Damien Chazelle Chegou em Hollywood metendo o pé na porta. Nos últimos quatro anos, o diretor e roteirista – atualmente com apenas 33 anos – fez dois filmes e conquistou a condição de menino-prodígio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Em 2014, fez Whiplash – Em Busca da Perfeição, um filme de suspense sobre música e a dedicação intensa de um baterista (tal qual ele havia sido para ser o melhor do mundo em sua profissão). De cara, o filme levou cinco indicações para o Oscar, incluindo a de melhor longa-metragem, e arrebatou três estatuetas. Dois anos depois voltou às telas com La La Land: Cantando Estações, musical sobre o sonho de atores, músicos e cantores iniciantes de entrar para a indústria do entretenimento e ganhar a fama em suas carreiras. Concorreu em treze categorias ao Oscar, igualando o recorde de A Malvada (1950) e Titanic(1997). Perdeu a principal, mas ganhou em seis delas. Já no Globo de Ouro, ganhou todos os sete prêmios aos quais concorria.

Normal que, depois de tanto hype e celebração, muitos se perguntassem para onde iria a carreira do jovem cineasta depois desta arrancada inicial fenomenal. A resposta não tardou a vir. Dois anos depois ele entrega um terceiro filme tão sensacional quanto os anteriores. E diferente. E criativo.

O Primeiro Homem (First Man, EUA, 2018 – Universal Pictures) é baseado no livro homônimo sobre a vida de Neil Armstrong, astronauta da Nasa e o primeiro homem a pisar na lua. Poderia ser adaptado às telas do cinema como tantas outras cinebiografias produzidas incessantemente pelos grandes estúdios hollywoodianos: com narrativa histórica linear, escalando bons atores para viverem seus protagonistas na esperança de abocanhar algo na temporada de premiações e apostando na instigação ou memória afetiva provocada por estes mesmos retratados no coração de quem assiste aos filmes. Contudo, O Primeiro Homem vai muito além disso. Não se prende ao convencional. Tudo porque é o nome de Chazelle quem está por trás da condução das quase duas horas e meia de projeção.

Damien, agora se restringindo apenas à direção, fez a escolha de colocar a câmera na mão, como um personagem no local da ação, com muitos travellings trepidantes e zooms. Deste modo, ora ela faz a função subjetiva de ser os olhos do protagonista ora convida o espectador a se sentir in loco junto com Armstrong, sua família, seus colegas de trabalho na Nasa e ainda na imensidão do espaço. A questão de voltar a trabalhar com Ryan Gosling – com quem fizera La La Land – também traz outro ponto positivo. A tão ressaltada falta de expressividade facial do ator cai como uma luva para as cenas que exigem um Armstrong frio diante de situações adversas ou ainda sem saber muito o que fazer diante de algo novo em sua vida ou que pode vir a dar errado. Também tem quem interprete a carência de Gosling neste quesito como uma chance para que quem esteja assistindo ao filme possa projetar as suas próprias emoções em sua cara de nada.

O recorte temporal foi outro acerto. Todo mundo já conhece o ápice da história: no dia 20 de julho de 1969, a nave Apollo 11 finalmente pousa em solo lunar e o primeiro tripulante a sair dela é Armstrong. A cena dele descendo a escada e fincando a bandeira no chão virou um ícone da cultura pop e transformou-se até em logomarca de vinhetas da MTV e troféus do Video Music Awards, promovido todo ano pela emissora norte-americana. Só que isso é o que menos importa – embora Chazelle consiga fazer o espectador se sentir o próprio Armstrong na cena. O que vale, no roteiro assinado por Josh Singer (ganhador do Oscar pelo trabalho em Spotlight – Segredos Revelados) é toda a trajetória vivida por ele, desde os tempos em que era piloto de caça, nos anos 1950, até a fama mundial pelo feito. Assistimos ao início da transformação em astronauta, provocado pela morte da filha pequena, até os perrengues passados em testes e posteriormente malfadadas tentativas do programa aeroespacial dos EUA pra fazer o ser humano pousar no satélite natural da Terra. Paralelamente à obstinação profissional, o roteiro mostra ainda a vida em família, sobretudo as tentativas da esposa Janet (a atriz britânica Claire Foy, em excelente atuação) de se manter equilibrada entre o apoio à nova carreira do marido e os abalos emocionais ao entender que, a qualquer momento, um erro pode ser fatal e fazê-la ficar viúva.

Os estímulos auditivos também se agigantam no decorrer do filme. A trilha sonora original, assinada por Justin Hurwitz, também parceiro em La La Land e vencedor do Oscar por este trabalho, é espetacular e se dá ao luxo de usar até um inusitado theremin. O Primeiro Homem também, desde já, surge como favorito para o Oscar da categoria Mixagem de Som (na qual ruídos e efeitos sonoros são colocados na pós-produção, depois de gravadas e montadas as cenas).

Por tudo isso, resta sair do cinema com uma nova pergunta martelando a cabeça. Afinal, até onde irá Damien Chazelle?

 

MY NAME IS NOW, ELZA SOARES

02.11.2018

Documentário desconcerta o espectador pela opção de desnudar a alma da cantora por caminhos não convencionais

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: It Filmes/Divulgação

Meu nome é agora, diz a cantora durante a série de depoimentos dados para o filme. Ela agradece a Deus por tudo o que viveu e aconteceu na sua vida, inclusive os momentos mais difíceis e as tragédias constantes que teve em família. Tudo isso, segundo ela, foi responsável por transformá-la no que ela é.

Em My Name Is Now, Elza Soares (It Filmes, 2018), a diretora Elizabete Martins Campos opta por um caminho nada convencional em se tratando de documentário. Ela dispensa uma narrativa histórica linear da vida e da carreira biografada. Tampouco quer contar a sua trajetória de fato. Sua opção é por uma estética sensorial. Imagens e sons vão se misturando e complementando. Por vezes Elza canta acompanhada de uma banda nunca vista pela câmera. Por vezes ela fala sobre seus sentimentos e um pouco do que já viveu em quase noventa anos de idade. Nascida no Rio de Janeiro no dia 23 de julho de 1930 (segundo ela mesma conta no início do filme), Elza Soares é uma mulher múltipla e vulcânica. Uma força da natureza capaz de assombrar sempre que abre a boca. Pela voz, pelo timbre, pela lucidez, pela sagacidade, pela resiliência, pela emoção. E a diretora, ciente demais de tudo isso, ainda brinca com o espectador fundindo áudio e vídeo de maneira difusa, brincando com efeitos (ecos, filtros, closes, sobreposições de música e fala).

Claro que as mais importantes informações sobre a vida de Elza estão lá. O enfrentamento da fome, a gravidez muito precoce, a perda dos maridos, o romance com Mané Garrincha (que acabou por se eternizar no inconsciente coletivo da população brasileira), seu ressurgimento para o primeiríssimo escalão da MPB nas últimas décadas. Mas nada aparece de forma tão mastigada assim. Por vezes é Elza quem relembra misturando emoções (raiva, alegria, saudade, indignação), por vezes a música que rola naquele instante (ora com letras cantadas, ora com a melodia tracejadas pelos scatsinacreditáveis que ela arranca do gogó), por vezes são as imagens de arquivo (vídeos antigos, fotografias, recortes de jornais e revistas) ou uma câmera subjetiva que se apresenta como os olhos da biografada.

Ao espectador resta a condição de se conformar como um voyeur. Não se sabe onde se vai chegar, não há muitas explicações que não sejam a da memória e a do afeto. Por isso mesmo é inevitável se sentir desconcertado por este filme. E não só pela boca, mas também pelo olhar de Elza Soares. E, claro, por sua alma desnudada de maneira tão incisiva e corajosa.

Obs: My Name Is Now, Elza Soares entrou em cartaz no circuito nacional neste primeiro dia de novembro, através do projeto Circulabit (Circuito Laboratorial de Produção e Difusão do Audiovisual em multiplataformas, com os eixos LabiT – Incubadora de Criações, Prêmio Circulabit, Circuito Salas de Cinema, Laboratório de acessibilidade, Exibição ao Ar Livre e Cirucito Brasil – Exibições Gratuitas. Este projeto teve início no último mês de outubro e se estenderá até abril de 2019, com programação no Brasil e em Portugal, em diferentes formatos, plataformas e parcerias.

 

BOHEMIAN RHAPSODY

01.11.2018

Cinebio da carreira de Freddie Mercury à frente do Queen esbarra na postura conservadora e em problemas no roteiro e na direção

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Cinebiografias são uma coisa complicada. Muitas são feitas e poucas delas acabam apresentando algo memorável, aquele resultado convincente que acaba deixando o filme para a posteridade. Se não, mostram-se fogo de palha, uma obra que só se beneficia da memória afetiva de fãs ou pessoas ligadas de algum modo ao meio de quem é biografada(o). Bohemian Rhapsody (Reuno Unido/EUA, 018 – Fox) não foge desta grande galeria de exemplos. Sua proposta é contar boa parte do tempo em que Freddie Mercury ficou conhecido como o vocalista do Queen. Só que patina no meio do caminho e deixa a desejar ao final de suas duas horas e catorze minutos.

Primeiro vamos às qualidades do longa. Rami Malek – que entrou no projeto após a desistência de Sacha Baron Cohen – está irrepreensível na sua atuação como Farrokh Bulsara, o jovem de origem indo-persa nascido na Tanzânia e radicado em Londres desde o fim da adolescência. Incrivelmente parecido nas telas, ele também se traveste de Mercury ao tomar para si a personalidade flamboyant do músico, sempre aultoconfiante e autoindulgente não só palcos mas sobretudo nos bastidores. Da vida em família enquanto ainda trabalhava como carregador de malas nos aviões da pista do aeroporto de Heathrow às festas nababescas com dezenas de convidados que dava em sua mansão, passando pelo início da fama do Queen e a transformação da banda em ícone mundial do rock.

Quem também atua de forma soberba, porém em pouco tempo, é Mike Myers. Transformado em um alienado e pouco ousado executivo de gravadora, o comediante protagoniza uma das melhores cenas: a reunião em que ele conhece a banda que acabou de contratar e quase a perde por não aceitar ouvir a opinião dos músicos. Vale a pena ressaltar a private joke do convite feito a Myers. Ele foi o protagonista do filme Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne’s World, no original), lançado em fevereiro de 199 e que o levou de vez da televisão para o cinema. A cena em que os jovens Wayne e Garth balançam freneticamente a cabeça dentro de um carro ao som de “Bohemian Rhapsody” levou a música novamente ao topo das paradas norte-americanas dezessete anos após o seu lançamento.

A trilha sonora, óbvio, também favorece. Ouvir trecho de alguns dos maiores hits do Queen sentado na poltrona do cinema é uma experiência prazerosa. Conhecer detalhes por trás da criação de alguns deles ainda pode adoçar mais a vida de quem curte o quarteto. Quando o foco da cena são os shows, então, é para se esbaldar, como na hora em que se mostra a participação de Merucry, Brian May, John Deacon e Roger Taylor no Live Aid, em julho de 1985.

Entretanto, há detalhes que pendem para o desequilíbrio e fazem Bohemian Rhapsody desperdiçar a oportunidade de ser uma obra fenomenal. Primeiro há a decisão de Roger e Brian, produtores executivos do filme e os músicos que excursionam sob o nome Queen hoje em dia (John ainda tem participação na banda mas preferiu se aposentar dos palcos), por fazer um filme “família”. Isto é, não mostrar todos os exageros de Mercury e cortar do recorte biográfico todo o tempo em que a banda se retirou dos palcos em virtude da doença de Mercury – o que durou de 1986 a 1991, até o vocalista falecer em decorrência do vírus HIV em novembro daquele ano. Muito provavelmente o motivo por esta opção tenha sido o financeiro: um acordo com um grande estúdio e a possibilidade de ganhar mais bilheteria ao redor do mundo, inclusive não limitando a faixa etária do longe. Algo que não traz riscos é bastante conservador e isso não passou despercebido pela crítica, muito menos por Baron Cohen, que, doido para construir mais um personagem histriônico em sua carreira cinematográfica, pulou fora da barca.

O roteiro também mostra muitos descompassos temporais ou conceituais com relação às músicas do Queen. Exemplos? Os dois primeiros discos são solenemente esquecidos e muita gente pode sair com a impressão de que o início do sucesso veio somente com o hit “Killer Queen”, do terceiro trabalho da banda, Sheer Heart Attack, lançado no finalzinho de 1974. “We Will Rock You” aparece sendo composta bem depois de 1977, quando a faixa chegou às lojas abrindo o álbum News Of The World. Durante a criação do arranjo de “Another One Bites The Dust” fala-se da necessidade da incorporação de sons de sintetizadores. OK, a faixa está no álbum The Game, lançado em 1980 e que trazia estampado em sua contracapa o aviso de que este era o primeiro trabalho do Queen que utilizava este instrumento. Mas cadê ele nesta música? Mais pro final, fala-se em um longo hiato do Queen, no qual o vocalista aproveitou para desenvolver uma carreira solo. Bobagem. Freddie tocou as duas coisas meio que em paralelo, sem dedicar longos espaços para um lado ou para o outro. Em janeiro de 1985, a banda foi um dos destaques da primeira edição do Rock In Rio, em dois shows destacados até hoje pelos próprios músicos. Mas o roteiro desse filme não só ignora isso como ainda força a barra dizendo que a banda estava havia muito tempo se tocar ao vivo antes do Live Aid, em julho do mesmo do mesmo ano.

Houve também sérios problemas no set. O diretor Bryan Singer acabou expulso do projeto por conta de comportamento inadequado e falta de profissionalismo, com direito a atrasos constantes e brigas com a equipe de produção e os atores – em uma delas chegou a arremessar um equipamento pesado na direção de Malek. Seu nome só continuou na ficha técnica porque ele já havia feito dois terços do trabalho e, mesmo assim, deixando boa parte das cenas para serem rodadas a cargo do diretor de fotografia por se ausentar das filmagens em períodos não autorizados. O britânico Dexter Fletcher (mais conhecido por ter feito Voando Alto em 2015 e também ator) foi contratado às pressas para juntar os pedaços que já haviam sido feitos e terminar os trabalhos (por causa de regras do sindicato dos diretores, não tem direito a ser incluído nos créditos). Toda essa instabilidade provocada por Singer ocasionou uma inevitável quebra na unidade estética do filme.

Por fim, Bohemian Rhapsody passa a sensação de estar mais para um misto de drama da televisão mexicana com novela menos inspirada de Gloria Perez. Insiste em bater na tecla da heterossexualidade de Mercury (que compôs “Love Of Life” para uma namoradinha da juventude que acabaria por se tornar uma grande amiga ao longo do tempo), esconde todo o período barra-pesada da doença, toca apenas na tangente dos excessos descontrolados de drogas e sexo.

Sabe aquele filme sem cortes e pronto para passar na TV e ser visto por toda a família “de bem” que consome a música, aprova a banda, vai vê-la tocar nas próximas edições do Rock In Rio e sempre canta “We Are The Champions” quando a música é executada em associação a alguma celebração da meritocracia? Bem isso daí. Tudo fica apenas no nível do entretenimento raso e descompromissado com algo além do momento. Por enquanto, só resta ficar com a expectativa de algum dia venha uma outra cinebiografia realmente compensadora de Freddie Mercury.

 

O DOUTRINADOR

31.10.2018

Personagem de sucesso da HQ independente brasileira ganha os cinemas para combater a corrupção na política e fazer justiça com as próprias mãos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Downtown/Divulgação

Doutrina é um conjunto de princípios que servem de base a um sistema filosófico, religioso, político, social ou econômico. Estas ideias devem ser difundidas e ensinadas disciplinarmente, de modo que elas se propaguem e se mantenham ao longo do tempo.

Para o policial de elite Miguel, só existe saída em uma única doutrina: atirar para matar, sem dó nem piedade, políticos corruptos brasileiros. Para vingar todo o sentimento de desgosto e impotência diante de dois fatores fundamentais: a morte da filha pequena por uma bala perdida no meio da rua e o fato de os esforços de sua força-tarefa para prender os criminosos de colarinho branco serem praticamente em vão diante da justiça comprada e das sabotagens de seu superior imediato. A partir desta sequência de infortúnios, ele se transforma em um obstinado justiceiro, que caça implacavelmente os envolvidos em um complexo sistema de corrupção para acabar com suas vidas a sangue frio. Na bala e também na quando, se possível. Transforma-se no Doutrinador, uma figura que leva o terror a seus alvos através de uma máscara antigás com olhos vermelhos de raiva, habilidades físicas com imenso potencial e uma aliança entre rapidez e estratégia para se infiltrar nos lugares mais impossíveis.

O ilustrador carioca Luciano Cunha criou o personagem em 2008, como uma válvula de escape para suas frustrações diante do inicio da enxurrada de notícias a respeito do Mensalão e outros casos iniciais que alardeavam a corrupção alastrada nas entranhas do meio político nacional. Depois de vários contatos com editoras, que mostraram-se receosas de publicar os quadrinhos do Doutrinador, Cunha decidiu pelo do it yourself. Disponibilizou em março de 2013 na internet a obra, que rapidamente arrebatou milhares de fãs com os protestos nas ruas de todo o país naquele mês de junho. Três edições impressas bancadas pelo próprio autor esgotaram-se rapidamente. Críticas positivas também vieram de outros países. Até que o cinema e a televisão também se atraíram pela HQ.

O longa-metragem O Doutrinador (Brasil, 2018 – Downtown Filmes) chega ao circuito nacional de salas de cinema nesta semana, já como uma espécie de piloto para o seriado que ganhará a telinha no inicio do ano que vem, na programação do canal por assinatura Space. O próprio Cunha, ao lado do roteirista Gabriel Wainer, assina a transposição dos quadrinhos tanto para o filme e quanto para os episódios. O longa tem a direção de Gustavo Bonafé (que está nos cinemas com outro filme, Legalize Já) e uma trilha sonora de primeira assinada pelo coletivo paulistano Instituto – com músicas interpretadas por Karol Conká, Rincón Sapiência e Far From Alaska, por exemplo.

Nem dá para perceber que o protagonista foi ligeiramente suavizado em sua sede por vingança e justiça pelas próprias mãos. O que poderia ser um ponto negativo para os fãs trazidos do universo das HQs. Outro ponto positivo do filme é a maestria para driblar qualquer procura por tendência político-partidária ou relações entre os personagens corruptos e os figurões da vida real. Luciano e Gabriel foram bem felizes ao não deixar rastros que possam ligar à esquerda ou à direita ou as turmas do fora-isso ou do aquilo-não.

Em recente passagem por Curitiba, quando participaram do evento Geek City, Cunha e Wainer defenderam a isenção de vínculos com ideologias que andam inflamando nosso país. “Ainda não estamos acostumados, no entretenimento brasileiro, a ter inimigos que conversem com a gente, uma narrativa que está conectada com a nossa realidade. O lema que sempre carregamos é que para termos um universo de heróis nosso, eles têm que falar das nossas cidades e dos nossos problemas”, afirmou Luciano. Gabriel ainda salientou que o filme foi criado para que não surgisse um Doutrinador na vida real.  “Não é uma apologia à violência. É uma ficção que criei para externar meu descontentamento com a classe política. Sempre digo que temos que matar os políticos na urna, não os elegendo. Os corruptos, é claro”, completou Cunha.

Para interpretar o protagonista, Kiko Pissolato dispensou o uso de dublês e encarou ele mesmo a tarefa de rodar todas as cenas de ação como o Doutrinador. No elenco ainda estão Tainá Medina (a hacker nerd que dá suporte ao justiceiro em suas ações), Eduardo Moscovis (o governador corrupto que dá início às caças particulares de Miguel), Tuca Andrada (o chefe de Miguel na Divisão de Ações Especiais), Marília Gabriela (como a ministra do STF envolvida nos esquemas dos políticos e empresários), Helena Ranaldi (a opositora do debate que também concorre às eleições), Samuel de Assis (o policial amigo de Miguel) e Natália Lage (a ex-mulher de Miguel).

Apesar do roteiro se perder para algumas obviedades no final, O Doutrinador– que carrega claras inspiração e influência estética do Batman – ainda revela-se um bom filme de ação, gênero pouco explorado no cinema nacional. Justamente por seu maior trunfo ser o fato de dispensar o uso de efeitos especiais pirotécnicos e tecnológicos (algo que hoje em dia parece indispensável em obras deste filão) para apostar no fator humano.

 

MEU ANJO

24.10.2018

A resiliência emocional de uma garota de onze anos de idade frente ao abandono provocado pelo hedonismo excessivo de sua mãe

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

Muita gente pode se pegar, saindo das salas de cinema, após assistir a Meu Anjo (Gueule D’Ange, França, 2018 – Imovision) e se angustiar ao ver como Marlene trata a sua filha de onze anos, perguntando-se como uma mãe pode ser tão displicente, relapsa e egoísta assim. Contudo, o filme assinado pela diretora e roteirista Vanessa Filho toca em algo bem mais profundo e inquietante do que isso.

Meu Anjo trata, com lentes ampliadas em demasia, a dura falta de alternativas de uma menina que, no período final da infância, precisa lidar com os excessos e irresponsabilidades da mãe para lutar pela sobrevivência e achar um lugar emocionalmente seguro no mundo. A pequena Elli (Ayline Aksoy-Etaix, em interpretação brilhante, sobretudo nos olhares de tédio, cinismo e desaprovação em relação às atitudes de Marlene) não pode contar com ninguém. Sua mãe não está nem aí com ela. Interessada mais em seu hedonismo regado a sexo e bebidas, abandona-a por muitas horas e até dias. Nas ruas e no pátio do colégio a menina sofre, sem parar, com o bullying de colegas e vizinhos. Precisa se virar sozinha para fazer sua comida, comprar o que precisa na rua e tentar se amparar em uma racionalidade que possa sustentá-la e evitar que ela entre em parafuso por causa de sua dor, desespero e, sobretudo, pouca experiência de vida.

Com sua câmera inquietada e movimentada, que convida o espectador a se sentir in locoe por isso mesmo acaba acentuando ainda mais a perturbação provocada pela amoralidade de Marlene (Marion Cotillard, em atuação propositalmente discreta), Vanessa Filho retrata a crueldade de uma pré-adolescente desprotegida exposta a um mundo sem filtros, capaz de se identificar rapidamente com o filho do vizinho, um rapaz tão ignorado pelo pai quanto ela pela mãe, ou mesmo tratar a dependência etílica como algo tão natural a ponto de seus bichos de pelúcia também sofrerem com ela. Ok que o roteiro tenha certas inverossimilhanças acentuadas, como o fato da ausência completa de adultos ao redor (nem mesmo a direção da escola) incomodados pelo abandono parental de Elli ou ainda certas atitudes tomadas pela garota a partir da metade final da história.

Mais do que sentir desgosto ou repudiar as atitudes completamente inconsequentes da mãe, o espectador acaba é se identificando com o sentimento de “o que é que eu estou fazendo aqui?” deixado explícito o tempo inteiro pelos olhares da filha. No fundo, ela é mais adulta que sua progenitora ao se deparar com a necessidade de tomar conta dela mesma em um mundo escancaradamente selvagem. O que salva o filme de cair na vala do melodrama é a sua noção de realidade tão precocemente distorcida, deturpada e modificada. E faz você ficar pensando depois não em como podem existir pessoas por aí que agem de maneira tão destrutiva como Marlene, mas sim em almas tão fortes e resilientes como Elli.

 

BUSCANDO…

17.10.2018

Sucesso de público no festival de Sundance e nos cinemas nacionais, trama de suspense leva o screen life às massas

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Em seu livro Hitmakers – Como Nascem as Tendências, o jornalista e pesquisador deste assunto Derek Thompson sustenta a tese de que a maioria dos consumidores conseguem ser, ao mesmo tempo, tanto neofílicos (curiosos para descobrirem coisas novas) quanto neofóbicos (temem qualquer coisa que seja nova demais). Isso explica o sucesso de muita coisa que aparentemente sugere ser alguma ideia sensacional recém-implantada mas que não passa de uma reformulação na aparência de um conteúdo já tradicional. O que é o caso de Buscando…(Searching, EUA, 2018 – Sony Pictures), sucesso de público no último festival de Sundance, voltado a produções alternativas e independentes. O prêmio de melhor filme de júri popular garantiu ao longa um contrato mundial de distribuição e só aqui no Brasil ele já permanece quatro semanas em cartaz.

A premissa de Buscando…não é nada inédita. Anos depois de perder a mulher para um câncer, um pai de meia idade enfrenta outra intempérie na família: sua única filha, já adolescente e com quem costuma ter mais contato através de mensagens eletrônicas ao telefone do que pessoalmente, simplesmente desaparece sem deixar vestígios. Então ele faz começa uma incansável busca para saber o que teria acontecido, contando com o apoio de uma policial que assume oficialmente a investigação do caso (Debra Messing, da série de TV Will & Grace).

O desfecho até pode vir a decepcionar muita gente, exatamente porque o filme entrega um desenrolar da trama de suspense de modo diferente. Mas, como em uma pesquisa acadêmica de mestrado ou ainda no Caminho de Santiago, o mais interessante aqui não é o fim de tudo mas sim o processo, o durante, o meio. E este é algo que realmente fascina no filme assinado pelo diretor e corroteirista Aneesh Chaganty.

Acompanhamos todos os momentos de David Kim, a esposa falecida e a filha sumida (John Cho, mais conhecido como o Sulu da nova safra de filmes da franquia Star Trek) sem estar presente no mesmo ambiente que eles. Na verdade tudo se passa através de outras telas. A maior parte das vezes pelo computador ou celular, mas há ainda oportunidades em que nos deparamos com transmissões ao vivo de redes de televisão ou mesmo circuito integrado de câmeras de segurança. Não é raro, sobretudo quando o que se mostra é David vasculhando informações a respeito do paradeiro de Margot, que várias telas sejam abertas ao mesmo tempo. E-mail, redes sociais, messengers, websites oficiais… É a ilusão do cinema do século 21, a de fazer parecer tudo acontecer simultaneamente em tempo real, através das novas tecnologias.

A esta metodologia narrativa se dá o nome de screen life (a vida através de telas de computadores) e está sendo a grande aposta do produtor russo Timur Bekmambetov, o nome por trás deste filme e que escolheu estrategicamente Chaganty para a direção pelo fato deste já ter trabalhado no Google. Antes deste Buscando…ele já lançou um longa de terror chamado Amizade Desfeita (no qual a tela do cinema é um computador que mostra amigos adolescentes conversando ao mesmo tempo, cada um em um local diferente) e atualmente trabalha em mais de uma dezena de projetos do tipo. Tudo mais do que perfeito para o consumidor neofílico neofóbico.

E é justamente isso o maior atrativo de Buscando…e o que parece estar prendendo a atenção de pessoas que vão ao cinema para desligar o seu celular mas continuar com os olhos fixos em aplicativos, redes sociais ou messengers. Em tempo de eleições definidas pelo uso maciço do WhatsApp e a apelação diária para as fake news quem é que vai se interessar mesmo pela conclusão deste filme?

 

NASCE UMA ESTRELA

11.10.2018

Nova versão de clássico hollywoodiano traz megalomania, boa atuação de Lady Gaga e ego inflado de Bradley Cooper

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

Esta já é quarta vez que se leva a mesma história às telas: uma espécie de cinderela da fama, moça zé-ninguém conhece astro do entretenimento, ambos se apaixonam, ele dá um empurrão significativo para a carreira dela começar, a carreira dela deslancha enquanto a dele afunda por excessos constantes e vícios que prejudicam a sua saúde. Já foi assim nos anos 1930, 1950 (com Judy Garland), e 1970 (com Barbra Streissand). Agora chega aos cinemas com a mesma estrutura, mas de forma mexida e remexida quanto a seus personagens. E com Lady Gaga fazendo o papel principal.

Na atual versão Nasce Uma Estrela (A Star Is Born, EUA, 2018 – Warner), ela é Ally, descoberta por um dos mais renomados cantores e compositores da atualidade enquanto faz a Edith Piaf em um pequeno bar gay da California. Ele vai parar lá acidentalmente. Depois de comandar um grandioso show no festival de Coachella com a sua  banda, pede para seu motorista particular parar em frente a uma biboca porque a garrafa da bebida que trazia dentro do carro já foi devidamente secada no caminho de volta. O resto é romance que comove e encanta Hollywood por quase um século. Com direito muito flerte entre o casal seguido da alternância de momentos de alegria, romance, festa, drama e apreensão. Com cenas filmas em estúdios de gravaçãoo, grandes festivais anglo-americanos (além do início, em Coachella, quem é do meio da música pop também identifica Austin City Limits e Glastonbury em cenas rápidas)

A versão com Gaga guarda muitas semelhanças com o longa anterior, com Stressiand como a protagonista. A principal delas é a de que parceiro é um grande ídolo pop, que flutua entre os mares da country musice da chamada AOR (“adult-oriented”), uma espécie de música pop para adultos, com refrãos chiclete e letra para fazer despertar, em soluços, lágrimas copiosas e faniquitos intermináveis, o fã emo que existe dentro de um que já passou e muito da adolescência. No filme de Barbra quem faz par com ela é um conhecido cantor do mesmo ramo, Kris Kristofferson, que de vez em quando fazia uns trabalhos como ator. Aqui é justamente o inverso: quem interpreta Jackson é um ator, Bradley Cooper que mostra se sair bem ao cantar e tocar instrumentos como guitarra, violão e piano em diversos momentos.

Só que aí entre das questões cruciais do filme. Cooper não é somente o ator principal do filme. Ele assina também o roteiro e a direção, sua primeira incursão na função. É aqui que a porca torce o rabo. Porque quase sempre Jack é mostrado de forma tão ou mais importante que Ally na construção da história. Tudo se passa pelo ponto de vista dele, tanto que várias vezes a câmera passeia pelo meio da ação como se o espectador estivesse observando o que ele observaria – mesmo quando o personagem aparece na cena. Kristofferson não tem tanta relevância assim no drama da namorada no outro filme, Aqui, sim. Jackson é, por vezes, até mais relevante que ela, tanto o fim de sua história particular ganha contornos ainda mais dramáticos. Nota-se que Cooper construiu a trama para equilibrar os papeis e, assim, quem sabe, abocanhar um pouco de prêmios e indicações no final desta temporada.

De Gaga, então, nem é necessário falar o quanto de sua ambição ao encarar este filme. Depois de ganhar o Globo de Ouro como atriz de série, ela escancara uma enorme porta no cinema. Assim como sua mestra e predecessora Madonna, revela que a dramaturgia está no seu sangue muito mais do que os papeis que representa em palcos, clipes e entrevistas que dá como popstarda música. É tão boa atriz quanto cantora, revela sua polivalência. E tem o trunfo de mostrar-se de cara limpa, sem roupas estrambólicas, sem makesexagerados, aproximando bastante da Stefani Germanotta que existe por trás da alcunha que a tornou mundialmente famosa há exatamente uma década. É Ally que é a Stefani e a Stefani que é Ally. Confere mais verossimilhança e credibilidade à personagem. Ponto positivo para a cantora.

O grande problema desta obra, no entanto, não se refere nem a Gaga nem a Cooper. Ele aparece logo de cara, antes de mesmo da primeira imagem da história. É a coprodução assinada pela Live Nation, gigantesca empresa do entretenimento, dona dos principais festivais de música pop da atualidade, nome ativo por trás de turnês mundiais, discos e carreira de muito peixe grande do meio, Madonna e Gaga incluídas. Aí se entende a grandiloquência de algumas cenas. Não somente vários grandes eventos musicais ao ar livre são recriados, inclusive para alguns números musicais de longa duração, como ainda há uma sequência inteira feita para simular a entrega de um prêmio Grammy. É um longo exercício (mas longo mesmo, com 136 minutos) de apologia ao poder da megalomania na indústria da música.

Não basta ter fama: aqui o negócio precisa ter escalas monumentais. É aqui que este Nasce Uma Estrela escorrega feio. Poderia ser um grande filme em menores proporções, inclusive na duração. Todavia, retrata bem os tempos atuais, onde mandam o ego das pessoas e o poder global das corporações.

 

VENOM

03.10.2018

Tom Hardy imprime tom de comédia ao seu personagem mas não salva do marasmo a estreia do “Aranha negro” nas telas

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Sony/Divulgação

Criado nos anos 1980, ainda pegando um último boomde aparição de novos personagens interessantes na Marvel, Venom era considerado uma espécie de alter-ego soturno e do mal do Homem-Aranha. Todd MacFarlane, ainda antes de partir para outra editora, a Image e criar seu principal personagem, o Spawn, foi o responsável pela característica visual monstruosa e cheia de músculos da criatura. Seu uniforme negro, que reforçava as características não humanas de Peter Parker e fazia pendê-las para longe do bem, surgiu na saga Guerras Secretas, em 1984. Já o personagem veio apenas quatro anos mais tarde, em 1988, quando o simbionte parasita e amorfo toma conta do corpo do jornalista fracassado Eddie Brock.

Trinta anos mais tarde, o “Aranha negro” chega às telas dos cinemas com Tom Hardy como o protagonista. Venom (EUA, 2018 – Sony) tem a direção do ainda desconhecido Ruben Fleischer (de Zumbilândia) e nomes como Michelle Williams e Woody Harrelson engrossando a lista de coadjuvantes. Só que, apesar de toda a expectativa, a história simplesmente não decola. O filme é até simpático em seu  início . Na sua primeira metade mostra todo o lado humano de Brock – nas telas um ser bem menos desprezível do que nos quadrinhos, quando foi mostrado como um profissional incompetente e rival invejoso de Peter Parker no mesmo jornal – e o entrelaçamento dos fatos que vão ligá-lo ao futuro antagonista, o empresário em qualquer escrúpulo e cientista renomado Carlton Drake (Riz Ahmed). Só que depois…

Por mais que Hardy se esforce em dar um pequeno tom de comédia a seu Brock tudo vai se tornando pouco crível. Como a história de Brock entrar na poderosa sede da Life Corporation, a empresa de Drake, e não ser notado por ninguém ou flagrado em qualquer câmera pelos corredores. Ou ainda o fato que o hospedeiro alienígena mata todos os seus hóspedes logo depois de sair de seus corpos e só Eddie consegue, milagrosamente, manter-se vivo até que o simbionte alcance seu objetivo. Venom – quando ocorre a aparição do personagem título e, logo depois, a de seu simbionte adversário Riot – cai de vez na arapuca de filmes de ação que, para dar credibilidade ao espectador, dependem mais dos efeitos de CGI do que de roteiro e interpretação.

Pior fica, porém, quando a cena pós-créditos irrompe no final aí que a casa cai de vez. Só resta perguntar, de modo incrédulo, após a pífia sequência apresentada: o que foi que fizeram com o aracnídeo mais popular do Universo Marvel?

 

VERÃO DE 84

22.09.2018

Apesar de parecer somente mais uma obra revivalista dos anos 1980, trama de suspense se revela melhor do que o esperado

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Divulgação

Como alguém que cresceu na década de 1980, é  impossível não ver com certa desconfiança essa onda de revival que tomou conta do cinema e da TV. Stranger Things, It, Pose… são inúmeros os exemplos. Então, não foi com outra atitude senão com um pé atrás que comecei a assistir a Verão de 84 (ainda sem distribuidor e data de lançamento no Brasil). A aventura de suspense juvenil deixa claro sua proposta já no título. Mas será que este era somente mais um revival genérico? Tive minha dose de pochetes, ombreiras, New Kids on The Block, O Clube dos Cinco e Goonies. Então pra que revisitar tudo isso? Vale a pena?

Quatro amigos num subúrbio às voltas com um mistério e problemas da adolescência. Já vimos isso em todos os exemplos citados acima. E Verão de 84 (Summer Of 84, no título original) começa exatamente assim, sem muita originalidade. Mas o que parecia só mais um filme, de repente, vai crescendo e se mostrando melhor que o esperado.

Davey, Eats, Curtis e Woody estão entediados nas férias de verão. Sem muito o que fazer, vão de brincadeiras ainda infantis à revistas pornográficas escondidas pra matar o tempo. Até que a TV noticia o aparecimento de um serial killer na região e os garotos se põem a investigar, desconfiando de todos à sua volta. Pode parecer que a história não é das mais originais. No entanto, seu desenrolar vai ficando cada vez melhor e quando chega em seu ápice é impossível não ficar de boca aberta com o desfecho.

Enquanto fazem suas buscas, os meninos conversam sobre coisas que pra nós, hoje, são clássicas, como Star Wars, Gremlis e Comandos em Ação (hoje conhecidos como GI Joe). Nisos, vão criando em nós uma relação de cumplicidade. Acabamos por nos ver nos quatro amigos.

Verão de 84 tinha tudo para ser só mais um título a aproveitar uma moda, como de costume. Mas seus atores (quase todos desconhecidos), sua edição com cara de filme velho, sua trilha sonora característica e seu final fazem com que ele seja um dos melhores representantes deste revival. E claro, como cria da mesma década, fui tomado pela nostalgia dele também.

 

A FREIRA

06.09.2018

História de entidade maligna que aparece em Invocação do Mal 2 é contada em novo filme da franquia de James Wan

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Texto por Abonico Smith

Foto: Warner/Divulgação

Não é de hoje que o exorcismo é um prato cheio para os filmes de terror. O ritual executado por uma pessoa devidamente autorizada para expulsar espíritos malignos que tomaram posse do corpo de outra pessoa é algo recorrente no gênero cinematográfico. O filme mais lembrado até hoje, de 1973, chamado O Exorcista, abriu as portas da popularidade para um filão até então considerado menor. Nada mais natural, então, que a temática voltasse a ser abordada neste que está sendo considerado um novo levante de criatividade e bilheterias das tramas que fazem o espectador sentir medo, se agarrar nas poltronas do cinema (ou mesmo no braço de quem está ao lado) e dar gritos de susto de forma indiscriminada.

O produtor, roteirista e diretor australiano James Wan é quem faz a aposta da vez. Famoso pelos dois filmes A Invocação do Mal, responsáveis pelo início de uma nova época áurea do terror nesta década, ele agora apresenta A Freira (The Nun, EUA/Austrália, 2018), filme que estreia neste fim de semana nos cinemas de praticamente todo o planeta. Para que já viu o segundo A Invocação do Mal, ficou a deixa: era justamente uma misteriosa freira uma das formas manifestadas pelo demônio Valak. Foi justamente o pouco que precisava para aguçar a curiosidade do público para este spin-off.

Deixando agora a direção a cargo do inglês Corin Hardy, mais famoso por dirigir videoclipes de artistas do primeiro escalão do rock britânico (Prodigy, Horrors, Paolo Nutini, Biffy Clyro), Wan volta ao ano de 1952 para contar a história do que seria a tal freira misteriosa. Ele aponta como o local onde tudo teria começado uma remota abadia localizada em uma zona rural na Romênia. Ali o demônio teria se manifestado pela primeira vez, fazendo como vítimas religiosas que habitavam o local. Para desvendar o mistério que culmina com a trágica morte de algumas delas, o Vaticano convoca um padre experiente na arte de exorcizar os outros. Para acompanhar Father Burke (Demián Bichir), ninguém melhordo que uma casta noviça, prestes a fazer seus votos religiosos. Sister Irene (Taissa Farmiga – irmã mais nova de Vera Farmiga, a protagonista Lorraine de Invocação do Mal 2) pouco entende ainda do mundo religioso, quanto mais de uma missão tão importante como esta. Mas parece ser a pessoa mais indicada para ajudar Burke nesta missão.

Explorando belas imagens – realizadas tanto na natureza quanto na secular construção gótica um tanto quanto abandonada por causa de sua maldição), as imagens de Hardy e a história de Wan vão decifrando as ligações da entidade maligna com o lugar e como ela teria se infiltrado ali para, posteriormente, ganhar o mundo exterior. Como (quase) todo filme de terror de hoje em dia, os efeitos dão o tom nos momentos de maior tensão. Entretanto, as histórias paralelas de Burke, Irene e Frenchie (o morador do vilarejo local que os conduz até a abadia) são o melhor do filme. As transformações e as atitudes de coragem e ousadia que vão poissibiltando a eles (e aos espectadores) novas descobertas.

A Freira não reinventa a roda e muito menos se propõe a trazer novas revoluções para o gênero cinematográfico. Entretanto, rende bons momentos e cumpre bem o papel de entreter sem deixar de entregar alguma qualidade durante a hora e meia de filme.

 

NICO, 1988

03.09.2018

Cinebiografia italiana faz um retrato nada romantizado da maior das musas punk em seus dois últimos anos de vida

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Texto por Igor Filus (Charme Chulo)

Foto de Supo Mungam/Divulgação

Senti antes de tudo um grande frisson ao saber de Nico, 1988 (Itália/Bélgica, 2017 – Supo Mungam). Um título como este. Roteiro e direção de uma mulher (ponto de vista feminino) italiana (Susanna Nicchiarelli). Uma biografia musical. O propósito de retratar a tão cultuada Nico, em seus dois últimos anos de vida – e não em seu auge, no Velvet Underground, com Andy Warhol, Lou Reed e companhia. Eu já estava arrebatado logo de cara.

Seres humanos assim possuem, em seus anos de vida menos conhecidos, as histórias mais interessantes, sempre. Algo que nos aproxima. Dessa forma, a película acerta em cheio em seu retrato nada romantizado da nossa “heroína”. Uma deusa que parece mais uma tia sua qualquer, à beira dos 50 anos, se picando com seringas na perna e fazendo turnês baratas em um carro com cinco pessoas, como o Charme Chulo ou qualquer outra banda faz (aliás, familiaridades de cenários, experiências e meio roqueiro sempre assustadoras a este que vos escreve!).

Não é fácil entender o que pode se tornar uma criança sensível, que é a própria personificação da derrota de uma Alemanha nazista, sentindo toda a tragédia que soluções extremistas de um governo de direita podem causar em uma pessoa, quando descobrimos que Nico (batizada Christa Päffgen) buscava aquele som dos escombros de Berlim que sentira na infância, com um imenso gravador que andava consigo para cima e para baixo. Trata-se de algo muito, muito além da música.

A sala vazia da deliciosa poltrona reclinável do cinema onde assisto ao filme é o reflexo direto do próprio desprezo da nossa estrela pela palavra “comercial”. Desprezo que sempre sustentou (“I wanna be me”), como bem ela expõe para entrevistadores de rádios despreparados, que mal a conheciam na época. Durante a biografia, o mau humor, o niilismo e o cheiro de cigarro exalam de Nico, que é capaz, seja como for, de fazer vários à sua volta se apaixonarem involuntariamente ou lhe concederem todas as permissões e perdões que um mito vivo mereceria.

É verdade também que quando o aviso, ao final do filme, diz que o mesmo se baseou em fatos contados por pessoas que viveram as experiências e que existem licenças poéticas na criação de alguns fatos não verídicos, ao meu ver, tira um pouquinho seu mérito realista. Porém não a emoção e a beleza de ser este, antes de qualquer coisa, um bom filme de uma fase específica de um artista específico. Então é bom que se diga mais uma vez.

Nico, a passageira, a caminho das luzes essa noite, dentro desse carro, em plenos anos 1980, mito cult do gótico, fazendo turnê no underground ao lado do filho não reconhecido pelo pai, tentando tê-lo de volta. Filho este em crise existencial de cortar os pulsos, ao som de “Big In Japan” no rádio, vendo do vidro do passageiro o Dia dos Mortos celebrado na Checoslováquia. Ela só pode ser mesmo uma superestrela e mãe de todas as musas punk. Existe romantismo maior do que este?

 

AS HERDEIRAS

30.08.2018

Longa sobre mudança de paradigmas na vida de protagonista sexagenária faz o Paraguai ter destaque no cinema sul-americano de gênero

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

Destaque em vários festivais recentes – dentre eles os Berlim e Gramado, ganhando prêmios em ambos – o filme As Herdeiras (Las Herederas, Paraguai/ Alemanha/Uruguai/Noruega/Brasil/França, 2018 – Imovision) enfim joga luz sobre o cinema paraguaio, escondidinho aqui do lado (sobretudo para quem mora no Paraná) mas ainda pouco conhecido e divulgado no próprio território sul-americano. E quem quiser se iniciar por aqui não terá do que se arrepender.

Escrito e dirigido por Marcelo Martinassi, As Herdeiras é mais uma obra recente do cinema latino a confirmar a tendência de um forte cinema de gênero. A história trata acerca da mudança de comportamento de Chela (Ana Brun), uma pintora herdeira de uma rica família e hoje em decadência financeira e entregue completamente à depressão. É antissocial ao extremo – chegando até a ser agressiva verbalmente – e torra indiscriminadamente a fortuna deixada pela família em mobiliário, quadros e utensílios de casa para manter um estilo de vida não mais compatível, como a manutenção de uma empregada doméstica e a mais completa despreocupação com a inexistência de uma fonte de renda fixa mensal. Para completar, está casada há décadas com uma outra mulher de temperamento bem diferente do dela. Que quer sair, gosta de cantar, encontrar as amigas, fuma à beça e não pensa duas vezes antes de cometer pequenos atos financeiros ilícitos.

A mudança radical na vida de Chela começa quando Chiqui (Margarita Irun) passa uns meses forçados na prisão para cumprir pena de sonegação de impostos. Sem a companheira, ela se vê forçada a afastar a depressão e o baixo astral e embarcar em um cotidiano de sociabilidade, fazendo bico como motorista particular em seu próprio carro e aturando as outras mulheres que carrega como passageiras.

Até que a mão do destino se encarrega de Chela conhecer Angy (Ana Ivanova), uma atraente mulher de quase metade de sua idade, que a faz abrir os olhos e conhecer novas realidades. Então, um mundo de descobertas cai no colo da protagonista, o que a faz rever conceitos, opiniões e atitudes. Algo do tipo road movie espiritual, com uma jornada interior tocante permitindo o deslocamento – tanto geográfico quanto na alma – e um passado recente nebuloso (a fotografia bastante sombria ainda ajuda na primeira metade do filme) para um bravo mundo novo de interesses, sentimentos e sensações (sob a luz do sol).

E é justamente isso que faz valer todo o filme. Com bastante sensibilidade, Martinassi constrói mais uma forte protagonista feminina (tendo como apoio duas coadjuvantes com não menos força) para esta década de ouro do cinema de gênero da América do Sul.

 

TE PEGUEI!

22.08.2018

Grupo de quarentões não mede esforços para manter viva anualmente a brincadeira de pega-pega da infância

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

Te Peguei! (Tag, EUA, 2018 – Warner) é um filme que já nasceu para ser bobo. Bobo no sentido mais literal do termo Afinal o que esperar de um grupo de quarentões que faz questão de, sempre que chega o mês de maio, deixar em plano secundário todo o resto de suas vidas para cultivar um velho hábito de infância: brincar de pega-pega. Sim, aquela brincadeira em que todos saem correndo de uma pessoa e quem for tocado por ela é aquele que precisa correr atrás dos outros para reverter a situação e dar o “está com você” a qualquer outro. Como um desses amigos resume a certa altura da história, é um jogo onde não há vencedores, somente um perdedor.

Hoagie, Bob, Chili e Reggie formam este grupo de velhos amigos ao lado de Jerry – todos morando em uma cidade diferente depois da vida adulta. O último, porém, tem uma grande vantagem neste quinteto: ninguém nunca conseguiu alcançá-lo. Jerry tem como trunfos rapidez, astúcia, inteligência, habilidades físicas e um grande reflexo para se livrar de todos nem que seja atirando na direção contrária o que estiver pela frente. E é justamente em torno deste fato que gira o filme. Não importa quem tem de pegar os outros. Agora são os quatro que vão à caça do amigo invicto. Custe o que custar. Nem que seja atrapalhando todo o planejamento do casamento dele. E pior: carregando junto uma jornalista do The Wall Street Journal, louca para contar aos leitores uma história tão absurda como esta.

Por isso este é um filme bobo. Não é spoiler nenhum dizer que não existe qualquer empecilho (dinheiro, viagens, vexame em público, invasão de propriedade, vandalismo) para, apenas, a manutenção de um hedonismo infantil. Contudo, não significa que Te Peguei! seja uma comédia rasa e de baixa qualidade. Pelo contrário. O roteiro entrega de vem em quando situações e tiradas bem engraçadas. A edição frenética e muitas vezes utilizando o recurso da câmera superlenta (aquela em que cada milésimo de segundo é expandido, gerando maior dramaticidade a gestos, expressões e detalhes que seriam visualmente imperceptíveis em uma cena) também corrobora para o deleite do espectador.

Com experientes atores vindos de seriados de humor (como Ed Helms e Jake Johnson) e atrizes emergentes em Hollywood fazendo com que suas personagens acabem tomando a mesma força e importância que os homens nesta história (Isla Fischer, Annabelle Wallis, Leslie Bibb), Te Peguei! reforça a ideia de que um produto entretenimento pode, sim, carregar sagacidade, criatividade e humor inteligente. Nem que seja para mostrar um monte de marmanjo gastando seu tempo e energia em uma bobeira só.

Detalhe: o roteiro é inspirado em uma história real contada em uma reportagem publicada pelo mesmo The Wall Street Journal alguns anos atrás.

 

ONDE ESTÁ VOCÊ, JOÃO GILBERTO?

18.08.2018

Fã confesso da música brasileira, diretor franco-suíço transforma busca insistentemente por um encontro com o mestre da bossa nova

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

George Gachot é um apaixonado confesso da música popular brasileira. Tanto que já veio várias vezes ao Brasil para realizar seus documentários. Já fez um sobre Maria Bethania, um sobre Nana Caymmi e outro sobre o samba, tendo Martinho da Vila como mestre-de-cerimônias. Agora é a vez dele retornar ao Rio de Janeiro para ir atrás de outro grande nome da nossa rica história de ritmos, harmonias e melodias. Só que… esse outro é justamente aquele que coleciona uma longa e complicada lista de excentridades, isolamento e mistérios.

Onde Está Você, João Gilberto? (Where Are You, João Gilberto?, Suiça/França/Alemanha, 2018 – Imovision) é centrado na busca de Gachot por qualquer pista que possa leva-lo até o godfather da bossa nova. Boa parte do início do documentário mostra exatamente isso. Uma vertente participativa, mostrando imagens do franco-suíço andando pelos bairros praieiros mais famosos da zona sul carioca atrás de gente e oportunidades que possam leva-lo até o mestre em seu local de reclusão.

Só que, apesar pela paixão pela música brasileira, Gauchot vê sempre o ídolo pelos olhos de outra pessoa. Seu guia espiritual durante todo o filme é, na verdade, o alemão Mark Fischer, autor do livro Ho-ba-la-Lá – À Procura de João Gilberto (cuja edição nacional foi lançada em 2011 pela Companhia das Letras). Ele passou cinco semanas no Rio de Janeiro, com direito a uma esticada à cidade mineira de Diamantina, para seguir os passos tanto de gente bastante próxima ao artista como também de fatos de seu passado. Estrela do jornalismo cultural alemão, Fischer encantou-se com a música “Ho-ba-la-lá”, gravada para o segundo álbum de João, durante uma visita ao João. Desde então tornou-se um obcecado pelo cantor e pela faixa. Estudou tudo sobre a bossa nova, ouviu todos os discos do baiano e programou-se para esta vigaem ao Rio. Em nosso país, entrevistou amigos, músicos e familiares de João e tinha em mente conseguir chegar a ele só para pedir para tocar “Ho-ba-la-lá” ao violão uma vez, à sua frente, nem que fosse atrás da porta do apartamento onde vive, sem enfrentar um cara a cara. Não obteve sucesso no ponto central de sua empreitada, voltou à Alemanha e escreveu o livro. Dias antes do lançamento, entretanto, veio a surpreendente notícia de sua morte, aos 40 anos de idade.

Na verdade, em vez do próprio João Gilberto, Gachot acaba homenageando seu ídolo germânico, refazendo sua trajetória no Rio de Janeiro, falando com as mesmas pessoas, contratando a mesma auxiliar (“Watson”, apelido dada à produtora Rachel Balassiano por Fischer, que se autorrebatizou Sherlock no livro) e entrevistando as principais pessoas ligadas à obra, carreira ou o dia a dia do recluso baiano. Algumas delas não surtem muito efeito junto ao espectador. Miúcha só fica rendendo altos elogios ao ex-marido – de quem se separou em 1971 mas com quem conversa sempre – e nem sequer passa seu celular ao diretor quando João liga a ela bem no meio da gravação da entrevista. Já o cozinheiro Garrincha pouco acrescenta falar das conversas ao telefone e da carne que sempre prepara para o deliveryencomendado pelo cantor.

Os melhores papos são com os ex-companheiros de Bossa Nova. Roberto Menescal revela que não vê o amigo há mais de meio século – desde 1962, diga-se passagem – e entrega fatos bem humorados do início da carreira do baiano. Marcos Valle entrega deliciosas descobertas para quem não conhece muito a respeito do gênero. João Donato, por sua vez, abre as portas de sua casa, não tem a menor cerimônia em aparecer de pijama (apesar de sua habitual timidez para conversas) e relembra sua parceria com o alvo das procuras de Gachot e Fischer.

Otávio Terceiro, que se intitula empresário do cantor, é, na verdade, muito mais um amigo do que o produtor dele. É com ele que Gachot encerra a sua busca por João Gilberto no Rio de Janeiro. Contudo, Otávio mais parece um sabonete. Desvia de pedidos mais efetivos do gringo e ainda, no decorrer de sua aparição em cena, consegue fazer o espectador duvidar de que vai mesmo armar o encontro entre os dois para que a canção “Ho-ba-la-lá” seja, enfim, tocada pelo mestre da bossa nova.

Até que chega a cena final do documentário. E, bem, o único spoiler que dá para ser feito é que fica impossível não passar raiva quando a tela escurece para que os créditos finais comecem a subir. Achando João Gilberto ou não, isso já não importa mais.

 

VIRGENS ACORRENTADAS

09.08.2018

Diretor curitibano Paulo Biscaia Filho acerta a mão na sátira à vertente slasher das histórias de horror em sua primeira empreitada norte-americana

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Moro Filmes/Divulgação

O que fazer quando você envia o roteiro de um filme para várias empresas e todas elas retornam com uma resposta negativa somada a uma desculpa esfarrapada qualquer? O jeito é se desvencilhar das expectativas e frustrações e partir para o empreendimento próprio, bancando e produzindo a própria obra. É o que faz o personagem Shane em Virgens Acorrentadas (Virgin Cheerleaders In Chains, EUA/Brasil, 2017 – Moro Filmes), produção independente americano com pitadas brasileiras que estreia hoje, de forma hercúlea, em quase duas dezenas de salas comerciais nacionais.

Na verdade, VCIC é o nome do filme que Shane, sua namorada e seus colegas começam a fazer dentro do filme. A história dentro da história. Metalinguagem. Surge de sonhos frequentes que o roteirista e agora produtor de si próprio anda tendo. Segue a vertente do slasher (também conhecida entre os fãs do horror como torture porn, por misturar imagens de sugestão sexual e violência gráfica). Então, a turma segue para uma chácara afastada, escolhida como locação. Seus moradores são gente estranha. E, claro, como não poderia deixar de acontecer em um filme de horror, a coisa toda começa a desandar quando espirram as primeiras gotas de sangue.

Só que, de uma certa forma, a história desenvolvida neste longa-metragem também é o que aconteceu ao norte-americano Gary Gannaway. Desiludido com os sucessivos não tomados diante do roteiro escrito para VCIC, resolveu ele mesmo tomar a frente da produção e financiar o projeto com a ajuda de alguns benfeitores e vaquinha de colaboradores. Para dividir a direção, convocou o curitibano Paulo Biscaia Filho, de quem havia se tornado amigo em 2012, quando os dois estiveram dando um rolê pelo NOLA Horror Film Fest, o festival de cinema de horror realizado na cidade de New Orleans. O diretor e cabeça da companhia Vigor Mortis de teatro e filmes topou a empreitada e embarcou para a cidade de Austin, no Texas, para rodar as filmagens com atores locais em um período de três semanas.

Saber que o nome de Biscaia está no projeto significa que este está longe de ser um filme slasherconvencional. Pelo contrário. Diretor e roteirista aqui afinam sua parceria para exibir um humor inteligente e mordaz. Volta e meia os diálogos satirizam o mercado cinematográfico em geral, suas batidas fórmulas comerciais (enem sempre eficazes, diga-se de passagem), as condutas de seus profissionais. Em uma hora, a namorada de Shane, a co-produtora Chloe, solta a pérola de que “o recurso da “metametalinguagem” fica algo meio impossível para ser utilizado na trama. Ao mesmo tempo, porém, brindam o espectador com algo em comum à dupla: o amor pelo cinema, algo que move alguém a fazer um filme com orçamento irrisório (segundo o próprio Biscaia, algo que não chega a uma fração representativa do budget mais barato das produções mais baratas de estúdios norte-americanos) e, ainda assim, entregar uma obra com qualidade, paixão e, o principal, inteligência para nunca subestimar o espectador.

VCIC também atira farpas nos clichês do estabilishment cultural dos Estados Unidos. Já começa pela inclusão do símbolo da cheerleader sendo preso em correntes e massacrado fisicamente – por sinal, a adaptação do título para o português tirou a palavra exatamente por esta não ter tradição no Brasil. Questões econômicas (o pai que banca o filho empreendedor), profissionais (a aspirante a atriz que, para pagar as contas, trabalha num inferninho à noite fazendo pole dance e strip tease) e das drogas (o irmão de Shane, envolvido no fumacê constante e que às vezes costuma ter sacadas melhores que o profissional da área).

VCIC é um típico representante metaslahser, capaz de entreter sem dispensar questionamentos e críticas ao subgênero do horror pelo qual o próprio enredo segue. O melhor é que o roteiro vai surpreendendo quem está sentado na cadeira da sala de projeção durante todo o desenrolar da história. Por fim, vão duas dicas importantes. Não pisque durante nenhum segundo até a cena final do filme e, sobretudo, não confie principalmente em quem mais parece ser uma pessoa ingênua e inocente ali.

PS: Sim, assim como fizera em longas anteriores (Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos e Nervo Craniano Zero), Biscaia faz uma rápida aparição em VCIC. Agora gastando o inglês na frente das câmeras para esbanjar bom humor em uma reunião de executivos do mundo do cinema.

 

MENTES SOMBRIAS

07.08.2018

Adolescente com poderes paranormais se une a outros iguais para descobrir que o inimigo do inimigo nem sempre pode ser amigo

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Uma das temáticas recorrentes em seriados nos últimos anos é a de crianças ou adolescentes com poderes paranormais que são retiradas dos pais para ficar sob a guarda de projetos governamentais (ou pelo menos com a chancela oficial) para serem estudadas ou até mesmo exterminadas. É assim em Believe. É assim em Stranger Things. É assim em The OA. Então, nada mais natural que o cinema também viesse a se apropriar disso, ainda mais depois do sucesso de uma enxurrada de produções com temática distópica juvenil.

Eis que Mentes Sombrias (The Darkest Minds, EUA, 2018 – Fox) ganha as telas tratando justamente disso. A história é uma adaptação do romance da jovem escritora norte-americana Alexandra Bracken. Publicado em 2012, o livro é, na verdade, o primeiro de uma série que já rendeu cinco títulos até agora, seguindo o mesmo esquema do boom de fantasia literária que vem sobrecarregando as prateleiras das megastorese fazendo um constante diálogo com o cinema por toda esta década.

A premissa é interessante. A protagonista Ruby (Amandla Stenberg) sobrevive a um poderoso e letal vírus que atinge a população até os primeiros dezoito anos de vida. Quem não morre (apenas 2% desta faixa etária) passa a ser considerado como uma potencial ameaça à humanidade. Ruby, que passa a desenvolver a habilidade de apagar a memória das outras pessoas e interferir na mente de qualque rum à sua frente, é classificada o nível máximo de “perigo” e deve ser abatida a qualquer custo. Separada da família ainda na infância, ela consegue passar alguns anos em um campo de concentração, disfarçada entre outros iguais porém com habilidades inferiores e mais inofensivas.

Quando sua real condição é descoberta, ela recebe ajuda da doutora insurgente Cate (Mandy Moore) e acaba escapando rumo a uma outra turma de jovens igualmente separados na clandestinidade, mas ainda por motivos incertos. Através de uma outra menina na nova localidade, a pré-adolescente Zu (Miya Cech), junta-se quase por acidente a uma turma de rebeldes para fugir desta segunda zona de confinamento. O inimigo do seu inimigo nem sempre é seu amigo, ensinam-lhe a ele os dois rapazes mais velhos, Liam (Harris Dickinson) e Chubs (Skylan Brooks) que lideram o agora quarteto dissidente.

Durante a fuga, eles batalham contra caçadores de recompensas, doidos para recapturá-los. Enquanto isso, descobrem os sentidos da amizade, da solidariedade, da sensualidade e do amor (sendo uma história juvenil, claro que não ficaria de fora o clima de início de romance entre Ruby e Liam). E só também. Nada de muito inovador acontece tanto no roteiro quanto da direção de Jennifer Yuh Nelson (mais conhecida por trabalhos anteriores com as animações 2 e 3 de Kung Fu Panda). Pior: a química entre Amandla e Harris é quase zero – a atriz, inclusive, declarou-se lésbica recentemente.

De positivo, entretanto, ficam as entrelinhas delineadas por Bracken em sua trama. Nela ficam subentendidas a ideia de que o desconhecido sempre provoca medo na maioria das pessoas. Por isso, a fotografia sempre soturna do filme, as referências seguidas à escuridão ditas por Ruby, o título da história. De quebra, o valor sempre ressaltado pela independência, a eterna manutenção da desconfiança e resistência a grandes corporações (sejam elas quais forem) e ainda a possibilidade da resiliência, o ato de se dobrar, envergar e às vezes aceitar fazer parte do sistema para que isto permita a você realizar algo de bom para as outras pessoas.

 

ACRIMÔNIA

06.08.2018

Caras, bocas e momentos de fúria de Taraji P. Henson são o melhor desta história que gira em torno de azedume e impulsos violentos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Um bom resumo para explicar o que significa a palavra “acrimônia” é o modo de agir que reúne aspereza, azedume e um certo grau de violência, seja no verbal, no corporal ou mesmo apenas no olhar. Tal comportamento, repetido com certa constância, deixa a convivência insuportável com a pessoa.

Melinda é assim. Sempre foi assim. Desde a infância, até seus 40 e poucos anos. E é justamente torno desta questão que gira todo o filme escrito e dirigido por Tyler Perry. Duas décadas inteiras de puro azedume da protagonista. Talvez por isso não tenha sido uma escolha melhor para o papel principal que não a do nome de Taraji P. Henson. A atriz, mais conhecida no Brasil como a ardilosa empresaria e produtora musical Cookie Lyon da série de TV Empire – Fama e Poder, dá novamente um show tanto com suas expressões faciais de fúria, desprezo, revolta e decepção como nas cenas mais exasperadas, quando é capaz de chegar com muita facilidade às vias de fato.

Acrimônia (Acrimony, EUA, 20187 – Paris Filmes) retrata o passado e o presente de Melinda, a jovem que dedicou-se plenamente ao namorado que conheceu na faculdade, acreditou nele, apostou em seus sonhos, foi traída, deu chance a uma segunda chance, casou-se com ele, matou-se de trabalhar para que ele perseguisse os sonhos que tornaria o casal milionário e, de uma hora para a outra, viu tudo ruir até não ter mais condição de fazer outra coisa que não pedir o divórcio. Até boa parte da segunda metade do enredo, o espectador é guiado a partir do ponto de vista e, então, acredita piamente em tudo o que Melinda diz, conta ter passado e pensa.

Com muita destreza, Perry conduz reviravoltas que jogam com o destino de Melinda, o parceiro Robert Gayle (Lyriq Bent), suas duas irmãs (a casa herdada da mãe acaba sendo perdida para hipoteca porque o marido fracassa nas negociações de seu invento revolucionário) e os respectivos cunhados. Nesta torrente de emoções, em determinados momentos, o jogo se vira contra a personagem, que acaba suscitando pontos de dúvidas em relação às suas considerações e atitudes. Não por acaso a primeira cena do longa já a mostra como ré de um julgamento, recebendo do juiz a sentença de manter-se afastada do já ex-marido e a atual companheira dele.

Acrimônia vai bem até seu último plot twist. Depois, no ato final, descamba para uma sequência de exageros (alguns sem muita explicação de como acontecem de fato) para chegar a um momento que, embora impensável até o miolo do roteiro, acaba apresentando um desfecho plausível tanto para aquela que sempre se mostrou perturbada emocionalmente como também ao marido que, segundo a mesma, aproveitou-se de sua bondade e ingenuidade para tentar com que um golpe de sorte mudasse os rumos de sua vida. Tudo para que o espectador chegue até o final sem conseguir tomar o rumo da balança do julgamento e chegar à conclusão de quem sempre agiu de modo certo ou errado durante o relacionamento azedado por impulsos, instintos e emoções à flor da pele.

 

MISSÃO: IMPOSSÍVEL – EFEITO FALLOUT

05.08.2018

Sexto longa da franquia em que o próprio Tom Cruise estrela as cenas de ação dá indícios de que este pode ser o último episódio

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Texto por Luís Gulherme Rodrigues

Foto: Paramount/Divulgação

Missão Impossível – Efeito Fallout (Mission: Impossible – Fallout, EUA, 2018 – Paramount) estreou nos cinemas no final de julho celebrando mais uma vez a união entre odiretor Christopher McQuarrie, o produtor JJ Abrams (Cloverfield, Lost, Westworld, Star Trek, Star Wars) e seu eterno protagonista Tom Cruise (hoje com 56 anos de idade, ainda com aquela pinta de galã que fez decolar sua carreira no cinema mas sem a mesma popularidade de outrora). A parceria já dura doze anos e vem desde 2006, quando Abrahams foi convocado por Cruise para reavivar a série cinematográfica (dirigindo e escrevendo o roteiro), então em seu terceiro longa-metragem. Agora, com ao recém-chegado sexto episódio, as coisas só melhoram. Por isso, o MONDO BACANA lista seis motivos para você entender o porquê deste ser o melhor filme da franquia.

Duas horas e 27 minutos de ação

O novo Missão: Impossível é o mais longo de toda a série nos cinemas. Uma duração bem incomum para um filme de ação. No caso de Efeito Fallout, a montagem eficiente proporciona um ritmo frenético que não cansa o espectador. Faz o público grudar no assento e se esquecer do Whatsapp por duas horas e meia. Uma atitude heroica.

Tom Cruise, o destemido

Não é novidade que o astro dispensa o uso de dublês nas cenas de perigo. As cenas ganham planos mais próximos e longos, sem aqueles recursos de edição para mascarar a presença de alguém nada parecido com o ator. Mas é admirável ver um sujeito quase chegando aos 60 ainda com muita disposição para arriscar a vida em cenas extremamente realistas. Cruise chegou a quebrar o tornozelo enquanto pulava de um prédio para o outro numa perseguição pelos telhados de Londres, mas continuou correndo como se nada tivesse acontecido. Detalhe: o exato momento do acidente entrou no corte final do filme. E essa nem é a cena mais impressionante…

O melhor deixado para o final

Entre as oito grandes sequências de ação de Efeito Fallout, a última delas é a menos indicada para cardíacos. Não dá pra contar muito sem dar algum spoiler. Mas se esta for a última missão do agente Ethan Hunt, será uma aposentadoria em grande estilo.

Easter eggs

Outro indicativo de que Efeito Fallout pode ser a última produção da franquia é a quantidade de referências aos filmes anteriores. Desde cenas parecidas até o retorno de antigos personagens, cada Missão: Impossível do cinema recebe uma homenagem. Uma retrospectiva de tudo o que a série já produziu de espetacular, empacotada num combo arrebatador.

Em time que ganha não se mexe

Brian de Palma, John Woo, JJ Abrams, Brad Bird e Christopher McQuarrie. Nessa lista de diretores que já passaram por Missão: Impossível, o último nome é o menos conhecido do grande público. McQuarrie tem mais experiência como roteirista. Sua primeira colaboração com Tom Cruise foi escrevendo o roteiro de Operação Valquíria. Mas foi na direção ousada e competente de Jack Reacher: O Último Tiro (apenas seu segundo trabalho na função) que ele conquistou a confiança do ator. Cruise não pensou duas vezes em convidá-lo para dirigir o filme anterior da franquia, Nação Secreta, e repetir a dose neste novo episódio.

Este vídeo

Meia hora dos bastidores de Efeito Fallout. Se ainda existe alguma dúvida de que Tom Cruise não usa dublês – ou de sua dedicação em entregar uma obra de ação extraordinária – assista a isso depois do filme.

 

 

 

 

MAMMA MIA! – LÁ VAMOS NÓS DE NOVO

02.08.2018

Lily James, Amanda Seyfried e Cher brilham em longa que mostra que às vezes tudo o que a gente precisa na vida é cantar uma musiquinha do Abba

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Quem nunca se pegou cantarolando uma musiquinha no meio do dia? Enquanto está arrumando a cama, lavando a louça ou colhendo algumas laranjas (???), você de repente entoa versos de uma canção preferida. Não importa se você desafina ou não. Ou se é cantor profissional ou não.

Em muitos momentos de Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo (Mamma Mia! Here We Go Again, EUA/Reino Unido, 2018 – Universal Pictures) é essa a sensação que nós temos. Com uma direção de arte muito melhor que a da nossa vida particular, é claro, mas ao ouvir gente como Dominic Cooper, Colin Firth, Pierce Brosnan ou Hugh Skinner estufando o peito para cantar seus versos, nos sentimos um pouquinho como eles: cheios de boa vontade e passando longe da afinação.

Isso incomoda? De forma alguma! Pelo contrário, é muito do que faz Mamma Mia! ser uma delícia de filme desde dez anos atrás. Não ter cantores profissionais cantando músicas conhecidas é como juntar os amigos numa mesa de bar e começar a cantar. Claro, novamente, com muito mais glamour (você pode substituir “mesa de bar” por “ilha paradisíaca na Grécia”, por exemplo).

Se boa parte das canções mais conhecidas do Abba já estavam no primeiro filme, sobrou pouco delas para este segundo. Mas dez anos depois, se muitas das músicas são menos populares, o brilho e a leveza de Lilly James e Amanda Seyfried iluminam a tela e fazem tudo ficar bem. Ambas possuem um ar quase sobrenatural de luz e, principalmente James, que até hoje não havia se destacado no cinema, está nada menos que resplandecente como a jovem Donna (papel que era de Meryl Streep no filme anterior). A atriz consegue até mesmo eclipsar o pouco talento e carisma de seus três pares românticos.

Se para alguns o musical é um gênero brega no cinema, o novo Mamma Mia! deixa bem claro sua resposta: faz questão de ser brega, de ser doce até arrepiar e, por mais que paire sobre todo o filme uma aura de tristeza (fundamentada por um certo fato do roteiro), ele faz questão de celebrar o amor em verso e prosa. E coreografia.

O longa vai e volta no tempo para a contar a história da jovem Donna, que termina a faculdade na Inglaterra e parte para conhecer o mundo. Passa por Paris e termina na Grécia, onde é “adotada” por uma família local e passa a viver logo depois de descobrir que está grávida. No tempo presente, temos Amanda Seyfried, filha de Donna, às voltas com a reinauguração do hotel que ela e a mãe idealizaram nesta mesma ilha grega.

Como a cereja do bolo, há a participação de ninguém menos que Cher. Já não é segredo para o público que a diva-mãe interpreta a avó de Amanda Seyfried no filme. O que ninguém sabe é que Cher protagoniza um dos melhores momentos, involuntariamente cômico e coroando a breguice que toma conta da tela (e de nós) desde os primeiros acordes.

Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo é definitivamente um dos melhores filmes do ano, alegre, colorido, plasticamente deslumbrante (graças às suas paisagens), de cantar junto e até mesmo derramar algumas lágrimas. Dez anos atrás, quando o primeiro longa estreou, a jornalista Isabela Boscov escreveu em sua crítica na revista Veja: “Desligue o cérebro e vá ao cinema”. Com tanta coisa menos divertida na telona atualmente, com sua avalanche de reboots e remakes, às vezes tudo o que a gente precisa é de um mar azul, uma música do Abba e um romance açucarado em que a gente possa desligar o cérebro, cantar junto e mergulhar sem medo.

 

TODO DIA

05.07.2018

Adaptação de livro teen de sucesso é pura comédia romântica entretém ao levantar questões sobre o que é se apaixonar de verdade

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Com o recente crescimento dos romances adolescentes nas livrarias era apenas consequência natural que eles logo chegassem às telas de cinema. Depois de longas adaptados de livros como A Culpa é das Estrelas, Cidades de Papel, Como Eu Era Antes de VocêSe Eu Ficar Com Amor, Simon, chegou a vez de outro queridinho dos leitores virar filme.

Todo Dia foi sucesso de vendas no mundo todo. O romance meio filosófico de David Levithan traz a história menos comum dentre seus pares. Aqui o amor acontece não entre dois jovens, mas entre a jovem e uma “alma”. Não, não é nada nível Ghost. Vamos explicar.

A é um adolescente que tem um dom incomum: ele acorda cada dia em um corpo diferente. Sua alma, sua essência, é masculina, mas ele pode acordar amanhã no corpo de um homem ou de uma mulher. Sempre com a sua idade. A não se incomoda com isso, aprendeu a lidar com a situação desde pequeno. Até que um dia conhece Riannon e se apaixona por ela. A vai precisar então fazer de tudo para reencontrá-la e fazer com que a garota goste dele, mesmo com sua peculiaridade.

Tanto o livro de Levithan quanto o filme resvalam nas implicações morais de se “ocupar” o corpo de outra pessoa, ainda que por um dia, e A vai sempre tomar o cuidado de interferir nesta vida o mínimo possível, mas qualquer interferência é inevitável. Quando se apaixona por Riannon, o protagonista vai se ver obrigado a dividir seu segredo e a “usar” do corpo em que está para convencê-la.

Engraçado e romântico, Todo Dia (Every Day, EUA, 2017 – Paris Filmes) funciona quase como uma nova rom-com adolescente. Seus protagonistas não são chatos como de costume, seu ritmo é interessante, sua trilha sonora é bacana e mesmo as questões que ele levanta, ainda que nada muito profundas, são relevantes. Por exemplo: será que Riannon vai manter um relacionamento com A quando ele aparecer como uma garota?

Dirigido pelo novato Michael Sucsy e com Justice Smith e Anya Taylor-Joy no elenco, Todo Dia funciona como uma Sessão da Tarde que entretém sem emburrecer. A história é capaz de derreter os corações de todas as idades e que pode levantar inúmeras questões sobre o que é se apaixonar de verdade.

 

UMA CILADA PARA ROGER RABBIT

01.07.2018

Trinta curiosidades para celebrar os trinta anos desta mistura de animação, live action e personagens clássicos de vários estúdios

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Um dos filmes mais inovadores para a sua época completou no último dia 22 de junho 30 anos de estreia nos Estados Unidos. Por isso, resolvemos mostrar pra vocês 30 curiosidades para celebrar as três décadas de Uma Cilada Para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, EUA, 1988 – Disney/Buena Vista). Algumas delas revelam como um longa-metragem como este seria algo inconcebível nos dias atuais.

>> A Walt Disney Productions comprou os direitos cinematográficos para o romance Who Censored Roger Rabbit?, de Gary K. Wolf, pouco tempo após sua publicação em 1981.

>> Robert Zemeckis ofereceu seus serviços como diretor em 1982, mas a Disney considerava seus filmes anteriores dois fracassos comerciais e dispensou o diretor. Foi oferecida a Terry Gilliam a oportunidade de dirigir o filme, mas ele concluiu que o projeto era tecnicamente complicado. (“Pura preguiça de minha parte”, Gilliam admitiu posteriormente. “Eu me arrependo completamente dessa decisão.”). Robert Zemeckis, então, foi finalmente contratado em 1985 para dirigir, baseado no sucesso de De Volta Para o Futuro.

>> Em 1985 a Amblin Entertainment (composta por Steven Spielberg, Frank Marshall e Kathleen Kennedy) foi procurada para produzir Who Framed Roger Rabbit junto com a Disney.

>> O orçamento original do longa nesta época foi estimado em 50 milhões de dólares, o que a Disney considerou muito caro. Roger Rabbit apenas recebeu o sinal verde quando o orçamento foi reduzido para 30 milhões de dólares, o que na época ainda o tornava o filme animado mais caro já autorizado. O presidente da Walt Disney Studios, Jeffrey Katzenberg, argumentou que o híbrido de animação e live action iria “salvar” o departamento de animação da companhia.

>> A subtrama do bonde apresentada no longa foi inspirada pelo filme Chinatown.

>> Traições, conspirações, assassinatos e desenhos animados. Uma Cilada para Roger Rabbit une a era de ouro da animação ao cinema noircom uma mistura de animação e live action quase inédita para a época.

>> Durante o processo de escrita do roteiro, Jeffrey Price e Peter Seaman não tinham certeza de quem deveria ser o vilão. Eles escreveram versões em que Jessica Rabbit ou Baby Herman eram os vilões, mas decidiram escolher o recém-criado personagem Judge Doom. Este deveria ter um urubu animado sentado em seu ombro, mas a ideia foi descartada por causa dos desafios técnicos que isso gerava.

>> A Weasel Gang de Judge Doom, composta pelas doninhas Stupid, Smart Ass, Greasy, Wheezy e Psycho, é uma sátira aos sete anões que aparecem em Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937. Originalmente, também seria sete o número de doninhas, mas duas foram cortadas do roteiro final.

>> Entre outras referências à realidade, o Ink and Paint Club que aparece no filme é baseado no Cotton Club do Harlem. Assim como os planos de Judge Doom de eliminar todos os desenhos se assemelham a Solução Final, de Hitler.

>> Doom também era para ser o caçador que matou a mãe de Bambi, mas a Disney rejeitou a ideia.

>> O personagem Benny The Cab era para ser um fusca. A ideia foi trocada para um táxi.

>> Entre outras ideias concebidas para a história, estavam o funeral de Marvin Acme, que teria a presença de diversos personagens de desenhos famosos, como Mickey e Minnie Mouse, Tom e Jerry, Foghorn Leghorn (Frangolino), Mighty Mouse (Super Mouse), Popeye e Olive Oyl (Olívia Palito). No entanto, a cena foi cortada por questões de ritmo da história e nunca passou da fase de storyboard.

>> Antes de Who Framed Roger Rabbit ser definido como título final do filme, foram utilizados Murder In ToontownToonsDead Toons Don’t Pay BillsThe Toontown TrialTrouble In Toontown Eddie Goes To Towntown como títulos de produção.

>> Spielberg não conseguiu liberar em tempo Popeye, Tom & Jerry, Luluzinha, Gasparzinho e os personagens do estúdio Terrytoons (com exceção de Super Mouse). Porém, o produtor foi fundamental na hora de convencer a Warner Bros a liberar suas criações para a Disney. Além dos US$ 5 mil pagos por cada personagem, o filme precisava atender algumas exigências, como dar o mesmo tempo em cena para personagens icônicos da Warner e da Disney. É por isso que Pernalonga e Patolino dividem a tela com Mickey e Pato Donald, garantindo que os personagens tivessem o mesmo número de frames.

>> Muitos dos personagens usados no filme não tinham sido criados até 1947, ano em que o filme é situado. Os personagens da Disney que aparecem são Mickey (1928); Minnie (1928); Pluto (1930); Pato Donald (1934); Pateta (1932); João Bafo de Onça (1925); Horácio (1929); Clarabela (1929); Merry Dwarfs (1929); Huguinho, Zezinho e Luisinho (1937); Clara de Ovos (1934); as flores e árvores de Flores e Árvores (1932); Lobo Mau e os Três Porquinhos (1933); Peter Porco de A Galinha Esperta (1934); Toby Tortoise, Max Hare e as coelhinhas de A Tartaruga e a Lebre (1935); os órfãos de Em Benefício dos Órfãos (1934); Chapeuzinho Vermelho de O Super Lobo Mau (1934); Jenny Wren de A Flecha do Amor (1935); Elefante Elmer (1936); Branca de Neve, os sete anões e a bruxa má (1937); Wynken, Blynken & Nod (1938); Ferdinando, o Touro (1938); Pinóquio e o Grilo Falante (1940); as vassouras, os cupidos, o bebê pégaso, a avestruz e a hipopótamo de Fantasia(1940); Sir Giles e o Dragão Relutante (1941); Dumbo, a Sra. Jumbo, Casey Jr. e os corvos de Dumbo (1941); Bambi (1942); Chicken Little (1943); Zé Carioca (1942); o pelicano de The Pelican and the Snipe (1944); Pedro de Música, Maestro! (1946); Br’er Bear, as marmotas e o bebê de piche de Canção do Sul (1946); a harpa cantante de Como é Bom de Divertir (1947); os animais de Johnny Semente-de-Maçã (1948); a ovelha Danny de Tão Perto do Coração; Sr. Toad e seu cavalo Cyril de Dois Sujeitos Fabulosos (1949); Sininho de As Aventuras de Peter Pan (1953); Malévola de A Bela Adormecida (1959); e os pinguins de Mary Poppins (1964). Já os personagens da Warner que fazem aparições no filme são Pernalonga (1940), Patolino (1937), Gaguinho (1935), Piu-Piu (1942), Frajola (1945), Eufrazino (1945), Frangolino (1946), Marvin, o Marciano (1948), Papaléguas (1949), Coiote (1949), o buldogue Marco Antônio (1952), Sam Sheepdog (1953) e Ligeirinho (1955). Da Paramount aparecem Koko, o Palhaço (1919) e Betty Boop (1930). Walter Lantz emprestou Pica-Pau (1940) e a MGM liberou Droopy (1943).

>> No cinema, quando Eddie Valiant (Bob Hoskins) revela a Roger o seu passado, o curta em exibição é Ginástica Patética, que seria lançado apenas em 1949 (dois anos depois do que se passa a história). A produção afirma ter escolhido o curta, apesar da imprecisão histórica, por se tratar da “coisa mais louca” encontrada no acervo da Disney.

>> Durante as filmagens, o dublador Charles Fleischer dizia as falas de Roger Rabbit fora das câmeras, mas completamente dentro do personagem. O figurino incluía orelhas de coelho, luvas amarelas e macacão laranja. Para ajudar os atores, modelos de borracha em tamanho real eram usados para que os intérpretes “humanos” tivessem noção do tamanho e das formas do seu colega de cena imaginário. Durantes os intervalos na filmagem, alguns funcionários do estúdio faziam comentários sobre os pobres efeitos especiais do “filme do coelho”.

>> Um dos maiores desafios foi a interação dos personagens animados com os objetos e atores reais. O efeito final foi resultado de duas técnicas: alguns objetos, como o charuto do Bebê Herman e os pratos que Roger quebra na própria cabeça, eram movimentados no setpor meio de máquinas de movimento presas a um operador. Na pós-produção, o personagem era simplesmente desenhado sobre a máquina. A cena do clube Ink & Paint seguia na mesma linha: os copos movimentados pelo bartenderpolvo eram controlados como marionetes e as bandejas dos pinguins garçons grudadas em bastões. Tanto os bastões como os fios acabaram removidos e os desenhos foram adicionados. Já na sequência que se passa em Toontown, o choram key foi a técnica escolhida, com Bob Hoskins interagindo com o mundo que seria criado na pós-produção.

>> O túnel que Valiant atravessa para chegar à Toontown é o mesmo túnel usado em De Volta Para o Futuro Parte II (1989) na perseguição com o hoverboard.

>> Roger Rabbit é descrito como tendo um “rosto da Warner”, “corpo Disney”, uma “atitude Tex Avery”, macacões do Pateta, luvas do Mickey Mouse e gravata borboleta por Gaguinho. O diretor de animação Richard Williams diz que baseou seu modelo de Roger na cor na bandeira americana (macacões vermelhos, corpo branco, gravata azul) para que “todo mundo, subliminarmente, gostasse dele”.

>> Quando Eddie leva Roger para a sala secreta do bar para cortar as algemas, o coelho bate na lâmpada e o lustre começa a balançar. Os animadores, então, precisaram dedicar muito trabalho extra para que as sombras do cômodo real fossem compatíveis com as sombras da animação. Hoje, “bump the lamp” (algo como “esbarrar na lâmpada”) é uma expressão usada por muitos animadores da Disney para descrever o esforço dedicado aos detalhes da animação, em coisas que a maior parte do público nem chega a notar.

>> Jessica Rabbit reúne quatro femme fatales em uma. O escritor Gary K. Wolf baseou Jessica em Red, criada por Tex Avery. Já o animador Richard Williams buscou inspiração na Rita Hayworth e Veronika Lake. Por sugestão do diretor Robert Zemeckis, Lauren Bacall também serviu de musa para o visual da personagem. A atriz Kathleen Turner fez a voz da personagem.

>> Uma das cenas mais controversas do longa mostra, por um breve momento, um dos seios de Jessica Rabbit.

>> Os três ingredientes da fórmula que mata desenhos (aguarrás, benzina e acetona), são solventes de tintas, todos utilizados para remover animação de frames.

>> O plano de Doom para desmantelar a Red Car é baseado na História. Corporações privadas conspiraram para eliminar o transporte público no final dos anos de 1940 e início dos 1950, para gerar demanda por automóveis e indústrias auxiliares.

>> Bob Hoskins disse que, por duas semanas após ver o filme, um de seus filhos não quis falar com ele. Quando finalmente perguntou o motivo, o menino respondeu que não podia acreditar que seu pai havia trabalhado com personagens de desenhos animados, como Pernalonga, e não o levou para conhecê-los.

>> Sete anos se passaram até que Uma Cilada Para Roger Rabbit saísse do papel. O mesmo processo lento acompanhou a sequência, planejada desde o sucesso do original nas bilheterias. Depois de muitas versões de scriptse testes de efeitos especiais rejeitados, a última notícia sobre o filme é de 2012 – e com a morte de Hoskins, dois anos depois, por complicações do Mal de Parkinson, o projeto parece ter sido deixado de lado. Contudo, se depender da persistência de Zemeckis, a continuação ainda tem chances de ser realizada.

>> A pós-produção levou 14 meses para ser concluída. Com 326 animadores contratados e 82.080 frames de animação desenhados, o filme tinha uma das maiores sequências de crédito da década de 1980.

>> Uma Cilada Para Roger Rabbit foi uma das produções mais caras da década de 1980. Com um orçamento inicialmente previsto para US$ 29,9 milhões (um recorde para um filme de animação), o filme chegou a custar US$ 70 milhões e só não foi cancelado por conta dos esforços (e da simpatia) de Steven Spielberg. O investimento foi recompensado, conseguindo a segunda maior bilheteria de 1988 (atrás apenas de Rain Man) e arrecadando o total de US$ 329,8 milhões.

>> Uma Cilada Para Roger Rabbit ganhou quatro estatuetas do Oscar em 1989: edição, efeitos sonoros, efeitos visuais e uma especial para Richard Williams, por criar e dirigir os personagens animados. Rain Man levou outras quatro, porém, consideradas do “grupo principal de quesitos da premiação” (filme, diretor, ator e roteiro original). Na mesma noite, Ligações Perigosas ficou com três (roteiro adaptado, figurino e direção de arte).

 

JURASSIC WORLD: REINO AMEAÇADO

22.06.2018

Saga iniciada por Steven Spielberg ganha novo capítulo, desta vez com os dinossauros também correndo perigo na ilha Nublar

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Quem cresceu acompanhando a saga Jurassic Park no cinema deve estar muito satisfeito. Depois de um dos grandes marcos do cinema estrear 25 anos atrás, tudo evoluiu de forma espetacular. E mesmo seu primeiro episódio permanece como um grande filme.

Mas eis que, como dita a cartilha de Hollywood, foi necessário retomar a saga anos depois e agora que já vimos o incrível Jurassic World estamos prontos para o segundo capítulo da nova história.

Novamente encabeçado por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard, Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, EUA, 2018 – Universal Pictures) não deixa nada a desejar aos melhores filmes dentre os quatro anteriores. É certo dizer, inclusive, que consegue se equiparar ao primeiro e grande Jurassic Park. Claro que não temos mais o frescor de uma ideia original, mas isso não chega a ser um defeito.

Repleto de ação desde seus primeiros minutos, o novo longa que acaba de fazer sua estreia nos cinemas brasileiros coloca os homens em perigo, sim. Mas desta vez, os dinos também estão correndo risco: a ilha Nublar, o último refúgio dos últimos dinossauros ainda remanescentes do parque, está à beira de uma erupção vulcânica, que irá, mais uma vez, dizimá-los da face da Terra.

Uma batalha ética entra em campo: devemos nós salvar os dinossauros de uma nova extinção ou devemos deixar os desígnios divinos retomarem o curso de uma forçada reaparição que se mostrou catastrófica?

Como de praxe, a luta ganância versus altruísmo vai tomar força e a sede de dinheiro irá colocar a humanidade novamente em perigo. Dizer mais é estragar diversas surpresas do roteiro bem amarradinho de Colin Trevorrow (diretor de Jurassic World), mas podemos dizer que, em determinados momentos, os dinossauros se mostram mais inteligentes que os humanos.

No que diz respeito à comparações (inevitáveis), Reino Ameaçado quase parece um longa assinado por Steven Spielberg (que dirigiu o primeiro filme e aqui assina de novo a produção): momentos de ação e pura aventura e tensão se intercalam com cenas prontinhas para fazer o espectador derramar algumas lágrimas. Uma delas, em especial, vai deixar muito marmanjo com os olhos marejados no cinema.

Em suma, J.A. Bayona se mostra mais uma vez um diretor impecável que consegue transformar seu filme em uma quase obra de arte. Foi assim em O Orfanato, foi assim em O Impossível, foi assim no surpreendente Sete Minutos Para a Meia-Noite e é assim novamente em Jurassic World: Reino Ameaçado. Que, aliás, já pode ser listado entre um dos melhores da saga.

 

OITO MULHERES E UM SEGREDO

08.06.2018

Sandra Bullock, Cate Blanchett e Anne Hathaway lideram um grupo de golpistas para o qual homem não é a prioridade

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Warner/Divulgação

Uma das maiores satisfações que se pode ter ao assistir a um filme é perceber que seu elenco está tão à vontade, que parece estar em casa. São poucos os atores que têm esse poder e essa competência. E poucos os filmes que nos passam esta sensação.

Felizmente, um dos filmes e uma das reuniões mais esperadas do ano é um deles. 8 Mulheres e um Segredo (Ocean’s 8,  EUA, 2018 – Warner) é simplesmente delicioso de se assistir.

Sandra Bullock, Cate Blanchett e Anne Hathaway parecem amigas de infância que se reuniram para um chá. Absolutamente confortáveis e à vontade, demonstram uma naturalidade poucas vezes vista, mesmo em suas carreiras. É indescritível a sensação de vê-las contracenar. E, embora os outros nomes do elenco mostrem mulheres mais “rígidas” em suas interpretações, elas não impedem as quase duas horas de passarem num piscar de olhos.

Joias, roupas, sapatos, batons e cabelos esvoaçantes empoderam um grupo de mulheres que pretende dar o golpe perfeito: roubar um colar clássico da Cartier durante o Met Gala. Sim, é bom você ser familiarizado com estes nomes e alguns rostos da moda e do cinema, como Anna Wintour, Heidi Klum ou Katie Holmes, porque elas aparecerão em pequenas pontas e poder reconhecê-las é parte da graça.

O roteiro esperto de Gary Ross não deixa nada a desejar aos “filmes de golpe” estrelados por homens e faz um bem maior à humanidade ao colocá-los, os homens, sempre em papel secundário, sendo usados pelas mulheres como elas foram durante décadas no cinema usadas por eles.

Claro que no meio de tudo haverá o assunto “relacionamento”, afinal até mesmo mulheres poderosas buscam o amor. Mas o filme deixa claro: o homem não é a prioridade. E isso só conta pontos positivos para a história.

Ao lado de Helena Bonham-Carter, Sarah Paulson, Mindy Kaling, Awkwafina e Rihanna (que faz a personagem menos interessante de todas), Bullock, Blanchett e Hathaway brilham tanto quanto as joias que pretendem roubar. E, por mais que a gente saiba que se trata de um grupo de ladras, é impossível não torcer por seu sucesso.

Também dirigido por Ross (que estreou no cinema com o incrível Pleasantville – A Vida em Preto e Branco), 8 Mulheres e um Segredo traz uma espécie de ritmo de matinê com muito humor e beleza, embalado em um filme de “vingança feminina”. Tudo em uma história que mostra que, não, elas não precisam de filmes que as deem personagens masculinos (como Indiana Jones ou James Bond), mas, sim, têm toda capacidade de carregar roteiros criados para elas e serem heroínas até mesmo quando são bandidas. Afinal, é impossível torcer contra Sandra Bullock, Cate Blanchett ou Anne Hathaway, né?

 

JOÃO DE DEUS – O SILÊNCIO É UMA PRECE

30.05.2018

Documentário sobre médium goiano derrapa ao apostar no formato “programa de televisão estendido”

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Por cinco anos o cineasta Candé Salles frequentou a Casa Dom Inácio de Loyola, na cidade goiana de Abadiânia. Lá ele acompanhou as sessões de atendimento do médium que é o objeto central do documentário que chega agora às telas de cinema de todo o país.

João de Deus – O Silêncio é Uma Prece (Brasil, 2018 – Paris Filmes) procura enfocar a vida e a obra de João Teixeira de Faria neste período em que Candé esteve com frequência em Abadiânia. São mostrados os atendimentos espirituais e aqueles que exigem algum tipo de incisão controlada pelas “entidades”, a visita de gente famosa (como a atriz Camila Pitanga) e muitos estrangeiros de outros continentes. O diretor também revela um pouco da vida de João de Deus, seus amigos locais de longa data, a história de seus amores, o dia a dia tranquilo da fazenda onde ele mora. Tudo no melhor modo observativo, sem interferir quando não está colhendo depoimentos e entrevistas, levando ao espectador a impressão de se sentir no próprio local, seja no banco do passageiro do carro do médium, sentado na varanda de sua casa ou dentro da casa de atendimento, misturado a tantos outros consulentes.

Uma coisa que chama a atenção na narrativa impressa pela edição é a constante preocupação em contrapor ciência e fé no trabalho realizado em Abadiânia. Não que haja a necessidade de afastar qualquer sinal de charlatanice. Aliás, nem é este o caso, já que João de Deus realiza há muito este trabalho e nunca houve qualquer desconfiança em relação a isso. Mas Candé ainda tem o cuidado de entrevistar vários médicos que, a pedido de João, acompanham as incisões cirúrgicas que não provocam qualquer tipo de dor ou efeitos colaterais posteriores. Estes médicos atestam o que viram, inclusive o que foi feito com familiares. Pacientes também dão seus relatos sobre os problemas que tinham antes das intervenções das entidades e como passaram a ser suas vidas logo após. Mais para o final, segue João em sua ida para São Paulo, para fazer tratamento e cirurgia em um hospital da metrópole, recorrendo justamente à medicina tradicional, sempre ressalta no decorrer do documentário.

Então este acaba sendo justamente o grande problema de O Silêncio é Uma Prece. Pouco ousa em seu formato, acaba parecendo ou um trabalho de um admirador de João de Deus (o que o diretor assume depois de tê-lo conhecido in loco) ou um grande vídeo institucional da Casa Dom Inácio de Loyola. Ou então um episódio estendido do programa Andar Com Fé, da GNT, que trata sobre espiritualidade e a diversidade da religiosidade – inclusive com a indefectível narração da atriz Cissa Guimarães (que também costura o programa do canal por assinatura) e o irresistível encerramento com a canção “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, de Gilberto Gil.

Aliás, o ritmo do documentário é praticamente o mesmo do programa. Por ter o triplo da duração, acaba ficando com o ritmo arrastado, o que, em um determinado momento, chega a provocar certo desinteresse em quem não é muito chegado a estes assuntos (mediunidade, fé, cirurgias espirituais, medicina tradicional versus medicina alternativa) justamente pelo fato de não se arriscar a ir além do que já fora mostrado antes.

 

DEADPOOL 2

17.05.2018

Novo filme do mercenário das HQs acentua a verve satírica do anterior e prepara novos terrenos cinematográficos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

A principal função de uma sátira é provocar, simultaneamente ao riso, reflexões e questionamentos através de exageros, distorções ou até mesmo exposição ao ridículo. Por isso este subgênero da comédia sempre fez grande sucesso em qualquer momento da História, seja no tempo das peças comandadas por Shakespeare lá na virada dos anos 1600 ou agora, séculos depois, com o cinema volta e meia explorando fórmulas de grande sucesso comercial.

Isso explica a existência de um filme como o de Deadpool. Em um período onde o super-heróis arrombaram as bilheterias mundiais, nada mais justo que a Marvel – até agora na frente da corrida disputada com a rival Dc em relação a recepção de público e crítica – aproveitasse a onda e resgatasse um personagem de suas divisões inferiores para cumprir a tarefa nos cinemas. Em 2016, Ryan Reynolds deu vida ao mercenário de verve jocosa das HQs. Fãs adoraram e chegaram a ventilar uma mobilização para leva-lo ao Oscar daquela temporada. A imprensa também falou bem de toda aquela zoeira com relação ao universo dos súperes dos quadrinhos e sua transposição para as grandes telas como filmes de ação voltados para nerds e cultuadores do mundo pop.

Dois anos depois, eis que Reynolds volta à carga com Deadpool 2 (EUA, 2018  Fox), agora também assinando como um dos roteiristas e produtores da empreitada. Agora muito mais radical, carregando a mão em doses maiores de violência, sangues e explosões, humor ferino e pitadas de cunho sexual que justificam novamente a classificação indicativa de “somente para maiores”.

Que, aliás, de aventura propriamente dita não traz muita coisa. Pelo menos ainda não em primeira plano. O encontro do alter-ego de Wade Wilson como novos (o antagonista Cable, o moleque rebelde Russell, a nova mutante Domino e outros membros da X-Force) e velhos personagens (o x–man Colossus, a moleca Negasonic Teenage Warhed, o taxista indiano Dopinder, a namorada Vanessa) é costurado por uma trama que tem elementos de viagem no tempo, identificações juvenis do herói e uma zoeira sem fim com pilhas e pilhas de referências pop.

A direção assinada por David Leitch (John WickAtômica) explica um visual mais apurado que o do filme anterior, com maior atenção aos tons azulados e terrosos. O roteiro, apesar de todas as piadas, ainda reserva espaço para algumas surpresas e reviravoltas. O constante recurso de metalinguagens também é um doce na boca dos gulosos por cinema e super-heróis. A adição de Josh Brolin como o musculoso Cable também é benvinda – afinal, segundo a cartilha das metarreferências Marvel, o mesmo ator dá vida ao todo-poderoso Thanos no atual filme dos Vingadores, ainda em cartaz por aqui. E a trilha sonora é um abuso de década de 1980 (A-Ha, Air Supply, LL Cool J, Berlin e Cher!!!) com algumas faixas escolhidas a dedo para causar estranhamento em momentos cruciais da história.

Embora apresente essas novidades e coisas boas,  tudo não passa de uma espécie de (muito) mais do mesmo. Por isso mesmo Deadpool 2 vai agradar em cheio quem curtiu o primeiro. E – melhor para a Marvel e a Fox, que ainda detém o direito de levar aos cinemas este núcleo de personagens da editora – ainda vai sendo preparado o terreno não só para a terceira história de Deadpool como também para uma da X-Force. Afinal, a sátira pode ser feita pela indústria desde que a sua engrenagem capitalista não pare.

 

A NOITE DO JOGO

09.05.2018

Trama que mistura suspense, perseguições e humor mostra as surpresas na qual pode se meter quem personalidade extremamente competitiva

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

Uma comédia? Um thriller? Um filme de ação? Apenas duas palavras. Ou quatro, se você levar em conta o nome dado pela distribuidora para ser lançado no Brasil.

A Noite do Jogo (Game Night, EUA, 2018 – Warner) pega como premissa central o vício em jogos (tabuleiro, mímica, desenhos, whodunit? ou qualquer tipo de desculpa para você reunir amigos em sofás ou cadeiras em volta de uma mesa para soltar de vez o espírito competitivo e derrotar, sozinho ou atuando em parceira, os adversários que estiverem ao seu redor. Isso está tão claro tanto no título original quanto o em português. Pode servir como um belo chamariz para que quem curta competir em qualquer tipo de coisa que se encaixe e reuniões sociais e não-esportivas. Mas também pode limitar o interesse de quem não se interessa muito pela temática. O que, aliás, pode ser um erro bem grande a ser cometido por quem se identifica com este segundo grupo de pessoas.

Em primeiro lugar, A Noite do Jogo é um ótimo filme de entretenimento, capaz de flutuar por gêneros diferentes e, ainda assim, entregar uma obra que não apenas diverte como ainda vai mostrando, no decorrer da trama, suas qualidades. Dirigido por dois dos seis roteiristas do mais recente longa do Homem-Aranha (John Francis Daley e Jonathan Goldstein), o longa pega carona na escola de bons filmes pop instaurada nesta última década por Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo, Herois de Ressaca, Baby Driver – Em Ritmo de Fuga).

Combina direção ágil, diálogos com muito bom humor, algumas situações absurdas desencadeadas por ações dos personagens, entrelaçamentos musicais (de novo, o bom e velho rock dando as caras por aqui, tendo maior representatividade com hits do Queen do início ao fim e culminando com um impensável momento bossa nova-pop-trashcom Engelbert Humperdinck no clipe final, que traz “Quando Quando Quando” embalando os créditos principais da produção), tiros, perseguições e muita, muita correria (a cena que envolve a captura de um ovo Fabergé é digna de um Scooby-Doo ou qualquer outro desenho animado de turma adolescente feito por Hanna-Barbera na primeira metade dos anos 1970). Nesta mescla toda, quem ganha é o espectador, que volta e meia é surpreendido e começa a soltar aquele riso incontrolável motivado por nervosismo e tensão diante do está por acontecer.

Os protagonistas Jason Bateman e Rachel McAdams dão um show como o casal (Max e Annie) que se conheceram como adversários de uma competição e depois disso sempre costumam receber os amigos para noitadas regadas a vinhos, finger food, risos, diversão e estratégias acirradas para ver quem tem o maior repertório de informações e o raciocínio mais ligeiro. Coadjuvantes como Kyle Chandler (o picareta irmão mais velho de Max). Michael C Hall (o mafioso Búlgaro) e Jesse Plemons (o policial esnobado pelos vizinhos Max e Annie e cujo maior desejo é também ser convidado para participar das jogatinas) também entregam ótimas performances. As expressões faciais feitas por Plemons, sem qualquer demonstração de sentimentos mas capaz de transmitir medo a quem as enxerga, são o grande destaque de sua atuação.

Ao sair da sala de cinema é inevitável sentir alívio. Também resta a reflexão do que uma simples, inocente e descompromissada noite regada a jogos pode vir a render. Sobretudo para quem tem como lema “jamais entregar-se à derrota”. E uma observação pertinente: só ouse levantar da poltrona depois que todas as luzes da sala de projeção se acenderem.

 

VINGADORES: GUERRA INFINITA

30.04.2018

Terceiro longa do grupo prepara o terreno para o encerramento de um grandioso ciclo cinematográfico produzido pela Marvel

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Marvel/Disney/Divulgação

Orçamento estimado em 300 milhões de dólares. Total de 22 super-heróis na tela. Mais de 70 personagens Marvel juntos em uma mesma história. Duração de 2 horas e 36 minutos. Encerramento da fase 3 de um ciclo que já contabiliza 19 longas-metragens nos últimos 10 anos. Exibição em mais de 4 mil salas somente nos Estados Unidos, o que levou à maior estreia da História no país (250 milhões de dólares). Arrecadação de 640 milhões de dólares em todo mundo – exceto a China, onde o filme só chegará no do 11 de maio. Presença garantida entre as 10 maiores bilheterias em todos os tempos já a partir das próximas semanas.

Todos estes são dados referentes ao furacão cinematográfico chamado Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinite War, EUA, 2018 – Marvel/Disney). Muito se especulava sobre este épico da Marvel desde o início do ano. Só se fala no filme desde a última semana, quando a nova obra com a assinatura dos diretores e irmão Anthony e Joe Russo (que já haviam assinado os dois mais recentes filmes da saga de três do Capitão América) fez a nerdarada toda unida tomar de assalto os cinemas ao redor do planeta. Uma coisa impressiona de cara nesta terceira obra sob a grife dos Vingadores na já extensa saga do Universo Cinematográfico Marvel instituído em 2008. São exatamente os números. Números, números e mais números. Que saltarão ainda mais aos olhos a partir da segunda semana do filme em cartaz.

Independentemente de entrar na questão qualitativa do longa, chegar a esta conclusão é um melancólico retrato do que se tornou o cinema. Executivos ligados aos estúdios Marvel e Disney podem estar dando pulos de alegria. Fãs do mundo dos super-heróis – conquistados desde os áureos tempos das HQs da editora, devem estar satisfeitos pela chegada do maior épico do gênero – e aqueles que ainda não saíra de casa para assistir muito provavelmente tentam conter a ansiedade extrema até chegar a hora H. Entretanto, o extremo sucesso obtido por Vingadores: Guerra Infinita em seus números coroa a vitória do CGI na sétima arte. Imagens geradas por computação. Isto é, qualquer coisa que possa vir a passar longe da realidade pode acontecer diante de seus olhos (e óculos 3D) na poltrona das salas de projeção. Com certeza, uma conquista possibilitada pelo avanço tecnológico das últimas décadas. Mas que passa longe de quem procura entretenimento com um mínimo de humanidade (e todas as suas limitações, imperfeições e erros) na junção de imagem, som e movimento. É hiperrealismo em demasia para quem ainda acredita que a imaginação ainda possa servir para alguma coisa.

Já quanto ao filme em si, Vingadores: Guerra Infinita realmente entrega toda a grandiloquência majestosa que os fãs estavam esperando. É uma bela história, repleta de momentos de ação intercalados com doses de humor, suspense e dramas pessoais. Também traz novidades a um filme do UCM, como o fato da trama estar centrada em um vilão, sendo os heróis os “coadjuvantes” da vez. Aliás, também pudera… Com tanto super aparecendo, de fato fica difícil de destacar somente um ou dois ou dar um bom espaço de tempo para que todos eles apareçam de modo satisfatório. No trecho final, inclusive, quase nenhum grande integrante original dos Vingadores é visto lutando em cena. Aliás, durante toda a trama pouco se vê dos três personagens principais (Capitão América, Thor e Homem de Ferro), protagonistas dos principais filmes “solo” anteriores produzidos pelos estúdios Marvel. Muito provavelmente seja pelo fato do contrato assinado lá atrás com os respectivos atores (Chris Evans, Chr